Fez ontem 34 anos que partiste. Contigo foram as histórias do passado, que me contavas vezes sem conta. Sentada no chão, a cabeça nos teus joelhos, a tua mão acariciando a minha cabeça, pedia: “Conta avosinha”. E tu nem perguntavas o quê. Sabias bem o que eu queria. Histórias de família, ora cómicas, ora dramáticas, o teu longo namoro com o avô, descrição das roupas e factos do teu tempo, histórias de outros tempos nos quais gostaria de ter vivido.
Tiveste uma infância e adolescência de menina rica. Professores em casa, uma cultura acima do normal, que fazia jus à tua inteligência. Tocavas piano e falavas francês e outras línguas, bordavas na perfeição. Casaste, e a vida sorriu-te até ao dia em que o avô partiu, cedo, demasiado cedo. Com seis filhos abaixo dos quinze anos, tudo mudou. Criar quatro rapazes e duas garotinhas, foi difícil. Quando eu nasci, já tinhas vários netos. Fomos doze, contando com as duas que morreram pequeninas. Dois dos filhos foram levados pela morte, muito cedo. Sofreste muito, avó. Eu sei.
Nunca te vi chorar. Acho que as lágrimas secaram como as minhas.
Frágil por fora, mas com um espirito muito forte, a tudo resiste. Enquanto tu quiseste. Um dia, com 98 anos, uma gripe de nada, atirou-te para a cama. O enfermeiro foi pôr-te o soro e o oxigénio, e mal a porta da rua bateu atrás dele, arrancaste tudo e só murmuraste: “Não quero mais”. Pregaste os olhos no retrato do avô em frente à cama, e passada meia hora foste embora. Dona de ti até ao fim, não foi avó? Senhora da tua vontade e da tua vida, até ao fim.
Eu neguei-me a acreditar. Como dizia em pequena “as avosinhas não morrem”. Senti-me traída, enganada. Depois tive que aceitar que até a minha avó tinha a sua hora.
Ao fim de todos estes anos, ainda me custa viver sem ti. Sabes? Nunca te menti. Não era capaz. Aqueles olhos verdes, liam até ao fundo da minha alma. Ficaram as histórias, avó. Lembro-me de todas. Encheriam vários livros se as contasse.
Um beijo na mão, avó e a tua benção. Como há 34 anos, como todas as noites antes de dormir.
Até um dia destes.


