
Li há dias na revista “Visão” uma crónica de António Lobo Antunes, que me deu volta à cabeça.
Dedicada à mãe com 90 anos, gira à volta da história de uma foto dela em nova, com uns versos de António Sardinha, chamados “Vesperal”. A crónica chama-se “Ó Pastorinha do olhar de bruma”.
Grosso modo, conta que um fotografo tirou a fotografia à mãe e expô-la na montra. Um estudante apaixonou-se pela foto e conseguiu que o homem lha vendesse. Dias depois, o pai da menina não vendo a fotografia, exigiu ao fotografo a entrega da mesma. O estudante devolveu-a com a dita poesia por trás e a sua assinatura. O pai apagou a assinatura, mas a foto foi guardada até hoje. Aqui entra a parte que eu admiro em Lobo Antunes: a facilidade com que entra no pensamento e sentimentos femininos.
Aquilo que ele imagina à volta da fotografia, em princípio, só uma mulher a conseguirá ver.
Qual a mulher que não tem uma foto com uma história de amor não vivida, mas muitas vezes sonhada? Qual não guarda uma carta de um amor passado, um bilhete, um desenho ou tão só, uma lembrança? Pus-me a pensar, onde estaria a minha “pastorinha”.
As cartas de amor que tenho guardadas, são todas do meu marido.
Fotografias tenho muitas. Mas é este Retrato, que ele diz inacabado, que me faz sonhar ainda. Fê-lo quando eu tive a minha filha. Que recordações lindas me traz desse tempo! E é ele que já hoje me faz sonhar com tanta coisa linda. Olho-o e olho-me. Pergunto: Eu era assim? Era assim que o meu amor de então e de hoje, me via. Para ele, eu era assim. Não, não era a “Pastorinha do olhar de bruma”. Era a mulher dele, a mãe dos seus filhos. E ele era e é ainda, o amor que sonhei um dia e que mesmo nos dias piores, me dá alento. O amor que foi tão conseguido, que não preciso de nenhuma “Pastorinha de olhar de bruma” para sonhar ainda.
Leiam a crónica do Lobo Antunes. Esqueçam as lamechices serôdias da Maria.
Até um dia destes.

