quarta-feira, 15 de julho de 2009

Príncipe Melancolia


Mais uma vez ao ver um livro com fotos de obras de Malhôa, parei a olhar um que desde garota me impressiona.
Hoje, admiro-lhe a técnica, a cor, a precisão dos pormenores. Dantes via um príncipe de conto de fadas, lindo e com uma história triste. Talvez porque a minha avó contava coisas dele. Dizia ela que não havia menina casadoira que não estivesse apaixonada pelo príncipe. Algumas traziam o retrato dele num medalhão pendurado ao pescoço. É, nesse tempo, sem artistas de cinema para amar, as meninas tinham grandes paixões platónicas pelo príncipe.
Malhôa pintou-o em criança e voltou a pintá-lo já homem. Parece que o Rei D.Carlos, não terá gostado muito do retrato, pelo ar triste do filho. Chamou-lhe “Príncipe Melancolia”.
Nasceu em Lisboa a 21 de Março de 1887, filho de D. Carlos e de D. Amélia, era o herdeiro do trono, já um tudo nada periclitante, de Portugal. Teve uma educação esmerada, sendo seu preceptor Mouzinho de Albuquerque. Fez uma viagem às então colónias portuguesas de África, onde, ao que se diz, terá sido recebido com grande entusiasmo. Além de belo e culto, era simpático e aberto.
Voltou para Portugal e pouco tempo depois, deu-se a tragédia do Terreiro do Paço. A 1 de Fevereiro de 1908, aos vinte e um anos incompletos, o príncipe foi assassinado juntamente com o pai. Ainda matou um dos assassinos, mas também ele caiu varado pelas balas. Assim tristemente, acabou a história do Príncipe Melancolia.
Será que essa melancolia já era pronuncio do fim tão prematuro? Só ele o saberia.
O quadro encontra-se nas Caldas da Rainha, no Museu José Malhôa, num recanto mal iluminado.
Mal recebido pelo rei, retrato fiel do pobre príncipe, o quadro parece ter a mesma sorte: esquecimento. O mesmo esquecimento que o retratado. Um, morto, esquecido até nos manuais de História. O outro, relegado para um canto, como se fora obra menor do autor.
Eu vou continuar a ir vê-lo sempre que voltar às Caldas. Porque desde que o vi a primeira vez, todos os príncipes de todas as histórias da minha avó, tinham para mim, o rosto e a figura do “Príncipe Melancolia”, D. Luís Filipe.
Se algum de vós tiver visto o “Equador”, ele é representado e bem, pelo Pedro Granger. Só lhe faltou o ar melancólico dele.
Até um dia destes.

sábado, 11 de julho de 2009

Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado


Comecei a tarde triste. O espectáculo que vi, foi triste. Uma moça pouco mais nova do que os meus filhos, que vestiu à nascença roupas deles, que dormiu no berço que fora deles, mais uma vez, drogada ou bêbeda, insultou toda a gente, mesmo quem já tentou ajudá-la. As pessoas riam, eu quase chorei. Lembrei-a pequenina, doce, bonita, estendendo os bracitos para mim. Esses mesmo braços que hoje são um mapa de cicatrizes, de nódoas negras.
Tem um filho, ela. Descobrimos que estava grávida por acaso, eu e outra vizinha. Quem é o pai? Nem ela sabe. O filho foi entregue a um irmão dela. E ela continua a jogar às escondidas com a morte todos os dias. Entretanto faz rir alguns, faz-me sofrer a mim.
Saí da varanda, tentei esquecer, queria ir aos fados feliz.
Foi muito bom. Como eu gosto de Fado ao vivo! Joaquim Campos, Nuno de Aguiar, uma Senhora já entradota, com uma voz linda, um naipe de jovensinhos muito prometedores, belíssimo acompanhamento, fados antigos, boa companhia, foi muito bom.
Saímos e o pesadelo voltou. A caminho do carro, num local bastante frequentado, perto de uma esquadra de polícia, outro jovem tentava desesperadamente, arrombar um parquímetro.
Droga de droga. Eu vinha feliz, muito feliz. A noite tinha sido perfeita. Caldo verde, bacalhau, sangria, arroz doce, fado, boa companhia. Ver o meu puto Vasco, tratado com respeito, com amizade pelos colegas, ouvir dizer bem dele. Que mais quer uma mãe? Estava feliz, orgulhosa da minha cria, contente de ouvir o Fado.
Porquê tiveste que aparecer puto loiro de caracóis? Porque estavas a arrombar o parquímetro? Porque te drogas? Porque existe droga? Porque não acabam com os, passadores de droga?
Porque é que tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?
Até um dia destes.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Alda Hermínia, a Boneca mais que centenária


Gosto de bonecas. Muito. Tive algumas humildes de cartão, de celulóide, quando era pequena. De todas guardo lembranças boas e tristes. Boas, quando eram novas, com grandes olhos pintados, boca em forma de coração, muito vermelha, cabeças com altos a fingir ondas, também pintados de amarelo e castanho. Aos poucos o verniz estalava, as cores iam desaparecendo, os braços e as pernas presos com elásticos caíam e a pobre boneca transformava-se em mísero trambolho, a quem eu tratava desveladamente, porque estava doente. As duas de celulóide que tive, também acabaram mal. Com tanto banho, tanto carinho, acabavam com altos e baixos, fendas, olhos metidos nas órbitas. Resumindo: tinham um curto prazo de validade.
Um dia a minha avó deu-me uma boneca linda. Cabeça de biscuit alemão, olhos azuis, corpo de pelica. Não tinha cabelo, mas tinha ainda algumas peças de roupa originais.
O problema do cabelo foi resolvido facilmente. Eu tinha muito. É pois o meu cabelo que ela ainda tem. Roupas, a minha mãe com restos de tecidos sem idade e muita arte vestiu-a. Claro que não tinha ordem de lhe mexer senão em dias de festa. Mas era minha e eu podia olhá-la, mostrá-la às minhas colegas. Dei-lhe o nome da minha avó. O tempo passou, os velhos tecidos romperam-se e fui eu que a voltei a vestir. Nova busca nos restos de tecidos. Dias e dias a tentar reproduzir o vestido de noiva da minha outra avó, que ainda guardo. O cabelo ainda é o meu cabelo de menina. Está numa vitrine, juntamente com outros tesouros. Já me ofereceram bom dinheiro por ela. Só que ela já não é minha. É da minha neta, eu sou apenas Fiel depositária dela. Mesmo que ainda fosse minha nunca me desfaria dela.
Minha avó faria no dia 22 deste mês 132 anos. A boneca foi-lhe dada no dia em que fez um ano.
Acham possível desfazer-me desta relíquia? Eu não seria capaz.
Isto de limpar o pó, dá-me cada ideia!
Até um dia destes.

domingo, 5 de julho de 2009

Irmãs


No dia em que fiz dois anos, estávamos no Carregal, perto de Ovar.
À hora do jantar, um grande reboliço pôs tudo em polvorosa. Estava tudo de volta da mãe, que agarrava a grande barriga com as mãos e gemia. Desatei a berrar. Queria o colo dela, queria a minha mãe.
Levaram-me dali, adormeceram-me e já não dei pela saída da mãe para o Porto.
De manhã as tias explicaram-me que a mãe e o pai tinham ido buscar o bebé novo. Aí fiquei contente. Eu já tinha um irmão mais velho, que era o meu protector, tinha tido uma irmãzinha que não conhecera e pela qual a mãe chorava ainda. Um bebé, era tudo o que eu queria. Só que o bebé, levou quatro dias a chegar. Eu já estava em pulgas. Então nem bebé, nem mãe, nem pai? Mas onde é que tinham ido buscar o bebé?
Um dia vestiram-me a preceito, meteram-me no carro do tio Zé e levaram-me a uma casa enorme, com umas senhoras vestidas de branco, véus na cabeça, terços à cintura. Andamos por um corredor grande, abriram a porta e lá dentro estava a mãe sem barriga, o pai com ar embevecido e uma trouxa de roupa cor de rosa, só com a carinha de fora, isto é: o nariz arrebitado, o polegar na boca e os olhos fechados. Olhei para a mãe com ar interrogador e ela disse: é o teu bebé e é uma menina. Já mais ninguém teve licença de te tocar. O bebé era meu. Só eu tinha direito de te tentar tirar o dedo que teimosamente, metias de novo na boquita.
Fomos crescendo. Sempre juntas, sempre cúmplices, sempre à bulha, sempre irmãs. Até eu casar, dormíamos no mesmo quarto. Chorámos e rimos, discutimos e encobrimo-nos. Num minuto odiávamo-nos, noutro morríamos a rir por qualquer coisa.
Separámo-nos. Cada uma teve e tem a sua vida. Tu estás aí, nas ilhas de bruma, eu aqui, neste país de lodo.
Todos os dias me lembro de ti. Como és agora, como fomos dantes.
A vida mudou e mudou-nos. Mas há coisas que permanecem iguais. A amizade, a ternura, a saudade e a lembrança daquele dia doze de Dezembro. Ainda oiço a voz da mãe: “Olha filha, é o teu bebé”.
Sabes que não sou de grandes manifestações de ternura, ao contrário de ti. Hoje abro uma excepção. Um abraço daqueles sufocantes e uma data de beijos como gostas.
Até um dia destes.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Casa de Bonecas


Talvez devesse começar por dizer, “Era uma vez”, porque esta história foi passada com uma criança e mais parece um conto de crianças. Só que é verdadeira e foi passada comigo. Ou melhor, com a Maria menina de cinco anos, com a cabeça cheia de sonhos e uma loucura por brinquedos, que geralmente não podia ter.
Minha mãe viveu alguns anos em Águeda. Tinha lá amigas, daquelas amigas que vêem da infância e duram uma vida inteira.
Uma delas casou rica. Um dia, estávamos em Ovar a passar férias e minha mãe recebeu um convite dessa amiga, para ir passar o dia com ela a Águeda. Fomos. A senhora vivia num grande palacete, perto do centro da então vila.
Não me perguntem como era a casa. Tinha um jardim, uma cave e dois andares. Só me lembro da cave. Tinha três divisões: um bar, uma sala de jogos e um quarto de brinquedos. Havia duas meninas amorosas, que logo me levaram para o dito quarto. Eu parei à porta, muda, trémula, de olhos arregalados. Aquilo era uma loja de brinquedos preciosos. Havia bonecas lindas, de todas as nacionalidades, camas, armários cheios de roupinhas, pequenos pratos com comidas a fingir, sei lá. Eu nunca tinha visto nada assim.
A menina mais velha agarrou numa boneca com trancinhas, pôs-ma nos braços, dizendo: podes mexer em tudo. Olha esta tão parecida contigo! Até tem trancinhas como tu!
Mas eu já não via nada. Ao fundo do quarto, em cima de uma mesa, estava uma casinha pequenina, linda, com janelas, portas, plantas.
A menina viu o meu olhar e apressou-se a abrir a parte da frente da casinha. Tinha tudo. Móveis lindos, carpetes, cortinas, loiças, livros, bonequinhas vestidas de formas diferentes. Fiquei maravilhada e não larguei a casa em todo o dia. Limpei-a, arrumei-a, mudei a roupa das bonecas. Quando chegou a hora de partir, levei nos olhos aquele brinquedo que nunca poderia possuir. Chorei baixinho todo o caminho de Águeda a Ovar. Nunca esqueci a casinha. Era o meu sonho secreto e impossível.
Quando a minha filha fez cinco anos, o pai fez-lhe uma casinha com todos os moveis. Tudo feito por ele. Ela ainda hoje a tem.
Para mim foi o prémio de consolação.
Aqui há poucos anos, era a minha neta pequenina, apareceram uns fascículos de um livro, chamado “Casas de Bonecas”. Cada fascículo vinha acompanhado de uma peça da casa, ou um pequeno móvel. Logo sonhei dar uma à minha neta. Quando fui comprar o primeiro fascículo, o sonho de outrora falou mais alto. A Maria menina entrou na minha cabeça e disse: “Compra dois!” Quase sem pensar, comprei mesmo. E fui juntando semana a semana, paredes, portas, chão, estrutura, móveis, loiças. Quando acabou, o meu marido construiu-as. Ficaram lindas. Quando acabei de lhes pôr os móveis, as carpetes, as cortinas e as loiças, o meu coração batia como o da Maria menina de cinco anos. As lágrimas caiam-me dos olhos de novo, mas desta vez de alegria. Era o meu sonho realizado. Esta era minha. Não teria que a deixar.
Hoje ao limpá-la, tudo isto me passou na cabeça.
E sabem a melhor? A minha casa das bonecas não é um simples objecto de adorno. De vez em quando brinco com ela. Mudo os móveis de sítio, falo com as Donas Bonecas, invento histórias de vida para elas. Louca? Sou sim. Mas alguém ainda tinha dúvidas?
Se todos os sonhos fossem tão simples!
Até um dia destes.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Estremoz, terra do barro


De Estremoz vi o castelo e o Museu do barro.
Fora dos muros havia uma enorme feira, daquelas onde tudo se compra, tudo se vende, desde chouriços e queijos até velharias e roupas. Muita gente, muito barulho, um trânsito infernal, tudo aquilo de que eu queria fugir.
Subimos ao Castelo e a Paz voltou. Ruas estreitinhas, casas típicas e antigas, o que resta dos Paços onde a Rainha Santa viveu muitos dos seus dias, a Igreja, fechada para variar, um Museu e as muralhas do Castelo. Parte do Paço está transformada em pousada. O que resta está um bocado abandonado, mas ainda é muito bonito.
O Museu tem uma parte dedicada à arqueologia, onde estão pedaços de antigos artefactos de barro e metal, moedas, etc.
No segundo andar é o Museu do barro. Peças antigas e modernas, reconstituição de cenas campestres, domésticas e de diversas artes, procissões completissimas, desde os músicos aos andores dos santos, desde os anjinhos ao povo, presépios, um sem número de figuras populares, que alguns de nós ainda conheceram.
Noutra sala, uma bela cama Alentejana, arcas, lavatório e um grande número de Oratórios, de diversos tamanhos e qualidade. Há os pequeninos e humildes, como há os enormes de madeiras nobres e trabalhados.
No pátio estão as lápides, restos de velhos capiteis, urnas, pedras de armas, um pouco desarrumados, mas resguardados.
Há um outro Museu em Estremoz. Nesse dia estava interdito ao público até às 16 horas, porque era esperado um senhor ministro ou coisa parecida. Não se podia estacionar, não se podia ver o museu, porque era esperado o senhor. Democracia! Pronto.
Restava a feira, mas como já disse, não vou muito a feiras. Ainda se fosse só de velharias, enfim. O barulho, a confusão, o ministro ou lá que era, afastaram-me de Estremoz. Um dia volto.
Até um dia destes.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Anta, Cromeleque e um calor!...


Um dos dias passados no Alentejo foi inteiramente dedicado à arqueologia. É um assunto que interessa ao meu marido e, por sua influência, me agrada também. Saímos bem cedo do hotel, pois o calor já se adivinhava e os campos do Alentejo são quase África.
Munidos de mapas, máquina fotográfica, o meu bloco de notas, uma caneta e água, metemos rodas ao caminho. Rumámos à Anta grande do Zambujeiro, parámos o carro a uns 300 metros, fomos o resto do caminho a pé e, lá estava ela enorme, pedras grandes e pesadas, escorada em alguns pontos. É majestosa de verdade. Parece que é a mais alta do mundo, tem grandes esteios de granito, alguns com 6 metros de altura. Esta, foi monumento funerário colectivo e tem menos de 6 mil anos, pertencendo portanto, ao período final do Neolítico.
Depois de coscuvilhar toda a Anta, voltámos para o carro, para seguir para o Cromeleque dos Almendres. Aí, começou a aventura. Seguimos as setas que indicavam o caminho para lá e para o Castelo de Dom Rodrigo. Pronto. A Maria viu o nome de um castelo e já não pensou mais. Era ali. Deixámos o carro mais ou menos à sombra e vá de palmilhar quilómetros atrás de quilómetros para encontrar o castelo, o recinto megalítico, o Menir. Depois de uma caminhada de mais de três quilómetros a subir, sem ver castelo, nem cromeleque, nada a não ser o sol que escaldava, algumas árvores, lagartixas, nada neolíticas, resolvemos voltar ao carro. Eu já estava vermelha do sol, já via luzinhas à frente dos olhos e estávamos estafados e furiosos. Andámos um pouco para trás e lá estava o caminho para os Almendres. Estrada mázinha, mas chegava mesmo ao recinto. Sendo o maior monumento megalítico da Península, tem a provecta idade de cerca de 7 mil anos, pertencendo assim ao principio do período Neolítico.
Pensa-se que a sua forma original se assemelhava à forma de uma ferradura com abertura a nascente. Posteriormente sofreu modificações, quer nos tempos antigos, quer por alguns actos de vandalismo. Tem cerca de uma centena de monólitos, alguns dos quais com inscrições e desenhos esculpidos.
Ao que parece, a escolha dos locais onde foram erigidos, tem a ver com a estrutura da paisagem, os rios, mas também com fenómenos astronómicos relacionados com o Sol e a Lua.
Já não houve tempo, nem pernas, para encontrar o Menir. Fica para a próxima.
O sol já ia muito alto, as pernas queixavam-se, o estômago também.
Ainda tentámos ir ao Escoural, mas como é costume estava fechado. Parece que se tem que marcar a visita.
Almoçamos e fomos para o Hotel descansar e esperar que o calor passasse. À noitinha fomos ao centro de Évora, à Praça do Geraldo, estivemos por ali um bocadinho e fomos dormir, que no outro dia havia mais Alentejo para ver.
Bom fim de semana para todos.
Até um dia destes.