Há onze anos, à uma hora e um quarto, tive uma prenda das mais lindas que até hoje recebi. Na noite gelada, depois de umas horas de ansiedade por ti e pela tua mãe, nasceste. Já era a quinta vez, que tinha uma prenda dessas, um bebé. O primeiro, o teu pai, depois a ti-ti e o padrinho, de seguida a minha primeira neta, naquele momento, tu. Um menino lindo, perfeito, um misto de boneco e anjo. Passados três meses, novo presente. Os teus pais emprestaram-te à avó. Foram dois anos muito felizes. Voltar a ter um bebé nos braços, acalenta-lo com velhas canções de embalar, que ainda lembras, ver-te crescer, esperto, alegre, meigo, ouvir-te as primeiras palavras. Estas, fazem-me sempre rir. O Nabão, teu companheiro e guarda, ladrava e, eu dizia: “Cala-te cão”. Um dia, ele ladrou e, antes de eu dizer nada, ouvi a tua voz de bebé: “Caa cão”. Chorei e ri ao mesmo tempo. A vida afastou-nos. Foste para mais longe e, o sonho acabou. Quando cá estás, ainda pedes ao deitar: “Canta a da Estrelinha, avó”. E, de novo baixinho, canto para ti, a “Canção de Embalar” do Zeca Afonso. Até quando vais pedi-la? Hoje fazes 11 anos. E é por isso, que tudo me vem à ideia. Porque me lembro, que foste e és, o último bebé que embalei com ternura e força de mãe. Agora, já não tenho força, mas ainda te posso cantar: “Dorme meu menino, a Estrela d’alva, já a procurei e não a vi, outra que vier de madrugada, outra que eu souber, será para ti.” Queria dar-te, a ti e à tua prima, todas as estrelas do céu e, um mundo onde fosse fácil viver. Vou mandar-te a “Canção da Estrelinha”, não cantada por mim, mas pelo seu autor. Beijinhos, coceguinhas na orelhinha, um dia muito feliz, meu neto. A tua avó continua a adorar-te. Agradeço aos teus pais, esses dois anos, que nunca esquecerei. Bom Ano Novo para os três, é o que mais deseja a mãe e avó. Maria
O Ano que está acabar, não vai deixar saudades. Desastres naturais, guerras, morte, gente com fome, crianças sem lar nem carinho. A nível pessoal, também não foi nada bom para mim e para os meus. E nestes meus, junto a minha querida Soledade, que tanta amargura tem tido este ano. Termina mal. Tanto no nosso país, como em toda a terra, a água cai, os rios enchem, mais pessoas ficam sem lar, mais miséria, mais fome. Que vais fazer, Ano Novo? Vamos entrar em ti, com alguma esperança, que algo mude, que a Paz chegue, que a comida seja para todos, que os doentes melhorem, que os infelizes vejam um raio de sol e felicidade. É em ti, novinho e ainda puro, que os nossos corações acreditam, para trazer, alguma coisa nova. Como serás? Igual aos outros que nos encheram de esperança, para depois nos desiludirem? Ou serás diferente? Já não acredito muito, que assim seja. É assim tão difícil mudar o Mundo? Tu, que aí vens, novo, limpo, dá-nos, ao menos um pouquinho de Paz. Que as guerras acabem. Será que és capaz? Será que és diferente? Desejo, para todos vós amigos, um Bom Ano Novo. Talvez, afinal, ainda haja milagres. Até um dia destes.
Descobri esta gravação do nosso Tango predilecto. Aquele que cantávamos mais vezes. Hoje farias anos. Lembrei-me de te mandar este Vídeo. Sei, que onde quer que estejas, vais gostar. Acenderás um cigarro e, nos teus olhos aparecerá a mesma “Nostalgia”, que dá o nome ao tango. Eu fumarei um cigarro, pensarei em ti, na nossa amizade, que nem a morte apagou e, nos meus olhos, a mesma “Nostalgia”, aparecerá. Ouve Margarida. Daqui a pouco, às dez da manhã, depois do café. Adeus minha querida prima, minha grande companheira. Até um dia destes.
Mais dois pescadores morreram no mar, desta vez na Foz do Neiva. Dois irmãos, uma Mãe a quem o mar roubou dois filhos. Nunca é demais, falar da vida triste, pobre e arriscada, destes verdadeiros “Heróis do Mar”. Nunca é demais, falar destas mulheres, que além da dor de perder filhos, maridos e pais, ficam sem amparo. Por isso, é delas que vos falo hoje, com a tristeza de quem as conheceu bem e sente com elas essa mágoa enorme.
Morrer no Mar
O Mar lhes deu o pão e lho tirou. O Mar foi sua vida e sua morte. Foi berço de embalar e foi caixão. Traçou-lhes toda a vida e toda a sorte.
Foi nele que cresceram, que viveram. Foi dele que tiraram pão e abrigo. Foi seu patrão, seu dono, seu amigo. Foi nele que sonharam e nele que morreram.
Alguns, o Mar não quis e deitou fora, Mortos ou vivos, voltaram para a praia. Aos outros qui-los seus e, os guardou.
Em terra, uma mulher seu homem chora. É negro o lenço, a blusa, o xaile, a saia, Porque o pescador partiu e, não voltou.
Com os olhos de criança é que te vejo Minha terra, meu berço de embalar, Minha infância feliz, minha esperança, Meu desejo constante de voltar.
Meu convento de sonho, meu rio verde Correndo, como eu no teu jardim, Minha lembrança que jamais se perde, Meus sonhos de menina sem ter fim.
No dia que eu morrer irei lembrar Todos os que amei e já perdi E aqueles que ainda cá estão.
E, se virem, no meu rosto correr água, Não pensem que são lágrimas de mágoa São salpicos da Roda do Mouchão.
Hoje faço 65 anos. Tive a alegria de ver de novo o meu irmão. Foi um momento apenas, mas que me fez ganhar o dia. Depois, lembrei-me da minha (nossa) terra, do rio, de duas figuras incontornáveis, nascidas em Tomar, como eu. Nas margens do mesmo rio fomos meninos. Eles, foram grandes homens. Eu, a Maria pequenina, frágil de corpo e alma, ao pé dos dois mestres, mas com o mesmo amor pela terra que nos foi berço.
Eles que me perdoem, a singela homenagem, aos dois e ao nosso Nabão. Até um dia destes e façam o favor de ser felizes. Eu hoje fui.
Faz hoje 369 anos, “40 conjurados portugueses, juntaram-se ao povo e proclamaram a Restauração do Reino de Portugal, durante 60 anos sob o jugo espanhol”. Era assim que rezavam os manuais escolares no meu tempo. Em Tomar, mal a madrugada raiava, os foguetes estalavam, as duas bandas tocavam pela cidade o Hino da Restauração. Havia comemorações oficiais e festas populares. Em casa, havia lições de história, que meu pai, acérrimo inimigo dos espanhóis, nos contava. Belas cenas e frases do dito dia. Era bonito e romântico. D. Filipa de Vilhena armando os imberbes filhos, para lutarem pela restauração da Pátria cativa. D. Luisa de Gusmão, duquesa de Bragança, espanhola de nascimento, incitando o seu hesitante marido a ser Rei, com duas frases que lhe atribuem: “Antes morrer reinando, do que viver servindo” e, “Mais vale ser Rainha uma hora, que Duquesa toda a vida”. Tudo isto era muito bonito e dizia muito à cabecinha louca da Maria. Hoje pergunto muitas vezes, se valeu a pena. Mas não era de política que ia falar. Um ano, por via das deslocações de meu pai, encontravamo-nos no Carregal. Investiguei se havia festejos. Não havia. Então, passaria a haver. Reuni toda a miudagem conhecida, munimo-nos de capas improvisadas, espadas de lata, panelas, colheres de pau, cornetas e, no dia 1 de Dezembro, às 6 e pouco, fomos para baixo da janela do quarto dos meus pais, cantando, em altos gritos, o hino da Restauração acompanhado de um grande alarido. Ele gostava de dormir até tarde. Veio à janela, primeiro com ar zangado, depois, encarou comigo, à frente dos novos restauradores, a cara abriu-se num sorriso enorme e orgulhoso. Eu, fui rainha por um dia. E hoje? Quem sabe para aí por que é feriado? Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.