terça-feira, 24 de março de 2009

Quem vem e atravessa o rio...


No sábado, a neblina, aquela neblina tão tripeira, não deixava ver muito. Além das pontes, as três mais velhas e bem minhas conhecidas e as novas, bonitas, mas que me dizem pouco, quase nada se via. O velho casario esbatido pela névoa, ruas que não conheço, caminhos que não sei para onde vão. É o progresso, esse mal necessário, a matar as lembranças boas e más, de uma terra onde vivi treze anos. Se fui feliz lá? Houve tempos felizes, tempos péssimos. Nasceram-me lá os dois filhos. Isso foi a parte boa. A minha mãe, desde que para lá fomos, nunca mais teve saúde. Não foi culpa da terra, eu sei. Mas marcou-me, tornou a minha mocidade uma época triste.
Talvez não fosse só o tempo que estava nublado. Os meus olhos também estavam.
Até um dia destes.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Amanhã vou de abalada


De manhãzinha vamos direitos a Gaia, onde amoçaremos, breve passagem pelo Porto e, de seguida o Douro, uma das minhas regiões preferidas. Depois conto e mostro fotos.
Berço de Torga, do meu Torga. Terras que ele amou e percorreu, de arma às costas, o cão e as perdizes no cinto. Terra onde quis ficar e, onde espero, o deixem para sempre. O Panteão não é lugar para ele. É ali, no chão da terra tão amada, que deve ficar para sempre, plantado entre o negrilho e a torga.
Espero ver as amendoeiras em flor. Espero ver o Douro altivo e rude, manso e submisso, correr entre montanhas a pique. Quero ver as belas vinhas, em socalcos, feitas à força dos braços humanos e adubadas de tanto sangue, suor e lágrimas, para os donos fazerem aquele precioso vinho, que se devia chamar “do Douro” e não “do Porto”.
Quero no Domingo voltar cansada, mas feliz, com a cabeça arejada por aquele ar puro, as baterias recarregadas, ao meu cantinho, aos meus livros, ao meu cão e... ao meu computador.
Bom fim de semana.
Até um dia destes.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O meu primeiro filho


Meu querido filho:
Cada vez que quero escrever a um de vós, fico sem saber como o fazer.
É difícil, sem ser repetitiva, dizer o que sinto por vocês, além de me arriscar, a omitir alguma coisa importante.
Vou dividir esta carta em partes:
1ª Nasceste num Domingo de Ramos e Dia do Pai. Foste a prenda
que nesse dia, eu e o pai demos aos teus avós. Foste a primeira prenda do Dia do Pai, que deste ao teu pai. Foi nesse dia, que me senti inteiramente mulher.
Tiveste pressa de conhecer o mundo e, vieste um mês antes do previsto. Pequenino (40 centímetros e menos de 2 quilos), frágil, quase sem pestanas, as unhas fraquinhas, mas com um cabelo enorme. Nasceste em casa e, devido à tua debilidade, tivemos que transformar o quarto em estufa e o teu berço num casulo, aquecido por 3 botijas. Não te tirava de lá, a não ser para beberes o leite com uma colherinha, pois não tinhas forças para mamar.
2ª Estavam todos convencidos que não ias resistir. Todos, não. Nós 3, tu, o pai e eu, sabíamos que a Vitória era nossa.
A pequenina crisálida começou a querer sair do casulo. Com cerca de dois meses tinhas atingido o peso. Tomaste o teu primeiro banho (até aí eras limpo a seco) e gostaste.
Com 3 meses fizeste a primeira viajem Porto Cascais e, sem vaidade, já eras um bebé lindo.
Eras alegre, risonho, muito sociável, sem medos e muito, muito amado, não só pelos teus pais, mas por todos.
Ainda não tinhas feito 1 ano, quando nasceu a mana. Ao princípio não achaste muita graça, mas acho que não te deves lembrar da tua vida, antes dela nascer.
Cresceram juntos, no meio de bulhas aparatosas, misturadas com uma grande cumplicidade.
3ª Mergulhaste a primeira vez com 5 anos, na praia do Canavial, em Lagos. Ainda te lembras? A tua irmã com 4, deu uma descompostura ao pai, por causa de teres ficado tanto tempo dentro de água.
Os anos iam passando, foste para a escola e, um dia veio outro irmão. Tu e a mana foram os segundos pais dele.
4ª Aí, veio a tropa. No dia que saíste para Mafra, saí de casa para não chorar à tua frente. De 2ª a 6ª não dormi uma hora.
Na 6ª, quando te vi chegar, cabeça rapada, baixa, com um ar infeliz que nunca te tinha visto, não sei como sustive as lágrimas. Á noite, o Rui e o Carlos levaram-te e voltaste melhor.
5ª Um dia apresentaste-nos uma menina. Era simpática, gira e eu gostei logo dela. O dia do vosso casamento foi um dos mais bonitos e mais felizes da minha vida. Nunca tive ciúmes da Sílvia. Foi mais uma filha, a juntar aos três.
Depois nasceu o vosso filho, o meu primeiro neto rapaz, fiquei doida de alegria. Já tinha a minha neta querida, fiquei com um belo par de netos. A seguir, durante cerca de 2 anos, emprestaram-mo, para eu sentir outra vez, toda a felicidade que dá, ver desabrochar uma criança. Já tem 10 anos, o meu bebé!
6ª Dizer-te o que és para mim? Tu sabes, filho. Se há coisa de que eu não duvido, é que tu sabes bem o que tu ( vocês 3, tu, a Sílvia e o vosso filho), os teus irmãos e sobrinha e o teu pai, são para mim.
São a minha vida, o meu orgulho, a razão que me faz viver.
Parabéns filho. Vou acabar, pois já começo a dizer lamechices.
Muitos beijos do pai e meus.
Até um dia destes.

domingo, 15 de março de 2009

Papoilas


A Primavera está a chegar com um certo ar de Verão antecipado.
Tenho preguiça para pensar, para escrever, para tudo. Por isso fui pedir emprestado um poema a Cesáreo Verde, para contar o efeito que as papoilas podem ter.
Este poeta, infelizmente cada vez mais esquecido, merecia melhor vida e menos esquecimento. Hoje, ao ver esta foto de um campo de papoilas no Alentejo, lembrei-me dele. Por isso...

De tarde

Naquele pique-nique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão-de-ló molhado em Malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde

E assim vos deixo por hoje, com um belo campo e um belo poema.

Até um dia destes.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A minha boneca mais bonita




Sempre gostei de bonecas. No meu tempo não havia Barbies, felizmente. Havia bonecas de trapo, de cartão, de celulóide.
Tive algumas e amava-as a todas. Tratava-as, como via a minha mãe tratar-nos. Falava com elas, levantava-as de manhã, deitava-as à noite, dava-lhes de comer. Houve uma, feita de pano, com cara de borracha, olhos e boca pintados e tranças loiras de lã. Chamava-se Carolina Augusta e, o meu excesso de amor custou-lhe a vida, a ela e, muitas lágrimas de desgosto a mim. Aquela boca vermelha, fechada preocupava-me, pois não podia dar-lhe de comer. Expliquei-lhe que a “mãe”, tinha que lhe fazer um corte na boca, mas que era para bem dela. Desinfectei uma tesoura, passei um algodão com álcool na boca da Carolina e, com lágrimas nos olhos, fiz um golpe mais ou menos simétrico. Foi trágico. O álcool diluiu a tinta vermelha e escorria como sangue. Limpei bem, deitei-a na cama uns dias e... passei a alimentá-la mesmo. Isto é: metia para dentro da boca da infeliz, tudo o que me parecia bom para ela, incluindo as vitaminas que eu tomava, “Tonosol”. Claro está, que a boneca começou a ter um hálito horrível. A minha mãe descobriu e ainda teve paciência umas vezes, para tirar a comida podre da cara da boneca. Um dia, aproveitando uma mudança de casa, a Carolina desapareceu. Chorei dias e noites a fio.
Tive mais bonecas, cresci e já pensava em filhos, muitos filhos. Mas o sonho dourado era ter uma menina. Uma boneca de carne e osso, que comesse, bebesse, fizesse xixi, me chamasse mãe e vestisse vestidinhos lindos, tivesse cabelos para eu pentear.
O meu primeiro filho foi um rapaz. Não fiquei desiludida. Era lindo e toda a família queria um menino. E eu sabia, que a menina viria.
Chegou, faz hoje anos, ainda o irmão não tinha um ano. Quando a parteira me disse: é uma menina, a minha resposta foi: já sabia.
Enfim tinha a boneca dos meus sonhos. Mais linda, do que alguma vez sonhara. Tinha dois bonecos vivos, perfeitos, espertos. Mas dele, falo para a semana. Hoje o dia é dela. Era grande, com umas enormes pestanas, um nariz pequenino, uma boca que parecia desenhada a pincel e cabelinhos ondulados. Começou a falar e a andar, muito cedo. A primeira coisa que disse foi: “papa, man, papa”.
Fiz-lhe os vestidos que sonhara para ela. Alguns à mão. As avós, encantadas com a minha boneca, também fizeram alguns.
Foram anos muito bons. Depois a minha linda boneca, transformou-se numa linda rapariga e, teve também ela, uma boneca linda.
Estamos longe, minha filha. Separadas pela vida, juntas pelo amor que sinto por ti, que é muito maior do que o que tinha pelas bonecas.
Nunca vou esquecer, aquele dia, em que te puseram nos meus braços e me disseram: é uma menina.
Daqui de longe, no meu cantinho, hoje às 20 horas e 20 minutos, fecho os olhos e vou ouvir de novo: “é uma menina”.
Parabéns minha boneca de um dia, minha filha querida, espero que passes um dia feliz. E se puderes e te lembrares, às 20-20, pensa um bocadinho na tua mãe.
Até um dia destes.

domingo, 8 de março de 2009

Dia da Mulher

Hoje vou escrever pouco. Vou limitar-me a transcrever.
Tudo isto, sendo pouco, diz mais do que eu diria em 1.000 palavras.
Como começou o dia da mulher:

"As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, em que protestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários.
Existem outros acontecimentos que possam provar a tese como o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, que também aconteceu em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 146 trabalhadoras. Segundo esta versão, 129 trabalhadoras durante um protesto teriam sido trancadas e queimadas vivas. Este evento porém nunca aconteceu e o incêndio da Triangle Shirtwaist continua como o pior incêndio da história de Nova Iorque."

Quantas mulheres morreram em Portugal em 2008, vítimas de violência?

"O número de mulheres vítimas mortais de violência doméstica quase duplicou de 2007 para 2008. A denuncia parte da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), que detectou um aumento de 21 casos registados no ano passado para cerca de 40 este ano."

Não sei o nome do autor deste poema, mas traduz muito bem o que eu e outras mulheres, sentimos hoje. Por nós e pelas outras.
Peço desculpa ao autor, por não saber identificá-lo (a).

"Café e cigarro, computador ligado
E de repente fico com humor de animal em vias de extinção
Em todos os blogs: O dia internacional da mulher.
Hoje não haverá mulheres preteridas nos empregos... Porque são mulheres.
Hoje não haverá mulheres maltratadas... Porque são mulheres.
Hoje todas as mulheres se sentirão felizes... Porque são mulheres.
Hoje é, excepcionalmente dia da mulher
E todas as mulheres deviam sair para a rua
E celebrar hoje:
O dia do homem que inventou o dia da mulher.
E oferecer a cada um deles, em homenagem e protesto
Os símbolos, que nos outros dias do ano as representam:
Um avental, uma tábua de passar a ferro, um fogão.
Eu que sou mulher que não precisa de dias
Porque faço de todos os dias, meus
Eu que não preciso que um dia por ano
Homenageiem a minha condição de mulher
Eu, que acho que igualdade seria
Não haver, um dia excepcionalmente da mulher
Eu que acho o dia da mulher negativamente discriminatório
Fico com humor de animal em vias de extinção.
E acendendo um cigarro
Recuso-me a ler mais homenagens à mulher
E espero que ninguém tenha o azar,
De hoje, dia excepcionalmente da mulher
Me oferecer uma flor."

Até um dia destes.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Recordações da Maria


Hoje Antunes Ferreira conta na sua “Travessa”, uma história de um casal de cegos e do seu filho, que vê. Comoveu-me a delicadeza, a ternura, com que o faz. Aconselho-vos, não só esta, como todas as histórias dele. Esta fez-me lembrar a minha história.
Tudo começou, num tempo em que ainda não havia vacina da poliomielite. Eu tinha menos de 3 anos. Acordei uma manhã, com uma dor horrorosa de cabeça, sem falar e com a cara toda repuxada e paralisada, do lado do direito. Chamado o médico, logo a doença foi diagnosticada. Uma ida ao Porto a um pediatra e análises várias, entre as quais uma punção lombar, confirmaram a opinião do primeiro.
Estavam os antibióticos a dar os primeiros passos. Em Portugal era quase impossível obtê-los, restava Espanha. Telefonemas, telegramas, que sim senhor havia, mas alguém teria de ir à fronteira buscá-las. Foi um tio e o primeiro médico. Numa corrida contra o tempo, foram e voltaram de Vilar Formoso, já com os preciosos frasquinhos de “Estreptomicina”. Isolamento em quarto, onde só entravam os meus pais, o médico e uma tia, a minha irmã desmamada. A cara ia voltando ao sítio, já conseguia comer, já podia voltar a Tomar, estar ao pé dos meus manos. Mas o calvário ainda não acabara. Foram meses de “Correntes Galvânicas” na cara, até tudo voltar ao lugar. Tudo, menos o nervo óptico, paralisado até hoje. Lamentar-me eu? Não. Só tenho que me sentir grata. Grata por não ter ficado numa cadeira de rodas, grata por que um dos meus olhos vê, grata aos médicos que me trataram, grata aos meus pais e tios que tudo fizeram por mim.
Às vezes não é só gratidão. Sinto que fui uma privilegiada. Entre tantos que tiveram a mesma doença, fui a menos marcada. O olho direito não vê, mas tenho o esquerdo. O outro, com eu digo, é para enfeitar. Dizem que os meus olhos eram bonitos, mas o que importa é que um deles vê. Esta foi mais uma lembrança agri-doce da minha infância feliz.
Até um dia destes.