
Faz hoje 40 anos que vivo na minha casa.
Depois de casada vivi dois anos com os meus pais, enquanto meu marido estava na tropa. Viemos para Lisboa, melhor dizendo, para Cascais, para casa dos meus sogros, até o meu marido entrar para a R.T.P.
Decidimos então, arranjar uma casa nossa, onde pudéssemos criar os dois filhos que já tínhamos. Procurámos em Cascais e arredores, mas os preços eram incomportáveis. Alguém nos indicou Odivelas, onde as casas eram muito mais baratas. Arranjámos este 4º andar, com 5 assoalhadas, que na altura nos pareciam enormes.
Naquele dia mudámos com os parcos móveis, dois filhos e uma enorme vontade de ter uma vida feliz.
Quando falo em parcos móveis, quero dizer: uma mobília de quarto dada pelos meus pais, as caminhas dos meus filhos, um velho canapé coxo, uma mesa de apoio, umas prateleiras, uma mesa e duas cadeiras, emprestadas pela minha sogra, um fogão e pouco mais. Máquina de lavar? Frigorifico? Esquentador? Aspirador? Não.
Era tudo feito à moda antiga. O meu único luxo era uma panela de pressão, dada pelo meu irmão. As fraldas de pano dos dois bebés, lavava-as no tanque. A água do banho era aquecida em panelas.
Não acreditam? Foi há 40 anos, não esqueçam.
O dinheiro era esticado e chegava.
Nunca vou esquecer o primeiro dia aqui passado. O meu marido trabalhava das 16 até ao fim da emissão. Os meus sogros vieram trazer os netos e partiram. Depois de deitar os meus filhos, vi-me só, numa casa estranha, quase vazia, sem vizinhos, sem luz na rua.
Eu nunca tinha estado tão só. Por momentos entrei em pânico. Se um dos meninos adoecesse, se me assaltassem a casa, se... sei lá o que pensei. Eram cerca de 2 da manhã, o meu marido chegou e encontrou-me sentada em frente à cozinha, num sítio em que via a casa toda, com uma tesoura na mão. Para que era a tesoura? Sei lá! Acho que era para me defender de algum atacante. Convínhamos que não foi a recepção mais amorosa do mundo. Eu estava lívida de medo.
No dia seguinte já estava tudo bem. Tinha a minha casa, muito trabalho, os meus filhos. As outras casas começaram a encher-se, fizeram as ruas, abriram lojas. A minha casa foi-se transformando aos poucos. Hoje parece pequena. Quase nada saiu de cá, muita coisa entrou. Tive outro filho. A felicidade andou quase sempre por cá. Houve momentos tristes: morte dos nossos pais e outras pessoas queridas. Saída dos filhos, aos poucos.
Ficou a casa, a mesma casa, mais cheia, mas vazia do riso dos meus filhos. Ainda com amor, felicidade, mas com uma saudade imensa desses tempos duros, em que havia três crianças a chilrear por cá.
Por isso, hoje estou alegre e triste. Faz anos que me tornei independente, dona do meu nariz e de uma enorme casa vazia de móveis, mas cheia de mocidade. Agora olho em volta, vejo muitos móveis, muitos livros, muitas máquinas, muita comodidade. Mas onde estão os meus filhos? Aonde está a nossa mocidade meu amor?
Até um dia destes.