Ontem
morreu-me um primo. Era um ser especial. Nasceu com Trissomia 21. Isso nunca teve influência no amor que lhe
tínhamos.
Quando
nasceu, eu tinha 6 anos. Não percebi diferença nenhuma entre ele e os outros
bebés. Era um bonequinho de carne e osso, que eu adorava ter ao colo.
Foi
crescendo, fui vendo algumas diferenças, mas isso nunca afectou o meu amor por
ele. Muito meigo, muito educado, muito sedento de atenção e de ternura. Tudo
isso teve, da parte da mãe e de todos. A mãe, a minha madrinha, que morreu há
meses, não se limitou a tratá-lo com desvelo. Era uma Mulher de fibra e muito
inteligente. O Henrique, era esse o seu nome, aprendeu a ler, escrever e fazer
contas. Teve emprego. Era um cavalheiro a sério, daqueles que puxavam as
cadeiras às senhoras, curvavam-se para
cumprimentar os mais velhos. Tinha gostos musicais definidos, era Dragão
ferrenho. Claro que era teimoso, como toda a família, claro que, por vezes, se
irritava como todos. Foi feliz. Disso tenho a certeza.
Nunca
me esquecerei, de uma longa conversa, que tivemos um dia.
Foi
no dia de anos do meu pai, a casa estava cheia, a mesa não dava para todos.
Decidiram, que os mais novos, iriam para outra sala e claro, outra mesa.
Alguém, que não tinha Trissomia 21, mas era estúpido, mandou o Henrique para a
mesa dos miúdos. Ele não gostou. Afirmou-se adulto e disse que estavam pessoas
mais novas na mesa. Referia-se ao meu sobrinho mais velho. Este, de imediato se
levantou e trocou de lugar com ele.
Depois
do almoço, estivemos os dois a conversar. Aliás, ele falou, eu ouvi. O que ele
me disse nesse dia, fez-me abrir mais uma janela na perede dos preconceitos,
que infelizmente, todos temos.
Resumindo:
“Eu sei que sou diferente. Mas acho que tenho o direito de ser respeitado como
os outros. Falo de uma maneira diferente, penso de uma maneira diferente, mas
não sou burro e mereço respeito”. A conversa foi longa. Esta frase dele, resume-a.
Ele era mais inteligente do que muitos, que se riam das palavras um pouco
atrapalhadas, das pequenas manias, que afinal, todos temos.
Muito
mais haveria a dizer do Senhor Henrique, como os estranhos lhe chamavam. Muitas
lembranças do meu Quico, que vão ficar sempre comigo, muitas saudades.
Esta
é a minha dspedida do meu primo mais novo. Gostava de lhe ter dito mais vezes,
como gostava dele, mas ele sabia-o bem.
Beijos,
Vera, Zé Manel, Ninon.
Um
último beijo, meu querido Quico.
Maca
(era assim que me chamavas)
Maria