domingo, 21 de junho de 2009

Basta um gesto


Basta um gesto, uma expressão, uma palavra! E as lembranças surgem em catadupa.
Agora olhei para ti e, em segundos, vi-te bebé a dormir. Depois, a posição em que dormias, lembrou-me o meu pai, teu avô. Não aquele com quem te pareces muito fisicamente, mas o outro. Aquele, que ainda hoje é o teu ídolo, aquele, de quem foste o último confidente e de quem herdaste tantos gestos, manias, convicções.
Porque era assim filho, que depois de almoçar, antes de enfrentar mais uma tarde de trabalho e de calor, ele se sentava no sofá, inclinado tal qual estás, a mão apoiada na testa, pés no chão (pés em cima da mesa? Americanices! Parece-me ouvi-lo ainda), só te falta o jornal sobre os joelhos. Ainda to quis pôr, mas tive medo de te acordar. E queria ver-te assim.
É bom ver um filho dormir sob o meu olhar. Era bom se ainda pudesse ver o meu pai dormir assim.
Fui eu que tirei a foto. Deve estar uma porcaria, mas fui eu que a tirei.
E fica aqui. Quando a vir, vou lembrar dois dos Homens da minha vida. O meu pai e o meu filho mais novo.
E fico feliz, porque vejo no meu filho, o gesto do meu pai. E amo-os tanto aos dois!
Até um dia destes.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Vila Viçosa, Calíope e Florbela


Vila Viçosa, conhecida como “Princesa do Alentejo”, está muito ligada à nossa História. Sede da casa de Bragança da qual saiu o 1o Rei da última dinastia é uma terra rica em monumentos. O Paço Ducal, o Panteão dos Duques, o Museu dos Coches, que desta vez não visitei, porque já os conhecia e tinha pouco tempo para ver o Castelo, parte da Tapada e... já lá chego.
Teve em tempos idos o nome de Caliopolle, sendo dedicada a Calíope, musa da poesia épica, filha de Zeus e Mnemósine. Daqui vem o nome dos seus filhos: Caliopolenses.
Ora bem. Depois de mostrar a minha enorme erudição nestas matérias, é tempo de falar de quem me levou a Vila Viçosa: Florbela Espanca.
Assim depois de ver o berço onde dormiu o primeiro sono, a casa abandonada em que nasceu, fui ver o túmulo dela. Era minha intenção levar-lhe flores. Não havendo floristas abertas devido ao feriado, restou-me “roubar uma flor” (Zeca, meu amigo Zeca, um dia roubarei uma para ti), isto é, roubei vários ramos de aloendros, a flor do Alentejo. O cemitério fica dentro do Castelo. Logo à entrada está Ela. Uma sepultura de pedra branca, pouco trabalhada, tendo um jarrão vazio aos pés e uma floreira na cabeceira cheia de flores de plástico sem cor sequer. Flores de plástico para Florbela! Apesar da vontade não as deitei fora, é proibido. E não é proibido por flores de plástico na sepultura de uma poetisa? Que sentiria ela? Eu sei o que senti. Na jarra vazia dos pés ficou um ramo fresco de aloendros. Por um dia, Florbela teve flores de verdade.
Em poucas linhas conta-se a história dela, aquilo que se sabe da história dela. Os sentimentos, as mágoas, o amor ou desamor, só ela os saberia.
Nasceu a 8/12/1894. Foi criada pelo pai e a madrasta. Teve um irmão, sua maior afeição, que foi aviador e morreu de acidente. Casou a primeira vez muito nova. O casamento falhou. O segundo também não durou muito. Florbela nasceu cedo demais. Era independente, devia ser-lhe difícil tornar-se uma mulher submissa, obediente, capaz de aguentar a vida monótona das damas do seu tempo. Queria viver, queria escrever, queria ser um ser humano de primeira. Casou terceira vez, foi viver para Matosinhos, numa casa sem horizontes, fechada, escura. A poetisa habituada às vastas planícies Alentejanas ou à vida trepidante de Lisboa, deve ter-se sentido muito infeliz naquela casa, naquela terra, então quase deserta. Conheço a casa por fora e não queria morar lá. A morte do irmão, o falhanço quase certo do casamento, a sua tristeza e parece que também doença, levaram-na no mesmo dia em que nascera, a por termo à vida. Fazia 36 anos nesse dia.
As fotos mostram tudo o que de bonito vi.
Só falta um soneto do seu livro “Reliquiae”.

À Morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

Florbela Espanca

É triste, não é? Florbela é sempre triste.
Até um dia destes.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

As papoilas do Castelo de Montemor é que é...



Os castelos são uma das minhas paixões. Há neles muita História, muito segredo, muita lenda. Geralmente situados no cimo de um monte, deixam-nos ver toda a paisagem em volta. No Alentejo, do alto dos castelos predominam três cores: o verde da vegetação, o oiro das searas, o branco das casas. Depois, há pequenas manchas de vermelho, os telhados e as papoilas, algumas pinceladas de azul, nas portas, janelas e barras das casas. Os animais dão movimento e sons, à mansa quietude da planície alentejana. Ouvem-se no ar parado os chocalhos das ovelhas e vacas, o toque de um sino numa pequena igreja, os trinados dos pássaros. Pelo céu paira uma cegonha em busca do sustento dos filhos que ficaram no ninho esperando.
E de repente, aos meus pés, as minhas papoilas. E volto a ser criança. Com uma flor, três fios de cabelo e um pauzinho, tenho as minhas bailarinas doutro tempo. E elas dançaram nos meus dedos como dantes.


Ai que me esquecia do castelo!... Entra-se por uma porta ao lado da Casa da Guarda, passa-se a Torre do Relógio, entra-se num belo largo com muralhas, um palácio, a Igreja de São Tiago transformada em Museu, com alguns restos de pinturas a fresco.
A vista é deslumbrante.
Mas as papoilas do Castelo de Montemor é que é. Dançam para mim na ponta do pé...
Até um dia destes.

sábado, 6 de junho de 2009

Sei de um Rio


Ao ouvir Camané cantar “Sei de um Rio”, lembro-me doutro Rio que eu sei. O meu Rio, o meu lindo Nabão, às vezes tão mal tratado, tão poucas vezes cantado. O meu Nabão que já fez cantar rodas, mover fábricas, que já lavou tanta roupa suja, regou hortas e pomares. O meu Rio que foi testemunha muda de tantos amores, de tantas lágrimas. Eu também sei de um Rio, Camané. Não sei é cantá-lo como tu. Clique http://www.youtube.com/watch?v=KaWhCGTnvAQ
Bom fim de semana.
Até um dia destes.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ala-arriba!


Pois é. Ontem o coração e a memória fugiram-me para a Póvoa do Varzim. A viagem começou com o filme Ala-arriba, de Leitão de Barros, continuou toda a noite e hoje de manhã, com buscas na Net, nos livros, nos cantinhos da memória.
Primeiro: Leitão de Barros. Nascido em Lisboa em 22 de Outubro de 1896, foi professor, arquitecto, pintor, realizador, dramaturgo, jornalista, cenógrafo etc. Organizou vários cortejos históricos e marchas populares das Festas da Cidade.
A ele se deve, em grande parte, a construção dos estúdios da Tobis.
Foi também secretário-geral da Exposição do mundo Português e grande impulsionador da Feira Popular.
Realizou bastantes filmes, entre os quais: “Nazaré”, “A Severa” (1º filme sonoro português) “Ala-arriba” e muitos outros.
Segundo: “Ala-arriba”. Filmado em 1942 na Póvoa do Varzim, quase todo interpretado por pescadores e gente da terra, foi considerado a primeira “docuficção” portuguesa e a segunda mundial. Quer dizer: o primeiro filme-documentário. A sua antestreia aconteceu no Festival de Veneza, onde ganhou um prémio.
Terceiro: A história do filme. Adaptada por Alfredo Cortez ,de um antigo livro chamado “O Poveiro”, escrito por António Santos Graça, conta a história heróica e trágica dos homens do mar da Póvoa e outros mares. Parece que todas deviam ser iguais. Não são. Claro que o básico, os perigos do mar, o sofrimento, a luta, são parecidos.
Mas o povo da Póvoa era diferente. Havia classes de pescadores.
Os “Lanchões”, donos e tripulantes do barco do mesmo nome e os “Sardinheiros”, mais pobres, com barcos pequenos, pescando em locais diferentes, mais perto de terra. Para os “Lanchões” ficava o mar alto donde vinha entre outros a bela pescada da Póvoa.
Os casamentos eram feitos entre “lanchão” e “lanchã”, ou entre “sardinheiro” e “sardinheira”. Às vezes isso não acontecia e é essa a parte romântica do filme. A filha de um “lanchão” de tronco (várias gerações de lanchões) apaixona-se por um “sardinheiro”. Depois de várias peripécias, com uma cigana atraente, aldrabona e ladra, um naufrágio, extremamente real e muito bem vivido pelos personagens, acaba por dar ao pobre “sardinheiro” a oportunidade de salvar os tripulantes do grande “Lanchão” destruído pelo mar e que, por acaso, era do pai da bela “lanchã”. Tudo acaba bem, com o casamento entre os dois apaixonados, abençoados pelo Prior, por “lanchões” e “sardinheiros”. Isto é um filme. Na vida real, nem sempre as coisas são assim. O mar da Póvoa, da Nazaré, de todas as praias onde se pesca, é cemitério igual, para alguns que o desafiam e dele vivem. Não quer saber de castas, nem diferenças.
O grito Ala-arriba diz muito deste povo. Era o brado deles, quando puxavam à força de braços, o barco para terra.
Pescadores da Póvoa, do Furadouro, da Nazaré, de toda a nossa costa, de todo o mundo, heróis desconhecidos, esquecidos! Houve escritores e poetas que de vós falaram: Alfredo Cortez, Raul Brandão, Miguel Torga, António Nobre e muitos outros.
Eu, que não sou ninguém, mas que vi no Furadouro, a vossa luta com esse Mar, que vós amais e odiais, eu que ontem vendo o “Ala-arriba”, me lembrei de uma cena muito parecida no mar do Furadouro, eu que choro quando há naufrágios, queria saber contar a vossa epopeia. Não foram só Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral, os heróis. Na Póvoa há “O cego do Maio”, na Foz, “O homem do leme”, em Paço de Arcos “O patrão Lopes”, mais alguns monumentos pelo país fora. Mas heróis são todos vós. Todos mereciam um monumento e sobretudo uma vida digna.
Entretanto, meus amigos pescadores ou não: Tentemos levar a bom porto, este barquinho chamado Portugal, se preciso for, gritando como os Poveiros: “Ala-arriba”.
Até um dia destes.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Menina apareceu

Meus amigos:
Ao que parece desta vez tudo acabou bem. A menina apareceu. Para verem mais detalhes, poucos, vão a Destakes.
Agradeço a todos os que viram o meu apelo e corresponderam da forma que eu esperava.
Devia ser para isto mesmo que a Net devia servir. Infelizmente, serve também os interesses de alguns, que por este meio desviam crianças ingénuas, que não sabem no que se estão a meter.
Não é o primeiro nem vai ser o último caso.
Cuidado com os miúdos. Protejam-nos, expliquem-lhes os perigos de ter contactos de qualquer tipo, com desconhecidos.
Mais uma vez, muito obrigada por esta cadeia de ajudas.
Até um dia destes.