domingo, 15 de março de 2009

Papoilas


A Primavera está a chegar com um certo ar de Verão antecipado.
Tenho preguiça para pensar, para escrever, para tudo. Por isso fui pedir emprestado um poema a Cesáreo Verde, para contar o efeito que as papoilas podem ter.
Este poeta, infelizmente cada vez mais esquecido, merecia melhor vida e menos esquecimento. Hoje, ao ver esta foto de um campo de papoilas no Alentejo, lembrei-me dele. Por isso...

De tarde

Naquele pique-nique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão-de-ló molhado em Malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde

E assim vos deixo por hoje, com um belo campo e um belo poema.

Até um dia destes.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A minha boneca mais bonita




Sempre gostei de bonecas. No meu tempo não havia Barbies, felizmente. Havia bonecas de trapo, de cartão, de celulóide.
Tive algumas e amava-as a todas. Tratava-as, como via a minha mãe tratar-nos. Falava com elas, levantava-as de manhã, deitava-as à noite, dava-lhes de comer. Houve uma, feita de pano, com cara de borracha, olhos e boca pintados e tranças loiras de lã. Chamava-se Carolina Augusta e, o meu excesso de amor custou-lhe a vida, a ela e, muitas lágrimas de desgosto a mim. Aquela boca vermelha, fechada preocupava-me, pois não podia dar-lhe de comer. Expliquei-lhe que a “mãe”, tinha que lhe fazer um corte na boca, mas que era para bem dela. Desinfectei uma tesoura, passei um algodão com álcool na boca da Carolina e, com lágrimas nos olhos, fiz um golpe mais ou menos simétrico. Foi trágico. O álcool diluiu a tinta vermelha e escorria como sangue. Limpei bem, deitei-a na cama uns dias e... passei a alimentá-la mesmo. Isto é: metia para dentro da boca da infeliz, tudo o que me parecia bom para ela, incluindo as vitaminas que eu tomava, “Tonosol”. Claro está, que a boneca começou a ter um hálito horrível. A minha mãe descobriu e ainda teve paciência umas vezes, para tirar a comida podre da cara da boneca. Um dia, aproveitando uma mudança de casa, a Carolina desapareceu. Chorei dias e noites a fio.
Tive mais bonecas, cresci e já pensava em filhos, muitos filhos. Mas o sonho dourado era ter uma menina. Uma boneca de carne e osso, que comesse, bebesse, fizesse xixi, me chamasse mãe e vestisse vestidinhos lindos, tivesse cabelos para eu pentear.
O meu primeiro filho foi um rapaz. Não fiquei desiludida. Era lindo e toda a família queria um menino. E eu sabia, que a menina viria.
Chegou, faz hoje anos, ainda o irmão não tinha um ano. Quando a parteira me disse: é uma menina, a minha resposta foi: já sabia.
Enfim tinha a boneca dos meus sonhos. Mais linda, do que alguma vez sonhara. Tinha dois bonecos vivos, perfeitos, espertos. Mas dele, falo para a semana. Hoje o dia é dela. Era grande, com umas enormes pestanas, um nariz pequenino, uma boca que parecia desenhada a pincel e cabelinhos ondulados. Começou a falar e a andar, muito cedo. A primeira coisa que disse foi: “papa, man, papa”.
Fiz-lhe os vestidos que sonhara para ela. Alguns à mão. As avós, encantadas com a minha boneca, também fizeram alguns.
Foram anos muito bons. Depois a minha linda boneca, transformou-se numa linda rapariga e, teve também ela, uma boneca linda.
Estamos longe, minha filha. Separadas pela vida, juntas pelo amor que sinto por ti, que é muito maior do que o que tinha pelas bonecas.
Nunca vou esquecer, aquele dia, em que te puseram nos meus braços e me disseram: é uma menina.
Daqui de longe, no meu cantinho, hoje às 20 horas e 20 minutos, fecho os olhos e vou ouvir de novo: “é uma menina”.
Parabéns minha boneca de um dia, minha filha querida, espero que passes um dia feliz. E se puderes e te lembrares, às 20-20, pensa um bocadinho na tua mãe.
Até um dia destes.

domingo, 8 de março de 2009

Dia da Mulher

Hoje vou escrever pouco. Vou limitar-me a transcrever.
Tudo isto, sendo pouco, diz mais do que eu diria em 1.000 palavras.
Como começou o dia da mulher:

"As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, em que protestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários.
Existem outros acontecimentos que possam provar a tese como o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, que também aconteceu em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 146 trabalhadoras. Segundo esta versão, 129 trabalhadoras durante um protesto teriam sido trancadas e queimadas vivas. Este evento porém nunca aconteceu e o incêndio da Triangle Shirtwaist continua como o pior incêndio da história de Nova Iorque."

Quantas mulheres morreram em Portugal em 2008, vítimas de violência?

"O número de mulheres vítimas mortais de violência doméstica quase duplicou de 2007 para 2008. A denuncia parte da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), que detectou um aumento de 21 casos registados no ano passado para cerca de 40 este ano."

Não sei o nome do autor deste poema, mas traduz muito bem o que eu e outras mulheres, sentimos hoje. Por nós e pelas outras.
Peço desculpa ao autor, por não saber identificá-lo (a).

"Café e cigarro, computador ligado
E de repente fico com humor de animal em vias de extinção
Em todos os blogs: O dia internacional da mulher.
Hoje não haverá mulheres preteridas nos empregos... Porque são mulheres.
Hoje não haverá mulheres maltratadas... Porque são mulheres.
Hoje todas as mulheres se sentirão felizes... Porque são mulheres.
Hoje é, excepcionalmente dia da mulher
E todas as mulheres deviam sair para a rua
E celebrar hoje:
O dia do homem que inventou o dia da mulher.
E oferecer a cada um deles, em homenagem e protesto
Os símbolos, que nos outros dias do ano as representam:
Um avental, uma tábua de passar a ferro, um fogão.
Eu que sou mulher que não precisa de dias
Porque faço de todos os dias, meus
Eu que não preciso que um dia por ano
Homenageiem a minha condição de mulher
Eu, que acho que igualdade seria
Não haver, um dia excepcionalmente da mulher
Eu que acho o dia da mulher negativamente discriminatório
Fico com humor de animal em vias de extinção.
E acendendo um cigarro
Recuso-me a ler mais homenagens à mulher
E espero que ninguém tenha o azar,
De hoje, dia excepcionalmente da mulher
Me oferecer uma flor."

Até um dia destes.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Recordações da Maria


Hoje Antunes Ferreira conta na sua “Travessa”, uma história de um casal de cegos e do seu filho, que vê. Comoveu-me a delicadeza, a ternura, com que o faz. Aconselho-vos, não só esta, como todas as histórias dele. Esta fez-me lembrar a minha história.
Tudo começou, num tempo em que ainda não havia vacina da poliomielite. Eu tinha menos de 3 anos. Acordei uma manhã, com uma dor horrorosa de cabeça, sem falar e com a cara toda repuxada e paralisada, do lado do direito. Chamado o médico, logo a doença foi diagnosticada. Uma ida ao Porto a um pediatra e análises várias, entre as quais uma punção lombar, confirmaram a opinião do primeiro.
Estavam os antibióticos a dar os primeiros passos. Em Portugal era quase impossível obtê-los, restava Espanha. Telefonemas, telegramas, que sim senhor havia, mas alguém teria de ir à fronteira buscá-las. Foi um tio e o primeiro médico. Numa corrida contra o tempo, foram e voltaram de Vilar Formoso, já com os preciosos frasquinhos de “Estreptomicina”. Isolamento em quarto, onde só entravam os meus pais, o médico e uma tia, a minha irmã desmamada. A cara ia voltando ao sítio, já conseguia comer, já podia voltar a Tomar, estar ao pé dos meus manos. Mas o calvário ainda não acabara. Foram meses de “Correntes Galvânicas” na cara, até tudo voltar ao lugar. Tudo, menos o nervo óptico, paralisado até hoje. Lamentar-me eu? Não. Só tenho que me sentir grata. Grata por não ter ficado numa cadeira de rodas, grata por que um dos meus olhos vê, grata aos médicos que me trataram, grata aos meus pais e tios que tudo fizeram por mim.
Às vezes não é só gratidão. Sinto que fui uma privilegiada. Entre tantos que tiveram a mesma doença, fui a menos marcada. O olho direito não vê, mas tenho o esquerdo. O outro, com eu digo, é para enfeitar. Dizem que os meus olhos eram bonitos, mas o que importa é que um deles vê. Esta foi mais uma lembrança agri-doce da minha infância feliz.
Até um dia destes.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Rosas para ti


Quando soube da tua morte, só conseguia lembrar-te pequenina, alegre, no jardim dos teus pais. Em cinco minutos conseguiste, transformar um grupo de garotos desconhecidos e tímidos, num grupo de amigos, dos quais eras a chefe incontestada. Quebraste todo o gelo da primeira vista, com o teu ar cativante e os teus modos de pequena dona de casa amável e preocupada. Pensei que eras outra Fernanda, a tua mãe, uma força da natureza, que a morte também levou.
Deixo-te aqui, o ramo de rosas brancas, que ontem não consegui dar-te. Reparte-as com a mãe. As rosas, a saudade e dois beijos.
Adeus pequenina João de há muitos anos. Adeus João, que partiste cedo demais.
Saudades do teu amigo “Fosca”.
Até um dia destes.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Os primos de Inglaterra


Primeiro que nada, terei que explicar que eu e meu marido nunca fizemos diferença entre a família dele e a minha. Não há famílias, há família. Logo, os pais, avós, tios e primos são comuns. Não há “tua família” ou “minha família”. Casámos com comunhão de bens e de família.
Estes primos, filhos da “nossa tia Conceição”, irmã da “nossa mãe Marcelina” e dos respectivos maridos, foram criados como irmãos do meu marido. Assim, para mim são irmãos também.
Ele e ela casados com ingleses, para Inglaterra foram viver e lá construíram as suas vidas. Têm filhos e netos. Vivem em belas cidades de província, em casas inglesas, rodeadas daquele verde que só os campos ingleses têm.
De vez em quando voltam por uns dias. Agora menos, porque não há mãe, nem pai, nem a sua velha casa. Mas têm a minha sempre aberta, para eles. A casa, o coração, a saudade que sinto deles.
O mais comovente de tudo isto, é que havendo família cá, são eles, lá longe, os mais próximos. São mails, telefonemas, fotos para lá e para cá, via Internet, postais de Natal e, todos os anos, um belo Calendário, com fotos lindas, de que vos dou uma amostra.
A prima inglesa, esteve uns tempos em Portugal. Aprendeu português com uma facilidade enorme. Ficámos amigas. É doce, sensível, adora animais como eu. Para quem acredita em signos: somos ambas Sagitário. Sei que eles lêem as minhas prosas. Ficaram agora a saber, o que são para mim e para o meu marido.
Acho que já sabiam.
Isto é a completa negação do velho adágio popular: “Longe da vista, longe do coração”. Nós sentimos saudades, eles também. Nem o tempo, nem a distância serão capazes de quebrar estes laços.
Se vocês não vêem cá, qualquer dia, vou eu lá.
João, Carole, Maria João, saudades da vossa prima e do vosso primo. Até um dia, queridos. Na vossa casa, ou na minha?
Nós, até um dia destes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Agora são mesmo livros




No post anterior, acabei por não falar de livros. Falei apenas de um que me marcou e de tudo o que ele provocou em mim.
Hoje vou falar mesmo de livros. Do que foram, são e me ensinam.
Se me pedissem para definir o que sinto por eles, a resposta rápida e sincera, seria: “os livros são os meus companheiros mais antigos, mais fiéis, aqueles que me dão tudo, sem nada me pedir”.
Nasci a ver livros. Os meus pais tinham-nos e ambos adoravam ler.
O escritório do meu pai tinha as paredes forradas de livros. Livros de toda a espécie. Tinha até, uma estante fechada onde moravam os menos próprios para meninas e senhoras, daquele tempo. Penso que já contei, como aprendi, com muito engenho e arte, a abrir essa estante misteriosa, e li, muito antes do que o meu pai julgava, todos os livros do Eça, do Abel Botelho, “A Corja” e o “Eusébio Macário” do Camilo, os livros de Zola e Balzac, alguns de Aquilino, Morávia. Sei lá!... foram tantos!
Ainda não sabia ler, quando “li” as colecções de revistas, belamente encadernadas, “Serões da Província”, “Ilustração Portuguesa”. Olhava os bonecos, inventava histórias. Quando o meu pai lia o jornal, punha-me ao lado dele e, tentava ler as “gordas”. Assim aprendi a ler.
Os primeiros foram as histórias da Condessa de Ségur. Depois, um livro a sério: “Os Fidalgos da Casa Mourisca” e todo o Júlio Dinis. Não li, devorei. Então o meu pai deu-me para ler o meu primeiro Camilo: “O Bem e o Mal”. Ainda hoje o sei quase de cor. Vieram depois, Alberto Pimentel, Arnaldo Gama, portugueses, franceses, alguns ingleses e... Hemingway, Remarque, Rilke. E russos: Tolstoi, Dostoievski, Tchekov. E os brasileiros, com Amaro, Machado de Assis, Veríssimo, à cabeça. E livros sobre a guerra. E romances históricos. Um dia, já o disse, o meu irmão deu-me “Novos Contos da Montanha” de Miguel Torga e passei a devorar os livros todos dele. Leio-os vezes sem conta e, encontro sempre algo novo. Ajudaram-me, ajudam-me a aprender as pessoas e as coisas. Encontro em Miguel Torga resposta às muitas perguntas que a minha cabeça confusa, me faz. Entrou-me na alma e no sangue, ao ponto de quando morreu, eu ter sentido um desgosto enorme.
É assim: leio e aproveito tudo o que leio, mas alguns livros absorvo-os, fico tão marcada que por vezes, acho que os vivi.
Difícil de entender? Talvez. A paixão é tão grande que não me limito a lê-los, tenho de os ter. Emprestar livros? Só a alguém em quem tenha muita confiança. E mesmo assim, quando voltam para mim, releio-os avidamente, folha a folha, letra a letra, como se tivesse medo de me terem roubado uma letrinha só. Os meus livros são meus, só meus. Eu que gosto de partilhar tudo, não gosto de partilhar os “meus livros”. Gosto sim, de os dar, a quem eu sei que os ama como eu e são a melhor prenda que recebo.
Dos livros do meu pai, nada sei. Nunca mais os vi. Onde terão acabado “O Bem e o Mal”, o resto dos Camilos, Eça, Zola?
Eu tenho muitos já, mas tenho pena de não voltar a ver, aqueles que li pela primeira vez.
Vou acabar. É que tenho um Lobo Antunes, um João Aguiar, um Mia Couto, um Nuno Júdice e “A Pianista” do Nobel da literatura, Elfriede Jelinek, em lista de espera. E a próxima vez que passe por uma livraria, de certeza que vai lá estar algum à minha espera. Desde que não seja da minha odiada M.R.P. vem para casa.
Até um dia destes.