segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 10


A Vega é uma linda cadela da raça alemã “Hovawart”, o que, ao que me disse o dono, quer dizer: cão de quinta, ou seja, cão de guarda. Parece ser das raças mais próximas dos lobos.
Quando foi para a casa onde mora, já lá estavam a Duna e a Tuca. Era ainda pequenina e dava-se bem com as outras. Quando cresceu, tudo mudou. É meiga com os donos, mas como é muito ciumenta, começou a agredir as outras. Vive separada delas, porque é muito maior e elas não se podem defender. Com as pessoas até é meiga. Alguns cães de raça e até rafeiros são por natureza mais agressivos do que outros.
Vive numa boa casa, com espaço para passear e correr, mas um dia achou que uma bela cadela de raça não devia viver paredes meias com rafeiras. Então, resolveu fugir. Não foi muito longe. Encontrou uma casa maior do que a outra, sem rafeiros à vista e entrou. Durou-lhe pouco a mania das grandezas, pois o dono foi buscá-la de volta a casa. Acho que, apesar das rafeiras, ela se sentiu bem, por voltar ao seu cantinho e aos donos.
Coisas de estrelas, é o que é. Hoje, além da Duna e da Tuca, tem mais dois companheiros, a Java, já vossa conhecida e o Tomé. Mas isso é para outro dia. Até amanhã com...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Separar o trigo do joio

Se há coisa com que francamente embirro, é a publicidade desenfreada.
É a televisão a bombardear-nos com 20 minutos de anúncios, entre os programas, é a caixa do correio cheia até cima de papéis, é o telefone a tocar às horas mais inconvenientes, com ofertas de toda a qualidade de produtos, são as pessoas que nos abordam na rua e nas grandes superfícies, para nos tentar com propostas mais ou menos interessantes.
Tanto assim é, que mudei de telefone, pus um anúncio na caixa do correio e nego-me a responder às pessoas que me abordam.
No entanto, há excepções. Nesta altura do Natal, as Associações de Ajuda Humanitária, aproveitam para dar a conhecer as mesmas e de caminho conseguir alguma ajuda em troca de um boneco, uma casinha, postais (no caso da SADM - Sociedade dos Artistas Deficientes Manuais). Aí o caso muda de figura. São pessoas, que nada ganhando dão um pouco do seu tempo, para ajudar essas Associações. A esses não respondo com a negação habitual. Posso às vezes nem dar nada, mas tenho sempre uma palavra de estímulo, de apreço pelo seu trabalho.
É só isso que vos peço. Se não puderem, não comprem. Mas não passem indiferentes, parem para ouvir por um momento, aquilo que eles vos dizem.
Eles, os voluntários dessas Associações e as próprias Associações, merecem-no. Afinal, o Natal é uma época de partilha, de amor, de Paz.
Há anos, alguém pediu-me como prenda de aniversário, que depositasse a quantia que ia gastar, numa conta de uma dessas Associações. Quem sabe se alguns daqueles a quem vocês vão dar uma lembrança, não gostariam de ver no sapatinho o comprovante de uma dessas dádivas?
Isto não é sermão, nem lição de moral. É apenas um humilde alerta, de uma pessoa igual a vós.
Até um dia destes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 9


Esta é a segunda cadelinha dos meus filhos e neto.
A Tuca, foi encontrada na estrada que liga Lamego à linda Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Era pequenina, estava suja, ferida e com fome. O irmão da minha nora levou-a para casa e a mãe lavou-a, tratou-a, deu-lhe comida e uma casa para morar. Ela gostava daqueles donos, da vida que levava, dos passeios pela rua. Tinha uma amiga, a Chula, que morreu muito velhinha. Teve filhotes, que um belo “Collie”, chamado Fangue mesmo sem ser pai dos cachorrinhos, a ajudou a criar. Enfim, a vida corria-lhe bem e era feliz. Mas havia uma coisa estranha. Quando o meu filho e a mulher iam a Lamego, a Tuca ficava muito contente e quando eles vinham embora, ela arranjava maneira de entrar para o carro, assim como se quisesse boleia. Quando o meu neto foi baptizado, os avós de Lamego vieram a Lisboa e trouxeram a Tuca. Foi um dia lindo e bem passado, de que tenho saudades. Mas vamos à Tuca. No dia seguinte eles voltaram para Lamego, sem a Tuca. Tinham combinado, deixar a cadela escolher. Abriram a porta do carro, ela foi fazer festas aos donos, mas não entrou. Foi direitinha aos novos donos, aqueles que ela escolheu. Aqui há uma coisa muito bonita, feita por duas pessoas boas e amigas dos animais. Os pais da minha nora gostavam muito da Tuca, tanto que a deixaram escolher o sítio onde queria ser feliz.
Agora vive com a Duna e os outros, com os donos. É muito meiga, afectiva, mas gosta de ser independente. Gosta de apanhar ratos do campo e pássaros, gosta de vadiar, mas também gosta de se aninhar no colo dos donos e receber festas e mimos. É a mais pequenina de tamanho, mas é muito esperta.
Até amanhã com...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 8


A Duna é uma das rafeirinhas dos meus filhos e neto.
Está com eles há muito tempo, sendo a 1ª do grupo de cinco que hoje têm.
Ainda o meu neto não tinha nascido, trouxeram-na do Porto. Era pequenina, muito linda e meiga. Quando estava a dormir, parecia um peluche fofinho.
Às vezes, quando eles iam de férias, ela ficava comigo. Ficámos boas amigas. Ainda agora, quando me vê fica muito contente e tenta estar ao pé de mim. Além de bonita, é esperta. Desde muito pequenina, quando alguém tenta tocar nas coisas da dona, ela rosna e fica sentada ao pé a tomar conta.
Se alguém se chega perto da comida dela, faz o mesmo.
Com as outras 3 cadelas tem uma relação cordial, mas mostra sempre que é a chefe da matilha. Há pouco tempo, eles levaram para casa mais um cão. Desta vez, foi um cãozinho pequenino e de raça. Ora a mestra Duna, que nunca teve filhos, adoptou-o. Deixa-o comer do prato dela, deixa-o deitar-se próximo, mas quando ele começa a abusar das brincadeiras, mostra-lhe quem é que manda. Basta uma ligeira rosnadela e tudo entra na ordem.
Já está velhinha, um bocadinho gorda, mas continua linda.
Esqueci-me de dizer que o meu Nabão está apaixonado por ela desde a primeira vez que a viu. Ela não lhe dá confiança, mas basta alguém dizer o nome dela, para ele arrebitar as orelhas e desatar a ladrar. Depois, quando não a vê, fica triste. Ai amor, amor! Até um cão sofre, por um amor não correspondido. Duna querida: Ao menos uma vez, agora que ambos estão velhinhos, dá-lhe um pouquinho de esperança, sim?
Até amanhã com...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Carta às Mães

(clique no título para aceder ao site APCD)


Hoje não há história e o que vou escrever, não é para os pequeninos.
Está a decorrer uma campanha para angariação de fundos da “Associação Portuguesa da Criança Desaparecida”. Em troca de 5 Euros, dão-nos uma casinha e um panfleto. Parei um pouco a falar com a voluntária que estava numa superfície comercial, bastante grande e concorrida. Vi-a dirigir-se a várias pessoas e ninguém, mas ninguém, lhe deu nada, nem uma palavra.
Apenas olhares indiferentes, ou um gesto negativo de cabeça.
Será que, entre tanta gente não havia pais? Será que se havia estão convencidos que a eles nunca poderia acontecer o mesmo? Ou o egoísmo tem mais força do que eu penso?
Sou mãe e avó. Já fui filha um dia. Sei que perder os pais é uma dor horrível, já passei por ela. Mas é a lei da vida. Agora um filho não é o mesmo. Perder um filho é antinatural. Se perdê-lo por morte é uma dor imensa, não saber dele, não saber se está vivo ou morto, não saber como e onde está, deve ser a maior tortura infligida a um ser humano.
Se virem as casinhas, por favor, não fiquem indiferentes.
Lembrem-se que as coisas más não acontecem só aos outros, também nos podem bater à porta.
Até um dia destes

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 7



Há uma ideia generalizada que, cães e gatos, se dão sempre mal. Quase sempre é verdade, mas há excepções. A história de hoje é a prova, de que nem sempre é assim.
O meu pai, levou-me um dia, um rafeirinho bebé, que ainda só bebia leite.
Era preto, com uma mancha branca no pescoço, que parecia uma gravata.
Improvisei um biberon e, dava-lho, como se estivesse a alimentar um bebé humano. Tive que lhe dar um nome. Ora, havia uma história de que eu gostava muito: “Pinóquio”, um menino de madeira, a quem crescia o nariz, quando mentia. Foi o nome que escolhi. O Pinóquio já teria uns três meses, quando um dia, apareceu no quintal, um gatinho cheio de fome e frio. Dei-lhe de comer, aqueci-o e, adoptei-o. Também tive de lhe dar um nome. Quem sabe a história do Pinóquio de madeira, sabe que ele tinha um amigo, um grilo, que lhe dizia ao ouvido as coisas marotas que ele não devia fazer.
Então o gato, ficou a chamar-se Grilo.
Cresceram juntos, comiam juntos, dormiam juntos, brincavam juntos. Na verdade, quando se tratava de comer, o gato comia primeiro e, só depois, deixava o cão chegar-se ao prato. Dormia deitado nas patas do cão, aconchegado à barriga dele. Durante o dia todo, não se largavam, sempre a brincar, um com o outro.
O Pinóquio, era muito manso. Ao contrário do Tejo, eu podia tirar-lhe a comida da boca, que ele nem refilava. Quando o meu filho mais velho nasceu, deitava-se no chão ao pé da cama dele e, só deixava chegar-se quem conhecia. A única vez que o vi zangado, foi na noite do nascimento dele. Ele nasceu em casa e, foi lá uma senhora ajudar. Eu tinha dores, chorava, dei uns gritos e, o Pinóquio convencido, que era a senhora que me estava a fazer mal, atirou-se ao rabiosque dela e, se eu não o chamo, tinha-lhe dado uma dentada. Depois acalmou.
Ele e o meu sobrinho eram grandes amigos. Um dia, fomos dar com os dois sentados na escada do quintal. O meu sobrinho tinha 6 anos e já sabia ler. Então, pegou no livro da escola e, resolveu ensinar o Pinóquio a ler, também. Ficou desiludido. Por mais que tentasse, o Pinóquio não aprendia nem uma letra. Só sabia um ditongo: “ão”.
Era pouco, para o pequeno professor.
O Pinóquio, morreu já velhinho e o Grilo foi embora. Sem o seu amigo, fugiu em busca de outra vida mais livre.
E pronto, meus amigos acabou mais uma história. Às vezes, os animais ensinam as pessoas. Aqueles que são considerados inimigos de nascença, tornam-se amigos e, aprendem a viver juntos e em paz. Era bom, que com os homens, isso fosse possível. Talvez... um dia. Quem sabe?
Beijinhos e até amanhã.

P.S. Hoje a história é especialmente dedicada ao meu querido amiguinho Martim.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 6


Pois foi. Um dia houve um Tejo no Porto. É claro, que não era o Rio. Todos sabemos que, o rio do Porto de chama Douro e, é lindo.
Este Tejo, era um cão, um belo “Serra da Estrela” de pêlo curto, castanho dourado, com algumas manchitas brancas na barriga. Quando o deram ao meu pai, era bebé, gostava de colinho, de festas, de brincar. Parecia maluco a correr pelo quintal, parava de repente, punha-se a desafiar as pessoas e, depois desatava de novo a correr, até estar com a língua de fora. Comia que se fartava, quando bebia água fazia um grande estardalhaço, molhando tudo o que estava à volta.
Claro que, eu já não lhe conseguia pegar ao colo, mas ele punha as patorras nos meus ombros, encostava o focinho à minha cara e dava lambidelas.
Cresceu muito, mas continuava maluco de todo. Só o meu pai e eu, não tínhamos medo dele. Não era mau, mas as vizinhas tinham medo dele, por causa das corridas e saltos, que dava. O meu pai, mandou-lhe fazer um belo canil, com um parque vedado com rede alta. Mesmo assim, o Tejo tinha artes de subir para cima da casota, pular a rede e, lá começavam as maluquices e, lá vinham as vizinhas mandar vir e, lá tinha a Maria ou, o pai, de o meter outra vez na casota.
Uma noite, o meu pai, quis mostrá-lo a um amigo. Fomos ao quintal, abri-lhe a porta, ele saiu, mas não levantava a cabeça. Estava escuro e eu não reparei, que ele estava a roer um osso. Toquei-lhe na cabeça e, ele atirou-se a mim, mordeu-me os braços e os ombros. O meu pai, agarrou-o pela coleira, puxou-o e, só aí, ele viu quem é que tinha mordido. Furioso, o meu pai, bateu-lhe. Ele gania e, eu cheia de dores, só pedia ao meu pai, para não lhe bater. Por fim, lá ficou na casa dele, ganindo baixinho. Eu fui-me deitar, já com as feridas tratadas. De manhã, fui-lhe dar de comer, como todos os dias.
O meu pai, não queria, mas eu sabia que, ele não vira quem tinha mordido.
Quando abri a porta do canil, ele veio ter comigo, com a barriga pelo chão e, uns olhos onde havia um pedido de desculpas. Gania, tentava lamber-me as mãos que na véspera tinha mordido. Sabem? Ele não teve culpa. Nenhum, ou quase nenhum cão, gosta que lhe toquem, quando está a comer.
Continuámos amigos e, nunca mais mordeu ninguém.
O meu Tejo, não era mau e, gostava de mim e eu dele.
Foi mais um amigo que me deu alegria, companhia, amor. Só me fez chorar duas vezes: Quando se roçou no chão, a pedir desculpa e, no dia, em que o perdi.
Também, quem é que se lembra, de chamar Tejo, a um cão nascido no Porto? É claro que, o cão ficou traumatizado! :)
Beijinhos.