segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Aniversário



Antes de mais nada, Parabéns meu amor.
Depois, obrigada aos teus pais, por te terem dado vida e te terem ajudado a ser quem és.
Obrigada pelos momentos felizes que vivemos e pelo amparo que me deste nos dias maus. Obrigada por teres paciência para me aturares há tantos anos, eu sei que nem sempre tenho um feitio fácil. Obrigada pelos nossos três filhos. Obrigada por seres o pai que és. Obrigada pelos anos difíceis, mas tão felizes, que vivemos. Obrigada por todo o amor, companhia e compreensão, ao longo destes anos. Obrigada por termos “crescido” juntos. Obrigada por me teres escolhido. Obrigada pelo que pensas de mim, embora eu não tenha nem metade das qualidades que me atribuis.
Não vou dizer mais nada. Junto uma coisinha que já conheces. Um pequeno poema que nada vale, mas que diz bem, o que sinto por ti

Era Junho e chovia.
Lembras-te amor?
Passaram anos,
Sofremos desenganos,
Mas eu nunca esqueci aquele dia.

Era Cascais com a baía ao fundo.
Lembras-te amor?
Passaram anos,
Passamos desenganos,
Mas nesse dia começou o mundo.

Maria

É, ao fim deste tempo, aquilo que ainda sinto.
Um beijo e todo o amor da tua Maria.

Até um dia destes. Ah! E não se esqueçam que: “Todas as cartas de amor são ridículas. Se não fossem ridículas, não eram cartas de amor.”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A minha Princesa


Há 13 anos, recebi um telefonema às 6 horas da manhã. A minha Princesa ia nascer. Já tinha a mala feita há dias. Metemo-nos no carro e rumámos a Castelo Branco. Eu, que detesto velocidades, nesse dia levei o tempo todo da viagem, a refilar porque o carro não andava, porque as estradas eram uma miséria, porque o avô não carregava no acelerador. Chegámos ao Hospital cerca das 9-30.
Encontrei-as já no quarto. A mãe, embora cansada, estava linda como nunca. Ela, era uma coisa pequenina, linda de morrer. Fiquei sem saber quem devia acarinhar primeiro: a filha ou a neta? Resolvi o problema abraçando as duas ao mesmo tempo. Senti a mesma ternura, a mesma emoção, que já tinha sentido por três vezes. Carne, sangue, amor, necessidade de as proteger de todos os males do mundo. Eu, era avó. Aquele pedacinho de gente era minha neta, a mãe era a minha filha, que anos antes, eu tinha apertado contra mim, com o mesmo amor e o mesmo sentido de ser responsável, por mais um ser humano. Não foi amor à primeira vista, porque eu já a amava na barriga da mãe.
Hoje faz 13 anos. Está mais alta do que eu, é muito bonita. Inteligente, mas distraída; vaidosa como a avó.
Está longe e não a vejo tantas vezes como queria.
Quando está comigo, gosto de a ver dormir. Volta a ser o bebé de há 13 anos. Acordada, maior que eu, é uma adolescente que sabe o que quer. Adormecida, volta a ser o meu bebé, que precisa de toda a protecção. E não será que filhos e netos, precisam sempre da nossa protecção? Eu acho que sim.
Parabéns minha Princesa. Que tenhas um dia feliz. A avó, cá de longe, vai pensar todo o dia em ti.
Beijinhos meus e do avô.
Até um dia destes.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Apúlia e os Sargaceiros


O norte tem belas praias. Entre a Foz do Douro e Caminha são muitas e algumas muito belas. Têm grandes areais, sol, mas as águas são frias. Daí, a fuga para as praias do Alentejo e Algarve.
Nunca gostei de ir à praia, mas há algumas que me encantam no Norte: Póvoa do Varzim, Ofir, Moledo, Vila Praia de Ancora. Não é, no entanto de nenhuma delas que vou falar. Nem de Verão. Nem de férias. Vou falar de trabalho, um trabalho duro, perigoso, mas que me prendeu a vista e a admiração, por um povo diferente, que vivendo do mar não é pescador, correndo riscos, gelando dentro de água, de Inverno ou de Verão, para retirar do mar o sargaço que lhes irá adubar a terra e torná-la fértil e rica. A Apúlia, que tem um património arqueológico notável, nunca foi terra de pescadores. É terra de lavradores e apanhadores de algas, os Sargaceiros. São homens admiráveis. Vestidos de forma tradicional, o seu traje consiste num longo casaco de abas, que o cobre até meio das coxas, sendo apertado na cintura por um cinturão negro de cabedal. É feito de pura lã de cor natural, tem mangas justas, punhos altos bordados tal como a gola, com carreiras de pespontos. É todo cosido à mão e tem o nome de branqueta.
O chapéu, feito do mesmo material, tem dois bicos, um para trás, outro para a frente. Chama-se Sueste. Assim equipados, com o Galhapão, espécie de camaroeiro gigante, entram dentro de água, mergulham a rede no mar, para a retirarem cheia de sargaço, a alga que irá adubar a terra. Geralmente, aí têm a ajuda das mulheres que os auxiliam a puxar o galhapão. Estas, vestem saia do mesmo material da branqueta, blusa branca e corpete bordado. Mais frágeis, não entram no mar.
É bela a Apúlia. Tem prados verdes, campos de cultivo de cereais, batata, legumes.
A bem da verdade, esta era a Apúlia de há quarenta e tal anos, quando a conheci. Ao que sei, ainda há sargaceiros, mas vestem de
oleado e provavelmente tirarão o sargaço de outra forma.
Mas a Maria, que devia chamar-se Saudade, continua a vê-los assim.
Adeus Apúlia, terra bonita da minha juventude. Adeus sargaceiros, meus heróis de um dia. Talvez um dia volte, não sei. Tudo deve estar diferente. Não quero saber. Desejo todo o progresso possível para a terra e os homens do sargaço, mas deixem-me com as minhas lembranças.
Até um dia destes.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Varina da Madragoa


Conheci a Madragoa há largos anos. Encantou-me aquele labirinto de ruas, travessas, vielas, velhos e enormes conventos e palácios, a que se encostavam casas pequeninas e humildes. Encantou-me o vaivém das pessoas que passavam, trocando cumprimentos, até com quem não conheciam. E as varinas, de saias rodadas, aventais, chinelas, lenços a descair numa graça que parecia estudada. E os nomes das ruas (das Madres, das Isabéis, das Inglesinhas, das Trinas. E os gatos, a roupa a secar, as conversas de janela para janela. O cheiro do Tejo, ali tão perto. Achei-lhe um ar de Aldeia bonitinha.
Sei pouco da Madragoa. Sei que o nome lhe vem das “Madres de Goa”, (daí, Rua das Madres); sei que a “Travessa das Isabéis” assim se chama devido a um Convento fundado por Santa Isabel da Hungria, sendo as freiras chamadas de “Isabéis”. Para saberem mais sobre o bairro, consultem os olissipografos: Pastor de Macedo, Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Leitão de Barros, Marina Tavares Dias, Appio SottoMayor, etc. Eu só sei falar da minha Madragoa. Está diferente. Ruas desertas, sujas, com mais cheiro de xixi de gato, do que gatos, sem o barulho das chinelas e dos pregões das varinas, mas ainda bonita, ainda com pessoas que passam e dizem: “Boa tarde”, ainda com o Tejo ali ao pé. Ah! E a “Varina da Madragoa”, igual ao que sempre conheci. Restaurante de bairro, não muito grande, sem grandes letreiros. Não precisa. Quem lá vai, sabe onde é. Do tamanho que eu gosto: nem grande nem pequeno, forrado a azulejos (azuis, à moda antiga), nas paredes há recortes de jornais, que falam dela, poemas, lembranças da antigos e actuais clientes da casa.
Por lá passaram escritores, jornalistas, aspirantes a ambas as coisas. Não tem luxos de mobiliário ou de comida, mas é tudo honesto, limpo, saboroso. Não tem um batalhão de empregados a atender, tem um senhor simpático, amável, sem subserviência. Apetece ficar a conversar depois de concluída a refeição, pois ninguém nos olha, como que a perguntar, porque é que ainda lá estamos. É bom olhar os artigos dos jornais e pensar que estamos no mesmo sítio em que quem os escreveu esteve e onde alguns ainda voltarão.
Como vêm ainda há uma “Varina na Madragoa”. Vão lá e vejam.
O peixe é bom, os diversos bacalhaus são óptimos, a açorda de gambas, posso garanti-la, porque foi o que comi, desta vez.
Parece que fecha aos Sábados ao almoço e às segundas.
Até um dia destes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

SALVADOR

Deram-te um nome predestinado
Destinado
A uma vida de Poeta ou Santo.
E no entanto,
Tu foste o Cavaleiro, que por sorte,
Tentou vencer a morte.
Ela venceu-te, dura, traiçoeira,
Da maneira
Que vence tarde ou cedo todos nós.

Mas não foste nunca, em nada, um vencido.
Convencido
Que a tinhas enganado ainda viveste
E escreveste
O livro que deixaste a todos nós,
Contando em viva voz
Como se vive com ela à cabeceira.
E foi deste maneira
Que nos deixaste o eco do teu nome.

Não conheci Salvador Vaz da Silva pessoalmente. Mas segui a luta titânica que travou com a morte.
São para ele, estes pobres versos. Ele merecia uma Epopeia.
Que ele nos sirva de exemplo a todos.Até um dia destes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Irmão


Quando nasci, já te encontrei à minha espera. Penso que foi amor à primeira vista. Por mim, para me pegares ao colo, comeste favas que nesse tempo detestavas. Crescemos lado a lado, ramos da mesma árvore. Houve sempre entre nós uma grande cumplicidade, um grande sentido de protecção da tua parte, uma grande admiração e orgulho da minha. Eu era irmã de um dos mais inteligentes, mais respeitados, mais bonitos rapazes de Tomar.
Ficava vaidosa quando me perguntavam se eu era tua irmã.
Contigo, fui a primeira vez ao cinema e vi filmes de cow-boys. Contigo, lia “O Cavaleiro Andante” e “O Mosquito”. Foi das tuas mãos que me vieram os primeiros livros da Condessa de Ségur”.
Primeiro “O Evangelho de uma Avó”, de seguida “Um Bom Diabrete”, “O Brás”. Mais tarde, Torga, o nosso Torga e “Novos Contos da Montanha”. Quando comecei a ler francês, deste-me num Natal “Terre des Hommes”, o meu primeiro Saint-Exupéry.
Apresentaste-me Simenon e” Maigret”, Bécaud e Aznavour, os Platters e Elvis.
Quantos filmes de Eddi Constantine fomos ver?
Depois foi a separação física. A tropa, o teu casamento, o meu.
E de seguida, a doença e a morte da nossa Mãe, aquele primeiro grande abraço triste. A nossa amizade continuava igual. As confidências, as ideias parecidas, os ideais que ainda não perdemos, apesar dos pesares.
Fomos perdendo mais pessoas queridas. E sempre aquele abraço, forte e triste nos uniu nos piores momentos. Quando perdemos o Pai, foram meses de dor repartida, foi juntos que soubemos do fim.
E mais um abraço, doloroso, muito doloroso, porque como diz Torga, só se é verdadeiramente responsável, quando se perde o pai.
É difícil falar contigo, sem tudo isto me vir à memória.
Mas como no nosso “Casablanca”, haverá sempre Paris. Paris que tu me mostraste, Paris dos meus sonhos de menina. E haverá Itália e uma noite inesquecível na Piazza di Spagna, ou o dia, em Paris, em que jantámos na Tour Eiffel, um passeio nocturno no Sena e o espectáculo no “Moulin Rouge”. Haverá sempre a lembrança da nossa infância feliz em Tomar, as nossas conversas intermináveis.
E sempre a certeza, de que aconteça o que acontecer, seremos sempre irmãos, amigos, confidentes. E um abraço, nos bons e maus momentos, sem palavras, porque nós sabemos o que esse abraço quer dizer.
Hoje o abraço é de alegria, porque fazes anos e estamos juntos. E isso, meu irmão, é muito bom.
É aqui que te quero dar os parabéns, porque quero que saibam que eu tenho o melhor irmão do mundo.
Até um dia destes.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Temporal

A noite de sábado para domingo foi um autêntico pesadelo. Vento que fazia toda a casta de ruídos, atirava coisas ao chão, derrubava árvores, destruía. Chuva que caía sem cessar, em cordas de água que transformavam ruas em rios. Trovoada que metia medo, me fazia dores de cabeça. E eu aqui, quentinha, abrigada, seca, ouvindo a Maria João Pires tocar Chopin, como só ela sabe, quase esquecida da fúria da natureza, quase esquecida do mundo lá fora. Depois veio a realidade de um barulho diferente, um ruído de água a cair mais perto, um burburinho estranho na escada.
Já nos tínhamos deitado, o Nabão estava calado e a dormir, quando o barulho nos sobressaltou. Fomos ver, convencidos que a clarabóia tinha voado, ou algum vidro partido. Nada disso. Um cano tinha rebentado, dois andares abaixo, a água corria e esguichava por todo o lado. Chamados os responsáveis, vedado o cano, pelo dono do andar e o meu marido, que todos encharcados, se revezavam na tentativa de tapar aquela fonte, esperámos os bombeiros e o piquete. Este, que tinha sido o primeiro a ser alertado, foi o último a chegar. Os bombeiros fecharam a torneira do prédio, limparam-se as escadas. Entramos em casa, ele gelado e encharcado até aos ossos, eu cheia de frio e trémula de susto. Deitei-me na cama quente e em vez de dormir, pus-me a pensar naqueles cuja noite iria continuar à chuva, ao vento, encharcados, com fome, sem um teto, uma sopa quente, a companhia de alguém.
Senti-me tão egoísta! Tinha um abrigo, uma cama quente, a companhia do meu companheiro, o meu Nabão aos pés e estava infeliz! Levei muito tempo a adormecer e dormi mal, cheia de culpas e remorsos do meu egoísmo.
O mau tempo continua. E eles continuam lá fora. E continuam a povoar-me a cabeça de imagens tristes, injustas, feias. E continuo a sentir a impotência horrível, para resolver ao menos um só, destes problemas.
Quem são os responsáveis? A quem pedir contas? Será que vai ser sempre assim? Uns com tudo, outros sem nada, nem um teto, uma cama, uma malga de sopa...
É injusto. A vida é injusta. Nós que temos um certo conforto, somos injustos, porque às vezes nos queixamos de não ter coisas, que não nos fazem falta.
Estou triste, revoltada. Só queria saber com quem.
Até um dia destes.