
Desde que há homens no mundo, até há quarenta anos, a Lua foi a Deusa inacessível, a vestal intocada, que fazia sonhar amantes, inspirava poetas e pintores, tinha um fascínio que tocava todos.
Atribuem-lhe poderes imensos, podia fazer e desfazer sonhos, manda nas marés, no nascimento das crianças. Ela, sempre diferente e sempre igual, olha-nos lá do alto, convencida da sua beleza, espargindo a sua luz suave e calma, nas horas em que o Sol ia dormir. Diziam que o Sol e a Lua eram namorados, mas nunca se encontravam.
Sob o seu luar, fizeram-se poemas, fizeram-se serenatas, houve namoros, mais ou menos secretos.
Ela acompanhou, lá do alto, o longo funeral da Linda Inês, Rainha depois de morta, de Coimbra a Alcobaça. Assistiu à última noite dos dois eternos amantes, viu as lágrimas de desespero de Pedro.
Quantos amores impossíveis tu velaste, Lua? Quantos crimes encobriste? Quantas crianças nasceram sob a tua luz?
Um dia os homens quiseram-te mais perto. Estudaram, inventaram, tentaram. E naquela noite, pela primeira vez, foste pisada, analisada, trouxeram para a terra pedaços teus. E naquela noite os homens olharam-te de forma diferente. Olhos presos em ti, nos televisores, eles viram dois homens pisar-te pela primeira vez.
E foram lá mais vezes, desistiram e agora vão voltar.
A Ciência avança, os homens hoje sabem mais do que há quarenta anos. Talvez vão descobrir alguns dos teus segredos, talvez te dispam mais do mistério que te envolve.
Mas tu vais ser sempre a Deusa inspiradora dos poetas. Tu vais continuar sempre a ser de todos e de ninguém. Eterna namorada do Sol, que nunca viste, mas te dá essa luz que tu nos mostras.
Há quarenta anos já! Eu vi os homens lá e vibrei. Continuo a vibrar se lembro o que vi. Eles vão lá, pousam, voltam com mais amostras, mais pedras. Mas conquistar-te, Lua, como se nem o Sol te conquistou?
Até um dia destes.