
Quando entrei para a 1ª classe da instrução primária, dentro da minha mala havia: Um livro de leitura, uma tabuada, um caderno de duas linhas, um de uma linha, um quadriculado, um de desenho, um lápis, uma pena (sim, uma pena daquelas de molhar no tinteiro), uma borracha, um apara lápis, uma lousa, um palito de lousa, um trapo para apagar e às vezes, alguns lápis de cor. O tinteiro estava metido num buraco da carteira. Pesava pouco, a mala. Até à 3ª classe só mudava o livro. O resto do material era o mesmo. Na 4ª já havia quatro livros: um de leitura, um de História de Portugal, um de Geografia, um de Aritmética. Com estes elementos aprendia-se a ler, fazer contas e problemas, os rios, as serras, os nomes das províncias, as terras e até as linhas de combóio, a História de Portugal desde o Viriato até à altura em que estávamos. Quando se fazia a 4ª classe, sabia-se fazer contas, sabia-se ler e escrever na perfeição, tinha-se um conhecimento relativamente bom de História e Geografia.
No Liceu havia um livro por Disciplina e mais algum material. Nada que as nossas costas não aguentassem.
Agora é diferente. Os livros são aos três e quatro por Disciplina. Os cadernos idem, o material aumentou em quantidade e qualidade. As costas dos garotos vergam ao peso de tanta tralha. A erudição em contrapartida decresce a olhos vistos, os problemas de coluna crescem da mesma maneira.
Os pais queixam-se cheios de razão, que gastam balúrdios em livros, alguns dos quais nem chegam a ser abertos. Os putos não aprendem mais do que nós, pelo contrário.
Isto tudo me veio à cabeça, porque hoje ao tentar ajudar uma amiguinha numas dúvidas de História, me deparei com três livros, praticamente iguais e todos eles pouco elucidativos. Lá fui tentando desembaraçar a meada, até que me deparei com a palavra “Reculectar”. Ora se há coisa de que me posso gabar, é ter um vasto vocabulário. Procurei e descobri que: “Reculectar é: apanhar lenha e arbustos selvagens”. Não se cansem a ir ver aos dicionários pois não vem lá. Corri todos os manuais que ela tinha e foi assim que descobri. Agora imaginem a cena: “A ti Maria Alentejana berrando pró sê homi: Ó Tóino vai-me reculectar uma pouca de lenha modeu fazer o lumi!”
Imaginaram?
A cultura é muito bonita!
Estou a tentar brincar, mas olhem que isto é muito sério. Estou a falar nos homens e mulheres de amanhã. Com o ensino que temos, onde é que vão chegar?
As escolas não têm segurança, os professores não têm condições para trabalhar, não há disciplina nem respeito, não se aprende nada de útil nem de prático.
Para quando uma revolução no ensino? Mas uma coisa séria, não estas palhaçadas que fazem agora.
Não há pedagogos? Não há metodólogos?
A esperança de um povo são as crianças. Pensem nelas por favor. Pensem num ensino lógico, útil, instrutivo. Pensem em escolas onde os professores sejam respeitados e não vivam no medo permanente de ser atacados pelos pais e pelos filhos, onde sejam avaliados pela maneira que ensinam e não pelo número de alunos que passam de ano. No clima de medo e insegurança em que se sentem, deve ser impossível ensinar. E os prejudicados são os miúdos, que não aprendem, perdem o gosto pelo estudo, deixam de respeitar os professores, não sabem distinguir o certo do errado.
Já escrevi mais do que queria e se calhar muita gente não está de acordo comigo.
Só para terminar, lembro aqui um pouquinho da "Balada da Neve" de Augusto Gil: "Mas as crianças senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?"
No Liceu havia um livro por Disciplina e mais algum material. Nada que as nossas costas não aguentassem.
Agora é diferente. Os livros são aos três e quatro por Disciplina. Os cadernos idem, o material aumentou em quantidade e qualidade. As costas dos garotos vergam ao peso de tanta tralha. A erudição em contrapartida decresce a olhos vistos, os problemas de coluna crescem da mesma maneira.
Os pais queixam-se cheios de razão, que gastam balúrdios em livros, alguns dos quais nem chegam a ser abertos. Os putos não aprendem mais do que nós, pelo contrário.
Isto tudo me veio à cabeça, porque hoje ao tentar ajudar uma amiguinha numas dúvidas de História, me deparei com três livros, praticamente iguais e todos eles pouco elucidativos. Lá fui tentando desembaraçar a meada, até que me deparei com a palavra “Reculectar”. Ora se há coisa de que me posso gabar, é ter um vasto vocabulário. Procurei e descobri que: “Reculectar é: apanhar lenha e arbustos selvagens”. Não se cansem a ir ver aos dicionários pois não vem lá. Corri todos os manuais que ela tinha e foi assim que descobri. Agora imaginem a cena: “A ti Maria Alentejana berrando pró sê homi: Ó Tóino vai-me reculectar uma pouca de lenha modeu fazer o lumi!”
Imaginaram?
A cultura é muito bonita!
Estou a tentar brincar, mas olhem que isto é muito sério. Estou a falar nos homens e mulheres de amanhã. Com o ensino que temos, onde é que vão chegar?
As escolas não têm segurança, os professores não têm condições para trabalhar, não há disciplina nem respeito, não se aprende nada de útil nem de prático.
Para quando uma revolução no ensino? Mas uma coisa séria, não estas palhaçadas que fazem agora.
Não há pedagogos? Não há metodólogos?
A esperança de um povo são as crianças. Pensem nelas por favor. Pensem num ensino lógico, útil, instrutivo. Pensem em escolas onde os professores sejam respeitados e não vivam no medo permanente de ser atacados pelos pais e pelos filhos, onde sejam avaliados pela maneira que ensinam e não pelo número de alunos que passam de ano. No clima de medo e insegurança em que se sentem, deve ser impossível ensinar. E os prejudicados são os miúdos, que não aprendem, perdem o gosto pelo estudo, deixam de respeitar os professores, não sabem distinguir o certo do errado.
Já escrevi mais do que queria e se calhar muita gente não está de acordo comigo.
Só para terminar, lembro aqui um pouquinho da "Balada da Neve" de Augusto Gil: "Mas as crianças senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?"
Até um dia destes
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