Quando eu tinha tranças, Tomar resumia-se a um aglomerado de casas baixas, ruas estreitas calcetadas de belos seixos rolados, uma praça, onde D. Gualdim seu fundador imperava. De um lado a Câmara Municipal Manuelina, do outro a Igreja de São João Baptista, nos outros lados casas grandes. Na Praça desembocava a Corredoura que nesse tempo me parecia enorme e larga, a rua de São João, a rua Direita, que por acaso é um bocado torta. Dum lado chamava-se rua Regimento Infantaria 15 e ia dar à Várzea Grande, à estação, à estrada para Lisboa, do outro chamava-se Rua Silva Magalhães e ia ter ao Pelourinho, à Várzea Pequena, ao Mouchão, à Igreja de São Gregório, à estrada de Leiria. Subindo a Corredoura, atravessava-se a bela e única ponte e estava-se em Além da Ponte ao pé do antigo Convento, de onde se diz Santa Iria se atirou (ou foi atirada) às águas do Nabão. Tinha a Igreja dedicada à Santa, um colégio onde andei, meia dúzia de casas. Junto ao colégio passava a estrada que seguia para o Cemitério, a lindíssima Igreja de Santa Maria do Olival, com a sua peculiar torre sineira ou Atalaia e seguia-se para Marmelais, Mais longe era a Fábrica de Fiação, a estrada de Coimbra e outros destinos.
Em qualquer lado que estivéssemos, de qualquer ângulo que olhássemos, lá estava altaneiro e belo, rodeado de verdes variados, o Castelo de D. Gualdim. Era só subir a rua Pé da Costa de cima, chegar ao Terreiro, franquear a porta, andar um bocadinho e aparecia em toda a sua Majestosa união, o Convento de Cristo com a sua Charola, a Janela conhecida de todos, os claustros, os corredores intermináveis e o Castelo, as torres, as muralhas.
Um pouco ao lado, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, pequenina basílica.
Noutro monte, a Senhora da Piedade, com a monumental escadaria, a graciosa capelinha.
De um dos lados do pequeno terreiro, viam-se as ruas, as casas, a igreja.
Depois Tomar cresceu. Espalhou-se para lá do rio, fizeram-se novos bairros.
Mas eu continuava a andar à vontade, era na cidade velha. Só lá me sentia bem. Todos me conheciam, eu conhecia todos. As pedras redondas do chão sentiam os meus pés e eu gostava de as sentir.
Um dia fui-me embora. Quando voltei, anos mais tarde, achei diferenças: jardins menos bem tratados, ruas sujas, um Nabão poluído, mas as pedrinhas das ruas eram as mesmas. Acho que me conheceram os pés e os pés conheceram-nas.
Um dia, veio um senhor que em nome do progresso, acabou com a velhinha ponte de madeira que no verão unia o Mouchão ao Parque das Merendas, fez uma ponte onde podem passar tanques, tipo forte e feia, arrancou árvores, pôs uns candeeiros e floreiras inconcebíveis e... crime hediondo, arrancou as pedras das ruas, substituindo-as por um pavimento lisinho, iluminado, cómodo (dizem, porque os meus pés não gostam), que transformou a calçada tomarense num chão igual a todos.
Calculo que haverá muita gente em desacordo comigo e não me importo. Vivemos num país livre ao menos de pensamento.
Mas que dizem se um dia destes acordarem e em vez da Roda do Mouchão estiver uma bela torre Eólica? Gostavam? Eu não.
Pois é. Eu já estou velha, avessa a mudanças. Tenho saudades da Tomar antiga, das pedras do chão, dos salgueiros e das minhas tranças.
Perdoem-me os novos. Os da minha idade ou mais velhos, talvez lá no fundo, sintam o mesmo que eu.
Até um dia destes.
Em qualquer lado que estivéssemos, de qualquer ângulo que olhássemos, lá estava altaneiro e belo, rodeado de verdes variados, o Castelo de D. Gualdim. Era só subir a rua Pé da Costa de cima, chegar ao Terreiro, franquear a porta, andar um bocadinho e aparecia em toda a sua Majestosa união, o Convento de Cristo com a sua Charola, a Janela conhecida de todos, os claustros, os corredores intermináveis e o Castelo, as torres, as muralhas.
Um pouco ao lado, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, pequenina basílica.
Noutro monte, a Senhora da Piedade, com a monumental escadaria, a graciosa capelinha.
De um dos lados do pequeno terreiro, viam-se as ruas, as casas, a igreja.
Depois Tomar cresceu. Espalhou-se para lá do rio, fizeram-se novos bairros.
Mas eu continuava a andar à vontade, era na cidade velha. Só lá me sentia bem. Todos me conheciam, eu conhecia todos. As pedras redondas do chão sentiam os meus pés e eu gostava de as sentir.
Um dia fui-me embora. Quando voltei, anos mais tarde, achei diferenças: jardins menos bem tratados, ruas sujas, um Nabão poluído, mas as pedrinhas das ruas eram as mesmas. Acho que me conheceram os pés e os pés conheceram-nas.
Um dia, veio um senhor que em nome do progresso, acabou com a velhinha ponte de madeira que no verão unia o Mouchão ao Parque das Merendas, fez uma ponte onde podem passar tanques, tipo forte e feia, arrancou árvores, pôs uns candeeiros e floreiras inconcebíveis e... crime hediondo, arrancou as pedras das ruas, substituindo-as por um pavimento lisinho, iluminado, cómodo (dizem, porque os meus pés não gostam), que transformou a calçada tomarense num chão igual a todos.
Calculo que haverá muita gente em desacordo comigo e não me importo. Vivemos num país livre ao menos de pensamento.
Mas que dizem se um dia destes acordarem e em vez da Roda do Mouchão estiver uma bela torre Eólica? Gostavam? Eu não.
Pois é. Eu já estou velha, avessa a mudanças. Tenho saudades da Tomar antiga, das pedras do chão, dos salgueiros e das minhas tranças.
Perdoem-me os novos. Os da minha idade ou mais velhos, talvez lá no fundo, sintam o mesmo que eu.
Até um dia destes.


