sábado, 11 de abril de 2009

Sexta-feira da Amizade


Costuma ser um dia um pouco triste. Lembra-me a morte, não só de Jesus, como outras mortes que têm marcado a minha vida.
No tempo do meu pai, a Páscoa era festejada em casa dele. Na quinta-feira, a que ele chamava, “quinta-feira das matracas”, (lembranças do tempo de menino em Óbidos), começava a Páscoa.
Reunidos em volta da mesa, as recordações vinham em catadupa e, a conversa durava até às tantas. Na sexta-feira, era obrigatório o bacalhau (único peixe que ele gostava). No domingo era a grande festa. O borrego assado, o Pão de Ló de Ovar, os folares, com ovos em cima, as amêndoas.
Depois dele morrer, todas as datas festivas, Natal, Páscoa, passaram a ser-me, não direi indiferentes, mas diferentes. Sem a alegria dele, sem o seu poder de aglomerar gente, nada faz muito sentido.
Ontem, preparava-me para passar mais uma sexta-feira santa, igual às outras, mantendo apenas, o ritual do bacalhau.
O meu filho disse-me que a Nemy, vossa conhecida dos comentários que aqui faz, se queria encontrar com ele. Conheço-a há muitos anos, de casa do meu pai, mas na confusão de gente que se juntava, nunca tinha calhado, termos grandes conversas.
Chegou perto das cinco, com um ar doce de menina, um livro e três rosas. Abraçamo-nos, num abraço longo, como duas amigas, que tendo-se perdido há muito, se reencontram. Tomámos chá e comemos o bolo que o Vasco fizera, a conversa desenrolou-se, fluiu, como se nunca tivesse havido separação.
Durante todo o tempo nem dos cigarros me lembrei. Sei que quando pensava serem horas de jantar, era meia-noite.
Bebemos mais chá, pão e bolo e... eram perto das duas da manhã, quando ela foi para casa. Ficou muito por dizer, Nemy. Agora que te reencontrei, não vou voltar a perder-te. Devo-te um dia muito bom.
Foi uma volta ao passado, uma volta pelo presente, em que vocês todos não foram esquecidos. Foram trocas de Sites e Blogs, perigos e vantagens da Internet, sei lá.
Passei uma tarde e noite lindas, como há muito não passava.
Obrigada Nemy, pelo livro, pelas rosas e, sobretudo pela tua presença. Volta depressa.
Mais um vez, Feliz Páscoa para todos.
Até um dia destes.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Feliz Páscoa, amigos



Não vos vou aborrecer com palavras minhas.
É de novo Torga quem vos fala, em dois poemas.

Páscoa

Anho do sacrifício
Que o ritual impõe,
É um balido discreto que lhe pedem
Homens e deuses, feras fraternais:
Que o perfume
Dum lírico queixume
Enterneça os fiéis sentimentais.

Mas o cordeiro agónico protesta.
E a paz familiar da festa
É perturbada.
A violência
Tem de ser friamente consumada.

Junta-se então,
No altar da imolação,
A pura crueldade
À impura liturgia,
E o sangue do poeta assassinado,
A correr como verso derramado,
É um hino rubro à eterna rebeldia.

Miguel Torga “Câmara Ardente”

Hossana!

Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!
Desejado por todos os poetas
E profetas
Da vida,
Deixou a sua ermida
E meteu-se ao caminho.
Ninguém o viu ainda, mas é belo.
É o futuro...

Ponham pois rosmaninho
Em cada rua,
Em cada porta,
Em cada muro,
E tenham confiança nos milagres
Desse Messias que renova o tempo.
O passado passou.
O presente agoniza.
Cubram de flores a única verdade
Que se eterniza.

Miguel Torga “Cântico do Homem”

Até um dia destes.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Freixo de Espada à Cinta


Freixo, teve o seu primeiro foral, dado por D. Afonso Henriques. A este 1º foral, juntaram-se mais tarde, duas declarações de D. Sancho II e D. Afonso III, que confirmavam a posse dos mesmos foros. Em 1512, novo Foral de D. Manuel I garante todos os direitos ao local.
Conta a lenda que, durante as escaramuças entre D. Dinis e seu filho D. Afonso, o rei se terá sentado a descansar à sombra do freixo, encostando a espada ao mesmo. Assim teria nascido o nome da bela terra “Freixo de Espada à Cinta”.
Durante algum tempo, pôs-se a hipótese, completamente posta de parte, de aí ter nascido Luís de Camões. Há até uma quadra que reza:


Em Freixo de Espada à cinta
Nasceu Luís de Camões
Sua mãe, D .Jacinta
Negociava em melões.


Ora, nem a mãe de Camões se chamava Jacinta (Ana Vaz era seu nome), nem negociava em melões, nem Camões lá nasceu. Histórias do povo.
Mas, se Camões lá não nasceu, Freixo não deixou de ser berço de grande poeta: Abílio Guerra Junqueiro, autor dos “Simples”, “A Velhice do Padre Eterno” e outros.
Chegámos a Freixo, cerca do meio-dia. Esperava-nos um senhor do turismo local, que simpaticamente, nos levou ao mais importante miradouro da zona: “ Cabeço Durão”. A uma altura de 550 metros, caindo a pique sobre o Douro Internacional, a vista é impressionantemente bela. É o Douro em toda a sua rudeza e majestade. Avista-se uma barragem espanhola, de nome São Ceide, se não fui mal informada.
Voltamos a Freixo para o almoço. Casa antiga, muito bonita no exterior e no interior, bem decorada com peças de mobiliário muito conservadas. Simpática e acolhedora, como a sua proprietária e cozinheira. Estava tudo impecável, desde as mesas, bem postas e bem fornecidas, aos empregados, que podiam dar lições de bem servir aos seus colegas de Lisboa. A “Casa do Conselheiro” teve nota 20.
E acabou a parte boa. Mal o simpático senhor do Turismo, se preparava para nos mostrar a Igreja, a Torre Heptagonal, alguém que ao que parece, mandava no grupo, indelicadamente, pôs fim à visita. Mal houve tempo de fotografar a Igreja por fora, a torre, o Pelourinho e Guerra Junqueiro. Mais meia hora e teríamos, ao menos, visto aquela Igreja por dentro, já que não dava para mais.
Depois, foi a corrida desenfreada até à “maravilhosa” área de serviço de Abrantes, onde paramos meia hora, para o motorista descansar e os necessários xixis. Estava toda a gente gelada, mal disposta, sem os gracejos habituais, sem sorrisos. Mas havia alguém feliz. O “senhor que mandava”, provou a toda a gente, como age, um verdadeiro “Gentleman”. Foi indelicado com quem só queria mostrar-nos um pouquinho da sua linda terra, armou em “Coronel da Gabriela” com os ex-escravos que levou a passear.
Pros mesmos, amigos, pros mesmos. Até um dia destes.

terça-feira, 31 de março de 2009

Da Régua a São João da Pesqueira


Saída da Régua, depois de um último adeus ao Sandeman, ( um dia destes eu conto a história de amor-ódio, que vivi com o homem da capa preta), foi a correria própria deste tipo de passeios, de que cada vez gosto menos. Uma brevíssima paragem num miradouro, onde foram tiradas as duas primeiras fotos. Para trás, tinham ficado imagens lindas, que só consegui guardar na memória.
Aqueles socalcos feitos sem ajuda de máquinas, esventrados, cavados, alisados, plantados, apenas com o esforço humano, enchem-me sempre, de um misto de admiração e angústia, pelas vidas que custaram, pelas lágrimas, suor e sangue, que os regaram e, talvez tenham contribuído para o sabor sem par, do vinho do Porto. Vinho do Porto, que se deveria chamar vinho do Douro. É ali que ele nasce, é aquela terra, aquele sol, que o fazem como é.
E, mais uma vez, lembro Torga, as suas histórias vividas e sentidas.
Chegámos a São João da Pesqueira. 25 minutos, para o café, o xixi, a compra de uns queijos e bolinhos, o costume. Dispensei tudo isso, para poder tirar três fotos: A Câmara Municipal, uma pequena Igreja e o Pelourinho. Foi muito pouco para o que havia para ver.
Os 25 minutos passaram e, continuou a correria até Freixo de Espada à Cinta. Passaram-me à frente as amendoeiras, as torgas, as ravinas e os montes, as casa grandes e pequenas de que tanto gosto e, nem uma foto. Eram quase horas de almoço, meus senhores. E passeio é isso mesmo: comer, correr e parar, para o café e xixi, numa qualquer área de serviço.
Até um dia destes.

domingo, 29 de março de 2009

Régua – Do anoitecer ao amanhecer


Chegamos à Régua à tardinha. Quartos distribuídos, hora marcada para o jantar, correria para ver algo do Benfica – Sporting, alguns.
O meu quarto tinha uma varanda sobre o Douro. A vista, àquela hora em que tudo é calmo e sereno, era linda. Sentados na varanda, dois gins e água tónica, para os dois, um cigarro para mim, ficámos a tirar fotografias, até a noite cair. Em frente, um reclame do Sandeman, aquele da capa preta, que em miúda me causava pesadelos e agora me pareceu, um amigo reencontrado.
Fomos jantar. Um jantar, que eu, habituada ao meu pratinho de sopa, comecei por achar um exagero. Depois, a conversa, o vinho, os pratos, a fadista que cantava, eram tão bons, que comi, como poucas vezes me lembro de ter comido. Após o jantar, aconselhava o bom senso, uma voltinha digestiva. Foi curta. Voltámos ao Hotel, ouvimos um senhor tocar piano, bebi uma garrafa de água das pedras e, dormi até às 5-30. A varanda chamava-me. Estava fresquinho, a madrugada avançava, o homem da capa preta, lá no alto, desafiava mais uma foto.
Às 8-30 partimos.
Da Régua ficou-me a memória do Douro maravilhosamente dourado, do verde dos socalcos, do Sandman e as fotos que junto.
Já me esquecia de dizer que: O Benfica ganhou.
Até um dia destes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Amarante, Princesa do Tâmega



Amarante, nasceu à sombra do seu belo Convento, mirando-se vaidosa, nas águas do Tâmega, rio lindo, afluente do Douro.
A cidade, dividida ao meio pelo rio, é linda. Deve ter uma “cidade nova”, igual a todas as outras, mas tive a sorte de não a ver.
Assim, a Amarante de há 45 anos, pareceu-me igual.
De um lado do rio, o Convento, o adro empedrado, uma fonte, pequenas casas, senhoras que vendem bolos e linhos da região.
Do outro, a velha pastelaria do “Zé da Calçada”, minha velha conhecida, doutros tempos. No Inverno era muitas vezes, o destino dos nossos passeios de Domingo. No andar de cima tinha uma bela sala de chá, com vista para o Tâmega, onde se bebia chá de folhas e se comiam “Lérias”, “Pingos de Tocha”, “Foguetes”, bolos de ovos deliciosos. Mais a cima, havia um Restaurante, que fazia a melhor “cabidela” do mundo, um arroz da mesma ave e “papas de sarrabulho”. Se não pensarmos num dos ingredientes, comuns aos três pratos, eram deliciosos.
Depois, havia o rio, umas vezes sereno, outras correndo desenfreado, parecendo ter pressa de chegar ao Douro.
A ponte que liga as duas margens, foi testemunha das “Invasões Francesas”, como se prova num dos pilares.
O resto, as fotos mostram.
Amarante continua a ser, “A Princesa do Tâmega”.
Além das jóias de arquitectura e gastronómicas, foi berço de dois pintores famosos, Amadeo Souza Cardoso e António Carneiro e de dois grandes escritores, Teixeira de Pascoaes e Agustina Bessa Luís. Deles falarei um dia.
Hoje, foi apenas “Amarante à vol d’ oiseau”.
Até um dia destes.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Mãe


Como todos os dias 25 de Março, vou visitar a pequenina casa que habitas, há 32 anos.
Fui eu quem embrulhou numa toalha de linho branco, o que restava de ti e, meti numa urna pequenina e nessa casinha, onde moras agora. Como és pequena e leve, Mãe! Limpo o pó, ponho-te flores, fecho a porta e baixinho, vou-te contando o que se passou, desde que aí fui. Chorar, já não choro, pelo menos para fora. As lágrimas caem-me na alma, como gotas de chumbo derretido. E queimam, Mãe, queimam muito.
Depois penso que há mais em mim, nos meus irmãos, nos teus netos e bisnetos, de ti, do que ali, dentro da caixinha. Mas estão lá os braços que me embalaram, as pernas que guiaram os meus primeiros passos, os ossos fininhos das lindas e macias mãos que me acarinharam. Então, instintivamente, embalo a caixinha nos meus braços, com a mesma ternura com que um dia me embalaste.
Mãe, minha querida e santa Mãe, como me fazes falta!
Até um dia destes.