quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ponto de encontro


Já há bastante tempo que esta ideia anda a martelar-me a cabeça: onde estarão as minhas primeiras colegas de escola? Que será feito delas?
Estou a referir-me às meninas que entraram para a 1º classe da Escola Primária de Além da Ponte em Outubro de 1951. A nossa professora era a Senhora Dona Emília Duque. Muitas de nós andámos juntas até à 4ª classe e no 1º ano no Colégio Nun'Ávares. Depois eu fui para o Porto e perdi-as de vista. Tudo o que me resta desse tempo, são lembranças boas, nomes dispersos : Jú, Lena, Gica, Eduarda, Elvira, Sofia, Mariana, Walda... Rostos de crianças como eu de bibes brancos. E um tesouro: 2 fotos tiradas na 3ª classe, durante um passeio à Batalha e à Nazaré.
Se alguém aqui se conhecer, peço o favor de me contactar. Depois eu direi quem sou. Só adianto que tinha umas grandes tranças, era boa aluna a História, bastante razoável no resto, tirando a desenho a que era péssima.
Como gostava de vos ver, meninas da minha escola! Quando vou a Tomar, procuro ver um rosto que me lembre alguma de vós. Ainda tentei encontrar algumas através da morada, mas nada consegui.
Apareçam por favor! Ai como queria ver-vos.
Até um dia destes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ninho vazio


A minha casa tem cinco assoalhadas. Quando a vim habitar estava quase vazia de móveis e parecia enorme. No entanto havia um casal novo, dois filhos pequeninos, vasos com flores do campo, muito amor, muita alegria e pouco dinheiro. Todo o dia se ouvia barulho. Crianças a palrar, música de um velho gira-discos, amigos que vinham tocar com o meu marido. Ele trabalhava na altura nos estúdios e só entrava às quatro da tarde, assim como os outros dois. Juntavam-se aqui em casa e desafinavam algumas horas. Um trombone de varas (o meu marido), um saxofone e uma viola. Faziam (des)concertos que duravam horas. Os putos comiam, dormiam, brincavam ao som daquela barafunda. Malucos? Sem dúvida nenhuma, mas felizes. Às vezes eu fazia almoço para todos, sempre o mesmo prato. Todos colaboravam nas compras. Com meio frango, uma lata de salsichas, outra de ervilhas, algumas lulas, miolo de berbigão (por 3$00 comprava 1Kg) e arroz, fazia um belo “arroz à moda de Odivelas”, receita que a Madre Paula me deixou. Só vos digo que regadinho por umas Sagres era uma delícia. Tinha outros ingredientes: amizade, camaradagem e juventude... Será que o B. A. e o A. S. se lembram?
E agora perguntam vocês, a que propósito vem esta história? Eu digo. Hoje a casa é a mesma, só que está cheia de móveis, mas de repente parece mais vazia.
Chegámos a ser cinco. Ficámos dois e o Nabão. Nada de novo. Já assim é há quase dois anos, desde que o Vasco foi para a sua casa. Agora esteve cá uns dias e pareceu-me ter voltado atrás no tempo.
Porque é que os filhos crescem e vão embora? Pois... nós fizemos o mesmo, é a vida, até os passarinhos deixam os ninhos dos pais... Frases. Só frases. Estou farta de as ouvir, estou farta de as dizer. Mas que adianta? A casa está igual, tirando os benditos enfeites de Natal que já me começam a irritar. E aqui estamos nós (e o Nabão, claro) fingindo que está tudo bem, tudo certo. Sentindo o vazio da casa e continuando apesar disso felizes porque estamos os dois, felizes porque ao fim de 42 anos em algumas coisas ainda somos os mesmos e nos temos um ao outro. Eles, os filhos, um dia talvez sintam o mesmo e então talvez encontrem explicação para algumas coisas que hoje não entendem.
Bem. Vou tirar os enfeites. É que me estão mesmo a irritar.
Até um dia destes.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Ano Novo

Aonde ficaram as esperanças de que este ano seria diferente? Ainda agora começou e já as bombas caem, morrem crianças inocentes, a terra volta a tremer na Indonésia, as notícias escorrem sangue e terror.
Há três dias tudo era festa e alegria. Um ano terminava e todos festejavam o Ano Novo cheios de ilusões. Mas ele quis-nos mostrar logo de início que o que nos esperava era mais do mesmo.
Estou amarga hoje. Dói-me a alma. Não consigo alinhavar nada de jeito. Não consigo sentir nem dar esperança.
E tremo. Como tremo pelos mais novos, aqueles que vão viver neste mundo que não entendo.
Hoje sou uma péssima companhia. Estou triste, sem esperança, sem fé, sem confiança.
Vou tentar dormir. Talvez amanhã o céu já esteja azul e eu volte a ter essas três coisas que me fazem falta como pão para a boca.
Até um dia destes.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Sugestões para quem comeu muito durante as Festas

É evidente que todos, ou quase todos nós, nos excedemos na comida e bebida durante estes dias. É evidente, é natural e até tradicional. Não estou portanto, a criticar ninguém. Mas também é evidente que depois de passada a euforia, começam as queixas: uns quilitos a mais, o estômago e o fígado avariados, a saia que não aperta, o cinto que precisa de outro furo... E começam as dietas, as promessas de ter cuidado com o que iremos comer e beber num dia mais ou menos próximo.
Porque sou vossa amiga, fui à minha vasta colecção de livros de culinária, procurar uma forma de vos dar uma ajuda.
Entre eles o que me deu melhores ideias, foi “Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues, Mestre de cozinha de Sua Majestade, El-rei D. João V .
É um livro completissimo. Além de receitas espantosas, ensina a pôr a mesa, tem listas de banquetes para embaixadores e outros personagens importantes e um menu para toda a semana normal. Foi aqui que encontrei o que queria partilhar convosco. Sendo hoje sexta-feira, logo, dia de não comer carne, é além disso bastante leve.
Passo a transcrevê-la:
Primeira iguaria: Gemas de ovos em manteiga, depois sopa de natas com letria.
Segunda iguaria: Linguados recheados assados, guarnecidos de azevias assadas de molho castelhano.
Terceira iguaria: Corvina de conserva, guarnecida com besugos pequenos.
Quarta iguaria: Tigelada de chocos.
Quinta iguaria: Empadas de salmonetes.
Sexta iguaria: Pasteis de marisco.
Sétima iguaria: Peixe frito.
Oitava iguaria: Ovos-moles.
Doces frios e frutas no fim.

Como podem ver, nada mais simples, fácil, barato e sobretudo, levesinho.
Cabe aqui dizer que neste tempo todas as sextas-feiras a carne era proibida.
Hoje esse costume só é respeitado por alguns, entre os quais me incluo, na “Sexta-feira Santa”
Experimentem e depois digam se resultou. Eu sinceramente tenho que confessar que me sinto ligeiramente enjoada, mas não sou bom exemplo porque como pouco.
Qualquer dia destes irei ensinar-vos, como receber em casa, um embaixador.
Até um dia destes.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Parabéns meu neto


Já dez anos. O tempo passa, tu cresces a avó está cada vez mais velha.
Deste-me dois anos de felicidade e alegria e a doçura de ter nos braços um bebé, para amar, alimentar, mudar fraldas, adormecer com velhas cantigas de embalar. E eu sei que tu ainda gostas de cantigas para dormir, por isso aqui vai a tua preferida, aquela que me pedes quando estás comigo. Aqui vão os versos da “canção da estrelinha” como lhe chamas. Vai também este postal antigo. Era em postais como este que a avó recebia os parabéns.
Meu querido: a avó gosta muito de ti e do tempo que te teve com ela.
Beijinhos e a “canção da estrelinha”, que se chama “Canção de embalar” e é de um poeta chamado Zeca Afonso.
Quando fores dormir, canta-a baixinho e faz de conta que a avó está a mexer na orelhinha.

Canção de embalar

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Zeca Afonso

Mais beijinhos e um dia feliz.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 23


Foi este o nome da primeira história e vai ser o da última. Esta é mais carta do que história.
Entre a primeira e a última, a Maria cresceu, passou os anos rapidamente, através dos animais que por aqui passaram.
Neste momento já é a Maria com 64 anos, mulher, mãe, avó e amiga quem escreve.
Foi muito bom voltar atrás, rever velhos amigos, mas o Ano Velho vai acabar e vem aí um Ano Novo em folha. Espero que para todos seja um Bom Ano. Para os meus pequeninos fica a promessa de voltar na Páscoa. Estudem, brinquem, procurem ser felizes e fazer felizes os outros. Tentem aprender a gostar de ler.
Há histórias e livros de vários escritores que estou certa de que iriam gostar.
O Nabão já falou em 2: “Bichos” de Miguel Torga e “Cão como nós” de Manuel Alegre. Vou falar-vos de mais alguns: “Cinco réis de gente”, “Arca de Noé III classe”, “O livro de Marianinha” e o “Malhadinhas”, de Aquilino Ribeiro; “A menina do Mar” e “O Cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner Anderson; “Constantino, guardador de porcos e de sonhos” de Alves Redol. E tantos, tantos outros, portugueses e estrangeiros. Ler é ver o mundo sem sair de casa. Isto não é sermão, é um simples conselho de alguém que sempre viveu e continua a viver no meio dos livros. O Nabão tem razão: eu gosto tanto de livros, como ele de “Línguas de gato”.
Para os mais velhos: A velha Maria deseja para vós, o que deseja para ela: Paz, Amor, Amizade, Saúde e alguns Euros para gastar.
Para todos vão beijinhos e a Amizade da
Maria


Bom Ano Novo

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Era uma vez a bicharada da Maria 22


Qualquer pessoa pode ter um aquário. Desde aquelas taças redondas com um peixinho dourado lá dentro, até aquários grandes com várias espécies misturadas. É bonito, dá um certo ar de frescura e dizem que acalma.
Um dia, o meu marido e o meu filho mais velho, mergulhadores experientes, resolveram ter algo mais: um enorme aquário de água salgada. Construíram-no com todos os requintes, puseram filtros de limpeza, bombas de oxigenação, areia e algas. Resolveram que a água teria mesmo que ser do mar. Aqui começou a odisseia. Foram à Ericeira buscar cerca de 25 garrafões de água do mar. A seguir foram as caçadas no Portinho da Arrábida dos peixes, que tinham que ser pequenos e variados. Mais não sei quantas viagens, mais algumas aventuras.
Um dia apanharam um pequeno polvo que vieram pôr dentro de um garrafão, ao pé de mim. Estava eu, como é hábito, a ler, sinto uns pingos a caírem-me numa perna. Julguei que era o Vasco a salpicar-me e refilei. Pouco depois, sinto uma coisa subir-me a perna, olho e dei um salto, gritei, assustei as pessoas à minha volta. Era o polvo, o lindo polvinho agarrado à minha perna.
Vieram peixes, polvo, uma pequena santola, caranguejos, uma garoupa pequenina, que eu adorava e um peixe esquisito chamado marachomba. Tudo pequenino. Estava lindo de verdade.
Uma noite estávamos a ver televisão, olho para o chão e vejo o que me pareceu ser uma enorme aranha. Não era. Era um carangueginho lindo e esperto, que se tinha evadido do aquário. Voltou para lá, mas gostando do passeio, voltou e vinha com os irmãos. Isto, mais o facto de se comerem uns aos outros e à humidade que a água provocava, obrigaram-nos a novas viagens ao Portinho, para os devolver ao seu verdadeiro lugar.
Foi giro enquanto durou, mas jurei nunca mais ter aquários. Mas que era bonito, era.
Até amanhã com o último desta série.