sábado, 6 de junho de 2009

Sei de um Rio


Ao ouvir Camané cantar “Sei de um Rio”, lembro-me doutro Rio que eu sei. O meu Rio, o meu lindo Nabão, às vezes tão mal tratado, tão poucas vezes cantado. O meu Nabão que já fez cantar rodas, mover fábricas, que já lavou tanta roupa suja, regou hortas e pomares. O meu Rio que foi testemunha muda de tantos amores, de tantas lágrimas. Eu também sei de um Rio, Camané. Não sei é cantá-lo como tu. Clique http://www.youtube.com/watch?v=KaWhCGTnvAQ
Bom fim de semana.
Até um dia destes.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ala-arriba!


Pois é. Ontem o coração e a memória fugiram-me para a Póvoa do Varzim. A viagem começou com o filme Ala-arriba, de Leitão de Barros, continuou toda a noite e hoje de manhã, com buscas na Net, nos livros, nos cantinhos da memória.
Primeiro: Leitão de Barros. Nascido em Lisboa em 22 de Outubro de 1896, foi professor, arquitecto, pintor, realizador, dramaturgo, jornalista, cenógrafo etc. Organizou vários cortejos históricos e marchas populares das Festas da Cidade.
A ele se deve, em grande parte, a construção dos estúdios da Tobis.
Foi também secretário-geral da Exposição do mundo Português e grande impulsionador da Feira Popular.
Realizou bastantes filmes, entre os quais: “Nazaré”, “A Severa” (1º filme sonoro português) “Ala-arriba” e muitos outros.
Segundo: “Ala-arriba”. Filmado em 1942 na Póvoa do Varzim, quase todo interpretado por pescadores e gente da terra, foi considerado a primeira “docuficção” portuguesa e a segunda mundial. Quer dizer: o primeiro filme-documentário. A sua antestreia aconteceu no Festival de Veneza, onde ganhou um prémio.
Terceiro: A história do filme. Adaptada por Alfredo Cortez ,de um antigo livro chamado “O Poveiro”, escrito por António Santos Graça, conta a história heróica e trágica dos homens do mar da Póvoa e outros mares. Parece que todas deviam ser iguais. Não são. Claro que o básico, os perigos do mar, o sofrimento, a luta, são parecidos.
Mas o povo da Póvoa era diferente. Havia classes de pescadores.
Os “Lanchões”, donos e tripulantes do barco do mesmo nome e os “Sardinheiros”, mais pobres, com barcos pequenos, pescando em locais diferentes, mais perto de terra. Para os “Lanchões” ficava o mar alto donde vinha entre outros a bela pescada da Póvoa.
Os casamentos eram feitos entre “lanchão” e “lanchã”, ou entre “sardinheiro” e “sardinheira”. Às vezes isso não acontecia e é essa a parte romântica do filme. A filha de um “lanchão” de tronco (várias gerações de lanchões) apaixona-se por um “sardinheiro”. Depois de várias peripécias, com uma cigana atraente, aldrabona e ladra, um naufrágio, extremamente real e muito bem vivido pelos personagens, acaba por dar ao pobre “sardinheiro” a oportunidade de salvar os tripulantes do grande “Lanchão” destruído pelo mar e que, por acaso, era do pai da bela “lanchã”. Tudo acaba bem, com o casamento entre os dois apaixonados, abençoados pelo Prior, por “lanchões” e “sardinheiros”. Isto é um filme. Na vida real, nem sempre as coisas são assim. O mar da Póvoa, da Nazaré, de todas as praias onde se pesca, é cemitério igual, para alguns que o desafiam e dele vivem. Não quer saber de castas, nem diferenças.
O grito Ala-arriba diz muito deste povo. Era o brado deles, quando puxavam à força de braços, o barco para terra.
Pescadores da Póvoa, do Furadouro, da Nazaré, de toda a nossa costa, de todo o mundo, heróis desconhecidos, esquecidos! Houve escritores e poetas que de vós falaram: Alfredo Cortez, Raul Brandão, Miguel Torga, António Nobre e muitos outros.
Eu, que não sou ninguém, mas que vi no Furadouro, a vossa luta com esse Mar, que vós amais e odiais, eu que ontem vendo o “Ala-arriba”, me lembrei de uma cena muito parecida no mar do Furadouro, eu que choro quando há naufrágios, queria saber contar a vossa epopeia. Não foram só Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral, os heróis. Na Póvoa há “O cego do Maio”, na Foz, “O homem do leme”, em Paço de Arcos “O patrão Lopes”, mais alguns monumentos pelo país fora. Mas heróis são todos vós. Todos mereciam um monumento e sobretudo uma vida digna.
Entretanto, meus amigos pescadores ou não: Tentemos levar a bom porto, este barquinho chamado Portugal, se preciso for, gritando como os Poveiros: “Ala-arriba”.
Até um dia destes.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Menina apareceu

Meus amigos:
Ao que parece desta vez tudo acabou bem. A menina apareceu. Para verem mais detalhes, poucos, vão a Destakes.
Agradeço a todos os que viram o meu apelo e corresponderam da forma que eu esperava.
Devia ser para isto mesmo que a Net devia servir. Infelizmente, serve também os interesses de alguns, que por este meio desviam crianças ingénuas, que não sabem no que se estão a meter.
Não é o primeiro nem vai ser o último caso.
Cuidado com os miúdos. Protejam-nos, expliquem-lhes os perigos de ter contactos de qualquer tipo, com desconhecidos.
Mais uma vez, muito obrigada por esta cadeia de ajudas.
Até um dia destes.

Menina Desaparecida

Amigos:

Desapareceu de casa dos pais, perto de Santarém, uma menor, depois de ter estado a usar o hi5.
Para mais informações cliquem aqui: http://cidadaodetomar.blogspot.com/2009/06/desaparecida.html

Se possível, divulguem.
Obrigada
Maria

domingo, 31 de maio de 2009

Um dia que não esqueço


Foi há muitos anos. Na mesma Igreja onde já tinha sido baptizada, onde ia à Missa quase todos os Domingos, onde entrava muitas vezes para ver os santinhos bonitos, desfiar umas orações, com uma fé cega, como desejava ainda sentir.” A minha Igreja”, como lhe continuo a chamar, a mesma que ainda hoje, é a minha primeira visita, quando vou a Tomar. São João Baptista, a minha Igreja, é linda, a mais linda Igreja do mundo, para mim, claro. Lá dentro volto a ser a mesma menina do retrato.
Hoje não vou contar nada. Está muito calor, estou cansada, não tenho vontade de escrever. Sorte a vossa, porque eu pedi ao Guerra Junqueiro uma poesia, que diz o que eu não sei dizer.

Minha mãe

Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava, orando ao pé de ti.
Caia mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando em torno dos seus lares,
suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.

Guerra Junqueiro


E pronto ficamos assim. Bom dia de praia.
Até um dia destes.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Um Perfume, uma Roseira...


Lembram-me de ti, Mãe. Basta o leve aroma da tua água de colónia preferida, a “Eau de Cologne 4711”, para te lembrar.
Nalgumas peças de roupa tua que guardei, ela sente-se ainda. Às vezes o Vasco dá-me um frasco e quando o abro, és tu que ali estás. Ponho-a na minha pele, aspiro-a e sinto o conforto da tua presença. É doce, tão doce, minha querida Mãe, voltar a sentir o teu perfume.
Quando vejo uma Roseira de Santa Teresinha com as pequeninas rosas, esteja onde estiver, é sempre a tua Roseira do quintal do Carvalhido, que ali está. Então, sem pedir, sem ter medo que alguém me ralhe, roubo dois ou três botões para o teu retrato. Porque a Roseira, esteja onde estiver, é tua Mãe.
Por isso, hoje dia dos teus anos, em vez de um ramo de flores e um poema, é isto que te dou: O teu perfume e as tuas rosinhas.
Só mais uma coisa, Mãe: Continuo a gostar tanto de ti como dantes.
E tenho saudades, muitas saudades, de me encostar ao teu peito, cheirar o teu perfume, sentir as tuas mãozinhas frágeis e macias, passarem-me de leve no cabelo.
Adeus Mãezinha. Beijos da tua arisca, que não te esquece nunca.
Até um dia destes.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A minha casa


Faz hoje 40 anos que vivo na minha casa.
Depois de casada vivi dois anos com os meus pais, enquanto meu marido estava na tropa. Viemos para Lisboa, melhor dizendo, para Cascais, para casa dos meus sogros, até o meu marido entrar para a R.T.P.
Decidimos então, arranjar uma casa nossa, onde pudéssemos criar os dois filhos que já tínhamos. Procurámos em Cascais e arredores, mas os preços eram incomportáveis. Alguém nos indicou Odivelas, onde as casas eram muito mais baratas. Arranjámos este 4º andar, com 5 assoalhadas, que na altura nos pareciam enormes.
Naquele dia mudámos com os parcos móveis, dois filhos e uma enorme vontade de ter uma vida feliz.
Quando falo em parcos móveis, quero dizer: uma mobília de quarto dada pelos meus pais, as caminhas dos meus filhos, um velho canapé coxo, uma mesa de apoio, umas prateleiras, uma mesa e duas cadeiras, emprestadas pela minha sogra, um fogão e pouco mais. Máquina de lavar? Frigorifico? Esquentador? Aspirador? Não.
Era tudo feito à moda antiga. O meu único luxo era uma panela de pressão, dada pelo meu irmão. As fraldas de pano dos dois bebés, lavava-as no tanque. A água do banho era aquecida em panelas.
Não acreditam? Foi há 40 anos, não esqueçam.
O dinheiro era esticado e chegava.
Nunca vou esquecer o primeiro dia aqui passado. O meu marido trabalhava das 16 até ao fim da emissão. Os meus sogros vieram trazer os netos e partiram. Depois de deitar os meus filhos, vi-me só, numa casa estranha, quase vazia, sem vizinhos, sem luz na rua.
Eu nunca tinha estado tão só. Por momentos entrei em pânico. Se um dos meninos adoecesse, se me assaltassem a casa, se... sei lá o que pensei. Eram cerca de 2 da manhã, o meu marido chegou e encontrou-me sentada em frente à cozinha, num sítio em que via a casa toda, com uma tesoura na mão. Para que era a tesoura? Sei lá! Acho que era para me defender de algum atacante. Convínhamos que não foi a recepção mais amorosa do mundo. Eu estava lívida de medo.
No dia seguinte já estava tudo bem. Tinha a minha casa, muito trabalho, os meus filhos. As outras casas começaram a encher-se, fizeram as ruas, abriram lojas. A minha casa foi-se transformando aos poucos. Hoje parece pequena. Quase nada saiu de cá, muita coisa entrou. Tive outro filho. A felicidade andou quase sempre por cá. Houve momentos tristes: morte dos nossos pais e outras pessoas queridas. Saída dos filhos, aos poucos.
Ficou a casa, a mesma casa, mais cheia, mas vazia do riso dos meus filhos. Ainda com amor, felicidade, mas com uma saudade imensa desses tempos duros, em que havia três crianças a chilrear por cá.
Por isso, hoje estou alegre e triste. Faz anos que me tornei independente, dona do meu nariz e de uma enorme casa vazia de móveis, mas cheia de mocidade. Agora olho em volta, vejo muitos móveis, muitos livros, muitas máquinas, muita comodidade. Mas onde estão os meus filhos? Aonde está a nossa mocidade meu amor?
Até um dia destes.