sábado, 8 de novembro de 2008

Um ramo de lírios brancos


Como há treze anos, um ramo de lírios brancos e, uma grande saudade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Lobo Antunes, dor de dentes e eu


Há quem diga que não há coincidências. Não concordo.
Compro a revista “Visão” porque de 15 em 15 dias, publica uma crónica de Lobo Antunes. Nas outras semanas compro-a, porque o senhor do quiosque ma guarda amavelmente. Ontem, era dia de crónica. Ontem, acordei com uma dor de dentes enorme. Não vou descrevê-la pois calculo que, todos sabem como é.
A revista veio e, ao abri-la na página 16, a crónica de Lobo Antunes aparece, parecendo escrita para mim : “A cadeira do dentista”. Entre gemidos e sorrisos, li-a, com a avidez de sempre. Só ele me faria rir. E ainda por cima, o meu escritor, tem medo dos dentistas como eu. A crónica é uma delícia. Leiam que vale a pena. Lobo Antunes, vale sempre a pena. O dente dói um pouco menos. Já reli a crónica. Talvez vá ler, talvez vá dormir. Tomei um comprimido, a dor abrandou e, eu tenho medo da cadeira do dentista. Nisso, sou igual a Lobo Antunes, o que já é uma consolação, a bem dizer.
Até um dia destes.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Milu


Morreu ontem Milu. Talvez este nome diga pouco aos mais novos. Mas, como ela própria disse, no dia em que foi homenageada e condecorada com a “Ordem de Santiago da Espada”, foi alguém, na sua terra. Velhinha, cega, doente, mas ainda bonita, Milu, enfrentou um público, que já não via, com o mesmo à vontade com que entrava nos filmes e peças de teatro, que fez. Bonita ainda, com a perfeita noção de quem era.
Trabalhou desde os sete anos na Rádio. Pouco mais velha, entrou no filme “Aldeia da Roupa Branca”, de Chianca de Garcia, ao lado de Beatriz Costa. Depois, foi a bela e romântica Luisinha, de “O Costa do Castelo”, ao lado desse monstro sagrado, que foi António Silva e, de Curado Ribeiro, o mais belo galã, do nosso cinema. Depois de vários filmes em Portugal, rumou a Espanha, onde se manteve, alguns anos. Voltou. Se possível, mais bela ainda. Fez teatro de revista. No Teatro Monumental, fez “A Casa das cabras”, peça que, fez escândalo na época.
Continuava a cantar, ao seu jeito muito próprio. A última vez que fez cinema, foi no filme “Kilas, o mau da fita”, de Fonseca e Costa”, com Mário Viegas e Lia Gama, entre outros. Bela, ainda. Foi criticada por aparecer pouco vestida. A velha mania nacional, de ter de dizer mal de alguma coisa.
Nada disto afectava, pelo menos aparentemente, Milu. Era uma mulher corajosa, capaz de viver à frente do seu tempo.
Morreu ontem. Se é verdade, que nos últimos momentos, toda a nossa vida nos lembra, os olhos cegos de Milu, viram, as luzes da ribalta em que viveu, quase toda a sua vida. É costume, quando um actor morre, ser aplaudido antes de baixar à terra. Por isso, a minha despedida de Milu, actriz, cançonetista, mulher valente, é uma grande salva de palmas. Até um dia destes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

“Aracnofobia”


Aracnofobia é a forma bonita e erudita de chamar ao: medo, pavor, pânico, repugnância, miaúfa, das aranhas. Ora, o protector de todos os animais, sofre disto. O mais pequenino aranhiço, provoca-lhe, autênticos ataques de nervos.
Cá em casa não há disso. Quando alguma se atreve a fazer a sua teia nalgum canto, logo é exterminada. Cabe dizer que, eu tenho pena. Acho as aranhas horrorosas mas, a sua teia é das coisas mais perfeitas que já vi.
Um dia, em Lagos, onde estávamos acampados, tratei do pequeno almoço, pus a mesa, sentámo-nos e... a minha filha, ainda pequenina, disse muito calma e doce: “Paizinho, tens uma aranha na cabeça”. Convém dizer que, ela adorava pregar partidas. O pai riu-se e, ela voltou: “Paizinho, é verdade, tens uma aranha na cabeça”. O pai, começou a desconfiar, levou a mão ao cabelo e, saltou uma enorme aranha, gorda e peluda. Saltou a aranha, saltou a mesa, tudo o que estava em cima voou e, aterrou no chão de terra. Ele foi a correr aos balneários, despiu-se, tomou diversos banhos, exigiu roupa, sem aranhas e, fez-me esvaziar a tenda, sacudir colchões e sacos cama, ver toda a roupa de vestir. Isto tudo era acompanhado das gargalhadas dos filhos, dos meus protestos e, do pavor genuíno, dele.
Depois, fomos tomar o pequeno almoço ao Bar do Parque.
Moral da história: Até os mais acérrimos defensores dos animais, têm medo de algum.
Agora, olhem para a teia de aranha da fotografia. Não é uma maravilha? Eu acho.
Até um dia destes.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Arquimedes, o Mocho sábio


Desde muito pequenino, o meu filho mais velho, adorava mochos. Deve ter herdado essa mania de meu Pai. Eu, também sempre os achei umas aves giras e, tenho uma razoável colecção de mochos de todas as qualidades e feitios. Desde peluches a outros, dos mais variados materiais e tamanhos. Meu Pai dizia que, eles eram o símbolo da sabedoria. O meu filho inventou uma brincadeira, ainda mal falava. Sentava-se ao meu colo, encostava a testa à minha e, dizia: “Mãe, fefa os oios”. Eu obedecia. A seguir, dizia: “Mãe, abe os oios”. Eu abria. Então, ele gritava: “Moço”. Aí, era suposto, eu mostrar medo e, tudo acabava com grandes gargalhadas. O meu filho cresceu (meu Deus, como os filhos crescem depressa!).
Um dia, chegou a casa com uma caixa esburacada, mandou-me sentar, fechar os olhos, abrir as mãos e disse: “Mãe, abre os olhos, quando eu disser”, enquanto me depositava nas mãos, uma coisa macia, palpitante de vida. Abri os olhos e, ele disse a palavra mágica: “Mocho”. Era o Arquimedes, um pequeno mocho galego ou, para os versados em ornitologia um “Athene Noctua”.
Tinha uns grandes olhos, penetrantes, inteligentes. Tínhamos que o alimentar com carne crua picada, dar-lhe água a conta-gotas. Quando cresceu, já comia outras coisas: fígado cru, peixe cru e, berbigão, o seu prato preferido. Viajou, acampou, fez parte da família. Andava solto pela casa, pousava-nos na cabeça, dava bicadinhas ternas, nas pálpebras do dono. Quando o aborreciam, vinha ter comigo, escondia-se no meu pescoço.
Uma vez, no Rio Fundeiro, perto do Castelo do Bode, lembrou-se de experimentar a liberdade. Esvoaçou uns metros e, foi pousar nuns ramos chamando aflito: “chuau, chuau”, até que o dono o agarrou. De seguida, foi para a gaiola, feliz, alegre, por ter voltado aos seus. Não gostara daquela liberdade. Uma vez, dava o meu marido cursos de Informática e estava a corrigir uns testes. Mestre Memé ( era o seu deminuitivo), passeava feliz pela casa. Curioso, aproximou-se, olhou os testes com atenção e, não gostou do que viu, num deles. Claro, que teve que dar a sua opinião. Como não sabia escrever, resolveu defecar (termo caro, digno de um Mocho Sábio), em cima do teste. Foi o cabo dos trabalhos para conseguirmos disfarçar a opinião do Mestre. Por fim, uns pingos de café e uma esfregadela, resolveram tudo. Só tenho pena, de não ter visto a cara do meu marido, quando explicou ao aluno que, tinha entornado café no teste. Diga-se de passagem, que o dito teste, merecia a classificação dada pelo Mocho.
Foram seis anos de vida em comum. Ele foi feliz, nós também. Um dia, de manhã, o meu marido foi dar com ele morto, ainda com os seus lindos olhos abertos. Eu, não quis vê-lo. Acho que todos chorámos. Uns mais às claras, os outros discretamente. Perdêramos um amigo. Mas ficaram as lembranças dele, as gargalhadas que nos fez dar, a alegria com que enchia a casa, as fotografias.
Até um dia destes.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

É para a Esposa?


Entrei numa florista para comprar umas flores, para por nas fotografias dos meus mortos. À minha frente, estava um senhor, de bom aspecto, que olhava para as flores, com um olhar, perfeitamente baralhado. A florista resolveu ajudar. “O Sr. Deseja?...” O homem, lá respondeu titubeante: “Queria 40 rosas, para amanhã”.
“Muito bem. São então 40 rosas. E a cor?” Mais atrapalhado ainda, ele disse: “pois isso é que não sei”. A florista paciente, tornou-lhe: “Se me disser a quem se destinam, talvez possa ajudá-lo. Algum parente, amigo?” O homem, muito vermelho respondeu: “São para a minha esposa, faz amanhã 40 anos.” A florista disse-lhe então ser a rosa vermelha, a mais própria. O cliente, hesitou e, por fim, perguntou: “E se misturasse algumas brancas?” A senhora concordou, fizeram as contas, acertaram a hora de entrega e, ele saiu. Eu comprei as flores, vim embora, perdida de riso, porque toda aquela cena, me lembrara outra, passada há muitos anos com meu Pai.
A seguir à guerra, era difícil arranjar as então chamadas, meias de vidro. A minha Mãe, adorava-as tanto, como detestava as de fio de Escócia que, se usavam na altura. Meu Pai veio a Lisboa e, quis fazer-lhe a surpresa de lhe levar 2 pares de meias de vidro. Dirigiu-se à “Loja das meias”, onde foi atendido por uma menina de bata de seda, salto alto, lábios pintados de vermelho. Delicadamente, pediu as ditas meias. A sofisticada empregada disparou-lhe: “São para a sua esposa ou, quer melhor?”
Ora, eu hoje, sabe-se lá porquê, quando vi o senhor atrapalhado na escolha das flores, lembrei-me desta história. Foi contada durante anos sempre no meio de gargalhadas. Um dia, ele contou a resposta dada à petulante empregada: “São para a minha esposa, sim. E das melhores, se faz favor.”Até um dia destes.

domingo, 2 de novembro de 2008

Elegia


Quando nasci, havia em cima da cómoda do quarto dos meus Pais, uma moldura oval, com pequeninas rosas ouro velho. Dentro, um rostinho de bebé, muito pequenino.
Assim que comecei a andar, a minha Mãe dizia: “Não mexe no retrato da menina”.
Eu não mexia, mas olhava. Olhava a menina, a jarra com uma flor branca, os olhos de minha Mãe, que se enchiam de lágrimas, quando o fitava. Ficava triste, mas nada perguntava. Quando íamos a Ovar, a Mãe comprava um pequenino ramo de rosas brancas e, dirigia-se a um sítio que, eu achava bonito. Tinha casinhas, canteiros com flores, velinhas. Então, ela abria uma das casinhas. Lá dentro, havia prateleiras com grandes caixas negras, cobertas de belas colchas de Damasco. Uma, porém, era diferente. Pequenina, coberta de seda e tule brancos. Em cima uma jarrinha. A Mãe, chorava, sacudia as colchas da caixinha, limpava-a com cuidado, arrumava tudo, punha água e as flores na jarra, sempre a chorar, fechava a porta e, íamos embora. Eu perguntava: “Mãe, o que é isto? Porque estás a chorar?”. E a resposta era sempre a mesma: “É a menina, filha, é a menina”.
Um dia, mais crescida, soube tudo. Entre o meu irmão e eu, houvera a “menina”.
A menina do retrato, a menina da caixa, a menina das flores brancas, a menina que fazia minha Mãe chorar, era a minha irmãzinha morta, quatro meses antes de eu nascer. Nascera em Tomar, na mesma casa, no mesmo quarto, na mesma cama que eu. Morrera em Ovar.
A partir daí, passou-se qualquer coisa na minha cabeça. Por um lado, a pena de não a ter conhecido. Por outro, um medo horrível, de a minha Mãe, gostar mais dela e, preferir que, fosse eu a morta. Chegava a sonhar com ela. Diziam que, nós éramos parecidas. Eu via-me no caixão. Durante anos sofri esta tortura. O amor dos meus Pais, mostrou-me que, uma coisa nada tinha a ver com outra. Mas, acho que só acreditei, quando tive os meus filhos e vi, que nenhum filho é mais amado do que outro. E, sobretudo, nenhum ocupa o lugar de outro.
Teve uma estreia triste, a minha casa nova. Hoje é “Dia de Fiéis Defuntos”. Já tenho muitos na minha alma, mas a primeira, foi aquela “menina”, que eu não sabia quem era, nem que estava morta.
Amanhã será um dia melhor.
Até um dia destes.