sábado, 10 de outubro de 2009

E às vezes a tristeza faz-nos rir...


A cena passou-se há quase quarenta anos. Lembrei-me hoje dela, porque após esta época de doenças, sustos ,medos, me deu para pensar noutras épocas parecidas.
A avó do meu marido tinha diabetes, já tinha tido que amputar uma perna e a doença estava a provocar mais estragos. O médico que a tratava, era um senhor já de idade avançada, médico de toda a família. Um dia, vendo-a muito prostrada, as filhas chamaram o Doutor. Quando ele chegou, a casa estava cheia de gente, incluindo uma cunhada da enferma, velhinha ela também. Ele entrou no quarto, onde ficaram as filhas e a cunhada. Os outros ficaram à porta, prontos para ouvir a opinião do nosso “João Semana”.
Examinou-a, sentado na cama ao lado dela e depois de um bocado, começou a fazer perguntas. A partir daqui vai em discurso directo para melhor compreensão:

Doutor para a doente:
Então como te chamas?
Cunhada:
Ó Senhor Doutor, o senhor não sabe o nome da minha cunhada? É Rosalina.
Doutor: Cala-te Rosa.
Doutor para a doente:
Quantos anos tens?
Cunhada:
Ó Doutor, a minha cunhada tem 78 anos.
Doutor:
Cala-te Rosa.
Doutor para a doente:
Como se chamava o teu marido?
Cunhada:
Ó Doutor, então já se esqueceu do nome do meu irmão? Era João.
Doutor:
Cala-te Rosa.
Doutor já irritado, para a doente:
Quantos filhos tens?
Cunhada:
A minha cunhada tem sete filhos, três raparigas e quatro rapazes, mas dois rapazes já morreram. Até foi o Doutor que os tratou!
Doutor completamente transtornado:
Ó Rosa cala-te e vai-te embora!
Cunhada:
Ó Doutor eu só estava a responder, porque a minha cunhada está doente.

Saiu indignada e nem percebeu as explicações das sobrinhas, resmungando entre gengivas: Este Doutor foi sempre muito malcriado e agora depois de velho está pior.
Apesar da aflição em que estávamos, foi gargalhada geral, que incluiu o médico e a doente.
Pobre tia Rosa, tão bem intencionada e tão inconveniente.
Esta foi mais uma história antiga que a Maria viveu.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para Alguém


Para Alguém que à tua sombra nasceu e à tua sombra repousa.
Para ti que tinhas a grandeza de alma que o Pico tem de altura.
Beijos para a minha irmã, sobrinhos e para teus irmãos.
Para ti, meu cunhado querido, toda a imensa saudade que sinto.

Até um dia destes.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cem anos Pai


Entre estas duas fotografias medeiam 89 anos. Na primeira és um bebé com um ano, na segunda um velhinho com 90.
Em ambas a mesma expressão feliz. Foste, ou tentaste sê-lo sempre.
A vida não foi fácil. Perdeste o teu Pai muito novinho, tiveste que trabalhar cedo, perdeste dois irmãos novos, ficaste sem a nossa mãe, o teu grande amor, uma filha, a Avó e mais irmãos, mas sempre reagiste a tudo.
Nascido em Alcobaça faz hoje cem anos, foi Óbidos a terra da tua infância feliz. Depois as Caldas, de onde vieste para Lisboa, após a morte do Avô. Um dia, em visita a umas primas em Ovar, encontraste aquela que foi o teu grande amor, a nossa Mãe.
Após um namoro longo e quase sempre por carta, veio o casamento, a ida para Tomar, os filhos. Foste muito feliz lá, não foste, Pai? Éramos muito felizes então. A saída de Tomar para o Porto custou-te muito. Deixavas para trás os teus amigos, as paródias, anos de vida. Mas chegaste ao Porto e em pouco tempo, tinhas novos amigos e eras feliz de novo.
Depois os filhos foram vindo para Lisboa e nasceram netos. E tu vieste atrás de nós. Afinal estava cá toda a família. A morte da Mãe desesperou-te, mas mais uma vez, conseguiste refazer a tua vida.
Tínhamos pensado, ou melhor, a ideia foi do meu irmão, fazer hoje uma grande reunião de filhos, netos e bisnetos. Ele adoeceu e ficámos sem pernas para andar.
A tua prenda, Pai, é que o teu filho, o teu orgulho, está a recuperar.
A reunião há-de fazer-se qualquer dia.
Todos beberemos um copo no sítio em que estivermos. Darei aos meus irmãos aquele último beijo que me deste, porque eu estava ao pé de ti, mas que era para os três. Lembraremos as tuas historias, o teu carinho, as tuas fúrias horríveis. Falaremos do amor lindo entre ti e a nossa Mãe. Talvez uma lagriminha teimosa caia dos nossos olhos. Mas faremos os possíveis para nos sentirmos felizes, porque era isso que tu querias, meu Pai, minha Saudade imensa.
Tinha muita coisa para te contar. Mas há coisas tristes que não te direi hoje. Fica para outro dia.
Um beijo da tua “fila”, que te irá amar até ao fim.
Nós, até um dia destes e façam o favor de ser felizes. Ele foi, enquanto pode.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cartão Vermelho



Pessoas a morrer de fome e outras de fartura
Pessoas com inúmeras casas e outras a viver na rua
Falta de respeito pelas ideias dos outros e tentativa de impor as suas.
Tráfico de mulheres e trabalho escravo.
Abuso, violação e rapto de crianças.
Experiências com animais.
Abate de animais para adornar as Barbies deste mundo.
Implantes de silicone.
Deslealdade, mentira e batota.
Tentativa de me obrigarem a comer sapos.

Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Irmãos


Quando há quase 65 anos cá cheguei, tu estavas à minha espera.
Se os bebés percebem e eu acho que sim, fiquei feliz porque tinha um irmão. A que nasceu entre nós, tinha partido, mas estavas tu. Roubei-te um pouquinho da atenção dos pais, mas penso que não te ralaste muito. Fomos irmãos, amigos, cúmplices.
Íamos ao cinema ver filmes de cow boys, passeávamos, trocávamos confidências e tu e o resto da malta tinham uma paciência infinita com a miúda das tranças. Quando a nossa irmãzinha nasceu, fomos companheiros de quarto por uns tempos.
Ela era a boneca pequenina, de dedo na boca, caracóis e engraçada. Nós continuávamos a ser quase inseparáveis.
Ensinaste-me tanto! Contigo aprendi a gostar do “Cavaleiro Andante”, do “Mosquito”. Depois da condessa de Ségur. “O evangelho duma avó”, “O bom diabrete”, “O Brás”. A seguir veio Simenon e o seu “Maigret”, Saint-Éxupéry e “Terre des Hommes”.
Um Natal apresentaste-me Torga e “Os novos contos da Montanha”.
Foi uma das melhores prendas que recebi. Viciei-me nele.
Nos intervalos havia os filmes de Eddie Constantine. Um dia destes vamos revê-lo, juro.
Mas houve mais. As tuas visitas quando os meus filhos nasceram, a ternura que tens por eles e que eu retribuo com o mesmo amor pelo teu.
Houve as dores divididas. A perda, tão cedo, da nossa mãe, o tempo de angústia do fim do nosso pai, o abraço enorme do dia da morte dele. E mais coisas que sofremos a meias.
E os momentos felizes: Paris, Itália e as lembranças da nossa infância feliz em Tomar. E a nossa menina (Por mais que faça, vejo-a sempre pequenina, de caracóis e dedo na boca). Agora todos juntos de novo, como sempre, como na foto que vai acima e que publico sem vossa autorização. Aconteça o que acontecer, será sempre assim: Tu, o protector, nós as protegidas.
E sabes Irmão? Com tudo isto, acho que já sou capaz de dizer no meio da Corredoura em Tomar, no alto do Parque Eduardo VII em Lisboa, no cimo da Torre Eiffel em Paris, Eu AMO-VOS, meus irmãos. Admiro-vos.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes. Eu hoje estou.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vindimas


Era por esta altura que as vindimas eram feitas na quinta.
Desde manhãzinha, homens, mulheres e crianças, munidos de cestos e tesouras, invadiam as vinhas. Iam-se cortando os cachos vermelhos ou dourados, depenicando um ou outro bago, enchendo os cabazes pequenos, vazando-os depois nos grandes cestos víndimos, que eram transportados às costas dos homens até à adega. Esta era grande com telhado de duas águas e uma porta. De um dos lados estavam os toneis, do outro grandes tabuleiros para a fruta, a batata e a cebola, ao fundo uma enorme dorna de pisar vinho, uma escada que dava para a plataforma onde estava a prensa de esmagar as uvas e a balança. Nessa parede havia uma porta que dava para a escada exterior por onde subiam os homens com os cestos. Lá no alto, o meu pai, calças de cotim, botas e boina basca, caderno na mão e lápis atrás da orelha, pesava, assentava o peso das uvas, dava de beber aos homens que vazavam os cestos na prensa. Tudo aquilo abanava com o motor. O sumo ia correndo. O dia ia correndo. Os cestos iam chegando cada vez mais lentos.
À noite, entre cantigas e brincadeiras, uma parte do mosto era pisada à moda antiga, na dorna velha. O cheiro embriagava um pouco as cabeças mais pequenas. No fim, a ceia. Broa de milho fresca, chouriço, toucinho.
No outro dia era o rabisco. Nós miúdos, íamos pela vinha fora, procurando um cacho esquecido, que nos deliciava.
Era assim há perto de 60 anos.
A foto junta, tem muitos mais. É do tempo dos meus avós. Nela estão minha mãe, a mais pequenina ao pé do cesto e as irmãs, vestidas de vindimadoras. Deve ter à volta de 100 anos.Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

História de um par de meias


Há coisas em que as mulheres não mudam. Vi isso hoje no Post da Ritinha. Ela, menina ainda, conta a história de uma camisola. Fiquei um tanto perplexa por ver tanta sensibilidade e romantismo numa mocinha. Depois, dei comigo comovida, porque me lembrei que há 41 anos, guardo dentro de uma caixa umas velhas meias de vidro.
Meias mesmo. Daquelas que se usavam com tiras de elástico (ligas), ou as mais sofisticadas prendiam com os elegantes cintos de ligas.
Houve um Natal, em que tínhamos pouco dinheiro e o meu marido me ofereceu um par de meias de vidro. Fiquei contente pela lembrança, usei as meias e, quando, já bem usadas tinha pensado deitá-las fora, não fui capaz. Guardei-as até hoje. Quando as encontro no meio de arrumações, dobro-as com ternura e volto a guardá-las.
E sabes Ritinha? No fim de tantos anos, também lembro o dia em que as recebi e quem mas deu. Não podia esquecer porque ele é ainda hoje o meu marido, o meu amor, o pai dos meus filhos e avô dos meus netos.
Como eu desejo, que daqui a muitos anos, olhes para esse camisola com o mesmo amor! Beijinhos querida.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.