quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 23


Foi este o nome da primeira história e vai ser o da última. Esta é mais carta do que história.
Entre a primeira e a última, a Maria cresceu, passou os anos rapidamente, através dos animais que por aqui passaram.
Neste momento já é a Maria com 64 anos, mulher, mãe, avó e amiga quem escreve.
Foi muito bom voltar atrás, rever velhos amigos, mas o Ano Velho vai acabar e vem aí um Ano Novo em folha. Espero que para todos seja um Bom Ano. Para os meus pequeninos fica a promessa de voltar na Páscoa. Estudem, brinquem, procurem ser felizes e fazer felizes os outros. Tentem aprender a gostar de ler.
Há histórias e livros de vários escritores que estou certa de que iriam gostar.
O Nabão já falou em 2: “Bichos” de Miguel Torga e “Cão como nós” de Manuel Alegre. Vou falar-vos de mais alguns: “Cinco réis de gente”, “Arca de Noé III classe”, “O livro de Marianinha” e o “Malhadinhas”, de Aquilino Ribeiro; “A menina do Mar” e “O Cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner Anderson; “Constantino, guardador de porcos e de sonhos” de Alves Redol. E tantos, tantos outros, portugueses e estrangeiros. Ler é ver o mundo sem sair de casa. Isto não é sermão, é um simples conselho de alguém que sempre viveu e continua a viver no meio dos livros. O Nabão tem razão: eu gosto tanto de livros, como ele de “Línguas de gato”.
Para os mais velhos: A velha Maria deseja para vós, o que deseja para ela: Paz, Amor, Amizade, Saúde e alguns Euros para gastar.
Para todos vão beijinhos e a Amizade da
Maria


Bom Ano Novo

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 22


Qualquer pessoa pode ter um aquário. Desde aquelas taças redondas com um peixinho dourado lá dentro, até aquários grandes com várias espécies misturadas. É bonito, dá um certo ar de frescura e dizem que acalma.
Um dia, o meu marido e o meu filho mais velho, mergulhadores experientes, resolveram ter algo mais: um enorme aquário de água salgada. Construíram-no com todos os requintes, puseram filtros de limpeza, bombas de oxigenação, areia e algas. Resolveram que a água teria mesmo que ser do mar. Aqui começou a odisseia. Foram à Ericeira buscar cerca de 25 garrafões de água do mar. A seguir foram as caçadas no Portinho da Arrábida dos peixes, que tinham que ser pequenos e variados. Mais não sei quantas viagens, mais algumas aventuras.
Um dia apanharam um pequeno polvo que vieram pôr dentro de um garrafão, ao pé de mim. Estava eu, como é hábito, a ler, sinto uns pingos a caírem-me numa perna. Julguei que era o Vasco a salpicar-me e refilei. Pouco depois, sinto uma coisa subir-me a perna, olho e dei um salto, gritei, assustei as pessoas à minha volta. Era o polvo, o lindo polvinho agarrado à minha perna.
Vieram peixes, polvo, uma pequena santola, caranguejos, uma garoupa pequenina, que eu adorava e um peixe esquisito chamado marachomba. Tudo pequenino. Estava lindo de verdade.
Uma noite estávamos a ver televisão, olho para o chão e vejo o que me pareceu ser uma enorme aranha. Não era. Era um carangueginho lindo e esperto, que se tinha evadido do aquário. Voltou para lá, mas gostando do passeio, voltou e vinha com os irmãos. Isto, mais o facto de se comerem uns aos outros e à humidade que a água provocava, obrigaram-nos a novas viagens ao Portinho, para os devolver ao seu verdadeiro lugar.
Foi giro enquanto durou, mas jurei nunca mais ter aquários. Mas que era bonito, era.
Até amanhã com o último desta série.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 21


Hesitei muito antes de vos contar esta história. Primeiro porque acaba mal, segundo porque ainda me custa falar da Mimosa. Depois pensei que ela merecia aparecer aqui.
Encontrei-a na rua, perto de casa, com muitas feridas, uma patinha tão mal que quase se via o osso, uns restos de coleira e cheia de fome e sede. Não sei porquê, entre imensas pessoas, veio ter comigo e com o meu filho. Demos-lhe de comer e fomos com ela ao veterinário. Não era bonita, mas era alegre e simpática. O Nabão aceitou-a, num misto de desprezo e desconfiança. Pouco depois eram inseparáveis. Comia muito e depressa ficou gordinha e as feridas sararam. Tinha alguns defeitos: era porquinha, roía tudo. Uma noite quando cheguei a casa, tinha terra até à porta da rua, vasos virados em cima das carpetes e dos sofás. Outra vez comeu metade dos carapaus do jantar. Não era fácil lidar com ela. Quando lhe ralhava, em vez de ficar envergonhada, ficava tão contente, que dava vontade de rir. Era muito meiga, deixava o Nabão brincar com ela, brincava com tudo.
Uma manhã saiu de casa com o dono e o Nabão e não voltou. Uma bruta, com cara de mulher, carregou no acelerador, quando devia travar, bateu-lhe na cabeça, matou-a e fugiu. O meu marido vinha branco, o Nabão parecia aparvalhado, cheirava tudo o que era dela. Tive de deitar tudo fora. Ele durante dias parecia procurá-la em casa e na rua. Nós ficamos tristes, muito tristes, sobretudo o meu marido que assistiu a tudo.
É triste o fim da história. Mas houve partes boas. Ela foi feliz uns anos, deu-nos alegria e não sentiu a morte. Tudo e todos acabam um dia. A minha Mimosa durou pouco, mas foi feliz. Eu é que ao fim de tanto tempo, ainda choro quando penso nela. Sinto saudades da minha cadelinha, pouco bonita, um pouco burrinha, mas muito simpática e meiguinha.
Até amanhã com...

domingo, 28 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 20


Já uma vez contei a história do meu mocho sábio, que se chamava Arquimedes. Vou fazer um breve resumo para aqueles que não viram.
O Arquimedes, Memé para os íntimos, era um pequeno “mocho galego”, de grandes olhos, manso e meigo. Sendo uma “ave de rapina” nada tinha a ver com elas. Andava solto, pousava em nós, dava bicadinhas meigas que nunca feriram ninguém. Era brincalhão, como um gato ou um cão pequenos.
Ora nessa altura tinhamos também um passarinho muito pequenino, um “bico de lacre”, chamado “Piu-Piu”. Já era velhinho, mas vivia feliz na sua gaiola, vizinha da do mocho.
Um dia de verão saímos e deixei as janelas abertas, para eles ficarem mais frescos. Levantou-se vento e, quando chegamos a gaiola do passarinho estava no chão, partida e vazia. Ficamos muito aflitos, procurámos o passarinho por todo o lado e... nada. Todos desistiram, mas eu ouvia o piar baixinho, do meu Piu-Piu. Diziam-me que eu estava a ouvir coisas, para desistir, mas eu continuei à procura. Ao fim de um bocado encontrei-o. Sabem onde? Encostado à gaiola do mocho, todo encolhidinho, mas vivo e sem uma ferida sequer. Ele procurou o amparo do amigo e este não lhe fez mal.
Nenhum animal é mau por querer. Esta ave de rapina, que em liberdade teria comido o pequeno passarinho, aqui com a barriguinha cheia, nem o bicou.
Dois amigos estranhos? Não. Estranhos são os humanos que não respeitam os animais, nem os outros humanos.
A história de hoje é inteiramente verdadeira. Há quatro testemunhas dela: eu, o meu marido e dois dos meus filhos.
O Memé já contei como morreu. O outro morreu com catorze anos, o que para um pássaro daqueles é muito tempo.
Até amanhã com...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 19


Como sabem, há cães de várias raças. Uns são unicamente cães de companhia, outros são cães de guarda, pastores, policias, até.
Conforme as raças, a educação e o temperamento dos cães, são usados para os mais diferentes “trabalhos”. Como são grandes amigos do homem, até há alguns que são “guias” de pessoas invisuais, ajudam outras pessoas com deficiências, procuram pessoas desaparecidas, enfim, são úteis.
Este de quem vou hoje falar, era um “Epagneul Breton”, cão de caça, por vocação e educação. De ascendência francesa, mas nascido no Alentejo, foi desde pequenino, habituado a caçar. Era bom no seu trabalho, muito leal ao dono e obediente. Fora da caça era um animal dócil, amigo das crianças, adorava queijo Alentejano e bolos.
Os anos passaram, o Pipo deixou de ir à caça e o dono também.
De vez em quando, para provar que ainda servia para alguma coisa, apanhava um rato e ia pô-lo à entrada da porta, para os donos verem.
Há uns meses começou a andar triste, não comia e a dona foi com ele ao veterinário. O Pipo já tinha 19 anos, era um cão velhinho. O doutor ainda lhe deu vitaminas, mas uma manhã, quando a dona ia a sair, chegou-se a ela, olhou-a e adormeceu para sempre. A dona chorou horas. Ainda agora quando se fala dele, chora.
O Pipo foi um cão feliz. Correu o seu Alentejo atrás de caça, ajudou o dono a apanhá-la, teve comida, abrigo, carinho e quando chegou ao fim, acabou junto da dona que gostava muito dele.
Eu não concordo com a caça, já o disse. Mas gostava do Pipo e tive pena dele e da dona. Por isso contei esta história, um bocadinho triste, mas a vida também nem sempre é alegre.
Até amanhã com...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 18


Pois é verdade. Eu Nabão tenho que confessar, que pirateei o Blogue da minha dona, Maria. É que sinceramente, ando aqui à volta há uns poucos de dias à espera que ela escreva sobre mim e nada. Agora apanhei-a distraída e resolvi contar eu, a minha história.
Nasci na Areia, perto de Cascais. A minha mãe chama-se Estrelinha e o meu pai é um cão lá do sítio. Quando nasci, nasceram mais três manos, mas como nascemos em Agosto e estava muito calor, dois deles não resistiram. A dona da minha mãe levou-me para a “Feira da Boca do Inferno”, para ver se me arranjava dono.
Eu mal me aguentava nas pernas, mas acho que era muito giro.
A minha dona e o meu dono Vasco acharam-me graça, fizeram-me festinhas e eu olhei para eles com uns olhinhos redondos e meiguinhos. Quando a dona da minha mãe perguntou à minha dona se me queria, ela pegou-me ao colo e... Isto é o que ela conta, que eu não me lembro nada. Depois foi comprar leitinho para cachorrinhos, levou-me ao veterinário e eu passei a ser um cão muito cheio de mimo. Também foi giro porem-me um nome.
Calculem bem, que me queriam chamar “Chocolate”. Já viram nome mais esquisito? Lá por ser castanho, tinha de ser “Chocolate”! A minha sorte é que a minha dona detesta chocolate. Como está sempre a pensar na terra dela, que é Tomar, resolveu chamar-me “Nabão”, que é o nome do rio de lá. Eu já o vi e é lindo, como eu, aliás.
Até agora só contei o que ouvi. Agora sou eu mesmo a dizer quem sou.
Primeiro: Tenho 10 anos, tenho as vacinas em dia, sofro um bocadinho do estômago, o que é um problema, porque sou guloso, gosto de comer tudo e só me querem dar ração para não engordar, mas eu finto-os. Chego à rua e atiro-me à coisa mais nojenta que vejo e como-a. Levo uma sapatada, mas logo a seguir faço o mesmo. Em casa é pior. Vocês sabem o que são línguas de gato? Eu adoro, mas parece que me faz mal, se comer muitas.
Mas eu dou-lhes a volta. É tão fácil levar estes donos a certa, que às vezes, se eu soubesse o que é vergonha, ficava envergonhado.
Por exemplo: dou uns ganidos baixinhos, que a minha dona traduz para: “ o Nabão quer fazer chichi”, levam-me à varanda, eu faço ou finjo que faço e os donos limpam e dizem: “o Nabão é lindo”. Eu dou umas corridas, dou umas voltas e fico a olhar para a lata das línguas de gato. Lá me dão uma ou duas. Outras vezes chego ao pé deles, com uma borracha, um lápis, um lenço de papel na boca, mostro bem e se me tentam tirar as coisas, rosno com ar ameaçador. Aí, eles que são burrinhos de todo, dizem: “Nabão, toma bolinho”. Geralmente só quando vejo o bolinho é que largo o resto. Mas já me têm enganado. Fingem que vão dar e depois de terem o que querem, não dão. Azares!...
O que me vale é que vem cá a casa uma senhora, ajudar a dona e como gosta muito de mim, lá vai dando mais uns bolinhos.
Com isto tudo sou um cão feliz. Vou à rua com o dono, tenho papa, remédios, cobertores e montes de mimos.
Cá para mim, eu acho que eles são meus pais. Os da Areia nem os conheço.
Segundo: como sou um cão (dizem) decente, tenho de confessar alguns defeitos. Sou ciumento, tenho mau feitio, acho que mando nos donos, já tive a mania de morder, quando fico sózinho vingo-me, fazendo chichi onde não devo, mas sou meigo, amigo dos donos. Quando a dona está doente ou triste não saio de ao pé dela. Sei muitas palavras e percebo tudo o que me dizem. Não falo a língua deles, mas sei fazer-me entender muito bem.
E pronto. Este sou eu, Nabão, “Cão como nós”. A propósito, vocês já leram um livro com este nome? É de um tal Manuel Alegre. A dona gosta muito deste e de outro chamado “Bichos” que um grande escritor, chamado Miguel Torga escreveu. Eu não sei ler, mas se soubesse lia-os. Experimentem! A Maria passa a vida com os livros às voltas. Acho que ela gosta tanto deles, como eu das minhas “línguas de gato”.
Quero desejar a todos um Bom Natal, com algumas prendas e muito AMOR.
Beijinhos para todos do Nabão.

P.S. Ai que lá vem a chata da dona ver o que eu estou a fazer!...
Adeuzinho. Um dia volto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 17


A Tina Turra é uma caturra muito velhota e rezingona, que é do meu filho mais novo. Deu-lha a irmã no seu aniversário e ele adora-a. Já tem 13 anos. Gosta de assobiar e sabe muitas músicas. Desde árias clássicas à “raspa”, assobia tudo. Como berra muito alto, foi baptizada com o nome de Tina Turra, por causa da Tina Turner. Além de tudo também tinha umas belas pernas.
Foi casada com o Ike Turro, mas enviuvou. Depois disso nunca mais teve companheiro, mas acho que não lhe faz falta.
Eu gosto de a arreliar um bocadinho e ela não gosta lá muito de mim. De quem ela gosta mesmo é do Vasco. Vive na casa dele e deve pôr a cabeça em água às vizinhas.
Dizem que as caturras duram muito e eu espero que seja verdade.
Apesar de tudo gosto dela, mas acho que podia fazer menos barulho.
Até amanhã com...