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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Adeus meu querido primo


Ontem morreu-me um primo. Era um ser especial. Nasceu com Trissomia 21.  Isso nunca teve influência no amor que lhe tínhamos.
Quando nasceu, eu tinha 6 anos. Não percebi diferença nenhuma entre ele e os outros bebés. Era um bonequinho de carne e osso, que eu adorava ter ao colo.
Foi crescendo, fui vendo algumas diferenças, mas isso nunca afectou o meu amor por ele. Muito meigo, muito educado, muito sedento de atenção e de ternura. Tudo isso teve, da parte da mãe e de todos. A mãe, a minha madrinha, que morreu há meses, não se limitou a tratá-lo com desvelo. Era uma Mulher de fibra e muito inteligente. O Henrique, era esse o seu nome, aprendeu a ler, escrever e fazer contas. Teve emprego. Era um cavalheiro a sério, daqueles que puxavam as cadeiras às senhoras,  curvavam-se para cumprimentar os mais velhos. Tinha gostos musicais definidos, era Dragão ferrenho. Claro que era teimoso, como toda a família, claro que, por vezes, se irritava como todos. Foi feliz. Disso tenho a certeza.
Nunca me esquecerei, de uma longa conversa, que tivemos um dia.
Foi no dia de anos do meu pai, a casa estava cheia, a mesa não dava para todos. Decidiram, que os mais novos, iriam para outra sala e claro, outra mesa. Alguém, que não tinha Trissomia 21, mas era estúpido, mandou o Henrique para a mesa dos miúdos. Ele não gostou. Afirmou-se adulto e disse que estavam pessoas mais novas na mesa. Referia-se ao meu sobrinho mais velho. Este, de imediato se levantou e trocou de lugar com ele.
Depois do almoço, estivemos os dois a conversar. Aliás, ele falou, eu ouvi. O que ele me disse nesse dia, fez-me abrir mais uma janela na perede dos preconceitos, que infelizmente, todos temos.
Resumindo: “Eu sei que sou diferente. Mas acho que tenho o direito de ser respeitado como os outros. Falo de uma maneira diferente, penso de uma maneira diferente, mas não sou burro e mereço respeito”. A conversa foi longa. Esta frase dele, resume-a. Ele era mais inteligente do que muitos, que se riam das palavras um pouco atrapalhadas, das pequenas manias, que afinal, todos temos.
Muito mais haveria a dizer do Senhor Henrique, como os estranhos lhe chamavam. Muitas lembranças do meu Quico, que vão ficar sempre comigo, muitas saudades.
Esta é a minha dspedida do meu primo mais novo. Gostava de lhe ter dito mais vezes, como gostava dele, mas ele sabia-o bem.
Beijos, Vera, Zé Manel, Ninon.
Um último beijo, meu querido Quico.
Maca (era assim que me chamavas)
Maria