Vila Viçosa, conhecida como “Princesa do Alentejo”, está muito ligada à nossa História. Sede da casa de Bragança da qual saiu o 1o Rei da última dinastia é uma terra rica em monumentos. O Paço Ducal, o Panteão dos Duques, o Museu dos Coches, que desta vez não visitei, porque já os conhecia e tinha pouco tempo para ver o Castelo, parte da Tapada e... já lá chego.
Teve em tempos idos o nome de Caliopolle, sendo dedicada a Calíope, musa da poesia épica, filha de Zeus e Mnemósine. Daqui vem o nome dos seus filhos: Caliopolenses.
Ora bem. Depois de mostrar a minha enorme erudição nestas matérias, é tempo de falar de quem me levou a Vila Viçosa: Florbela Espanca.
Assim depois de ver o berço onde dormiu o primeiro sono, a casa abandonada em que nasceu, fui ver o túmulo dela. Era minha intenção levar-lhe flores. Não havendo floristas abertas devido ao feriado, restou-me “roubar uma flor” (Zeca, meu amigo Zeca, um dia roubarei uma para ti), isto é, roubei vários ramos de aloendros, a flor do Alentejo. O cemitério fica dentro do Castelo. Logo à entrada está Ela. Uma sepultura de pedra branca, pouco trabalhada, tendo um jarrão vazio aos pés e uma floreira na cabeceira cheia de flores de plástico sem cor sequer. Flores de plástico para Florbela! Apesar da vontade não as deitei fora, é proibido. E não é proibido por flores de plástico na sepultura de uma poetisa? Que sentiria ela? Eu sei o que senti. Na jarra vazia dos pés ficou um ramo fresco de aloendros. Por um dia, Florbela teve flores de verdade.
Em poucas linhas conta-se a história dela, aquilo que se sabe da história dela. Os sentimentos, as mágoas, o amor ou desamor, só ela os saberia.
Nasceu a 8/12/1894. Foi criada pelo pai e a madrasta. Teve um irmão, sua maior afeição, que foi aviador e morreu de acidente. Casou a primeira vez muito nova. O casamento falhou. O segundo também não durou muito. Florbela nasceu cedo demais. Era independente, devia ser-lhe difícil tornar-se uma mulher submissa, obediente, capaz de aguentar a vida monótona das damas do seu tempo. Queria viver, queria escrever, queria ser um ser humano de primeira. Casou terceira vez, foi viver para Matosinhos, numa casa sem horizontes, fechada, escura. A poetisa habituada às vastas planícies Alentejanas ou à vida trepidante de Lisboa, deve ter-se sentido muito infeliz naquela casa, naquela terra, então quase deserta. Conheço a casa por fora e não queria morar lá. A morte do irmão, o falhanço quase certo do casamento, a sua tristeza e parece que também doença, levaram-na no mesmo dia em que nascera, a por termo à vida. Fazia 36 anos nesse dia.
As fotos mostram tudo o que de bonito vi.
Só falta um soneto do seu livro “Reliquiae”.
À Morte
Teve em tempos idos o nome de Caliopolle, sendo dedicada a Calíope, musa da poesia épica, filha de Zeus e Mnemósine. Daqui vem o nome dos seus filhos: Caliopolenses.
Ora bem. Depois de mostrar a minha enorme erudição nestas matérias, é tempo de falar de quem me levou a Vila Viçosa: Florbela Espanca.
Assim depois de ver o berço onde dormiu o primeiro sono, a casa abandonada em que nasceu, fui ver o túmulo dela. Era minha intenção levar-lhe flores. Não havendo floristas abertas devido ao feriado, restou-me “roubar uma flor” (Zeca, meu amigo Zeca, um dia roubarei uma para ti), isto é, roubei vários ramos de aloendros, a flor do Alentejo. O cemitério fica dentro do Castelo. Logo à entrada está Ela. Uma sepultura de pedra branca, pouco trabalhada, tendo um jarrão vazio aos pés e uma floreira na cabeceira cheia de flores de plástico sem cor sequer. Flores de plástico para Florbela! Apesar da vontade não as deitei fora, é proibido. E não é proibido por flores de plástico na sepultura de uma poetisa? Que sentiria ela? Eu sei o que senti. Na jarra vazia dos pés ficou um ramo fresco de aloendros. Por um dia, Florbela teve flores de verdade.
Em poucas linhas conta-se a história dela, aquilo que se sabe da história dela. Os sentimentos, as mágoas, o amor ou desamor, só ela os saberia.
Nasceu a 8/12/1894. Foi criada pelo pai e a madrasta. Teve um irmão, sua maior afeição, que foi aviador e morreu de acidente. Casou a primeira vez muito nova. O casamento falhou. O segundo também não durou muito. Florbela nasceu cedo demais. Era independente, devia ser-lhe difícil tornar-se uma mulher submissa, obediente, capaz de aguentar a vida monótona das damas do seu tempo. Queria viver, queria escrever, queria ser um ser humano de primeira. Casou terceira vez, foi viver para Matosinhos, numa casa sem horizontes, fechada, escura. A poetisa habituada às vastas planícies Alentejanas ou à vida trepidante de Lisboa, deve ter-se sentido muito infeliz naquela casa, naquela terra, então quase deserta. Conheço a casa por fora e não queria morar lá. A morte do irmão, o falhanço quase certo do casamento, a sua tristeza e parece que também doença, levaram-na no mesmo dia em que nascera, a por termo à vida. Fazia 36 anos nesse dia.
As fotos mostram tudo o que de bonito vi.
Só falta um soneto do seu livro “Reliquiae”.
À Morte
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!
Florbela Espanca
É triste, não é? Florbela é sempre triste.
Até um dia destes.

