quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Gente da minha Terra 2

  Lionel Carvalhais





Houve figuras na minha infância que nunca deixarei de lembrar, com imenso carinho.
Um deles, foi precisamente Leonel Carvalhais, conhecido como Nené Cebola. Muitos o lembraram ainda.
Quem viu o filme "Encontro de Irmãos" e tiver tido o privilégio de conhecer o nosso Nené, saberá que, em Tomar houve um Rainman. Dava pelo nome de Senhor Lionel ( com i mesmo) Carvalhais.
Era um homem pequeno, magro, de óculos grossos, cabelo curtinho, com alguns tiques, extremamente educado e delicado. Vivia com a irmã, que fazia umas deliciosas bonecas, que eu cobiçava e nunca tive. Do que ganhavam com as bonecas e da enorme memória dele, viviam.
Nesse tempo, os telefones eram raros e não havia listas telefónicas. Em Tomar havia.
O Senhor Carvalhais, sabia de cor, todos os nomes, moradas, números telefónicos, de Tomar e Ferreira do Zêzere.  Fazia umas listas à máquina e, vendi-as.
Tinha mais surpresas, este amigo. Se lhe dissessem o nome completo, de imediato ele dizia quantas letras tinha o nome. Fazia contas de cabeça, mais depressa que qualquer máquina.
Vendia as listas a 7$50 cada. Não sei se isso lhe melhorou a vida. Aos tomarenses dava muito jeito.
A última vez que o vi, num café em Tomar, tinham passado mais de 30 anos da minha saída de lá. Conheci-o e não resisti ao impulso de me aproximar dele. Disse-lhe apenas o nome do meu pai e, prontamente, sem hesitar, disse o local de trabalho, a morada e os números de telefone dos dois locais. Comovi-me. Um café partilhado, um longo aperto de mão, uma vénia respeitosa dele. E foi a última vez que o vi.
Rainman de Tomar? Não. Apenas o nosso, muito nosso, Nené Cebola, Lionel ( com i, volto a dizer) Carvalhais.
Até um dia destes.









domingo, 10 de fevereiro de 2013

Adeus meu querido primo


Ontem morreu-me um primo. Era um ser especial. Nasceu com Trissomia 21.  Isso nunca teve influência no amor que lhe tínhamos.
Quando nasceu, eu tinha 6 anos. Não percebi diferença nenhuma entre ele e os outros bebés. Era um bonequinho de carne e osso, que eu adorava ter ao colo.
Foi crescendo, fui vendo algumas diferenças, mas isso nunca afectou o meu amor por ele. Muito meigo, muito educado, muito sedento de atenção e de ternura. Tudo isso teve, da parte da mãe e de todos. A mãe, a minha madrinha, que morreu há meses, não se limitou a tratá-lo com desvelo. Era uma Mulher de fibra e muito inteligente. O Henrique, era esse o seu nome, aprendeu a ler, escrever e fazer contas. Teve emprego. Era um cavalheiro a sério, daqueles que puxavam as cadeiras às senhoras,  curvavam-se para cumprimentar os mais velhos. Tinha gostos musicais definidos, era Dragão ferrenho. Claro que era teimoso, como toda a família, claro que, por vezes, se irritava como todos. Foi feliz. Disso tenho a certeza.
Nunca me esquecerei, de uma longa conversa, que tivemos um dia.
Foi no dia de anos do meu pai, a casa estava cheia, a mesa não dava para todos. Decidiram, que os mais novos, iriam para outra sala e claro, outra mesa. Alguém, que não tinha Trissomia 21, mas era estúpido, mandou o Henrique para a mesa dos miúdos. Ele não gostou. Afirmou-se adulto e disse que estavam pessoas mais novas na mesa. Referia-se ao meu sobrinho mais velho. Este, de imediato se levantou e trocou de lugar com ele.
Depois do almoço, estivemos os dois a conversar. Aliás, ele falou, eu ouvi. O que ele me disse nesse dia, fez-me abrir mais uma janela na perede dos preconceitos, que infelizmente, todos temos.
Resumindo: “Eu sei que sou diferente. Mas acho que tenho o direito de ser respeitado como os outros. Falo de uma maneira diferente, penso de uma maneira diferente, mas não sou burro e mereço respeito”. A conversa foi longa. Esta frase dele, resume-a. Ele era mais inteligente do que muitos, que se riam das palavras um pouco atrapalhadas, das pequenas manias, que afinal, todos temos.
Muito mais haveria a dizer do Senhor Henrique, como os estranhos lhe chamavam. Muitas lembranças do meu Quico, que vão ficar sempre comigo, muitas saudades.
Esta é a minha dspedida do meu primo mais novo. Gostava de lhe ter dito mais vezes, como gostava dele, mas ele sabia-o bem.
Beijos, Vera, Zé Manel, Ninon.
Um último beijo, meu querido Quico.
Maca (era assim que me chamavas)
Maria


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Gente da minha Terra 1


O Orador, o Empresário, o Hipnotizador e o Romântico

Hoje são 4, as figuras de Tomar do meu tempo. Sei pouco deles, apenas algumas histórias. Não tenho fotografias, nem documentos, só lembranças.
1º- O Orador - Chamava-se Manuel, por alcunha o “Jeitoso”. Tinha uma irmã, de seu nome Laurinda, “Jeitosa”, que levava o dia, com 2 latas ligadas por um cordel, penduradas ao pescoço. Batia nas latas com dois paus, não falava, mas toda a gente a conhecia. O irmão, não gostava da alcunha, ficava zangado, quando o tratavam por “Jeitoso”, bebia um bocado e, fazia discursos, que começavam invariavelmente assim: “Quem manda é Deus e Nossa Senhora. E em Tomar, quem manda, é o  Senhor Capitão Oliveira”. Depois, o discurso continuava, longo, ilógico, com algumas verdades pelo meio.
2º- O Empresário - Não sei o nome, mas a alcunha era “Troca a Nota”. Também bebia o seu copinho, mas parvo não era.
Um dia, alguém lhe propôs, fazer uns buracos no Mouchão, para espetar os paus que, iriam servir de base, às ornamentações, de uma das muitas festas, que se faziam em Tomar. Viu o trabalho, acertou o preço de cada buraco, (1$00 cada) e aceitou. Abriu 3 ou 4 buracos e, viu o irmão. Sem perder tempo com explicações, perguntou: “Queres ganhar umas coroas?” O irmão aceitou, ele disse-lhe qual o serviço e, que ganharia 50 centavos por cada buraco. Seguidamente, sentou-se na explanada da “Primorosa”, bebendo o seu copo e vigiando, o seu operário. Entretanto, passa a pessoa com quem ele tinha contratado o serviço que, lhe pergunta: “Então o trabalho?” A resposta, veio pronta e elucidativa: “Não se preocupe. Tenho pessoal a trabalhar por minha conta”. Enquanto respondia, apontava o irmão que continuava a fazer os buracos. E era parvo?
3º- O Hipnotizador - Também não lhe sei o nome. Era conhecido por “Dona Inês”. Porquê? Também não sei. Bebia como uma esponja. Acho que era o seu estado normal. À tardinha, ia à “Casa dos Pobres” buscar sopa, com uma panela. A essa hora, já as pernas não o ajudavam muito. Caía, largava a panela que, rolava rua abaixo, tentava levantar-se, caía de novo e, então, começava o monólogo, sempre igual, tentando convencer a panela, a ir ter com ele. Ela não ia, ele ralhava com a panela e, a cena durava até passar uma alma caridosa, que o levantava, apanhava a panela e, às vezes, o guiava, até à “Casa dos Pobres”.
4º- O Romântico - Chamava-se Martinho, era de Alcobaça, vivia na “Casa dos Pobres”, fazia anos no dia de São Martinho. Alto, magro, vestido de escuro, amparado a uma espécie de cajado, entrava na minha rua, a cantar: “Nesta rua vou entrandó, pra falar ó mê amori...”
Parava e, dizia: “Oh Martinho, põe-te a pau. Tás grosso, ó quê?”
Andava mais uns passos e, em frente de janela onde houvesse menina cantava: 
                           "Menina que estás à janela,
                             A comer teu pão com queijo
                             Faz dos braços uma arma
                             E atira-me lá um beijo”
Este Martinho, era o preferido do meu Pai, por ser de Alcobaça, como ele. Ao sábado, subia a escada do meu prédio e, eu era encarregada de lhe entregar, um pão com carne, um copo de vinho e um cigarro. O meu discurso era sempre o mesmo: “A mãe dá o pão, o pai dá o vinho, a menina o cigarrinho”. A menina era eu. Maldito cigarro! Já aos 3, 4 anos, fazias parte da minha vida.
No dia 11 de Novembro, dia de São Martinho, o meu pai, mandava-o entrar e dava-lhe almoço completo. Um dia, desapareceu. Disseram-nos que, estava em Alcobaça num Asilo.
Hoje, dediquei-me a estes 4 homens. Eram figuras de Tomar.
Diferentes, mas nunca maltratados por ninguém. Em Tomar, não se tratava mal ninguém. Brincava-se, com as manias de cada um, mas sempre com respeito, com amizade.
Ainda será assim? Não sei. Isto, passava-se, no tempo do “Nosso Capitão Oliveira”, como diria o Manel Jeitoso, e eu subscrevo.
Até um dia destes
Maria    



sábado, 19 de janeiro de 2013

Aniversário


                                            


                                     Minha irmã, minha amiga
                                     Foste-te embora sem dizer adeus.
                                     Fechaste os olhos doces num momento
                                     Abriste-os junto a Deus.


Hoje seria o dia dos teus anos.
Os Lírios do costume, a saudade cada vez maior, uma lágrima, um beijo.
Maga 

Até um dia destes
Maria  

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Há catorze anos, passei aqui, a meia noite.



Foi uma noite muito fria, mas senti-me muito feliz.
Parabéns Rafael.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Para ti, minha Margarida

No dia do teu aniversário, com toda a saudade e carinho, a nossa "Carmen"



Até um dia destes
Maria

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Papoilas






Um campo de papoilas sob o brilho,
Da luz dum sol de Primavera,
Lembrava colchas de retalhos muito antigas.
Cada folha cosida a outra folha,
Com ponto pequenino, feito à mão,
Parecia um pequeno coração
Ligado a outros, a muitos mais de mil.
Eram as colchas ricas de noivado,
Tecidas de ternura e ilusão,
Quase mantos de sedas e de brocados.
Agora, o tempo é escuro. Só lembram sangue,
O sangue, que cobre a terra de amargura
E deixa sobre ela, tanto corpo exangue.
Já ninguém faz as colchas de noivado.
Os corações, não batem já de amor.
As bombas caem, não há campo em flor,
Restam só corpos mortos, chacinados.
E é assim, que eu vou entristecendo,
Já não há alegria, nem beleza
Nos campos de papoilas sobre o mundo.
Já não consigo ver as colchas de noivado.
Só dor e um desespero, bem profundo.

Hoje estou como o tempo
Até um dia destes
Maria 

sábado, 8 de dezembro de 2012

A minha tábua de engomar





Ia fazer seis anos. Queria um ferro e uma tábua de passar, iguais aos da mãe.O ferro, em tudo igual ao da mãe, menos no tamanho, estava guardado desde a feira de Santa Iria, sem eu saber. Faltava a tábua. Comprá-la era díficil. As poucas que havia, eram caras demais, para a magra bolsa do meu pai. Ele resolveu fazê-la. Com muito trabalho, alguma arte e muito amor, fez a pequena tábua. Era de noite, quando eu dormia, que ele metia mãos ao trabalho.Quando acordei no dia dos meus anos, aos pés da cama, estava a tábua de engomar, forrada a flanela às florinhas azuis e o ferro, com algumas brazas dentro.Passei lenços, panos da loiça, guardanapos...Da tábua resta apenas a doce recordação. O ferro está aqui acima. Guardei-o todos estes anos.
Até um dia destes
Maria 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Basílica da Estrela, Zimbório e... Rock’n’roll



Em Julho de 1956 eu estava, como sempre, em Lisboa. À tristeza de saber que não voltaria mais a Tomar, contrapunha-se o prazer de nesse ano ter cá o meu irmão. Pela mão dele conheci a Lisboa dos Monumentos, dos Miradouros, dos Bairros Populares, dos jardins.
Uma manhã fomos à Basílica da Estrela. Passámos pelo bonito jardim, atravessámos, e no adro da Igreja estava um grupo de miúdos de alpergatas ( nesse tempo não havia ténis Nike), calças americanas (também não havia jeans Levis), um rádio de pilhas de onde saía o barulho de uma música estranha e um senhor aos gritos. Os rapazinhos torciam-se, atiravam-se ao chão, davam gritos, como se estivessem a ter algum ataque estranho. A provinciana pata brava, que vivia em mim, ficou pasmada com aquilo. Logo o mano mais velho e citadino, se apressou a explicar que era um estilo de música e dança vindas da América. Fiquei mais calma e elucidada, embora um pouco espantada. É que em Tomar tirando os fados, a música popular, os tangos e as valsas, aquela música ainda não era conhecida.
Entrámos na Basílica e fiquei deslumbrada. Já por fora a achara linda, equilibrada, com uma torre de cada lado e aquela cúpula enorme lá em cima. Dentro rendi-me à beleza dela. Foi-me explicado que D. Maria I, a mandara erigir como promessa pelo nascimento de um filho. Os arquitectos e pintores, alguns tinham trabalhado em Mafra. A harmonia e delicadeza das colunas é maravilhosa. A primeira pedra foi lançada em 1776 e a Basílica foi inaugurada em 1789. É de estilo Neoclássico, com três naves. Na do centro destaca-se o túmulo da sua Fundadora. Morta no Brasil, foi o seu corpo trazido para Portugal e ali repousa.
A parte mais aventurosa da visita foi a subida ao Zimbório, que pouco depois foi encerrado ao público. Subimos a escada e no alto eu tive Lisboa aos pés. E Lisboa é tão linda! Os telhados, as trapeiras com sardinheiras, as torres de outras Igrejas, o verde dos jardins, tudo me parecia novo e diferente. O céu azul estava tão perto, que por instantes, julguei lá chegar. O Tejo brilhava ao fundo, sulcado de Cacilheiros e outros barcos, os sons chegavam lá acima esbatidos. Com os olhos cheios de luz, desta luz de Lisboa que não é igual a mais nenhuma, desci com pena.
Foi assim, meu irmão, pela tua mão, pela tua voz, com o teu carinho, que passei amar Lisboa de outra maneira mais profunda, mais íntima.
Até um dia destes.
Maria
  



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Férias, uma garrafa de porto, 3 cálices e muita juventude



Há cerca de 52 anos, passei um mês de férias com um casal amigo dos meus pais, numa pequena aldeia, chamada São Bartolomeu do Mar, a uns quilómetros de Esposende. Lá conheci, uma prima da amiga com quem fora, uns anos mais velha do que eu, casada e com uma filha pequenina. Tornámo-nos muito amigas. Eles tinham alugado uma barraca de pescadores, que ficava numa ponta do vasto areal. De manhã íamos à praia, mas à tarde, geralmente a ventania era tanta, que não saíamos de casa. A menina dormia a sesta e nós abancávamos à mesa, perto da janela, com a garrafa, os cálices, bolacha Maria, às vezes os dados e conversa para a tarde toda. Todos gostávamos de falar e contar histórias. Ele, mais velho do que a mulher, sobrinho de um conhecido escritor, inteligente, professor de surdos-mudos, tinha uma enorme cultura e grande conhecimento do Porto de outras eras; Ela, pertencia a uma das boas famílias do Porto. Tiveram um romance atribulado, tinham uma vida apertada, mas eram felizes. Discutíamos História, Literatura, até política. O nível da garrafa descia e, para falar verdade o da conversa também. Vinham as anedotas, a má língua, as aventuras e desventuras dos conhecidos. No dia seguinte, um de nós ia à ti’ Albina, misto de tasca, mercearia, retrosaria, talho, buscar outra garrafa, a mais barata claro, e as bolachas.
Às vezes à noite, esvaziado o estábulo das vacas da ti’Albina, ligado o gerador, ligada a televisão, quem queria ver o programa, levava a cadeira ou o banco de casa, pagava 1$00 e via, mais ou menos às riscas, “A Dama das Camélias”, “As duas Órfãs”, “Os três Mosqueteiros”, com direito a leitura das legendas em voz alta e ao agradável e saudável, cheiro a estrume de vaca.
Porque me veio tudo isto hoje à memória? Porque bebi um cálice de Porto à saúde de um familiar que faz anos.
Mais uma vez, a saudade bateu à porta da minha alma. A maioria dos meus companheiros dessas férias, ou morreram, ou nada sei deles.
Dos meus dois companheiros dessas tardes, sei que ele morreu. Dela e da filha nada sei e tenho pena.
Comecei a brincar, acabo triste. Saudades Tony, onde estiveres. Saudades Lai. Por onde andas?
E São ”Bartolonosso”, ainda terá o “banho santo”, no fim de Agosto?
Ai meus 15, aonde vocês vão!
Até um dia destes.
Maria

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Lírio branco




Se te lembro eu vejo um lírio branco.
Era alva a tua pele, a tua alma
Davas a sensação de meiga calma
Com um olhar sereno e um sorriso franco.

Havia nos teus gestos  a doçura
Que as abelhas dão ao doce mel.
Eras meu branco lírio de Israel
A imagem do amor e da ternura.

Tudo em ti era belo e era puro
Tinhas no sorriso sempre aberto
A lealdade do crente bem seguro.

A fé, a esperança, a santa caridade.
Contigo era sempre tudo certo.
E o que sentias era só verdade.

Maria

Até um dia destes.
Maria

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Amante




Quadro de Paula Rego


Impõe-se uma breve explicação. Isto passou-se há mais de quarenta anos, num tempo em que às mulheres eram negados todos os direitos. Uma menina que tivesse tido relações sexuais com um homem, tinha várias soluções. Se era rica, ia a um médico especialista que por artes mágicas lhe restituía a perdida virgindade. Se tinha menos dinheiro ia a um médico, geralmente amigo da família, que lhe passava um atestado em que assegurava que a menina tinha tido o azar de cair em cima duma pedra, andara demais a cavalo, qualquer coisa que desse ao futuro esposo a certeza de a ter em primeira mão. Quando era uma pobre moça sem posses, sem conhecimentos, o remédio era ficar solteira e para tia, ou passar de mão em mão. Qualquer rapariga que passasse por isto, dizia-se “enganada”. Quando a menina era menor e as coisas chegavam a tribunal, o custo da pureza dela eram quarenta contos, que o senhor que a tinha “enganado” pagava. Se não acreditam, perguntem.
Conheci uma e aqui começa a história, que ma contou assim:
“Tinha dezassete anos quando o conheci. Dizia-se viúvo, com um filho. Dava-me muitas prendas. Arranjou emprego aos meus irmãos.
Dizia que íamos casar a Fátima e que eu teria um belo vestido branco e flores de laranjeira. Eu acreditei nele. Acreditei tanto, que a flor de laranjeira teria sido uma mentira.
Um dia, a minha irmã descobriu que ele era casado. Eu chorei, ameacei que o deixava. Mandou-me calar e contou tudo à minha mãe. Eu gostava dele e não via maneira de o deixar.
Pôs-me casa, deu-me roupas, jóias, visitava-me todos os dias, mas à noite voltava para casa, para a mulher. Era o que me custava mais. Noites e noites sozinha, numa casa bonita, mas vazia.
As pessoas falam de mim, eu sei, ouço-as: lá vai ela, a amante do empreiteiro. Estas é que a levam direita. Coitada da mulher... Eu também tenho pena dela, mas pelo menos à noite, no Natal nos dias de festa é com ela que está, eu estou sozinha.
Engravidei. Fiquei contente. Não voltaria a estar só. Disse-lhe e ele secamente, mandou-me preparar para ir no outro dia à parteira. Chorei, pedi, insultei. A resposta foi uma carga de porrada tão grande, que já não tive de ir à parteira. Continuei com ele e com a mágoa de nem um filho poder ter. A outra tem três. Tenho tudo, dizem elas. E as noites de solidão? E a casa sem um riso de criança? E os meus dias vazios? Tenho tudo.
Sabe? Ele casou com ela em Fátima. Ela foi de branco e flor de laranjeira. Ele mostrou-me as fotografias.
Pois. Eu sou a outra, aquela que só tem a parte boa de um homem.
Mas não me importava de trocar a casa, os vestidos, as jóias, por um homem só meu, a quem lavasse a roupa e cosesse as meias, um filho, companhia à noite. Mesmo que fosse numa barraca.”
Quem me contou isto já morreu. Fui amiga dela muitos anos e sei a grande mulher que era.
Felizmente que tudo hoje é diferente. As mulheres são livres e conquistaram direitos. Hoje é normal as mães avisarem as filhas dos perigos que correm, aconselharem a pílula ou outro contraceptivo. Naquele tempo a palavra de ordem era: Defender a virgindade de todas as formas. Que estupidez, que hipocrisia, que coisa tão incrível, não mocinhas? Mas era assim.

Até um dia destes
Maria



sábado, 20 de outubro de 2012

Santa Iria, a história e a lenda







Qualquer Tomarense saberá que, hoje é “Dia de Santa Iria”.
Também a maior parte, saberá mais ou menos a lenda.
Primeiro, contarei a história, aquilo que, segundo os muitos livros, se sabe de verdade à cerca da Santa da nossa terra.
Iria, ou Irene, era natural de Sellium, filha de Hermenegildo e Eugénia, ricos proprietários. Foi entregue a duas tias, Casta e Júlia, monjas professas do Convento de Santa Clara, hoje chamado de Santa Iria.
Querendo que, a menina tivesse uma educação mais vasta, foi pedido a Célio, seu tio e Dom Abade, do Convento de Frades, então existente, que lhe arranjasse um preceptor, entre os seus frades.
O escolhido, Remígio, era culto, bom cristão, mas apaixonou-se por Iria, sendo por ela repelido. Não era o primeiro a amar Iria. Britaldo, moço rico, de boas famílias, já a amava também, ao ponto de adoecer de amor. Os pais rogaram a Iria que, lhes salvasse o filho. Ela, visitou-o, mas disse-lhe que, nunca poderia ser dele, porque já se tinha dado a Cristo e, seria monja. Britaldo, conformou-se, depois de Iria lhe prometer que, não seria de mais ninguém. Remígio, porém, não se conformou. Deu uma qualquer beberagem a Iria que, ao fim de  pouco tempo, provocou na donzela, todas as aparências, de uma gravidez.
Britaldo, sentindo-se traído, procurou a pobre menina, degolou-a e lançou-a ao Nabão. A Imagem, ainda existente, mostra o sítio do crime. O corpo, seguiu o curso do rio e, foi parar a Santarém. (Santa Iria, Santa Irene, Santarém) O dia do martírio de Iria, seria 20 de Outubro do ano 635 da era de Cristo.
Até aqui, é a história, mais ou menos conhecida de Santa Iria.
O resto é lenda, ou melhor, são lendas. Na busca que fiz, em muitos e variados livros, há lendas de Santa Iria, desde o Ribatejo ao Minho, desde as Beiras ao Algarve, desde os Açores à Galiza e ao Brasil.  Diferem umas das outras, em pequenos pormenores, mas o certo é, que Iria foi degolada. Escolhi, a mais parecida com a que minha Mãe, me lia em pequenina. Vem no “Romanceiro” de Teófilo Braga. 
                   
Santa Iria
Estando eu a coser
Na minha almofada,
Minha agulha de ouro,
Meu dedal de prata,
Passou um cavaleiro,
Pediu-me pousada.
Se meu pai lh’a desse,
Estava mui bem dada;
Deu lh’a minha mãe
Por ser confiada.
Subiu para cima,
Elle se assentou;
Puz-lhe a meza,
Elle ceou;
Fiz-lhe a cama,
Elle se deitou.
Era meia noite dada,
Elle em mim pegou,
Levou-me p’r o monte,
Lá me perguntou
Como me chamava?
Em cas’ de meu pai
Iria a fidalga;
No meio destes montes
Iria coitada.
Por esta palavra
Serás degolada.
Puchou do alfauge
E a degollou;
Coberta de rosas
Alli a deixou.
D’alli a sete annos
Por alli passou:
Pastorinhos novos,
Que guardaes o gado
Que Santa é aquella.
Que está n’aquelle adro?
«É a Santa Iria;
Morreu degollada!
Oh Santa Iria,
Meu amor primeiro,
Perdôa-me a morte,
Serei teu romeiro.
«Não perdôo, não,
Vilão carniceiro,
Da minha garganta
Fizeste carneiro:
Do meu cabellinho
Fizeste dinheiro.
Veste-te de azul
E mais de amarello;
Se Deus te perdoar.
Perdoar-te quero.

Está escrito, tal qual o copiei. Respeitei o texto e a grafia.
E aqui está, a lenda e a história da nossa Santa
Faz hoje 11 anos, meu Pai partiu. No dia da Padroeira da terra que ele tanto amou. Já não viu a ruína em que transformou o Convento da Santinha.
Tenho saudades do tempo, em que junto a ele, meu Pai me contou a história.
Tenho saudades dele. Tenho saudades da Tomar da minha infância.
Até um dia destes
Maria 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um ano de Saudade





Foto do nosso Kim

Faz hoje um ano que partiste, meu amigo.
Outros falarão de ti.
Eu limito-me a olhar esta foto e a lembrar a amizade que ela mostra.
Abreijos, André. Saudades.
Maria  

domingo, 14 de outubro de 2012

Yves Montand


Fazia ontem, 13 de Outubro, 91 anos, Yves Montand, actor, cantor, “Partisan”.
Para ele, para todos os que ainda o lembram, “Chanson des Partisans”.




Até um dia destes
Maria

sábado, 6 de outubro de 2012

Lembras-te ainda?







Era nas noites ventosas de Junho em Cascais, há tantos anos!
Eu tinha frio (fingia que o sentia?) e os teus braços envolviam-me num abraço doce e quente. Andávamos pelas ruas quase desertas e mal iluminadas, acertando o passo um pelo outro, como se estivéssemos a  treinar-nos para a longa caminhada da nossa vida.
Por vezes, um candeeiro apagava. Lembras-te? Era quando nos beijávamos. Parecia que os candeeiros nos queriam esconder de olhos estranhos. Havia muito vento. O meu cabelo longo, batia nos nossos rostos unidos, fazendo de cortina. Ninguém via? Nessa altura não nos preocupávamos com isso. Sentíamos-nos    os únicos à face da terra. O mar, as estrelas, a praia, o mundo, eram só nossos.
As horas passavam. Chegava ao fim o sonho. Tínhamos de nos separar. Levavas-me a casa. Não, não havia beijos à despedida. A minha tia espreitava entre as cortinas. Uma carícia nos cabelos, uma troca de olhares, duas mãos que levavam tempo a soltar-se e... Até amanhã, meu Amor.
Lembras-te ainda?

Até um dia destes.
Maria 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Tenho Saudades, Pai


                         














O tempo passa e a Saudade aumenta
Fazes-me falta Pai, fazes-me falta.
Falo contigo, chamo-te em voz alta
Nada adormece a dor que me atormenta.

Quero lembrar momentos de alegria
Doces tempos de infância e felicidade
E apenas acordo mais esta Saudade
Apenas acordo mais dor e Nostalgia.

E já não sei chorar, só sei sofrer.
Leio as tuas cartas não te ouço,
Olho os teus retratos não te vejo.

O tempo que me resta para viver
Será de luto, pois nem mesmo posso
No dia dos teus anos dar-te um beijo.

Até um dia destes
Maria 












sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mãos Vazias

















Levei a vida inteira a tudo dar.
Amor, ternura, sem troca nem razão.
Sofri tudo, sem muito me queixar
Amei o mundo, a todos dei a mão.

Agora, a saudade, a solidão
São a minha grande companhia,
Aqueles a quem dei a minha mão,
Nada põem na minha mão vazia.

Nem um carinho, nem uma lembrança
Eu sinto já, da parte de alguém
Nem sequer um riso de criança
Eu ouço nesta terra de ninguém.

E olho então as minhas mãos vazias,
Roço-as uma na outra para sentir
Algum calor nas tristes mãos tão frias
Que não têm outras mãos para as cobrir.

Maria

Até um dia destes
Maria

sábado, 15 de setembro de 2012

Era uma vez... em 1800


A história começa em 18... e vem até aos dias de hoje. Vou resumir por várias razões:
                              1ª Não sou o Camilo Castelo Branco.
                              2ª Era uma grande estopada.
                              3ª Ou eu ficava maluca ou alguém ficava, tal é o emaranhado da história toda.
Em 18... vieram de Colares dois irmãos em busca de uma melhor vida. Um emigrou para o Brasil à procura da árvore das patacas. O outro ficou em Lisboa e encontrou a dita árvore. Casou com uma menina filha de um agiota, herdou o negócio e fê-lo prosperar. Camilo fala dele num dos seus livros. Foi ele quem liquidou a herança do pai do escritor. Tiveram duas filhas, belas moças. Chamavam-se respectivamente: Bonifácia Dinis e Adelaide Olímpia. Só ponho os nomes para que a história fique clara.
Um belo dia chegou do Brasil o tio emigrado. Vinha rico e solteiro. Os dois irmãos logo resolveram juntar as duas fortunas. Foi dito à pobre da Bonifácia que iria ser esposa amantíssima do tio. Claro que a menina nem teve tempo para pensar, quanto mais para dar a sua opinião. Casou, teve três meninos e morreu. Entretanto o agiota tinha morrido e a Adelaide foi morar com a mana e o tio-cunhado-tutor. Ela criava e tomava conta dos sobrinhos, ele tomou conta dela. Tomou tão bem, que ao fim de uns meses nasceu uma menina. A pobre Adelaide viu-se com uma filha, bastante dinheiro e uma quinta no termo do Lumiar. Já doente, por lá foi ficando com a filha e duas velhas criadas. Os sobrinhos visitavam-na, ajudando-a a suportar a solidão, o abandono do tio-cunhado-tutor-amante, que entretanto já casara de novo e tinha outra filha. Ela morreu, a menina foi entregue à irmã mais velha. 
Pensam que acabou? Não. Agora é que vem o melhor.
Há tempos, o meu Filho comprou uma casa. Sabem aonde? Precisamente no sítio onde a minha bisavó escondeu a sua vergonha e mágoa de abandonada. Como sei? Possuo ainda a escritura dessa quinta em nome da minha avó. Mas é só a escritura, a quinta é hoje um aglomerado de casas. Quer dizer: o meu filho comprou uma ínfima parte, daquilo que um dia foi da minha família.
E diz a outra que não há coincidências!
Estão a ver que eu não sou o Camilo? Se fosse, esta história teria dois volumes, pelo menos.
Até um dia destes
Maria         




domingo, 9 de setembro de 2012

Resto


















Paula Rego


Sou resto de trapo
De um vestido velho
Deitado no lixo.
Sou caco de espelho
Que reflecte a luz
Duma forma estranha.
Sou resto de nada
Pois nada vivi
Sou resto que resta
Da vida que teima
Em viver em mim.

Maria

Até um dia destes
Maria