quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sem Eira Nem Beira


Lembrei-me de Lamego, hoje. Terra linda, como a minha, terra em que parafraseando um apresentador da nossa T.V., já fui muito feliz. Foi lá que, o meu filho se casou, na Sé, com uma Lamecense de gema, que eu amo como uma filha.
Foi lá, que conheci a família dela, gente boa, hospitaleira, afectiva. O meu Compadre, era pessoa muito querida e considerada, em Lamego. Foi o grande impulsionador do grupo “Sem Eira nem Beira”, de que era a Alma, o sangue, a alegria. Talvez por isso, quando há seis anos, morreu, o grupo desapareceu.
Daqui, quero enviar, toda a minha Saudade, para alguém, que conheci pouco tempo, mas estimei e admirei muito. Para a família, sobretudo para a filha que considero minha, um beijo e uma lágrima, sem palavras. Para os amigos, um pedido: Não deixem morrer, o grupo que ele tanto amava.
Até um dia destes.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Voltei a casa


Estava curiosa para ver a Exposição do Dr. Fernando (Nini) Ferreira. E, a verdade é que estava cheia de Saudades (para mim, Saudade, é sempre com letra grande) da minha terra.
Mal lá chego, esqueço-me da idade, das dores. Volto a ter tranças, bibe aos quadradinhos, apetece-me correr, saltar, pisar as folhas douradas que, atapetam as ruas... Depois, vem o reverso: a procura dos que já não existem, as casas vazias que, conheci habitadas e, onde tinha amigos, as diferenças, da própria terra.
Parei em Santa Maria e, fiquei apavorada. Depois, entrei e, vendo a Igreja igual, serenei um pouco. Tirei as fotografias que queria e, vim embora, fugi daquele barulho, daquela ponte, daquela Santa Maria, sem olival.
Fui ao “Templário”, comprar uns livros. Passei na Fonte da Prata, vi o Rio, já com alguma água. No Mouchão, não entrei. Aquela ponte, para blindados, irrita-me, faz-me sentir mal. Fui a São João, a minha igreja, vi a casa onde nasci, a Nabantina, comprei mais uns livros e, vim para Lisboa.
As fotografias, irão aparecendo, pouco a pouco.
Até um dia destes.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Racismo


Vou hoje falar de racismo, coisa que, tinha jurado não fazer. Não gosto de temas polémicos e, muito menos de polémicas. Mas às vezes, a revolta obriga-nos a fazer coisas que não queremos.
Ontem, uma das nossas preclaras estações de televisão, pôs no ar, um programa que, à partida, pensei ser educativo, isto é, viesse trazer alguma informação útil, para um tema delicado e, mal esclarecido. A desilusão foi total. Tirando dois casos, contados na integra, o resto, como de costume, foi... nada. Perguntas estúpidas, respostas estúpidas, exemplos claros de como não esclarecer um problema.
Não sou, nunca fui racista. Quando era miúda, ensinaram-me uma coisa que, não sei se era oração ou simples poesia. É curta, mas diz muito:

Minha mãe, quem é aquele, pregado naquela cruz?
Aquele, filho, é Jesus, é a Santa Imagem dele.
E quem é Jesus?
É Deus e, é Ele que nos cria
Quem nos dá a luz do dia
E fez a terra e os céus.
E morreu?
Para mostrar, que todos somos irmãos
E devemos dar as mãos
Uns aos outros, irmãmente.

O que quero dizer com isto, é que esse Jesus disse, “dar as mãos” e, não “dar com as mãos”.
Depois de muito disparate, mostraram um caso concreto: Uma jovem mãe, negra,
foi a um parque infantil com o filho de 3 anos. Só havia um baloiço. A criança apoderou-se dele, brincando alegremente até aparecer um homem, branco, com o seu filho. Este, queria o baloiço. O outro, não estava disposto a largá-lo. O paizinho, terno, vendo o filho com uma valente birra, arrancou, literalmente, a outra criança do baloiço, com tanta delicadeza que, ele caiu e, feriu um lábio. A mãe, resolveu ir à esquadra mais próxima, apresentar queixa. Foi aconselhada “delicadamente”, a não o fazer. Teimou. Entretanto, a avó do menino, pregou um par de estalos no homem. (Abençoadas mãos). Aí, foi ele que, quis apresentar queixa. Aceitaram a queixa dele e, a da mãe. Tudo certo? Tudo errado. O julgamento da avó, já foi feito e, ela foi condenada a pagar 600 Euros. O julgamento do homem, ainda não se realizou. Racismo? Não. Apenas esquecimento.
Mas não nos iludamos. O racismo existe em todas as raças e, até entre pessoas da mesma raça. Aqui há anos, uma conhecida minha, filha de negro e de branca, estando na minha casa, teve a saída mais parva que, já ouvi. Eu tinha chegado à janela e, vi que chovia. Vinha uma mãe, com um bebé muito pequenino ao colo, ambos a apanhar chuva. Comentei: Coitadinho do bebé, vai à chuva. Ela, chegou-se à janela, olhou e, com o ar mais desprezível do mundo, respondeu-me: “Ora! É só um pretito, tem pele de sapo”. O respeito que eu devia à pessoa que, com ela estava, não me deixou dizer o que queria. Mas a partir desse dia, passei a olhá-la com o mesmo desprezo, com que ela olhara a criança.
Tenho vizinhos negros. Trato-os da mesma forma que os outros, como eles me tratam a mim.
Raças diferentes? Seria estupidez negar uma coisa evidente. Culturas diferentes? É claro. Mas não serão culturas diferentes as dos países da Europa?
Agora, o que eu não tenho dúvidas, é que tirando a cor da pele, o resto é igual. Órgãos, sangue, doenças, dores, sentimentos, até as lágrimas, como disse Gedeão.
Deixemo-nos de prégar contra o racismo, passemos às obras. Demos as mãos.
Que linda seria uma cadeia de mãos, de todas as cores, unidas no mesmo desejo de Paz.
Até um dia destes.

sábado, 15 de novembro de 2008

Papoilas


Um campo de papoilas sob o brilho,
Da luz dum sol de Primavera,
Lembrava colchas de retalhos muito antigas.
Cada folha cosida a outra folha,
Com ponto pequenino, feito à mão,
Parecia um pequeno coração
Ligado a outros, a muitos mais de mil.
Eram as colchas ricas de noivado,
Tecidas de ternura e ilusão,
Quase mantos de sedas e de brocados.
Agora, o tempo é escuro. Só lembram sangue,
O sangue, que cobre a terra de amargura
E deixa sobre ela, tanto corpo exangue.
Já ninguém faz as colchas de noivado.
Os corações, não batem já de amor.
As bombas caem, não há campo em flor,
Restam só corpos mortos, chacinados.
E é assim, que eu vou entristecendo,
Já não há alegria, nem beleza
Nos campos de papoilas sobre o mundo.
Já não consigo ver as colchas de noivado.
Só dor e um desespero, bem profundo.
Maria

Até um dia destes.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A ausência da dor


Depois de uma semana, cheia de dores, antiinflamatórios, antibióticos, analgésicos, visitas ao dentista, noites sem dormir, hoje por fim, vi-me livre do dente, das dores etc. Espero dormir.
Estes dias, deixaram-me mergulhada num estado de estupidez profunda. Só conseguia sentir dor, na minha cabeça só existia a palavra dor, da minha boca só saía a mesma palavra. Além disso, havia dentro da minha cabeça, um vazio total que, não me deixava pensar, devido às inúmeras drogas ingeridas.
Hoje, já consigo pensar, mal, mas consigo. Pelo menos, deu-me para pensar, como é delicioso não ter dores. É quase um prazer. Adormecer, acordar e, não ter dores. E a dor de dentes é a dor mais chata que há, juntamente com a de ouvidos.
Eu, que tive três filhos, que fui operada ao osso de um braço, apenas com anestesia local. Eu que já parti braços, pernas e cabeça e, me aguentei à bronca, não aguento dores de dentes. E tenho medo dos dentistas, dos aparelhos, das brocas, da cadeira. Esta Dentista era, uma doçura, mas mesmo assim, prefiro não a ver mais.
Estou farta de comer gelados. Acho que, vou comer uma sopinha e, depois vou dormir, para pôr o sono em dia.
Amanhã, talvez esteja mais inspirada.
Até um dia destes.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Os meus vizinhos



Quando mudámos para o então “Bairro Novo”, junto ao edifício do “Colégio Nun’Álvares”, já lá existiam várias moradias. Uma delas, pertencia ao Dr. Fernando (Nini) Ferreira e sua esposa, a Senhora Dona Irene.
A casa era grande, com um belo quintal, onde cheirava a relva, rosas e outras flores. Tinha um belo canil, onde morava a Diana e o seu companheiro, do qual não me lembro o nome. Eram ambos muito bonitos e bem tratados. Tinham água corrente, porque segundo o Dr. me explicou, os cães não devem beber águas paradas.
Às vezes, chamavam-nos lá para casa. A Senhora, era doce, como eram doces os seus bolos e compotas. Ele, mais sisudo, dava-nos pouca conversa. Mas, ao ver a minha adoração pelos cães, fez uma ligeira concessão e, por vezes, lá falava comigo. Um dia, andavam a fazer os açudes, portanto seria Maio, perguntei-lhe como eram feitos. Havia no quintal, um pequeno canal que, levava a água aos cães.
Ele, mandou-me apanhar tronquinhos, pequenos ramos, areia e, logo me construiu um mini açude, em diagonal, com vara real e o resto.
Mais tarde, descobri no seu livro “O Rio, os Açudes e as Rodas”, toda a história, que naquele dia, há tantos anos, ele me ensinara.
A Senhora D. Irene, chamou para lanchar. Pouco depois, ele voltou com um belo e enorme livro. Chegou ao pé de mim e, perguntou: sabes que, há uns animais que também fazem açudes? Não, eu não sabia. Então, cheio de paciência, explicou-me que, noutros países, havia um animal, chamado castor, que os fazia, usando praticamente a mesma técnica. Nunca mais me esqueci. Nem da lição, nem dele, nem da sua doce esposa.
Queria falar de Fernando Ferreira. Mal o conheci, por isso deixo a outros esse trabalho.
Eu falei dos meus vizinhos. Uns vizinhos especiais.
Perdoem-me os dois a ousadia. Foi mais uma recordação feliz, do tempo em que eu era uma menina feliz.
Até um dia destes.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Feira da Golegã


Vivendo perto, foi feira onde nunca fui. Não por falta de vontade, mas porque era sempre em dia de São Martinho dia 11, que meu Pai ia à Golegã. Não ia só, claro.
Ia ele e, todo o seu grupo, sem mulheres e sem criancinhas. Era um dia para homens. Saíam de Tomar, relativamente cedo, assistiam ao desfile dos cavalos, bebiam uns copitos, comiam e feiravam. O remorso, de terem deixado mulher e filhos, em casa, ia aumentando à medida que os copinhos iam desaparecendo.
Então, compravam pequenos presentes. Bolos e tecidos, para as senhoras, pequenos brinquedos, (sempre-em-pés, bonecos que se mexiam por meio de imanes, outros articulados com cordéis) e fiadas de pinhões, parecidas com colares. Meu Pai, chegava a casa tarde, alegre dos copinhos e do convívio dos amigos, feliz, por encontrar a família. A Mãe, não conseguia dormir sem o sentir chegar. Ele entrava, beijava-a e, de seguida ia aos nossos quartos, dar o beijinho da noite e, deixar as lembranças trazidas. Eu tive sempre o sono leve. Assim que ele entrava, sentava-me à espera do beijinho e, do resto. Um ano, ele chegou, fez os mesmos gestos do costume, mas... em cima da minha cama, havia uma manta.
Uma manta ribatejana, tecida à mão, quente, colorida. A minha Mãe, sempre justa, comentou: “E os outros dois?” Ele, explicou: “ As mantas são caras, só dá para uma por ano. Para o ano, será para um dos outros, para o outro ano, para o outro e, a última, será para nós”. A minha Mãe, não ficou satisfeita. “Mas porque é que a primeira foi para ela?” “Porque, ela é a única Ribatejana, a única tomarense”. Todos acataram a sua vontade. Nos anos seguintes, vieram as outras mantas. Mas a minha era, ou melhor, é, a mais bonita.
Quanto aos pinhões, acabavam sempre com mofo. Eu não era capaz de comer o meu belo colar.
Não quero deixar de falar do Santo do Dia. Verdade, lenda, as duas coisas?
Segundo sei, Martinho, teria sido um soldado romano. Um dia frio, deparou-se-lhe um pobre homem, quase nu e, cheio de frio. Martinho, não hesitou. Tirou a grossa capa que, o abrigava, cortou-a ao meio e deu metade ao pobre. Dentro em pouco, o sol descobriu e, aqueceu a terra e os homens, por uns dias. De aí virá, o famoso “Verão de São Martinho”.
Quanto à ligação do santinho, com vinho e bebedeiras, não sei a explicação.
Espero que, a “Feira da Golegã”, corra bem. Ainda não foi este ano que, fui ver os meus queridos cavalos.
Até um dia destes.