quarta-feira, 4 de março de 2009

Rosas para ti


Quando soube da tua morte, só conseguia lembrar-te pequenina, alegre, no jardim dos teus pais. Em cinco minutos conseguiste, transformar um grupo de garotos desconhecidos e tímidos, num grupo de amigos, dos quais eras a chefe incontestada. Quebraste todo o gelo da primeira vista, com o teu ar cativante e os teus modos de pequena dona de casa amável e preocupada. Pensei que eras outra Fernanda, a tua mãe, uma força da natureza, que a morte também levou.
Deixo-te aqui, o ramo de rosas brancas, que ontem não consegui dar-te. Reparte-as com a mãe. As rosas, a saudade e dois beijos.
Adeus pequenina João de há muitos anos. Adeus João, que partiste cedo demais.
Saudades do teu amigo “Fosca”.
Até um dia destes.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Os primos de Inglaterra


Primeiro que nada, terei que explicar que eu e meu marido nunca fizemos diferença entre a família dele e a minha. Não há famílias, há família. Logo, os pais, avós, tios e primos são comuns. Não há “tua família” ou “minha família”. Casámos com comunhão de bens e de família.
Estes primos, filhos da “nossa tia Conceição”, irmã da “nossa mãe Marcelina” e dos respectivos maridos, foram criados como irmãos do meu marido. Assim, para mim são irmãos também.
Ele e ela casados com ingleses, para Inglaterra foram viver e lá construíram as suas vidas. Têm filhos e netos. Vivem em belas cidades de província, em casas inglesas, rodeadas daquele verde que só os campos ingleses têm.
De vez em quando voltam por uns dias. Agora menos, porque não há mãe, nem pai, nem a sua velha casa. Mas têm a minha sempre aberta, para eles. A casa, o coração, a saudade que sinto deles.
O mais comovente de tudo isto, é que havendo família cá, são eles, lá longe, os mais próximos. São mails, telefonemas, fotos para lá e para cá, via Internet, postais de Natal e, todos os anos, um belo Calendário, com fotos lindas, de que vos dou uma amostra.
A prima inglesa, esteve uns tempos em Portugal. Aprendeu português com uma facilidade enorme. Ficámos amigas. É doce, sensível, adora animais como eu. Para quem acredita em signos: somos ambas Sagitário. Sei que eles lêem as minhas prosas. Ficaram agora a saber, o que são para mim e para o meu marido.
Acho que já sabiam.
Isto é a completa negação do velho adágio popular: “Longe da vista, longe do coração”. Nós sentimos saudades, eles também. Nem o tempo, nem a distância serão capazes de quebrar estes laços.
Se vocês não vêem cá, qualquer dia, vou eu lá.
João, Carole, Maria João, saudades da vossa prima e do vosso primo. Até um dia, queridos. Na vossa casa, ou na minha?
Nós, até um dia destes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Agora são mesmo livros




No post anterior, acabei por não falar de livros. Falei apenas de um que me marcou e de tudo o que ele provocou em mim.
Hoje vou falar mesmo de livros. Do que foram, são e me ensinam.
Se me pedissem para definir o que sinto por eles, a resposta rápida e sincera, seria: “os livros são os meus companheiros mais antigos, mais fiéis, aqueles que me dão tudo, sem nada me pedir”.
Nasci a ver livros. Os meus pais tinham-nos e ambos adoravam ler.
O escritório do meu pai tinha as paredes forradas de livros. Livros de toda a espécie. Tinha até, uma estante fechada onde moravam os menos próprios para meninas e senhoras, daquele tempo. Penso que já contei, como aprendi, com muito engenho e arte, a abrir essa estante misteriosa, e li, muito antes do que o meu pai julgava, todos os livros do Eça, do Abel Botelho, “A Corja” e o “Eusébio Macário” do Camilo, os livros de Zola e Balzac, alguns de Aquilino, Morávia. Sei lá!... foram tantos!
Ainda não sabia ler, quando “li” as colecções de revistas, belamente encadernadas, “Serões da Província”, “Ilustração Portuguesa”. Olhava os bonecos, inventava histórias. Quando o meu pai lia o jornal, punha-me ao lado dele e, tentava ler as “gordas”. Assim aprendi a ler.
Os primeiros foram as histórias da Condessa de Ségur. Depois, um livro a sério: “Os Fidalgos da Casa Mourisca” e todo o Júlio Dinis. Não li, devorei. Então o meu pai deu-me para ler o meu primeiro Camilo: “O Bem e o Mal”. Ainda hoje o sei quase de cor. Vieram depois, Alberto Pimentel, Arnaldo Gama, portugueses, franceses, alguns ingleses e... Hemingway, Remarque, Rilke. E russos: Tolstoi, Dostoievski, Tchekov. E os brasileiros, com Amaro, Machado de Assis, Veríssimo, à cabeça. E livros sobre a guerra. E romances históricos. Um dia, já o disse, o meu irmão deu-me “Novos Contos da Montanha” de Miguel Torga e passei a devorar os livros todos dele. Leio-os vezes sem conta e, encontro sempre algo novo. Ajudaram-me, ajudam-me a aprender as pessoas e as coisas. Encontro em Miguel Torga resposta às muitas perguntas que a minha cabeça confusa, me faz. Entrou-me na alma e no sangue, ao ponto de quando morreu, eu ter sentido um desgosto enorme.
É assim: leio e aproveito tudo o que leio, mas alguns livros absorvo-os, fico tão marcada que por vezes, acho que os vivi.
Difícil de entender? Talvez. A paixão é tão grande que não me limito a lê-los, tenho de os ter. Emprestar livros? Só a alguém em quem tenha muita confiança. E mesmo assim, quando voltam para mim, releio-os avidamente, folha a folha, letra a letra, como se tivesse medo de me terem roubado uma letrinha só. Os meus livros são meus, só meus. Eu que gosto de partilhar tudo, não gosto de partilhar os “meus livros”. Gosto sim, de os dar, a quem eu sei que os ama como eu e são a melhor prenda que recebo.
Dos livros do meu pai, nada sei. Nunca mais os vi. Onde terão acabado “O Bem e o Mal”, o resto dos Camilos, Eça, Zola?
Eu tenho muitos já, mas tenho pena de não voltar a ver, aqueles que li pela primeira vez.
Vou acabar. É que tenho um Lobo Antunes, um João Aguiar, um Mia Couto, um Nuno Júdice e “A Pianista” do Nobel da literatura, Elfriede Jelinek, em lista de espera. E a próxima vez que passe por uma livraria, de certeza que vai lá estar algum à minha espera. Desde que não seja da minha odiada M.R.P. vem para casa.
Até um dia destes.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Livros


Neste espaço tenho falado de amigos perdidos, amigos antigos, amigos de agora. Tenho falado das coisas que gosto, das que não gosto, da minha Tomar e outros locais e poucas vezes de livros.
Reparei nisso há poucos dias, por causa dos últimos que li.
Chorei, ri, aprendi, com a “Catedral”. Aprendi mais um pouco sobre a segunda guerra mundial e os sentimentos humanos, com um pequeno livro chamado “Os Jardins da Memória seguido de Amar Simplesmente” de Michel Quint. Para desanuviar, fui buscar um livro de Rosa Lobato de Faria, “Os três casamentos de Camilla S.”.
Li-o com agrado. É daqueles livros que não dão muito que pensar, mas distraem. Como tenho andado mais ou menos em baixo, resolvi pegar noutro livro da Rosinha. Achei o nome um pouco piroso e confesso que não esperava muito dele. Enganei-me. O nome do livro é “Romance de Cordélia”. Pensei de imediato em romances cor de rosa, daqueles em que no fim, os bons têm recompensa e os maus o merecido castigo. Enganei-me, repito.
A história é tudo, menos cor de rosa ou pirosa. Os maus não são castigados e a boa passa as passinhas do Algarve. Está tudo do avesso. A heroína, depois de ter sofrido mais do que será suposto alguém aguentar, acaba na rua, sem abrigo, sem mais amparo do que outro sem abrigo. Fiquei dorida, marcada, com a consciência pesada, a perguntar-me se quando vejo um sem abrigo, o simples facto de ter pena e revolta, serve para alguma coisa. Até aqui, eu via os sem abrigo e naquele momento, sentia que “aquilo” não estava certo. Quando, nas noites de chuva, deitada quente e confortável na minha cama, com um teto a abrigar-me, o meu companheiro, o meu cão, as fotografias dos meus mortos queridos, frente aos olhos, pensava neles, nos que lá fora tinham por cama um cartão, por abrigo trapos e plásticos, por companhia a chuva, o vento, o frio e a trovoada, sentia uma fisgada de dor no peito e na consciência. Depois, egoístamente, adormecia.
A partir deste livro, a chaga ficou aberta. Só agora eu percebi, que por trás de cada sem abrigo há uma história, há um passado. A partir daqui, cada vez que vir um “sem abrigo”, terei que saber porquê. Arriscarei ouvir insultos, acusações, mas tentarei saber porquê eles estão ali. Sei que não poderei fazer nada. Mas aprendi que alguns deles precisam do calor de uma palavra, de um momento da nossa vida, para não se sentirem tão marginalizados.
Há anos uma pobre mulher, meio louca, abrigou-se debaixo dos arcos do meu prédio. As pessoas não gostavam, era horrível, vergonhoso. Conseguiram correr com ela. Foi abrigar-se numas grutas da Calçada de Carriche. Morreu atropelada. Enquanto aqui esteve dei-lhe de comer, algumas roupas velhas. Mas nunca me lembrei de lhe perguntar quem era, donde vinha, como chegara aquela triste situação. Só agora senti remorsos. Porque a velha Palmira, talvez tivesse uma história como a da Cordélia. Talvez precisasse de um pouco de atenção mais do que daquilo que eu lhe dava em silêncio.Eu sei que me estou a arriscar a que me acusem de estar a fazer demagogia barata. É verdade. Porque eu sou ainda pior do que os que os ignoram. Eu tenho a consciência do meu egoísmo e da minha impotência.
Desculpem o desabafo. Não quero dar lições a ninguém. A culpa foi do livro da Rosinha, que não me sai da cabeça.
Vou ficar por aqui, pois já escrevi disparates demais para um só dia.
Até um dia destes.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carta para Margarida




Foram muitas as cartas que trocámos. Nelas contávamos tudo o que fazíamos, sonhávamos e pensávamos. Nelas falávamos de amores e desamores, de ilusões e desilusões, combinávamos loucas fugas para Paris e sonhos de uma vida diferente da que tínhamos. Havia sempre um P.S. nessas cartas: Rasga e queima.
Tínhamos medo da censura da minha mãe e da avó. Isto hoje fará rir. Que segredos escabrosos teriam duas raparigas para contar uma à outra? Para a actualidade nada demais. Eram cartas sinceras, quase ingénuas. Mas para aquele tempo, eram ousadas. Falávamos de coisas que a avó, a minha mãe, ou a tia, nem sonhavam que nós sabíamos, sentíamos, ou desejávamos.
Na última vez que estivemos juntas não falámos. De mãos dadas, olhos nos olhos, dois cigarros, tivemos a mais íntima conversa das nossas vidas. Lembrámos sonhos partilhados, dores só de nós sabidas, alegrias vividas em conjunto. No fim, abraçámo-nos longamente, silenciosas, com duas lágrimas que se misturaram nas nossas faces unidas. Não foi adeus. Foi até sempre, até ao último dia da minha vida. Faz hoje anos. Faz também anos que a avó partiu.
Tenho saudades das duas. Saudades das nossas conversas sem fim. Saudades das histórias do passado da avó.
Beijos para as duas e a certeza de que enquanto eu viver, alguém neste dia vos lembrará com muito amor.
P.S. Não rasgues, nem queimes. Já não é preciso.
Até um dia destes.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Carnaval


A minha relação com o Carnaval foi sempre distante. Fui espectadora, mais ou menos indiferente, nunca participante. Em Tomar, das janelas da casa onde nasci, via os grandes bailes da Nabantina. Achava graça às meninas vestidas de minhotas, de damas antigas, de criadinhas fardadas de vestido preto com gola,
avental e crista brancos, aos rapazes vestidos de polícia, de bombeiros ou magalas. Tocavam valsas, tangos, a raspa. O moço dirigia-se à moça, tocava-lhe no pé, mais ou menos delicadamente e indagava: “A menina dança, ou já tem par?”. A menina olhava de lado a mamã e, conforme o ar desta, aceitava ou não. Entretinha-me a vê-los e a atirar papelinhos e serpentinas, da janela. Aqui cabe dizer, que nunca soube atirar uma serpentina. Enquanto os outros faziam malabarismos incríveis, eu deixava-a correr direitinha à rua.
Dos cortejos de Carnaval em Ovar, já nesse tempo afamados, eu continuava a ser espectadora de janela. Achava os carros bonitos, ria-me com um ou outro conhecido, vestido de forma bizarra, mas nunca senti vontade de lá estar no meio.
No Porto, o Carnaval resumia-se a uma ida ao circo ao Coliseu, onde mais uma vez, eu estava num camarote e a festa era lá em baixo na arena e na plateia.
Virá daí esta relação distante com o Carnaval? Ou será o medo que tenho de disfarces de qualquer espécie, caras tapadas ou camufladas? Ou o pavor de me ver no meio de muita gente?
Hoje vou ficar em casa. Verei os diferentes cortejos na televisão, vou ler e tentar não pensar no verdadeiro Carnaval em que se transformou o mundo.
Quem gostar dele, divirta-se. Os outros façam como eu: ignorem-no.
Até um dia destes.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

As Meninas do Convento, o Orador e o penico Oriental


Ao Padre José Guilherme.

Hoje vem uma história que li numa velha revista de 1981 e, que infelizmente durou só três números. Chamou-se “Tomar Cultura”.
Dos três números só tenho um, mas que me vai dar inspiração, para uns dias. Aproveito para agradecer ao Alfredo Caiano Silvestre, seu coordenador, que me deu carta branca para o fazer.
A história foi contada, no original, pelo Padre José Guilherme, infelizmente já desaparecido. Vou resumi-la, pois é demasiado extensa.
Ora, deu-se o caso, numa qualquer aldeia, há muitos anos. O bom povo da terra tinha conseguido juntar dinheiro, para comprar um belo relógio para o campanário da sua Igreja. Prepararam-se as festas, enfeitaram-se as ruas, tudo estava um brinquinho. Precisavam de um Orador abalizado. Convite feito e aceite, era preciso alojar convenientemente, a ilustre figura. A única casa condigna era a Quinta do Convento, pertença de duas manas, muito religiosas, a quem chamavam “Senhoras Meninas Condessas.” Como isto me fez lembrar “As Meninas da Fonte da Bica” e Ramada Curto!
Preparado o melhor quarto, feitas as iguarias, esperou-se a chegada do visitante. Ele chegou no carro do merceeiro da terra, acompanhado do Prior. Depois dos cumprimentos da praxe, entraram no convento, onde as senhoras os esperavam. O jantar foi longo, bem regado. Eram horas de dormir. Foi o Orador conduzido ao seu quarto e preparou-se, depois das orações, para o merecido sono. Deitou-se e, quando estava quase a entrar no país dos sonhos, sentiu uma cólica intestinal que aumentava, de segundo em segundo. Não lhe tinham indicado a casa de banho daquele andar. A do andar debaixo era demasiado longe, para aquele tremendo aperto. Abriu a porta da mesa de cabeceira e deparou-se-lhe um belo penico Oriental, com tampa e tudo, relíquia de família, ali posto em sua honra. Em desespero, aliviou as santas tripas, tentou ajeitar-se melhor e... o penico partiu-se. Aos gritos aflitos do ilustre visitante acudiram as meninas. O resto da noite foi passado a lavar e tirar os cacos, do ferido e conspurcado o rabo, que ao fim de pouco tempo estava como novo. Mas o penico, o belo penico Oriental, relíquia daquela casa, acabou na lixeira, escaqueirado e sujo.
Padre Zé Guilherme, desculpe o atrevimento, lá onde está.
Alfredo, espero que não se arrependa de me ter dado autorização para contar a história à minha maneira.
Até um dia destes.