sábado, 31 de janeiro de 2009

Porque não conhecia eu o “Guronsan”?



A minha sogra vivia em Cascais, numa casa enorme e bem situada.
Havia o hábito de chegado o Verão, alugar a casa ou parte dela, aos veraneantes. Ela, geralmente, alugava a casa toda, salvo um compartimento onde guardava as coisas que não deviam servir aos inquilinos. Tinha na altura, a casa da mãe, para onde se mudava de armas e bagagens. Os inquilinos já eram certos. Alugavam a casa todos os anos.
Nós, filhos e netos, íamos passar férias em Junho. Julho e Agosto eram os meses mais procurados.
Ora, houve um ano, em que antes de me vir embora, fiz questão de a ajudar a arrumar a casa para os arrendatários.
Andava-mos as duas estafadas. Uma tarde, depois de almoço, pusemos os homens e criancinhas na rua e, fomos arrumar a enorme despensa. No meio da azáfama demos com um enorme frasco de vidro de boca larga, onde ela fazia a mais deliciosa “Ginjinha” que já bebi. No fundo do frasco restavam as ginjas. Resolvemos pô-las numa tigela e lavar o frasco. Só que, num ataque de gulodice, resolvemos provar as ditas. Provámos, comemos e, quando demos por isso, a tigela estava vazia e nós cheias de sono, tontas, impróprias para trabalhar. Deviam ser umas duas da tarde. Sentámo-nos no sofá, adormecemos e... acordámos com os homens a entrar em casa, para jantar, eram sete da tarde.
Fomos fazer o jantar, tontas, com a cabeça a rebentar de dor e enjoadas com o cheiro da comida.
Ora, se nessa altura houvesse o “Guronsan”, nada disto acontecia.
Nada, é um modo de dizer: tínhamos comido as ginjas, tínhamos dormido, mas ao acordar, teríamos tomado o comprimido mágico e, pronto.
Foi esta a maior bebedeira que apanhei, mas que saudades das ginjas e sobretudo, daquela que as partilhou comigo.
Não me importava de voltar atrás... com o “Guronsan” por perto.
A receita veio tarde demais, JC. Agora já estou velha para ressacas, mas obrigada pelo conselho.
Até um dia destes.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Rio Douro


Olhar um rio e achá-lo belo, é fácil. Amar um rio, conhecer-lhe os recantos, as margens, as cheias, é relativamente fácil.
O que é difícil, é conhecer, amar, entender, a alma de um Rio.
Só Torga o conseguiu. Só ele conseguiu conhecer e dar a conhecer, o abrupto, louco, terno e maravilhoso Rio, seus recantos, suas margens, seus perigos. Só ele soube ver, o verdadeiro Douro, Rio e Região, socalco a socalco, cepa a cepa, negrilhos, torgas, gentes, até o toque dos sinos das Igrejas.
Este pequeno trecho, vos dirá mais do que eu e as fotos.

Doiro

Corre, caudal sagrado
Na dura gratidão dos homens e dos montes!
Vem de longe e vai longe a tua inspiração...
Corre... magoado,
De cachão em cachão,
A refractar olímpicos socalcos
De doçura
Quente.
E deixa na paisagem calcinada
A imagem desenhada
Dum verso de frescura
Penitente.

Miguel Torga Diário XI Pagina 19

Até um dia destes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Férias, uma garrafa de porto, 3 cálices e muita juventude


Há cerca de 49 anos, passei um mês de férias com um casal amigo dos meus pais, numa pequena aldeia, chamada São Bartolomeu do Mar, a uns quilómetros de Esposende. Lá conheci, uma prima da amiga com quem fora, uns anos mais velha do que eu, casada e com uma filha pequenina. Tornámo-nos muito amigas. Eles tinham alugado uma barraca de pescadores, que ficava numa ponta do vasto areal. De manhã íamos à praia, mas à tarde, geralmente a ventania era tanta, que não saíamos de casa. A menina dormia a sesta e nós abancávamos à mesa, perto da janela, com a garrafa, os cálices, bolacha Maria, às vezes os dados e conversa para a tarde toda. Todos gostávamos de falar e contar histórias. Ele, mais velho do que a mulher, sobrinho de um conhecido escritor, inteligente, professor de surdos-mudos, tinha uma enorme cultura e grande conhecimento do Porto de outras eras; Ela, pertencia a uma das boas famílias do Porto. Tiveram um romance atribulado, tinham uma vida apertada, mas eram felizes. Discutíamos História, Literatura, até política. O nível da garrafa descia e, para falar verdade o da conversa também. Vinham as anedotas, a má língua, as aventuras e desventuras dos conhecidos. No dia seguinte, um de nós ia à ti’ Albina, misto de tasca, mercearia, retrosaria, talho, buscar outra garrafa, a mais barata claro, e as bolachas.
Às vezes à noite, esvaziado o estábulo das vacas da ti’Albina, ligado o gerador, ligada a televisão, quem queria ver o programa, levava a cadeira ou o banco de casa, pagava 1$00 e via, mais ou menos às riscas, “A Dama das Camélias”, “As duas Órfãs”, “Os três Mosqueteiros”, com direito a leitura das legendas em voz alta e ao agradável e saudável, cheiro a estrume de vaca.Porque me veio tudo isto hoje à memória? Porque bebi um cálice de Porto à saúde de um familiar que faz anos.
Mais uma vez, a saudade bateu à porta da minha alma. A maioria dos meus companheiros dessas férias, ou morreram, ou nada sei deles.
Dos meus dois companheiros dessas tardes, sei que ele morreu. Dela e da filha nada sei e tenho pena.
Comecei a brincar, acabo triste. Saudades Tony, onde estiveres. Saudades Lai. Por onde andas?
E São ”Bartolonosso”, ainda terá o “banho santo”, no fim de Agosto?
Ai meus 15, aonde vocês vão!
Até um dia destes.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Confiança merecida

Meu pai era funcionário judicial, como já disse.
Não era um trabalho que lhe agradasse muito, pelo menos algumas das funções que lhe estavam atribuídas. Estando no Tribunal do Trabalho, havia duas coisas que ele abominava: assistir a autópsias e fazer penhoras.
Estas últimas, faziam-no por vezes, ir a lugarejos longínquos, ermos, com caminhos que nem as cabras corriam.
Acompanhado por um oficial de diligencias e a pistola regulamentar, lá ia, com chuva, frio, ou calor de rachar. Chegava a casa maldisposto, indignado com o papel que era obrigado a fazer. Às vezes, via-se obrigado a penhorar coisas, que sabia que iriam fazer falta, a quem sem elas ficava.
Um dia, foi a um lugarejo, entre Tomar e Ferreira do Zêzere, perdido entre pinhais e, deu de cara com um homem desesperado, que lhe apontou uma caçadeira. Tentou dissuadi-lo, mas o homem queria de qualquer forma defender os seus parcos haveres. Contrariado, apontou-lhe a pistola e deu-lhe voz de prisão. Trouxe-o para Tomar e entregou-o na cadeia. Foi para casa, não jantou. Deitou-se e não conseguia dormir. Às tantas, levantou-se, vestiu-se e foi direito à cadeia, que ficava próxima da casa que habitávamos. Acordou o carcereiro, falou com o homem, libertou-o, emprestou-lhe a bicicleta que então possuía, dizendo-lhe que no dia seguinte teria que estar à porta do Tribunal, às 9 da manhã. O homem não falou, não prometeu nada, mas abalou para casa. Ele voltou para casa, calmo, dormiu o resto da noite. No outro dia, a minha mãe estava inquieta. “E agora se o homem não vem, o que é que fazes?” Ele, muito sossegado, respondeu: “Vem. Tenho a certeza que vem”. Tomou o pequeno almoço, fumou um cigarro, desceu as escadas e, a primeira pessoa que viu, foi o homem. Tudo se resolveu em bem. E o meu pai ganhou um amigo. Um amigo, que do pouco que tinha, repartia com ele. Quando vinha a Tomar, havia sempre um saquito de azeitonas, um queijo, às vezes uma garrafa de azeite ou vinho.
Igualaram-se um ao outro. Um porque confiou, o outro porque mereceu a confiança. Eram assim os homens deste país. Bastava um aperto de mão, para selar um pacto de confiança, um fio de barba, para garantir um juramento.
Onde estão esses homens? Em quem se pode confiar, ainda?
Até um dia destes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Balas e... Balas


Não se assustem. Não vou falar de guerra, nem de assaltos. Vou fazer a vontade a uma amiga nossa, a Nemy, que tendo conhecido o meu pai, me pediu mais histórias dele. Ele estava quase sempre bem disposto e tinha histórias a propósito de tudo. Além disso, pelava-se por fazer partidas.
Havia, ou há uma casa no Porto, onde um pobre empregado tremia quando o via. Nunca sabia com que disposição o meu pai vinha.
Apareceram certo dia, umas garrafas metálicas, com um maquinismo, onde se inseria um pequeno objecto, chamado bala, cheio de CO2. Garrafa cheia de água da torneira, bala metida na tampa, um pequeno sopro e, lá estava ela, a bela água gaseificada, para o wisky do papá. As ditas balas vendiam-se em caixas de 6 ou 12 .
Um dia as ditas balas de sifão (era este o nome da garrafa) acabaram. Meu pai dirigiu-se à tal loja e, educadamente pediu uma caixa de balas. Aí começou a confusão. O homensinho, à força que queria a ”licença de porte de arma” do meu pai. Este, trocista dizia-lhe que não precisava dela e que levaria as balas. O pobre homem, tentava explicar que não podia vender balas sem licença. O meu pai teimava que sim.
Ao fim de quase meia hora de conversa, o empregado foi chamar o patrão. Este voltou e perguntou ao meu pai pela licença. Então, este abriu a carteira, sacou da licença (era funcionário judicial) e, com o ar mais cândido do mundo, quando lhe foi perguntado que balas desejava, respondeu: ”São balas para sifão, amigo. Não sabia que era preciso licença!”
Desfeito o equivoco, pedidas e concedidas as desculpas da ordem, tudo se resolveu. Isto é: resolveu-se para o meu pai e o dono da loja. O empregado, desde esse dia, ficava pálido, quando via o meu pai. Se calhar era por causa dele ter mesmo “licença de porte de arma”.
Com este pobre empregado passou-se outra história, igualmente cómica, mas fica para outro dia.
Pronto, Nemy. Aqui está mais uma do teu amigo.
Até um dia destes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aniversários


Há dias no ano, que parecem destinados a nascimentos. No dia de hoje e só na minha família próxima, há três aniversários. Quer dizer, houve, pois já nenhum dos três aniversariantes existe. Eu, que sofro horrores nos dias em que faz anos que alguém morreu, nestes de nascimento recuso-me a ficar triste. Lá porque já cá não estão e me fazem falta, não deixo de sentir uma certa alegria, porque nasceram e fizeram parte da minha vida. E conheci-os, porque eles nasceram.
Resumindo: Tio Pinto, parabéns, saudades, obrigada por todos os mimos.
Tiozinho Henrique, parabéns, saudades, obrigada pela cumplicidade que entre nós existiu.
Minha querida comadre: parabéns, saudades, obrigada pela tua amizade por mim e pelo amor pelo teu afilhado.
Esta última custou um bocadinho. É mais recente. A lagrimita da ordem veio aos olhos. Toma conta de nós, meu lírio branco.
Por último, parabéns à minha neta, pelo aniversário do pai.
Já armei em valente. Agora, vou fumar um cigarrito para esquecer.
Até um dia destes.

sábado, 17 de janeiro de 2009

No tempo das amplas liberdades...

A história que tenho hoje para contar, passou-se há largos anos.
Como é do conhecimento geral, antes do 25 de Abril os filmes eram censurados e alguns nem chegavam aos cinemas. É claro que filmes pornográficos eram praticamente desconhecidos em Portugal. Por exemplo célebre “O último tango em Paris” com Marlon Brando, só cá chegou, quando já era quase considerado um filme para” menores”. Nunca me vou esquecer do escândalo, com direito a castigos e tudo, quando a RTP passou o “indecentíssimo” “Pato com Laranja”.
Ora, depois do 25 de Abril, havia em Lisboa salas de cinema vocacionadas para os ditos filmes. Eram frequentadas, sobretudo, por senhores de meia idade, curiosos de verem o que lhes tinha sido interdito toda a vida.
Dois amigos íntimos, ligados por laços familiares, resolveram cada um por seu lado, ir ver um desses filmes. Já dentro da sala e, com grande espanto, um deles viu o outro. Encolheu-se na cadeira, abriu o jornal e só o fechou quando as luzes se apagaram. O outro viu e fez o mesmo. Saíram sem se falarem, esgueirando-se cada um para seu lado. O pior é que ambos escolheram o mesmo confidente para contarem a “vergonhosa aventura” em que se tinham metido. O confidente era genro de um e filho do outro. A história soube-se e a partir daí, passaram a ir os dois juntos, ver quantos filmes da “Emanuelle”, passaram nos cinemas. Só as respectivas esposas ignoravam ou faziam por isso.
Eu sabia, porque o filho e genro destes dois “envergonhados” senhores, era o meu marido, mas fiz sempre de conta. É que o respeitinho é muito bonito.
Até um dia destes.