sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Peregrinação


Isto hoje vai em estilo tragicomédia, ainda não sei em quantos actos.
1º Acto
Marido a caminho do posto do Posto de Saúde, várias sextas feiras às oito da manhã, para conseguir marcar uma consulta para a mulher. A semana passada conseguiu uma, com o nº 1.
2º Acto
Mulher levanta-se às 7 horas, para estar pontualmente no dito posto às oito horas.
3º Acto
Fila que dá volta ao quarteirão, formada por pessoas a bater os dentes com frio.
4º Acto
Afinal o nº1 era de uma lista nº não sei quantos.
5º Acto
Cento e tal pessoas dentro de um corredor e uma sala pequena dividida ao meio por um balcão, atrás do qual estão três amáveis funcionárias que explicam que tem que ser devagarinho, porque o Sistema Informático pifou.
A fila anda lentamente enquanto as pessoas começam a refilar com tudo e todos, a mulher incluída.
6º Acto
10 horas, lá entra a criatura, pede os medicamentos e sai.

Ora agora, que já brinquei com coisas sérias vem o resto.
O dito Posto há anos que não tem condições nem para um quinto dos doentes. Possui uma única casa de banho para homens e mulheres, em condições de higiene mais que lamentáveis. Suja, sem sabão para lavar as mãos, nem papel higiénico, nada.
O engraçado, é que na sala e corredores, as paredes estão decoradas com belos cartazes sobre os cuidados a ter com a famigerada gripe A e outros que explicam minuciosamente com imagens, como lavar as mãos. Pedido sabão, não há. Livro de reclamações, está em parte incerta.
Onde é este Posto? Não vale a pena dizer. Todos conhecem algum igual.
Só vos dou um conselho: se puderem, façam um Seguro de Saúde. Porque se estão à espera do médico da Caixa, é melhor não se darem ao luxo de estar doentes. Garanto que lá não se tratam e ainda trazem de brinde mais doenças e os nervos feitos num feixe.
Se querem animar-se vão ver os nossos belíssimos, caríssimos e cheíssimos, Estádios de futebol. Aí sim, há saúde, alegria, boas acomodações. É outro asseio. E claro, eram a prioridade máxima para o nosso povo. Bem empregados impostos.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu Pai


Faz hoje oito anos partiste. Estavas cansado de lutar com a idade e o sofrimento. Tinhas feito noventa e dois anos dia um e achaste que chegava.
Sofro muito ainda. Vou sofrer sempre. A falta que me fazes, é cada vez maior.
Não te quero escrever uma carta triste e magoada.
Quando eu era pequenina, fizeste-me uns versos para a minha mãe me cantar, com a música de uma canção em voga.
Adormeci os meus filhos e netos com ela centenas de vezes.
É esse testemunho de amor que hoje deixo aqui:

Minha filha

Minha filha dorme bem o teu soninho,
No teu berço aconchegado como um ninho.
Sonha só com teus bonecos e teus pais,
Com flores, coisas lindas, nada mais.

Sonha com a avó, com as tias,
É preciso que tu rias
E tenhas vida feliz!
Minha filha,o amor de mãe é sempre assim
E no mundo só tu vales para mim.

Não te enchas de ilusões, querida,
Com os mimos que a mãe te der.
O teu pai dava por ti a vida,
Como ela também te quer.

E afinal eu só queria
Ter uma vida sem fim...
E ter-te muito abraçada, amor
E o teu pai junto de mim.

A última vez que a cantei, foi para ti. No dia em que te levaram para sempre, cantei-a baixinho, como quem reza, junto ao teu ouvido.
Depois, nunca mais a cantei. Ficará para sempre como símbolo do nosso amor.
Lembras-te dos nossos amores-perfeitos da casa do Carvalhido?
Aqui vão, num mau desenho meu, feito para a Mãe há muitos anos. Hoje são para ti. Ela não se ia importar.
Um beijo meu Pai e a saudade imensa da tua fila.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes. Eu hoje não sou capaz.

domingo, 18 de outubro de 2009

O meu primeiro amor


Tínhamos a mesma idade e conheciam-nos desde bebés.
Crescemos juntos até perto dos cinco anos e éramos quase inseparáveis. Chamava-se João (tinha que ser), era loiro, grandes e lindos olhos azuis, meio encobertos por óculos. O João via muito mal. Quando brincávamos, a minha mão tinha a mão do João sempre agarrada. Os nossos pais trabalhavam juntos, as mães eram amigas. Nos jardins da Cerca ou do Mouchão brincávamos, corríamos, andávamos nos baloiços, no escorrega, sempre de mãos dadas. Chamavam-nos namorados e nós acreditávamos. Nada nos separava, só a noite quando íamos dormir e as férias.
E foi nas férias que tudo acabou.
Passaram sessenta anos e lembro tudo com uma precisão enorme.
Nós estávamos de férias no Carregal, perto de Ovar. Ele ficou em Tomar. Uma manhã o telefone tocou, chamaram o meu pai, ele ouviu, ficou lívido e só disse: Vou já para aí. Fechou-se no quarto com a minha mãe, ouvi-a chorar e ouvi o nome do João e o meu. Qualquer coisa me alertou para uma tragédia. O pai partiu, depois de me abraçar com força e a mãe, entre lágrimas e soluços, contou-me, com a delicadeza possível o que acontecera.
O avó do João tinha uma loja de ferragens e vidros na minha rua. O João entrou a correr na loja e foi bater com o pescoço num vidro que estavam a cortar. A minha mão não estava lá para o deter. Era só isso que eu sabia dizer no meio dos gritos de dor.
Foi há tanto tempo! Porque me lembrei disto hoje? Não sei. Não recordo, sequer com precisão, a data em que isto se passou. Mas é Outubro e Tomar, a Feira, as lembranças do tempo de infância, andam constantemente na minha cabeça. Hoje foi esta tragédia que enlutou Tomar e me marcou a mim para sempre, que me veio à memória.
Adeus João, meu amigo, meu primeiro amor tão tristemente acabado.
Houve outros amores, uns rápidos, outros mais compridos que acabaram. Um dia apareceu outro João e foi para toda a vida.
Mas dizem que o primeiro amor nunca se esquece. Comigo foi assim.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não se apagam borrões com pingos de tinta


Maieté Proença, actriz e escritora brasileira fez um vídeo altamente ofensivo para os portugueses.
Sempre embirrei com a senhora, quer como pessoa, quer como actriz. Por essa razão nunca me despertou a atenção ler o que escreve.
Agora que o livro foi lançado em Portugal e depois de alguns milhares de portugueses terem visto a forma deselegante como se portou no dito vídeo, volta à cena para explicar que tudo foi dito num contexto humorístico e que os portugueses não têm senso de humor. Apela para o avozinho português, tentando comover-nos com o grande amor que tem a Portugal e com o facto de ser portuguesa.
A “senhora” não tem um pingo de vergonha ou amor próprio. A melhor maneira de lhe demonstrarmos que não somos assim tão estúpidos, é não comprar o livreco, evitando assim, dar mais uns Euros a quem nos trata mal.
Já está uma petição na net. Eu já assinei.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes, como dizia o nosso Solnado, que tão bem fazia rir, sem ofender.

sábado, 10 de outubro de 2009

E às vezes a tristeza faz-nos rir...


A cena passou-se há quase quarenta anos. Lembrei-me hoje dela, porque após esta época de doenças, sustos ,medos, me deu para pensar noutras épocas parecidas.
A avó do meu marido tinha diabetes, já tinha tido que amputar uma perna e a doença estava a provocar mais estragos. O médico que a tratava, era um senhor já de idade avançada, médico de toda a família. Um dia, vendo-a muito prostrada, as filhas chamaram o Doutor. Quando ele chegou, a casa estava cheia de gente, incluindo uma cunhada da enferma, velhinha ela também. Ele entrou no quarto, onde ficaram as filhas e a cunhada. Os outros ficaram à porta, prontos para ouvir a opinião do nosso “João Semana”.
Examinou-a, sentado na cama ao lado dela e depois de um bocado, começou a fazer perguntas. A partir daqui vai em discurso directo para melhor compreensão:

Doutor para a doente:
Então como te chamas?
Cunhada:
Ó Senhor Doutor, o senhor não sabe o nome da minha cunhada? É Rosalina.
Doutor: Cala-te Rosa.
Doutor para a doente:
Quantos anos tens?
Cunhada:
Ó Doutor, a minha cunhada tem 78 anos.
Doutor:
Cala-te Rosa.
Doutor para a doente:
Como se chamava o teu marido?
Cunhada:
Ó Doutor, então já se esqueceu do nome do meu irmão? Era João.
Doutor:
Cala-te Rosa.
Doutor já irritado, para a doente:
Quantos filhos tens?
Cunhada:
A minha cunhada tem sete filhos, três raparigas e quatro rapazes, mas dois rapazes já morreram. Até foi o Doutor que os tratou!
Doutor completamente transtornado:
Ó Rosa cala-te e vai-te embora!
Cunhada:
Ó Doutor eu só estava a responder, porque a minha cunhada está doente.

Saiu indignada e nem percebeu as explicações das sobrinhas, resmungando entre gengivas: Este Doutor foi sempre muito malcriado e agora depois de velho está pior.
Apesar da aflição em que estávamos, foi gargalhada geral, que incluiu o médico e a doente.
Pobre tia Rosa, tão bem intencionada e tão inconveniente.
Esta foi mais uma história antiga que a Maria viveu.
Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para Alguém


Para Alguém que à tua sombra nasceu e à tua sombra repousa.
Para ti que tinhas a grandeza de alma que o Pico tem de altura.
Beijos para a minha irmã, sobrinhos e para teus irmãos.
Para ti, meu cunhado querido, toda a imensa saudade que sinto.

Até um dia destes.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cem anos Pai


Entre estas duas fotografias medeiam 89 anos. Na primeira és um bebé com um ano, na segunda um velhinho com 90.
Em ambas a mesma expressão feliz. Foste, ou tentaste sê-lo sempre.
A vida não foi fácil. Perdeste o teu Pai muito novinho, tiveste que trabalhar cedo, perdeste dois irmãos novos, ficaste sem a nossa mãe, o teu grande amor, uma filha, a Avó e mais irmãos, mas sempre reagiste a tudo.
Nascido em Alcobaça faz hoje cem anos, foi Óbidos a terra da tua infância feliz. Depois as Caldas, de onde vieste para Lisboa, após a morte do Avô. Um dia, em visita a umas primas em Ovar, encontraste aquela que foi o teu grande amor, a nossa Mãe.
Após um namoro longo e quase sempre por carta, veio o casamento, a ida para Tomar, os filhos. Foste muito feliz lá, não foste, Pai? Éramos muito felizes então. A saída de Tomar para o Porto custou-te muito. Deixavas para trás os teus amigos, as paródias, anos de vida. Mas chegaste ao Porto e em pouco tempo, tinhas novos amigos e eras feliz de novo.
Depois os filhos foram vindo para Lisboa e nasceram netos. E tu vieste atrás de nós. Afinal estava cá toda a família. A morte da Mãe desesperou-te, mas mais uma vez, conseguiste refazer a tua vida.
Tínhamos pensado, ou melhor, a ideia foi do meu irmão, fazer hoje uma grande reunião de filhos, netos e bisnetos. Ele adoeceu e ficámos sem pernas para andar.
A tua prenda, Pai, é que o teu filho, o teu orgulho, está a recuperar.
A reunião há-de fazer-se qualquer dia.
Todos beberemos um copo no sítio em que estivermos. Darei aos meus irmãos aquele último beijo que me deste, porque eu estava ao pé de ti, mas que era para os três. Lembraremos as tuas historias, o teu carinho, as tuas fúrias horríveis. Falaremos do amor lindo entre ti e a nossa Mãe. Talvez uma lagriminha teimosa caia dos nossos olhos. Mas faremos os possíveis para nos sentirmos felizes, porque era isso que tu querias, meu Pai, minha Saudade imensa.
Tinha muita coisa para te contar. Mas há coisas tristes que não te direi hoje. Fica para outro dia.
Um beijo da tua “fila”, que te irá amar até ao fim.
Nós, até um dia destes e façam o favor de ser felizes. Ele foi, enquanto pode.