terça-feira, 31 de março de 2009

Da Régua a São João da Pesqueira


Saída da Régua, depois de um último adeus ao Sandeman, ( um dia destes eu conto a história de amor-ódio, que vivi com o homem da capa preta), foi a correria própria deste tipo de passeios, de que cada vez gosto menos. Uma brevíssima paragem num miradouro, onde foram tiradas as duas primeiras fotos. Para trás, tinham ficado imagens lindas, que só consegui guardar na memória.
Aqueles socalcos feitos sem ajuda de máquinas, esventrados, cavados, alisados, plantados, apenas com o esforço humano, enchem-me sempre, de um misto de admiração e angústia, pelas vidas que custaram, pelas lágrimas, suor e sangue, que os regaram e, talvez tenham contribuído para o sabor sem par, do vinho do Porto. Vinho do Porto, que se deveria chamar vinho do Douro. É ali que ele nasce, é aquela terra, aquele sol, que o fazem como é.
E, mais uma vez, lembro Torga, as suas histórias vividas e sentidas.
Chegámos a São João da Pesqueira. 25 minutos, para o café, o xixi, a compra de uns queijos e bolinhos, o costume. Dispensei tudo isso, para poder tirar três fotos: A Câmara Municipal, uma pequena Igreja e o Pelourinho. Foi muito pouco para o que havia para ver.
Os 25 minutos passaram e, continuou a correria até Freixo de Espada à Cinta. Passaram-me à frente as amendoeiras, as torgas, as ravinas e os montes, as casa grandes e pequenas de que tanto gosto e, nem uma foto. Eram quase horas de almoço, meus senhores. E passeio é isso mesmo: comer, correr e parar, para o café e xixi, numa qualquer área de serviço.
Até um dia destes.

domingo, 29 de março de 2009

Régua – Do anoitecer ao amanhecer


Chegamos à Régua à tardinha. Quartos distribuídos, hora marcada para o jantar, correria para ver algo do Benfica – Sporting, alguns.
O meu quarto tinha uma varanda sobre o Douro. A vista, àquela hora em que tudo é calmo e sereno, era linda. Sentados na varanda, dois gins e água tónica, para os dois, um cigarro para mim, ficámos a tirar fotografias, até a noite cair. Em frente, um reclame do Sandeman, aquele da capa preta, que em miúda me causava pesadelos e agora me pareceu, um amigo reencontrado.
Fomos jantar. Um jantar, que eu, habituada ao meu pratinho de sopa, comecei por achar um exagero. Depois, a conversa, o vinho, os pratos, a fadista que cantava, eram tão bons, que comi, como poucas vezes me lembro de ter comido. Após o jantar, aconselhava o bom senso, uma voltinha digestiva. Foi curta. Voltámos ao Hotel, ouvimos um senhor tocar piano, bebi uma garrafa de água das pedras e, dormi até às 5-30. A varanda chamava-me. Estava fresquinho, a madrugada avançava, o homem da capa preta, lá no alto, desafiava mais uma foto.
Às 8-30 partimos.
Da Régua ficou-me a memória do Douro maravilhosamente dourado, do verde dos socalcos, do Sandman e as fotos que junto.
Já me esquecia de dizer que: O Benfica ganhou.
Até um dia destes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Amarante, Princesa do Tâmega



Amarante, nasceu à sombra do seu belo Convento, mirando-se vaidosa, nas águas do Tâmega, rio lindo, afluente do Douro.
A cidade, dividida ao meio pelo rio, é linda. Deve ter uma “cidade nova”, igual a todas as outras, mas tive a sorte de não a ver.
Assim, a Amarante de há 45 anos, pareceu-me igual.
De um lado do rio, o Convento, o adro empedrado, uma fonte, pequenas casas, senhoras que vendem bolos e linhos da região.
Do outro, a velha pastelaria do “Zé da Calçada”, minha velha conhecida, doutros tempos. No Inverno era muitas vezes, o destino dos nossos passeios de Domingo. No andar de cima tinha uma bela sala de chá, com vista para o Tâmega, onde se bebia chá de folhas e se comiam “Lérias”, “Pingos de Tocha”, “Foguetes”, bolos de ovos deliciosos. Mais a cima, havia um Restaurante, que fazia a melhor “cabidela” do mundo, um arroz da mesma ave e “papas de sarrabulho”. Se não pensarmos num dos ingredientes, comuns aos três pratos, eram deliciosos.
Depois, havia o rio, umas vezes sereno, outras correndo desenfreado, parecendo ter pressa de chegar ao Douro.
A ponte que liga as duas margens, foi testemunha das “Invasões Francesas”, como se prova num dos pilares.
O resto, as fotos mostram.
Amarante continua a ser, “A Princesa do Tâmega”.
Além das jóias de arquitectura e gastronómicas, foi berço de dois pintores famosos, Amadeo Souza Cardoso e António Carneiro e de dois grandes escritores, Teixeira de Pascoaes e Agustina Bessa Luís. Deles falarei um dia.
Hoje, foi apenas “Amarante à vol d’ oiseau”.
Até um dia destes.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Mãe


Como todos os dias 25 de Março, vou visitar a pequenina casa que habitas, há 32 anos.
Fui eu quem embrulhou numa toalha de linho branco, o que restava de ti e, meti numa urna pequenina e nessa casinha, onde moras agora. Como és pequena e leve, Mãe! Limpo o pó, ponho-te flores, fecho a porta e baixinho, vou-te contando o que se passou, desde que aí fui. Chorar, já não choro, pelo menos para fora. As lágrimas caem-me na alma, como gotas de chumbo derretido. E queimam, Mãe, queimam muito.
Depois penso que há mais em mim, nos meus irmãos, nos teus netos e bisnetos, de ti, do que ali, dentro da caixinha. Mas estão lá os braços que me embalaram, as pernas que guiaram os meus primeiros passos, os ossos fininhos das lindas e macias mãos que me acarinharam. Então, instintivamente, embalo a caixinha nos meus braços, com a mesma ternura com que um dia me embalaste.
Mãe, minha querida e santa Mãe, como me fazes falta!
Até um dia destes.

terça-feira, 24 de março de 2009

Quem vem e atravessa o rio...


No sábado, a neblina, aquela neblina tão tripeira, não deixava ver muito. Além das pontes, as três mais velhas e bem minhas conhecidas e as novas, bonitas, mas que me dizem pouco, quase nada se via. O velho casario esbatido pela névoa, ruas que não conheço, caminhos que não sei para onde vão. É o progresso, esse mal necessário, a matar as lembranças boas e más, de uma terra onde vivi treze anos. Se fui feliz lá? Houve tempos felizes, tempos péssimos. Nasceram-me lá os dois filhos. Isso foi a parte boa. A minha mãe, desde que para lá fomos, nunca mais teve saúde. Não foi culpa da terra, eu sei. Mas marcou-me, tornou a minha mocidade uma época triste.
Talvez não fosse só o tempo que estava nublado. Os meus olhos também estavam.
Até um dia destes.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Amanhã vou de abalada


De manhãzinha vamos direitos a Gaia, onde amoçaremos, breve passagem pelo Porto e, de seguida o Douro, uma das minhas regiões preferidas. Depois conto e mostro fotos.
Berço de Torga, do meu Torga. Terras que ele amou e percorreu, de arma às costas, o cão e as perdizes no cinto. Terra onde quis ficar e, onde espero, o deixem para sempre. O Panteão não é lugar para ele. É ali, no chão da terra tão amada, que deve ficar para sempre, plantado entre o negrilho e a torga.
Espero ver as amendoeiras em flor. Espero ver o Douro altivo e rude, manso e submisso, correr entre montanhas a pique. Quero ver as belas vinhas, em socalcos, feitas à força dos braços humanos e adubadas de tanto sangue, suor e lágrimas, para os donos fazerem aquele precioso vinho, que se devia chamar “do Douro” e não “do Porto”.
Quero no Domingo voltar cansada, mas feliz, com a cabeça arejada por aquele ar puro, as baterias recarregadas, ao meu cantinho, aos meus livros, ao meu cão e... ao meu computador.
Bom fim de semana.
Até um dia destes.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O meu primeiro filho


Meu querido filho:
Cada vez que quero escrever a um de vós, fico sem saber como o fazer.
É difícil, sem ser repetitiva, dizer o que sinto por vocês, além de me arriscar, a omitir alguma coisa importante.
Vou dividir esta carta em partes:
1ª Nasceste num Domingo de Ramos e Dia do Pai. Foste a prenda
que nesse dia, eu e o pai demos aos teus avós. Foste a primeira prenda do Dia do Pai, que deste ao teu pai. Foi nesse dia, que me senti inteiramente mulher.
Tiveste pressa de conhecer o mundo e, vieste um mês antes do previsto. Pequenino (40 centímetros e menos de 2 quilos), frágil, quase sem pestanas, as unhas fraquinhas, mas com um cabelo enorme. Nasceste em casa e, devido à tua debilidade, tivemos que transformar o quarto em estufa e o teu berço num casulo, aquecido por 3 botijas. Não te tirava de lá, a não ser para beberes o leite com uma colherinha, pois não tinhas forças para mamar.
2ª Estavam todos convencidos que não ias resistir. Todos, não. Nós 3, tu, o pai e eu, sabíamos que a Vitória era nossa.
A pequenina crisálida começou a querer sair do casulo. Com cerca de dois meses tinhas atingido o peso. Tomaste o teu primeiro banho (até aí eras limpo a seco) e gostaste.
Com 3 meses fizeste a primeira viajem Porto Cascais e, sem vaidade, já eras um bebé lindo.
Eras alegre, risonho, muito sociável, sem medos e muito, muito amado, não só pelos teus pais, mas por todos.
Ainda não tinhas feito 1 ano, quando nasceu a mana. Ao princípio não achaste muita graça, mas acho que não te deves lembrar da tua vida, antes dela nascer.
Cresceram juntos, no meio de bulhas aparatosas, misturadas com uma grande cumplicidade.
3ª Mergulhaste a primeira vez com 5 anos, na praia do Canavial, em Lagos. Ainda te lembras? A tua irmã com 4, deu uma descompostura ao pai, por causa de teres ficado tanto tempo dentro de água.
Os anos iam passando, foste para a escola e, um dia veio outro irmão. Tu e a mana foram os segundos pais dele.
4ª Aí, veio a tropa. No dia que saíste para Mafra, saí de casa para não chorar à tua frente. De 2ª a 6ª não dormi uma hora.
Na 6ª, quando te vi chegar, cabeça rapada, baixa, com um ar infeliz que nunca te tinha visto, não sei como sustive as lágrimas. Á noite, o Rui e o Carlos levaram-te e voltaste melhor.
5ª Um dia apresentaste-nos uma menina. Era simpática, gira e eu gostei logo dela. O dia do vosso casamento foi um dos mais bonitos e mais felizes da minha vida. Nunca tive ciúmes da Sílvia. Foi mais uma filha, a juntar aos três.
Depois nasceu o vosso filho, o meu primeiro neto rapaz, fiquei doida de alegria. Já tinha a minha neta querida, fiquei com um belo par de netos. A seguir, durante cerca de 2 anos, emprestaram-mo, para eu sentir outra vez, toda a felicidade que dá, ver desabrochar uma criança. Já tem 10 anos, o meu bebé!
6ª Dizer-te o que és para mim? Tu sabes, filho. Se há coisa de que eu não duvido, é que tu sabes bem o que tu ( vocês 3, tu, a Sílvia e o vosso filho), os teus irmãos e sobrinha e o teu pai, são para mim.
São a minha vida, o meu orgulho, a razão que me faz viver.
Parabéns filho. Vou acabar, pois já começo a dizer lamechices.
Muitos beijos do pai e meus.
Até um dia destes.