quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Um Gin, um cigarro, um narciso amarelo e uma lágrima


Lembras-te pai, das tardes de Verão
Quando vinhas da rua cansado do calor
“Um Gin com gelo, muita água não,
Arranja lá filha, faz lá esse favor”

E eram dois os Gins, eu também gosto.
Dois Gins e dois cigarros na varanda
Nas tardes calmas do fim do mês de Agosto
Com cheiro a mar e céu cor de lavanda.

Logo, à mesma hora que chegavas
Mesmo com chuva e até com frio
Eu vou beber o Gin que tu tomavas.

Vou repetir os gestos de nós dois.
Pego no copo e sinto um arrepio
Fumo o cigarro e vou chorar depois.

Para o meu sogro, um dos homens mais bonitos por fora e por dentro que conheci. A saudade imensa de todos nós e um beijo da sua “verrinosa”.
Sabes? O teu Estoril está em 5º lugar na Liga Honra.

Até um dia destes.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Um mal necessário

Os lares de terceira idade são um mal necessário. A verdade é que já não há tempo, casas grandes onde antigamente se juntavam facilmente três ou quatro gerações de uma família. A vida tal como é hoje, não permite isso. Daí, quando um idoso não consegue bastar-se a si mesmo, a solução lógica é interná-lo num Lar mais ou menos caro, mais ou menos acolhedor, mais ou menos tudo.
Não estou aqui a julgar ninguém, É a vida que a isso obriga. Há os empregos, quase sempre longe de casa, há a família que se formou, há o cansaço do dia a dia que não poupa ninguém. Falta de amor? Não. Deve ser difícil deixar entregue a estranhos a mulher que nos deu a vida, o homem que nos deu educação, comida e casa, até ao momento de termos a nossa. Fica assim claro que não estou a criticar ninguém. Pelo contrário, lamento-os. Mas vão-me perdoar se por outro lado, eu lamentar ainda mais os outros, os que lá ficam.
Pode ser o mais confortável, ter os melhores cuidados médicos e de enfermagem, pode ter senhoras extremamente simpáticas e cuidadosas, que tudo fazem para que os utentes se sintam bem. Pode ser tudo isto, mas é um lugar estranho, são pessoas estranhas, as que os cuidam. As visitas dos familiares são o bálsamo para aquela solidão acompanhada, para aquelas pobres plantas arrancadas do seu solo de tantos anos. Além disso, as visitas são poucas e breves. A vida continua cá fora à espera. E eles ficam sós no meio dos outros solitários como eles.
Ultimamente tenho ido com alguma frequência a um desses Lares. É, como se diz agora, “Um local simpático” e tem pessoal impecável. Venho sempre triste quando lá vou. Porquê? Primeiro porque lá deixo uma tia de quem gosto e vejo o véu de tristeza que lhe cobre os olhos. Segundo porque um dia irá chegar a minha vez. Lamento? Não. É isso que eu quero e será por minha vontade que para lá irei. Mas que é triste é.
Até um dia destes.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ponto de encontro


Já há bastante tempo que esta ideia anda a martelar-me a cabeça: onde estarão as minhas primeiras colegas de escola? Que será feito delas?
Estou a referir-me às meninas que entraram para a 1º classe da Escola Primária de Além da Ponte em Outubro de 1951. A nossa professora era a Senhora Dona Emília Duque. Muitas de nós andámos juntas até à 4ª classe e no 1º ano no Colégio Nun'Ávares. Depois eu fui para o Porto e perdi-as de vista. Tudo o que me resta desse tempo, são lembranças boas, nomes dispersos : Jú, Lena, Gica, Eduarda, Elvira, Sofia, Mariana, Walda... Rostos de crianças como eu de bibes brancos. E um tesouro: 2 fotos tiradas na 3ª classe, durante um passeio à Batalha e à Nazaré.
Se alguém aqui se conhecer, peço o favor de me contactar. Depois eu direi quem sou. Só adianto que tinha umas grandes tranças, era boa aluna a História, bastante razoável no resto, tirando a desenho a que era péssima.
Como gostava de vos ver, meninas da minha escola! Quando vou a Tomar, procuro ver um rosto que me lembre alguma de vós. Ainda tentei encontrar algumas através da morada, mas nada consegui.
Apareçam por favor! Ai como queria ver-vos.
Até um dia destes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ninho vazio


A minha casa tem cinco assoalhadas. Quando a vim habitar estava quase vazia de móveis e parecia enorme. No entanto havia um casal novo, dois filhos pequeninos, vasos com flores do campo, muito amor, muita alegria e pouco dinheiro. Todo o dia se ouvia barulho. Crianças a palrar, música de um velho gira-discos, amigos que vinham tocar com o meu marido. Ele trabalhava na altura nos estúdios e só entrava às quatro da tarde, assim como os outros dois. Juntavam-se aqui em casa e desafinavam algumas horas. Um trombone de varas (o meu marido), um saxofone e uma viola. Faziam (des)concertos que duravam horas. Os putos comiam, dormiam, brincavam ao som daquela barafunda. Malucos? Sem dúvida nenhuma, mas felizes. Às vezes eu fazia almoço para todos, sempre o mesmo prato. Todos colaboravam nas compras. Com meio frango, uma lata de salsichas, outra de ervilhas, algumas lulas, miolo de berbigão (por 3$00 comprava 1Kg) e arroz, fazia um belo “arroz à moda de Odivelas”, receita que a Madre Paula me deixou. Só vos digo que regadinho por umas Sagres era uma delícia. Tinha outros ingredientes: amizade, camaradagem e juventude... Será que o B. A. e o A. S. se lembram?
E agora perguntam vocês, a que propósito vem esta história? Eu digo. Hoje a casa é a mesma, só que está cheia de móveis, mas de repente parece mais vazia.
Chegámos a ser cinco. Ficámos dois e o Nabão. Nada de novo. Já assim é há quase dois anos, desde que o Vasco foi para a sua casa. Agora esteve cá uns dias e pareceu-me ter voltado atrás no tempo.
Porque é que os filhos crescem e vão embora? Pois... nós fizemos o mesmo, é a vida, até os passarinhos deixam os ninhos dos pais... Frases. Só frases. Estou farta de as ouvir, estou farta de as dizer. Mas que adianta? A casa está igual, tirando os benditos enfeites de Natal que já me começam a irritar. E aqui estamos nós (e o Nabão, claro) fingindo que está tudo bem, tudo certo. Sentindo o vazio da casa e continuando apesar disso felizes porque estamos os dois, felizes porque ao fim de 42 anos em algumas coisas ainda somos os mesmos e nos temos um ao outro. Eles, os filhos, um dia talvez sintam o mesmo e então talvez encontrem explicação para algumas coisas que hoje não entendem.
Bem. Vou tirar os enfeites. É que me estão mesmo a irritar.
Até um dia destes.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Ano Novo

Aonde ficaram as esperanças de que este ano seria diferente? Ainda agora começou e já as bombas caem, morrem crianças inocentes, a terra volta a tremer na Indonésia, as notícias escorrem sangue e terror.
Há três dias tudo era festa e alegria. Um ano terminava e todos festejavam o Ano Novo cheios de ilusões. Mas ele quis-nos mostrar logo de início que o que nos esperava era mais do mesmo.
Estou amarga hoje. Dói-me a alma. Não consigo alinhavar nada de jeito. Não consigo sentir nem dar esperança.
E tremo. Como tremo pelos mais novos, aqueles que vão viver neste mundo que não entendo.
Hoje sou uma péssima companhia. Estou triste, sem esperança, sem fé, sem confiança.
Vou tentar dormir. Talvez amanhã o céu já esteja azul e eu volte a ter essas três coisas que me fazem falta como pão para a boca.
Até um dia destes.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Sugestões para quem comeu muito durante as Festas

É evidente que todos, ou quase todos nós, nos excedemos na comida e bebida durante estes dias. É evidente, é natural e até tradicional. Não estou portanto, a criticar ninguém. Mas também é evidente que depois de passada a euforia, começam as queixas: uns quilitos a mais, o estômago e o fígado avariados, a saia que não aperta, o cinto que precisa de outro furo... E começam as dietas, as promessas de ter cuidado com o que iremos comer e beber num dia mais ou menos próximo.
Porque sou vossa amiga, fui à minha vasta colecção de livros de culinária, procurar uma forma de vos dar uma ajuda.
Entre eles o que me deu melhores ideias, foi “Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues, Mestre de cozinha de Sua Majestade, El-rei D. João V .
É um livro completissimo. Além de receitas espantosas, ensina a pôr a mesa, tem listas de banquetes para embaixadores e outros personagens importantes e um menu para toda a semana normal. Foi aqui que encontrei o que queria partilhar convosco. Sendo hoje sexta-feira, logo, dia de não comer carne, é além disso bastante leve.
Passo a transcrevê-la:
Primeira iguaria: Gemas de ovos em manteiga, depois sopa de natas com letria.
Segunda iguaria: Linguados recheados assados, guarnecidos de azevias assadas de molho castelhano.
Terceira iguaria: Corvina de conserva, guarnecida com besugos pequenos.
Quarta iguaria: Tigelada de chocos.
Quinta iguaria: Empadas de salmonetes.
Sexta iguaria: Pasteis de marisco.
Sétima iguaria: Peixe frito.
Oitava iguaria: Ovos-moles.
Doces frios e frutas no fim.

Como podem ver, nada mais simples, fácil, barato e sobretudo, levesinho.
Cabe aqui dizer que neste tempo todas as sextas-feiras a carne era proibida.
Hoje esse costume só é respeitado por alguns, entre os quais me incluo, na “Sexta-feira Santa”
Experimentem e depois digam se resultou. Eu sinceramente tenho que confessar que me sinto ligeiramente enjoada, mas não sou bom exemplo porque como pouco.
Qualquer dia destes irei ensinar-vos, como receber em casa, um embaixador.
Até um dia destes.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Parabéns meu neto


Já dez anos. O tempo passa, tu cresces a avó está cada vez mais velha.
Deste-me dois anos de felicidade e alegria e a doçura de ter nos braços um bebé, para amar, alimentar, mudar fraldas, adormecer com velhas cantigas de embalar. E eu sei que tu ainda gostas de cantigas para dormir, por isso aqui vai a tua preferida, aquela que me pedes quando estás comigo. Aqui vão os versos da “canção da estrelinha” como lhe chamas. Vai também este postal antigo. Era em postais como este que a avó recebia os parabéns.
Meu querido: a avó gosta muito de ti e do tempo que te teve com ela.
Beijinhos e a “canção da estrelinha”, que se chama “Canção de embalar” e é de um poeta chamado Zeca Afonso.
Quando fores dormir, canta-a baixinho e faz de conta que a avó está a mexer na orelhinha.

Canção de embalar

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Zeca Afonso

Mais beijinhos e um dia feliz.