quinta-feira, 7 de maio de 2009

Corvo Vasco


Faz hoje 30 anos, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Ao fim de onze anos voltava a ter um filho. Não sabia se era menino ou menina nem estava nada preocupada com isso. Queria que viesse perfeito, saudável, afinal aquilo que todas as mães desejam.
Nasceste rapaz, com tudo o que eu quisera e... lindo. Quando te vi bem, horas depois, contei-te os dedos das mãos, dos pés, vi que tinhas tudo no sítio e fiquei doida de alegria. Eu tinha um bebé novo, bonito como os irmãos, cheio de vitalidade. Na Maternidade onde nasceste, as enfermeiras discutiam quem te iria vestir e diziam que eras o mais lindo de todos os que lá estavam.
Já te envergonhei o suficiente para um dia só. Mas a procissão ainda vai no adro.
Foste crescendo esperto, alegre, imaginativo, cheio de mimo de toda a gente. Eras um puto simpático, mas davas cada barraca que só visto. Está descansado que não vou contar, até porque nunca mais daqui saía.
Tens a tendência de te dares bem com pessoas mais velhas. É um dos teus traços mais marcantes, que muito aprecio, mas me preocupa um bocadinho. Isso já te causou vários desgostos. Muito novinho perdeste um Amigo, o teu Antunis, como lhe chamavas, que te adorava e a quem pagavas na mesma moeda. Depois um dos Avós, a Madrinha, a Avó e aquele que mais te doeu, aquele que te deixou marcas tão profundas na memória, no feitio, nos gostos, até em alguns gestos, o outro Avô, meu Pai. Nesse dia, pela primeira vez depois de crescido, vi-te chorar. Disseste: “Mãe. Todos perderam muito, mas eu perdi o meu maior amigo”. Era verdade. Nos últimos tempos tu foste o amigo, o companheiro, o confidente dele. Foi para nós dois, o seu último olhar, o seu último beijo.
Há pouco tempo, houve um Corvo teu amigo que voou inesperadamente. Voltei a ver-te o mesmo olhar profundamente triste, sem lágrimas à vista desta vez. Devem ter-te caído no coração feitas chumbo. Eu sei. Também choro assim.
É por isso que te peço: Arranja amigos da tua idade. Vai ter com a tua turma, rapaz! Mas não esqueças os outros. Continua a dar-nos a todos os mais velhos, a tua doçura, a tua atenção, o carinho que só tu sabes dar. Não quero que mudes meu filho, mas um dia nós vamos partir. E nesse dia vais-te sentir só.
Não estou a criticar, pelo contrário. Gosto que tu sejas como és. Mas acima de tudo quero ver-te feliz.
É verdade, a senhora velhinha do segundo andar, perguntou que tal era a tua mulher. Diz que a quer conhecer. Vê lá se arranjas uma senão ela nunca mais se cala.
Daqui a bocado dou-te os beijinhos todos. Agora levas um e já estás com sorte.
Felicidades neste importante dia em que passas a ser “Trintão”. Estás quase velho.
Até um dia destes.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Noites de Insónia de Camilo Castelo Branco e, minhas


Em “Noites de Insónia” em que já nem os “Narcóticos” resultam e, “O Esqueleto”, “O Coração, Cabeça e Estômago”, me pedem algumas “Horas de Paz”, vou buscar “Um livro” que me dê “Duas Horas de Leitura”. Por vezes resulta, outras não.
Então, começo a lembrar-me de “Coisas Espantosas”. Recordo os “Delitos da Mocidade”, lembro todo “O Bem e Mal” que fiz e, às vezes, “Lágrimas Abençoadas” correm-me nas faces. Há noites, em que me passam pela cabeça, “Os Mistérios de Lisboa”, as “Cenas Contemporâneas” a que assistimos, em que “Um Homem de Brios” se perde em “Vulcões de Lama”. Vivemos num tempo, em que “A Corja” consegue provocar “A Queda de um anjo”, quando este tenta “Cavar em Ruínas”. Algumas vezes pergunto: “Voltareis, Ó Cristo?” e, fico na dúvida se hei-de consultar “O Santo da Montanha” ou “A Bruxa do Monte Córdova”. É que neste mundo, onde impera “O Demónio do Ouro”, já nem se pode saber “Onde Está a Felicidade”, nem esperar por “Um Amor de Perdição”. Se virmos bem, talvez já nem existam “Doze Casamentos Felizes”.
“Ao Anoitecer da Vida”, chegam as “Nostalgias”, adivinha-se “Nas Trevas”, o “Ultimo Acto” das nossas vidas.
Mas, como se um “Anátema” pesasse sobre as nossas cabeças, continuamos à espera que um “Livro Negro do Padre Dinis”, se resolva e buscamos entre “As Cenas Inocentes da Comédia Humana”, como “Agulha em Palheiro”, as “Estrelas Propícias” que nos irão salvar.
Passamos a vida convencidos, que somos “Os Mártires” de todas as desgraças do mundo. No futebol, por exemplo, os nossos clubes perdem e, logo alguém se lembra do “Eusébio Macário”, perdão do Eusébio do Benfica. Lamuriamos porque “As virtudes antigas” cada vez são mais raras, descobrimos que “A vida do José do Telhado”, se repete no dia a dia. E chegados aqui, lembramos o clima de “Vingança” em que vivemos. Raro é o dia em que se não ouve na calada da noite um grito: “Maria! Não me mates, que sou tua Mãe”, ou outro parecido. Já não há “Serões de São Miguel de Ceide”, nem de lado nenhum, porque passamos a noite a olhar para a televisão, sabendo quase em directo que, em mais uma cena conjugal, a mulher se transformou na “Caveira da Mártir”.
Esperamos, já um pouco incrédulos, que uma qualquer “Maria da Fonte” nos salve.
Muito haveria ainda para dizer. Camilo tem muito mais livros. Eu não vou mais longe, porque estou-me a sentir “A Doida do Candal”.
Assim, acabo este “Curso de Literatura Portuguesa”, que espero vos dê uma boa noite de sono. Se não dormirem, cantem. O nosso escritor ainda tem o “Cancioneiro Alegre” publicado.
Como já viram, são só alguns, dos muitos títulos de livros de Camilo. Não chegam a ser metade, mas já não tenho fôlego para mais e, “O Sangue” lateja-me na cabeça.
Diverti-me a escrever isto. Espero que alguns se divirtam também. Os outros, experimentem ler. Talvez seja melhor do que o Xanax.
Até um dia destes.

domingo, 3 de maio de 2009

As Nossas Mães



Não a tua Mãe, Marcelina, não a minha Mãe Maria Adelaide.
Simplesmente as “Nossas Mães”. Duas mulheres diferentes e iguais, que moram nos nossos corações lado a lado.
Na nossa sala, na parede, há dois retratos das duas feitos por ti, com o mesmo amor e carinho, com que hoje trouxeste da rua, duas rosas brancas para Elas.
Só isso lhes podemos dar. As rosas, as saudades, as lembranças e um imenso amor, que a morte não matou.
Por isso, este “post” leva hoje dois nomes: o meu e o teu.
Saudades para as duas.
Maria e João

Até um dia destes.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Maio, o mês das flores, diz-se


Era Tomar e ao abrir a janela, havia um cheiro a flores no ar.
Nas floreiras do meu quarto havia sardinheiras de todas as cores.
A minha mãe gostava delas, eu não. Nem do cheiro, nem delas.
Em frente havia jardins cheios de flores, que não aquelas. Rosas, amores perfeitos, cravinas, cravos e violetas, violetas roxas, pequeninas, perfumadas. Tentava não sentir o cheiro das sardinheiras e, sentir só os outros. Saía de casa e, na Estrada da Serra havia maias amarelas, com um cheiro adocicado, havia papoilas sem cheiro, mas daquele vermelho que aquece a alma, havia margaridas, malmequeres, erva. E o cheiro da terra quente e húmida do orvalho. Descia a rua até à ponte, o rio corria, os salgueiros faziam um ruído manso, abanando ao de leve. Os patos do Nabão preparavam o ninho, os barbos saltavam. Dos cafés saía o cheiro de meias-de-leite e torradas. Das padarias vinha o inconfundível cheiro a pão acabado de cozer. Os cheiros da minha infância, os cheiros da minha terra.
Vasco, vê se me trazes uma flor. Uma maia ou outra, tanto faz. Não compres. Apanha numa rua, num jardim. Rouba uma flor para mim, uma flor, que mesmo murcha, traga um pouco do cheirinho de Tomar.
Até um dia destes.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um Chapéu que correu o mundo


Na Cascais dos anos 60, havia uma loja de modas.
Ficava à entrada da vila, junto ao belo café “Boca do Inferno”.
Pertencia a um tio de meu marido, alentejano de boa cepa, que veio cedo para Cascais. Aí casou, com uma irmã da minha sogra, teve filhos, estabeleceu-se e fez a sua vida. A loja, chamava-se “Casa Princesa”.
Ficava mal comigo, se não fala-se um pouco deste tio. Era alentejano, como já disse. Sem nunca esquecer a sua família de origem, nem o seu Alentejo natal, adoptou por sua, a família da mulher. Além de tio era padrinho do meu marido, a quem queria como filho e, ele adorava o tio Calado. A mim, adoptou-me também e, quando morreu, chorei-o como se fosse do meu sangue.
Era uma família unida, grande, num Cascais pequenino, diferente do de hoje, onde todos eram primos ou amigos.
Mas vamos à história.
A “Casa Princesa” era uma “Loja de Modas” à antiga, tinha tudo. Do botão à roupa feita, do tecido a metro a artigos de retrosaria, tudo.
Quando os turistas começaram a aparecer, o tio Calado, bom comerciante, juntou à mercadoria habitual, uma quantidade de artigos de artesanato, muito procurados pelos turistas. Toalhas bordadas, mantas, loiças regionais, chapéus, bandarilhas, objectos que os estrangeiros compravam como recordação.
A loja é hoje um banco, o tio foi embora, o “Boca do Inferno” é um pequeno Centro Comercial.
Há dias, o Vasco, que gosta de ir ao Ebay, ver e às vezes, comprar coisas, viu um curioso chapéu, que mostrava no interior, o seguinte: “Casa Princesa” J.M.Calado, Cascais. Telefonou alvoraçado, ao pai.
Resumindo: a Maria, maluca como sempre, nem pensou duas vezes, mandou vir o chapéu.
Hoje de manhã, o carteiro tocou, disse que tinha uma encomenda.
Vinha da Bulgária e, era o meu lindo chapéu de cavaleira, ou melhor, um chapéu do tio Calado, vendido, sabe-se-lá quando e a quem, que ao fim de muitos anos, voltou a Portugal, depois de ter corrido por aí, qual emigrante que um dia volta à terra.
Está em bom estado, como podem ver nas fotos.
Já tem lugar marcado na minha sala das recordações. É bom ter nas mãos, uma coisa que foi tocada, um dia, pelo meu padrinho de casamento.
Acho que o chapéu está contente, como eu. Voltou à sua terra, para as mãos de quem ao tocar-lhe, sentirá carinho, saudade, de quem um dia o vendeu.
Àquele que o conservou em bom estado, agradeço por isso.
Ao meu filho, agradeço por ter a mania de ir ao Ebay.
Ao meu marido, agradeço, por mais uma vez, ter ido atrás das maluquices em que me meto.
Tio Calado: A Maria, nunca o esquecerá. Não precisava do chapéu, para me lembrar de si. Tenho saudades suas e da tia. Mas agora, quando olhar para o chapéu, pensarei nele, como uma prenda, que os dois me tivessem dado.
João, Maria, meus queridos primos: o chapéu, será para mim, uma recordação muito querida. Venham cá vê-lo.
Agora, vou namorar um bocadinho o meu lindo chapéu preto. Depois, irá descansar da longa viajem que fez.
Até um dia destes.

sábado, 25 de abril de 2009

Tanto Mar


Sei que está em festa, pá

Fico contente

E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá

Com a tua gente

E colher pessoalmente

Uma flor no teu jardim


Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei, também, que é preciso, pá

Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá

Cá estou doente

Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim


Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

Ainda guardo renitente

Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto de jardim


Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei, também, quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

Canta primavera, pá

Cá estou carente

Manda novamente

Algum cheirinho de alecrim


Chico Buarque

Até um dia destes.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Pintor, a Girassol e as Exposições


Ontem foi dia dedicado à Arte. Fomos às Caldas, às Gaeiras e a Óbidos.
Vimos as Exposições da Mizé, minha amiga de alguns anos.
Uma, no Centro Comercial Vivaci, outra na pequena, mas muito bonita Igreja de São Sebastião. Gostei, Mizé. Só tive pena de te não ver.
Depois, rumamos às Gaeiras, terra de bom vinho, de que meu pai muito falava. É uma terra bonita, de que falarei um destes dias.
Aí, num velho lagar, uma exposição de Arte Sacra, bastante completa. Um dos artistas é António Rodrigues (o Pintor) e a Girassol, sua mulher. Gostei muito dos quadros dele, da peça de cerâmica dela e, deles. A Girassol, era minha conhecida dos blogs, ficámos amigas num momento. Ele, é extremamente simpático e afável. Foram momentos muito agradáveis.
Vejam as fotos e pensem ir vê-las, lá. A viajem é curta e vale a pena. É fácil encontrar o lagar, mas qualquer pessoa, vos dá informações. É um local, onde se usa falar a quem passa.
Um pouquinho abaixo, outro lagar mais pequeno, transformado em atelier de Escultura cerâmica, onde está a Paula Clemente, um encanto de menina, com ar doce e frágil e, umas mãos que nasceram para fazer pequenas obras de arte, que apetece trazer para casa. Também é fácil lá chegar. Até por que, num e noutro dos lagares, sem rivalidades parvas, se indicam um ao outro.
Vi mais coisas bonitas, mas ficam para outro dia.
Hoje, só falo das exposições e dos artistas. Eles merecem.
Vá, amigos! Daqui lá é um saltinho. Um passeio de Sábado ou Domingo, com muita coisa bonita para ver.
Mizé, Pintor, Girassol e Paula, a Maria quando promete, cumpre.
Espero ter aberto o apetite, a alguns amigos. Parabéns para todos.
Gostei muito. É bom saber, que não é só em Lisboa, que há bons artistas e boas mostras de arte.
Vá lá. Espantem a preguiça e vão ver. Não se vão arrepender, por certo.
Até um dia destes.