sábado, 8 de agosto de 2009

É aqui a Guerra de 2009?


Pouco passava das dez e meia de hoje, Raul Solnado bateu à porta da última guerra. Abriram-lha sem fazer perguntas e a estas horas deve estar a contar as suas histórias e a fazer rir muitas pessoas.
Durante várias gerações foi o que fez. Novos e velhos riam e vão continuar a rir, com as suas rábulas, com o seu sorriso contagiante, com as suas expressões tão próprias.
Solnado era um homem bom. Solnado era um Alfacinha da Madragoa, castiço, gingão, com uma cara marota e uma figura peculiar.
Fiquei em choque com a morte dele. Depois, a frase com que acabava um dos programas que fez na televisão, veio-me à memória: “Façam o favor de ser felizes”. A lágrima caiu, mas não achei digno dele desatar a fazer lamentações. Ele merece mais.
Assim, obrigada Solnado pelas gargalhadas que me fizeste dar;
Obrigada Solnado por todos os momentos de teatro que me deste.
Obrigada Solnado pelo papel de inspector da polícia, na “Balada da Praia dos Cães”. Obrigada Solnado pelo teu magnifico papel em “Batom”, peça televisiva. Obrigada Solnado pelo “Zip” e todos os concursos a que deste vida. Obrigada Solnado por todas as Guerras que travaste contra a morte. Finalmente, obrigada Solnado por teres sido tu.
Outros melhor que eu te contarão. Por mim, vou-te lembrar sempre e repetir a tua frase: “Façam o favor de ser felizes”.
Até sempre Raul. Um beijo.
Nós, até um dia destes.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Maria deu lugar à Avó

Durante uns dias não vai haver Alcatruzes. A Maria deu lugar à avó, que não percebe nada de Blogs e menos ainda de computadores.
Por isso, hoje em vez do habitual: “Até um dia destes”, direi até quando calhar.
Logo que calhe, a Maria volta. Vou desligar o computador, porque a avó não pesca nada disto.
Beijinhos e saudades para todos.
Até quando calhar.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A influência da trovoada no gosto dos queijos


Mais uma história passada com a minha sogra e comigo.
O meu tio Alentejano, cunhado da minha sogra, trouxe um dia do seu Alentejo natal, ali para os lados da Chança, uns queijos para o meu sogro e o meu marido. Eles adoravam os queijos, nós não. Os ditos cheiravam a caserna da tropa, depois de tiradas as botas dos magalas e empestavam a casa. Acabado o almoço, comidos os queijos com exclamações de prazer deles e um imenso enjoo nosso, os senhores iam ao café e nós púnhamos os malcheirosos na varanda. Aquilo empestava a casa. Um dia, estávamos nós na sala e os queijos na varanda, cai uma carga de água e uma trovoada de estarrecer. Quando parou, uma de nós gritou: “Ai os queijos!” Corremos à varanda e eles lá estavam, ensopadas, moles, com um ar ainda pior que antes. “Que é que vamos fazer?” pergunta uma. Bem. Limpámos os queijos, pusemos um prato na borda do fogão e esperámos que acontecesse um milagre.
O milagre não veio, mas veio a hora do jantar e os dois maridos. De vez em quando, olhávamos uma para a outra, assim com ar de “como vamos nós descalçar a bota”. Chegou a hora dos queijos. Vieram para a mesa, eles começam a cortar fatias e a comer. Meio desconfiado, o pai pergunta: “os queijos sabem-te ao mesmo?” O filho responde: “ não, estão um bocado desenxabidos e moles”.
A minha sogra olhou para mim, a modos de quem pergunta: “ e agora?” Eu estava a dar de comer ao Vasco e sem me virar, disse com o ar mais displicente do mundo: “ é natural. Com a chuva e a trovoada, os queijos estragam-se”. Responde ela, com ar convencido: “ pois, também já ouvi dizer”. Eles ficaram calados e convencidos. Nós fugimos para a cozinha perdidas de riso e os queijos foram para os gatos que não se ralaram com a falta de gosto deles.
E a pata-brava sou eu?
Só anos mais tarde eles souberam a história.
Até um dia destes.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Uma tigela de ginjas


Meus sogros viviam em Cascais numa casa enorme.
Nesse tempo, muitas pessoas alugavam a casa à época a veraneantes. Eles também o faziam. Antes disso, a minha sogra limpava toda a casa, guardava num quarto fechado tudo o que não queria que servisse para os inquilinos. Vários anos a ajudei nesse trabalho, mas houve um que nunca esquecerei.
Um dia depois do almoço, mandámos homens e crianças para a praia e decidimos dar volta à enorme e alta despensa. Tira daqui, arruma dali, encontrámos um enorme frasco, onde ela fazia a ginjinha. No frasco só restavam as ginjas. Deitar fora, não deitar fora, resolvemos deitá-las numa tigela, até ver. Uma de nós lembrou-se de meter uma ginja na boca. “Prova que é bom.” Provámos, comemos e ao fim de pouco tempo, já nada restava na tigela. Continuámos as arrumações, no meio de bocejos e brincadeira. De repente, ela queixou-se de sono. Eu confessei que estava na mesma. Mais esperta, a minha sogra disse-me: “Isto é das ginjas, o melhor é sentarmo-nos um bocadinho”. Eram umas três horas. Esparralhadas no sofá, adormecemos. Acordámos com o barulho da chave na porta. Era a malta à procura do jantar. Sete da tarde e as madames a dormir. Nem arrumações, nem jantar, nada. Apenas duas belas adormecidas, que tinham apanhado uma grande carraspana. Numa explicação dada entre gargalhadas, contámos o que tinha acontecido.
Fomos fazer o jantar, ouvindo as piadinhas dos maridos e dos putos. Nós não podíamos olhar uma para a outra sem rir.
O pior é que não soubemos como ficávamos bêbedas, só dormimos.
Ai saudades, saudades. Saudades dos meus sogros. Ele fazia hoje anos. Ela morreu há oito, no mesmo dia. Daí a história.
Beijos meus, dos filhos, dos netos, dos bisnetos, queridos pais.
Até um dia destes.

sábado, 25 de julho de 2009

Saudade




À Lena

Não viveste, não viveste
E quanta vida tu tinhas
Chegaste um dia, passaste
E logo depois voltaste
Para o mundo de onde vinhas
Eras um anjo, voaste...












Com toda a ternura.

Até um dia destes

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Conta uma história Avozinha


Era todos os dias a mesma cantilena. Conta uma história. E tu contavas. Sentada aos teus pés, a cabeça nos teus joelhos, uma das tuas mãos no meu cabelo, a outra entre as minhas, ouvia vezes sem conta, as mesmas histórias de fadas e de princesas. E sonhava, minha avó, minha fazedora de sonhos. Outras vezes pedia histórias de verdade. Estas eram, tão somente, histórias de família. Do pai, dos tios, do avô e mais antigas ainda. Creio que devo ser hoje, quem melhor conhece toda a história da família. Nessas não me limitava a ouvir. Fazia perguntas. Nunca te vi aborrecida por isso. Eras como eu sou. Gostavas de lembrar o passado, de trazer de volta os mortos queridos.
Lembras-te de te zangares por eu te escrever pouco? Agora escrevo muito para ti.
Também eu conto histórias aos meus netos. E são eles que pedem: “Conta uma história avó”.
E sabes avozinha? Também conto histórias a outras pessoas e às vezes gostam.
Foste tu quem me ensinou a contá-las. Às vezes parece-me ouvir-te enquanto as escrevo.
Hoje é o dia dos teus anos. Queria dizer-te que ainda tens o teu jardim, os brincos-de-princesa, as roseiras, a erva-da-fortuna, mas não sei vó. Já não está ninguém nosso na tua casa. Nunca mais lá passei, nem vou passar. Está guardada na minha memória, junto das outras casas onde fui feliz.
Vês a carta grande que te escrevi?
Olha, hoje também faz anos que o Vasco, o único dos meus filhos que não conheceste, foi baptizado. Ele conhece-te, avó. Faz muitas perguntas como eu, quer saber tudo da família.
Vou acabar como de costume. Muitos beijinhos e saudades, da neta amiga que te pede a benção.
Até um dia destes.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Lua


Desde que há homens no mundo, até há quarenta anos, a Lua foi a Deusa inacessível, a vestal intocada, que fazia sonhar amantes, inspirava poetas e pintores, tinha um fascínio que tocava todos.
Atribuem-lhe poderes imensos, podia fazer e desfazer sonhos, manda nas marés, no nascimento das crianças. Ela, sempre diferente e sempre igual, olha-nos lá do alto, convencida da sua beleza, espargindo a sua luz suave e calma, nas horas em que o Sol ia dormir. Diziam que o Sol e a Lua eram namorados, mas nunca se encontravam.
Sob o seu luar, fizeram-se poemas, fizeram-se serenatas, houve namoros, mais ou menos secretos.
Ela acompanhou, lá do alto, o longo funeral da Linda Inês, Rainha depois de morta, de Coimbra a Alcobaça. Assistiu à última noite dos dois eternos amantes, viu as lágrimas de desespero de Pedro.
Quantos amores impossíveis tu velaste, Lua? Quantos crimes encobriste? Quantas crianças nasceram sob a tua luz?
Um dia os homens quiseram-te mais perto. Estudaram, inventaram, tentaram. E naquela noite, pela primeira vez, foste pisada, analisada, trouxeram para a terra pedaços teus. E naquela noite os homens olharam-te de forma diferente. Olhos presos em ti, nos televisores, eles viram dois homens pisar-te pela primeira vez.
E foram lá mais vezes, desistiram e agora vão voltar.
A Ciência avança, os homens hoje sabem mais do que há quarenta anos. Talvez vão descobrir alguns dos teus segredos, talvez te dispam mais do mistério que te envolve.
Mas tu vais ser sempre a Deusa inspiradora dos poetas. Tu vais continuar sempre a ser de todos e de ninguém. Eterna namorada do Sol, que nunca viste, mas te dá essa luz que tu nos mostras.
Há quarenta anos já! Eu vi os homens lá e vibrei. Continuo a vibrar se lembro o que vi. Eles vão lá, pousam, voltam com mais amostras, mais pedras. Mas conquistar-te, Lua, como se nem o Sol te conquistou?
Até um dia destes.