segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Férias, uma garrafa de porto, 3 cálices e muita juventude


Há cerca de 49 anos, passei um mês de férias com um casal amigo dos meus pais, numa pequena aldeia, chamada São Bartolomeu do Mar, a uns quilómetros de Esposende. Lá conheci, uma prima da amiga com quem fora, uns anos mais velha do que eu, casada e com uma filha pequenina. Tornámo-nos muito amigas. Eles tinham alugado uma barraca de pescadores, que ficava numa ponta do vasto areal. De manhã íamos à praia, mas à tarde, geralmente a ventania era tanta, que não saíamos de casa. A menina dormia a sesta e nós abancávamos à mesa, perto da janela, com a garrafa, os cálices, bolacha Maria, às vezes os dados e conversa para a tarde toda. Todos gostávamos de falar e contar histórias. Ele, mais velho do que a mulher, sobrinho de um conhecido escritor, inteligente, professor de surdos-mudos, tinha uma enorme cultura e grande conhecimento do Porto de outras eras; Ela, pertencia a uma das boas famílias do Porto. Tiveram um romance atribulado, tinham uma vida apertada, mas eram felizes. Discutíamos História, Literatura, até política. O nível da garrafa descia e, para falar verdade o da conversa também. Vinham as anedotas, a má língua, as aventuras e desventuras dos conhecidos. No dia seguinte, um de nós ia à ti’ Albina, misto de tasca, mercearia, retrosaria, talho, buscar outra garrafa, a mais barata claro, e as bolachas.
Às vezes à noite, esvaziado o estábulo das vacas da ti’Albina, ligado o gerador, ligada a televisão, quem queria ver o programa, levava a cadeira ou o banco de casa, pagava 1$00 e via, mais ou menos às riscas, “A Dama das Camélias”, “As duas Órfãs”, “Os três Mosqueteiros”, com direito a leitura das legendas em voz alta e ao agradável e saudável, cheiro a estrume de vaca.Porque me veio tudo isto hoje à memória? Porque bebi um cálice de Porto à saúde de um familiar que faz anos.
Mais uma vez, a saudade bateu à porta da minha alma. A maioria dos meus companheiros dessas férias, ou morreram, ou nada sei deles.
Dos meus dois companheiros dessas tardes, sei que ele morreu. Dela e da filha nada sei e tenho pena.
Comecei a brincar, acabo triste. Saudades Tony, onde estiveres. Saudades Lai. Por onde andas?
E São ”Bartolonosso”, ainda terá o “banho santo”, no fim de Agosto?
Ai meus 15, aonde vocês vão!
Até um dia destes.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Confiança merecida

Meu pai era funcionário judicial, como já disse.
Não era um trabalho que lhe agradasse muito, pelo menos algumas das funções que lhe estavam atribuídas. Estando no Tribunal do Trabalho, havia duas coisas que ele abominava: assistir a autópsias e fazer penhoras.
Estas últimas, faziam-no por vezes, ir a lugarejos longínquos, ermos, com caminhos que nem as cabras corriam.
Acompanhado por um oficial de diligencias e a pistola regulamentar, lá ia, com chuva, frio, ou calor de rachar. Chegava a casa maldisposto, indignado com o papel que era obrigado a fazer. Às vezes, via-se obrigado a penhorar coisas, que sabia que iriam fazer falta, a quem sem elas ficava.
Um dia, foi a um lugarejo, entre Tomar e Ferreira do Zêzere, perdido entre pinhais e, deu de cara com um homem desesperado, que lhe apontou uma caçadeira. Tentou dissuadi-lo, mas o homem queria de qualquer forma defender os seus parcos haveres. Contrariado, apontou-lhe a pistola e deu-lhe voz de prisão. Trouxe-o para Tomar e entregou-o na cadeia. Foi para casa, não jantou. Deitou-se e não conseguia dormir. Às tantas, levantou-se, vestiu-se e foi direito à cadeia, que ficava próxima da casa que habitávamos. Acordou o carcereiro, falou com o homem, libertou-o, emprestou-lhe a bicicleta que então possuía, dizendo-lhe que no dia seguinte teria que estar à porta do Tribunal, às 9 da manhã. O homem não falou, não prometeu nada, mas abalou para casa. Ele voltou para casa, calmo, dormiu o resto da noite. No outro dia, a minha mãe estava inquieta. “E agora se o homem não vem, o que é que fazes?” Ele, muito sossegado, respondeu: “Vem. Tenho a certeza que vem”. Tomou o pequeno almoço, fumou um cigarro, desceu as escadas e, a primeira pessoa que viu, foi o homem. Tudo se resolveu em bem. E o meu pai ganhou um amigo. Um amigo, que do pouco que tinha, repartia com ele. Quando vinha a Tomar, havia sempre um saquito de azeitonas, um queijo, às vezes uma garrafa de azeite ou vinho.
Igualaram-se um ao outro. Um porque confiou, o outro porque mereceu a confiança. Eram assim os homens deste país. Bastava um aperto de mão, para selar um pacto de confiança, um fio de barba, para garantir um juramento.
Onde estão esses homens? Em quem se pode confiar, ainda?
Até um dia destes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Balas e... Balas


Não se assustem. Não vou falar de guerra, nem de assaltos. Vou fazer a vontade a uma amiga nossa, a Nemy, que tendo conhecido o meu pai, me pediu mais histórias dele. Ele estava quase sempre bem disposto e tinha histórias a propósito de tudo. Além disso, pelava-se por fazer partidas.
Havia, ou há uma casa no Porto, onde um pobre empregado tremia quando o via. Nunca sabia com que disposição o meu pai vinha.
Apareceram certo dia, umas garrafas metálicas, com um maquinismo, onde se inseria um pequeno objecto, chamado bala, cheio de CO2. Garrafa cheia de água da torneira, bala metida na tampa, um pequeno sopro e, lá estava ela, a bela água gaseificada, para o wisky do papá. As ditas balas vendiam-se em caixas de 6 ou 12 .
Um dia as ditas balas de sifão (era este o nome da garrafa) acabaram. Meu pai dirigiu-se à tal loja e, educadamente pediu uma caixa de balas. Aí começou a confusão. O homensinho, à força que queria a ”licença de porte de arma” do meu pai. Este, trocista dizia-lhe que não precisava dela e que levaria as balas. O pobre homem, tentava explicar que não podia vender balas sem licença. O meu pai teimava que sim.
Ao fim de quase meia hora de conversa, o empregado foi chamar o patrão. Este voltou e perguntou ao meu pai pela licença. Então, este abriu a carteira, sacou da licença (era funcionário judicial) e, com o ar mais cândido do mundo, quando lhe foi perguntado que balas desejava, respondeu: ”São balas para sifão, amigo. Não sabia que era preciso licença!”
Desfeito o equivoco, pedidas e concedidas as desculpas da ordem, tudo se resolveu. Isto é: resolveu-se para o meu pai e o dono da loja. O empregado, desde esse dia, ficava pálido, quando via o meu pai. Se calhar era por causa dele ter mesmo “licença de porte de arma”.
Com este pobre empregado passou-se outra história, igualmente cómica, mas fica para outro dia.
Pronto, Nemy. Aqui está mais uma do teu amigo.
Até um dia destes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aniversários


Há dias no ano, que parecem destinados a nascimentos. No dia de hoje e só na minha família próxima, há três aniversários. Quer dizer, houve, pois já nenhum dos três aniversariantes existe. Eu, que sofro horrores nos dias em que faz anos que alguém morreu, nestes de nascimento recuso-me a ficar triste. Lá porque já cá não estão e me fazem falta, não deixo de sentir uma certa alegria, porque nasceram e fizeram parte da minha vida. E conheci-os, porque eles nasceram.
Resumindo: Tio Pinto, parabéns, saudades, obrigada por todos os mimos.
Tiozinho Henrique, parabéns, saudades, obrigada pela cumplicidade que entre nós existiu.
Minha querida comadre: parabéns, saudades, obrigada pela tua amizade por mim e pelo amor pelo teu afilhado.
Esta última custou um bocadinho. É mais recente. A lagrimita da ordem veio aos olhos. Toma conta de nós, meu lírio branco.
Por último, parabéns à minha neta, pelo aniversário do pai.
Já armei em valente. Agora, vou fumar um cigarrito para esquecer.
Até um dia destes.

sábado, 17 de janeiro de 2009

No tempo das amplas liberdades...

A história que tenho hoje para contar, passou-se há largos anos.
Como é do conhecimento geral, antes do 25 de Abril os filmes eram censurados e alguns nem chegavam aos cinemas. É claro que filmes pornográficos eram praticamente desconhecidos em Portugal. Por exemplo célebre “O último tango em Paris” com Marlon Brando, só cá chegou, quando já era quase considerado um filme para” menores”. Nunca me vou esquecer do escândalo, com direito a castigos e tudo, quando a RTP passou o “indecentíssimo” “Pato com Laranja”.
Ora, depois do 25 de Abril, havia em Lisboa salas de cinema vocacionadas para os ditos filmes. Eram frequentadas, sobretudo, por senhores de meia idade, curiosos de verem o que lhes tinha sido interdito toda a vida.
Dois amigos íntimos, ligados por laços familiares, resolveram cada um por seu lado, ir ver um desses filmes. Já dentro da sala e, com grande espanto, um deles viu o outro. Encolheu-se na cadeira, abriu o jornal e só o fechou quando as luzes se apagaram. O outro viu e fez o mesmo. Saíram sem se falarem, esgueirando-se cada um para seu lado. O pior é que ambos escolheram o mesmo confidente para contarem a “vergonhosa aventura” em que se tinham metido. O confidente era genro de um e filho do outro. A história soube-se e a partir daí, passaram a ir os dois juntos, ver quantos filmes da “Emanuelle”, passaram nos cinemas. Só as respectivas esposas ignoravam ou faziam por isso.
Eu sabia, porque o filho e genro destes dois “envergonhados” senhores, era o meu marido, mas fiz sempre de conta. É que o respeitinho é muito bonito.
Até um dia destes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Um Gin, um cigarro, um narciso amarelo e uma lágrima


Lembras-te pai, das tardes de Verão
Quando vinhas da rua cansado do calor
“Um Gin com gelo, muita água não,
Arranja lá filha, faz lá esse favor”

E eram dois os Gins, eu também gosto.
Dois Gins e dois cigarros na varanda
Nas tardes calmas do fim do mês de Agosto
Com cheiro a mar e céu cor de lavanda.

Logo, à mesma hora que chegavas
Mesmo com chuva e até com frio
Eu vou beber o Gin que tu tomavas.

Vou repetir os gestos de nós dois.
Pego no copo e sinto um arrepio
Fumo o cigarro e vou chorar depois.

Para o meu sogro, um dos homens mais bonitos por fora e por dentro que conheci. A saudade imensa de todos nós e um beijo da sua “verrinosa”.
Sabes? O teu Estoril está em 5º lugar na Liga Honra.

Até um dia destes.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Um mal necessário

Os lares de terceira idade são um mal necessário. A verdade é que já não há tempo, casas grandes onde antigamente se juntavam facilmente três ou quatro gerações de uma família. A vida tal como é hoje, não permite isso. Daí, quando um idoso não consegue bastar-se a si mesmo, a solução lógica é interná-lo num Lar mais ou menos caro, mais ou menos acolhedor, mais ou menos tudo.
Não estou aqui a julgar ninguém, É a vida que a isso obriga. Há os empregos, quase sempre longe de casa, há a família que se formou, há o cansaço do dia a dia que não poupa ninguém. Falta de amor? Não. Deve ser difícil deixar entregue a estranhos a mulher que nos deu a vida, o homem que nos deu educação, comida e casa, até ao momento de termos a nossa. Fica assim claro que não estou a criticar ninguém. Pelo contrário, lamento-os. Mas vão-me perdoar se por outro lado, eu lamentar ainda mais os outros, os que lá ficam.
Pode ser o mais confortável, ter os melhores cuidados médicos e de enfermagem, pode ter senhoras extremamente simpáticas e cuidadosas, que tudo fazem para que os utentes se sintam bem. Pode ser tudo isto, mas é um lugar estranho, são pessoas estranhas, as que os cuidam. As visitas dos familiares são o bálsamo para aquela solidão acompanhada, para aquelas pobres plantas arrancadas do seu solo de tantos anos. Além disso, as visitas são poucas e breves. A vida continua cá fora à espera. E eles ficam sós no meio dos outros solitários como eles.
Ultimamente tenho ido com alguma frequência a um desses Lares. É, como se diz agora, “Um local simpático” e tem pessoal impecável. Venho sempre triste quando lá vou. Porquê? Primeiro porque lá deixo uma tia de quem gosto e vejo o véu de tristeza que lhe cobre os olhos. Segundo porque um dia irá chegar a minha vez. Lamento? Não. É isso que eu quero e será por minha vontade que para lá irei. Mas que é triste é.
Até um dia destes.