domingo, 24 de maio de 2009

Morte na Picada


Já li muitos livros sobre a chamada Guerra no Ultramar.
É um tema do nosso tempo, que tocou de perto muitos de nós.
Concordando ou não, ela existiu e até há bem pouco tempo era Tabu falar dela. A pouco e pouco, alguns escritores foram tendo a coragem de a lembrar: Manuel Alegre, Carlos Vale Ferraz, João Aguiar, Lobo Antunes e agora Antunes Ferreira, em a “Morte na Picada”.
Sei que para algumas pessoas será difícil falar ou ler, sobre o tema.
Não é nada cómodo nem agradável saber o que se passou.
Mas devem compreender que, para quem lá esteve (alguns contrariados e revoltados por não aceitarem o que estavam a fazer) deve ser difícil, melhor dizendo, doloroso, conseguirem contar parte do que viram e viveram.
Não tenho procuração de ninguém para falar assim. A parte que vivi dessa guerra foi pequena, mas marcou-me. Perdi alguns amigos, vi outros voltarem doentes de corpo e espírito. Foi por pouco, muito pouco, que o meu marido lá não foi parar.
Henrique Antunes Ferreira vai fazer uma conferência sobre “Morte na Picada”. É mais uma prova de coragem, de alguém que esteve numa guerra estúpida, que ninguém queria, mas aguentámos cerca de 15 anos. Ele vai falar do livro, o livro fala dessa guerra.
É tempo de deixar de tapar a cabeça e fingir que nada aconteceu.
Ninguém teve influência, nem responsabilidade no que escrevi. É toda minha.
Até um dia destes.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dia da Espiga


Se bem me lembro...no Dia da Espiga não havia escola de tarde. As mães preparavam o cabazinho com a merenda e, a seguir ao almoço, partíamos em grandes e coloridos grupos, em busca dum campo onde houvesse todos os pertences para a Espiga ser perfeita. Em Tomar era fácil, nesse tempo. Bastava ir aos Pegões, aos campos entre Santa Maria e Marmelais, à Estrada da Serra.
Campos cobertos de papoilas, espigas à discrição, oliveiras, alfazema ou rosmaninho, havia tudo. As mães sentavam-se à sombra conversando, fazendo renda, deitando o olhinho cuidadoso e curioso para os seus passarinhos livres. Era uma bebedeira de luz, cor e algazarra. Às cores, cheiros e sons da Natureza, juntavam-se as cores garridas dos nossos vestidos e laçarotes, o ruído das palavras e gritos lançados à brisa leve de Maio. Trepávamos árvores, corríamos, cantávamos velhas canções de outrora, colhíamos a Espiga, fazíamos bailarinas com as papoilas, coroas de flores, com que enfeitávamos as cabeças das mães e as nossas. Depois da merenda, no regresso a casa, as correrias e brincadeiras continuavam. Os carros eram poucos ou nenhuns, não havia perigo.
A Espiga, pendurava-se atrás da porta da cozinha, no mesmo local onde estivera a do ano anterior. O Pão Santo, guardado um ano antes, devidia-se e era distribuído por todos. Estava mole, o Pão, ou os dentes achavam. Novo Pão era guardado para o ano seguinte.
Banho tomado, jantar comido, esperava-nos a cama fresca e acolhedora, que os corpos pequenos reclamavam. Dormíamos felizes com a certeza de que não nos iria faltar o pão de cada dia.
O Pão Santo e a Espiga estavam lá, para o assegurar.
Oh minha infância onde estás? Onde os campos de papoilas, as mães, a crença de que tudo era fácil e certo, porque tínhamos apanhado a Espiga?
Mas que grande espiga! Para o que me havia de dar hoje.
É quinta-feira de Espiga, amigos. Comprem um raminho na rua. Custa pouco e é a tradição. Além disso, eu não acredito em espigas, mas que as há, há.
Até um dia destes.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Para que foram vocês gastar dinheiro?


Era com esta frase e um certo ar de indiferença, que recebias a prenda que te levávamos no teu dia de anos.
Depois, abrias lentamente o embrulho, alisavas o papel, dobráva-lo, juntavas a fita e o laço e, só então olhavas o que te tínhamos dado, primeiro a medo, depois virando por todos os lados para ver a utilidade. Se não gostavas, dizias frontalmente. Se gostavas, ficavas com um ar feliz, calada e beijavas-nos.
Depressa descobri que o que te agradava eram coisas pequenas, quase sem valor material. Uma pequena moldura com retrato, um lenço, um quadro com algumas frases e um ramo flores. Roupa não valia a pena. Ou não gostavas, estava larga ou apertada.
Era difícil dar-te qualquer coisa.
Hoje é fácil, infelizmente. Basta uma flor e uma lembrança.
Mas sabes, Mãe Marcelina? Eu gostava de ter passado a tarde à procura de uma prenda para ti. Gostava de ainda ouvir a tua voz dizer: “Para que foram vocês gastar dinheiro?”
Beijos e saudades de todos nós: filhos, netos, bisnetos.
Olha, a tua prenda de hoje é uma notícia boa. A tua sobrinha Maria João vai ser avó.
Até um dia destes.

sábado, 16 de maio de 2009

Ensino


Quando entrei para a 1ª classe da instrução primária, dentro da minha mala havia: Um livro de leitura, uma tabuada, um caderno de duas linhas, um de uma linha, um quadriculado, um de desenho, um lápis, uma pena (sim, uma pena daquelas de molhar no tinteiro), uma borracha, um apara lápis, uma lousa, um palito de lousa, um trapo para apagar e às vezes, alguns lápis de cor. O tinteiro estava metido num buraco da carteira. Pesava pouco, a mala. Até à 3ª classe só mudava o livro. O resto do material era o mesmo. Na 4ª já havia quatro livros: um de leitura, um de História de Portugal, um de Geografia, um de Aritmética. Com estes elementos aprendia-se a ler, fazer contas e problemas, os rios, as serras, os nomes das províncias, as terras e até as linhas de combóio, a História de Portugal desde o Viriato até à altura em que estávamos. Quando se fazia a 4ª classe, sabia-se fazer contas, sabia-se ler e escrever na perfeição, tinha-se um conhecimento relativamente bom de História e Geografia.
No Liceu havia um livro por Disciplina e mais algum material. Nada que as nossas costas não aguentassem.
Agora é diferente. Os livros são aos três e quatro por Disciplina. Os cadernos idem, o material aumentou em quantidade e qualidade. As costas dos garotos vergam ao peso de tanta tralha. A erudição em contrapartida decresce a olhos vistos, os problemas de coluna crescem da mesma maneira.
Os pais queixam-se cheios de razão, que gastam balúrdios em livros, alguns dos quais nem chegam a ser abertos. Os putos não aprendem mais do que nós, pelo contrário.
Isto tudo me veio à cabeça, porque hoje ao tentar ajudar uma amiguinha numas dúvidas de História, me deparei com três livros, praticamente iguais e todos eles pouco elucidativos. Lá fui tentando desembaraçar a meada, até que me deparei com a palavra “Reculectar”. Ora se há coisa de que me posso gabar, é ter um vasto vocabulário. Procurei e descobri que: “Reculectar é: apanhar lenha e arbustos selvagens”. Não se cansem a ir ver aos dicionários pois não vem lá. Corri todos os manuais que ela tinha e foi assim que descobri. Agora imaginem a cena: “A ti Maria Alentejana berrando pró sê homi: Ó Tóino vai-me reculectar uma pouca de lenha modeu fazer o lumi!”
Imaginaram?
A cultura é muito bonita!
Estou a tentar brincar, mas olhem que isto é muito sério. Estou a falar nos homens e mulheres de amanhã. Com o ensino que temos, onde é que vão chegar?
As escolas não têm segurança, os professores não têm condições para trabalhar, não há disciplina nem respeito, não se aprende nada de útil nem de prático.
Para quando uma revolução no ensino? Mas uma coisa séria, não estas palhaçadas que fazem agora.
Não há pedagogos? Não há metodólogos?
A esperança de um povo são as crianças. Pensem nelas por favor. Pensem num ensino lógico, útil, instrutivo. Pensem em escolas onde os professores sejam respeitados e não vivam no medo permanente de ser atacados pelos pais e pelos filhos, onde sejam avaliados pela maneira que ensinam e não pelo número de alunos que passam de ano. No clima de medo e insegurança em que se sentem, deve ser impossível ensinar. E os prejudicados são os miúdos, que não aprendem, perdem o gosto pelo estudo, deixam de respeitar os professores, não sabem distinguir o certo do errado.
Já escrevi mais do que queria e se calhar muita gente não está de acordo comigo.
Só para terminar, lembro aqui um pouquinho da "Balada da Neve" de Augusto Gil: "Mas as crianças senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?"
Até um dia destes
.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

E se eu abrisse estes programas?


Curiosos? Eu também ficaria. Mas vai haver alguns antigos alunos do velho e querido Nun’Álvares, que certamente saberão o que lá está dentro. Talvez alguns se lembrem de ter participado num ou outro Sarau. Talvez alguns sintam uma lagrimita teimosa ao canto do olho. Talvez alguns sorriam das lembranças boas desse tempo.
Alguém vai pensar: “Onde terei metido o raio do programa? Quem lá estava? Que será feito de Fulano?” E no dia seguinte, num qualquer café, comentará: “Há uma Maria que tem o Programa da nossa festa de finalistas. Quem será esta Maria?”
A esta última pergunta eu respondo já. Andei um ano apenas no colégio, mas o meu irmão fez lá parte da primária e todo o liceu.
Tenho os programas de dois anos seguidos. O último dele, o primeiro meu. Guardo tudo e tudo me serve para lembrar a minha terra, os meus amigos, alguns amigos do meu irmão. Os meus amigos já me esqueceram. Os dele conhecem-no bem, não a mim. Já disse tudo o que podia. Quem está lá dentro? Se alguém se lembrar, é só dizer. Talvez lhe mande uma cópia.
Pois é amigos. Hoje a Maria está com vontade de brincar. Isto foi de falar nas tranças no último Post. Recuei quase 54 anos. Vi-me miúda, de tranças e bibe aos quadradinhos, subindo a Corredoura a meter conversa com toda a gente.
Isto hoje está mesmo uma charada. Alguém quer adivinhar?
Bom fim de semana.
Até um dia destes.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quando eu tinha tranças


Quando eu tinha tranças, Tomar resumia-se a um aglomerado de casas baixas, ruas estreitas calcetadas de belos seixos rolados, uma praça, onde D. Gualdim seu fundador imperava. De um lado a Câmara Municipal Manuelina, do outro a Igreja de São João Baptista, nos outros lados casas grandes. Na Praça desembocava a Corredoura que nesse tempo me parecia enorme e larga, a rua de São João, a rua Direita, que por acaso é um bocado torta. Dum lado chamava-se rua Regimento Infantaria 15 e ia dar à Várzea Grande, à estação, à estrada para Lisboa, do outro chamava-se Rua Silva Magalhães e ia ter ao Pelourinho, à Várzea Pequena, ao Mouchão, à Igreja de São Gregório, à estrada de Leiria. Subindo a Corredoura, atravessava-se a bela e única ponte e estava-se em Além da Ponte ao pé do antigo Convento, de onde se diz Santa Iria se atirou (ou foi atirada) às águas do Nabão. Tinha a Igreja dedicada à Santa, um colégio onde andei, meia dúzia de casas. Junto ao colégio passava a estrada que seguia para o Cemitério, a lindíssima Igreja de Santa Maria do Olival, com a sua peculiar torre sineira ou Atalaia e seguia-se para Marmelais, Mais longe era a Fábrica de Fiação, a estrada de Coimbra e outros destinos.
Em qualquer lado que estivéssemos, de qualquer ângulo que olhássemos, lá estava altaneiro e belo, rodeado de verdes variados, o Castelo de D. Gualdim. Era só subir a rua Pé da Costa de cima, chegar ao Terreiro, franquear a porta, andar um bocadinho e aparecia em toda a sua Majestosa união, o Convento de Cristo com a sua Charola, a Janela conhecida de todos, os claustros, os corredores intermináveis e o Castelo, as torres, as muralhas.
Um pouco ao lado, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, pequenina basílica.
Noutro monte, a Senhora da Piedade, com a monumental escadaria, a graciosa capelinha.
De um dos lados do pequeno terreiro, viam-se as ruas, as casas, a igreja.
Depois Tomar cresceu. Espalhou-se para lá do rio, fizeram-se novos bairros.
Mas eu continuava a andar à vontade, era na cidade velha. Só lá me sentia bem. Todos me conheciam, eu conhecia todos. As pedras redondas do chão sentiam os meus pés e eu gostava de as sentir.
Um dia fui-me embora. Quando voltei, anos mais tarde, achei diferenças: jardins menos bem tratados, ruas sujas, um Nabão poluído, mas as pedrinhas das ruas eram as mesmas. Acho que me conheceram os pés e os pés conheceram-nas.
Um dia, veio um senhor que em nome do progresso, acabou com a velhinha ponte de madeira que no verão unia o Mouchão ao Parque das Merendas, fez uma ponte onde podem passar tanques, tipo forte e feia, arrancou árvores, pôs uns candeeiros e floreiras inconcebíveis e... crime hediondo, arrancou as pedras das ruas, substituindo-as por um pavimento lisinho, iluminado, cómodo (dizem, porque os meus pés não gostam), que transformou a calçada tomarense num chão igual a todos.
Calculo que haverá muita gente em desacordo comigo e não me importo. Vivemos num país livre ao menos de pensamento.
Mas que dizem se um dia destes acordarem e em vez da Roda do Mouchão estiver uma bela torre Eólica? Gostavam? Eu não.
Pois é. Eu já estou velha, avessa a mudanças. Tenho saudades da Tomar antiga, das pedras do chão, dos salgueiros e das minhas tranças.
Perdoem-me os novos. Os da minha idade ou mais velhos, talvez lá no fundo, sintam o mesmo que eu.
Até um dia destes.

sábado, 9 de maio de 2009

Só uma letra


Só uma letra faz toda a diferença. Neste caso, a falta dela.
Descobri isso quando me debatia entre uma sonolência doentia e uma insónia, provocadas pela crise de Favismo, que me acometeu.
É. Tenho alergia às favas. Não posso tocá-las, nem comê-las, nem sequer passar-lhes perto. Ora, estamos no tempo delas. É difícil ir às compras sem as ver. Foi o que me aconteceu. Bastou-me cheirá-las de longe, para ficar com comichões, lábios dormentes e dificuldade em respirar. Tenho alergia também às “Aspirinas”. Os sintomas ainda são piores. Hoje, cheguei à brilhante conclusão que, a origem das duas alergias é a mesma: Falta de uma qualquer enzima. Pelos vistos, eu tenho problemas com elas. Também não tolero o leite por causa da falta de outra enzima.
No meio desta confusão veio-me à cabeça o “Fauvismo”, corrente artística de que fazem parte alguns pintores que gosto. Maurice Vlaminck, Henri Matisse eram “Fauvistas”.
O Fauvismo é segundo li:” Primado da cor sobre as formas: a cor é vista como um meio de expressão íntimo, desenvolve-se em grandes manchas de cor que delimitam planos, onde a ilusão da terceira dimensão se perde; A cor aparece pura, sem sombreados, fazendo salientar os contrastes, com pinceladas directas e emotivas; autonomiza-se do real, pois a arte deve reflectir a verdade inerente, que deve desenvencilhar-se da aparência exterior do objecto; a temática não é relevante, não tendo qualquer conotação social, política ou outra”.
Parágrafo. Fim de citação.
Se é esta ou não a verdade, não sei. Só sei que gosto.
Já o “Favismo” podem defini-lo como quiserem, que para mim, é uma valente chatice que me atormenta todos os anos.
Ai, como eu queria passar ao pé das favas, como paro a olhar um quadro de Matisse! Com prazer, sem medo, sem problemas.
E afinal, é apenas uma letra, um simples u, que faz toda a diferença.
Bom fim de semana, sem alergias.
Até um dia destes.