Eu sei que a minha volta, deveria ser um agradecimento aos meus queridos amigos, pela ternura e ajuda que me deram. Foram todos amorosos, tentaram dar-me força numa altura muito má da minha vida. Sei também, que deveria contar o que se passou. Depois de médicos, exames, análises, parece que tudo se resolverá, com medicamentos, calma e um pouco de paciência. Feitas as explicações, vamos à história de hoje, que não é alegre, como poderão ver pelo nome. Não tem fotos. A miséria, todos a conhecem e, não tem rosto, nem nacionalidade.
No Jornal “O Templário”, semanário da minha terra, vem este título na primeira página. Eu sei que isto acontece todos os dias, em qualquer lugar. Mas em Tomar, na Tomar que conheci, não acontecia. O “meu capitão Oliveira”, de quem já falei várias vezes, por várias razões, não deixaria que isto acontecesse. Era Salazarista sim. Tinha uma relação de amizade com o meu pai, que odiava o Salazar e isso fazia-me uma certa confusão. É que, mais que Salazarista, “o meu capitão” era tomarense. Fez daquela terra um jardim, mas não só. Uma das suas obras foi a casa dos pobres, onde homens e mulheres encontravam abrigo, num ambiente acolhedor e simples, com horta e criação, que além de lhes dar trabalho, era uma ajuda para a manutenção da casa. Os que viviam cá fora, iam lá buscar o alimento de que necessitavam. Havia pobres em Tomar. Talvez os mais velhos se recordem de alguns: O Martinho, que lá vivia, o Troca a Nota, o D. Inês, o Jeitoso e a irmã, sei lá. Nunca me lembro de nenhum ter morrido assim.
Agora, um pobre paquistanês, que vivia em Tomar há muito tempo, apareceu morto numa lixeira, meio roído pelos ratos. Vivia numa casa sem portas nem janelas, davam-lhe de comer e dinheiro, que gastava em vinho. Desapareceu, e ninguém se preocupou muito. Apareceu, no estado que eu já disse: morto, numa lixeira e roído pelos ratos. Será que isto acontecia no tempo do “Capitão”? Deixem-me duvidar. Já nada é o que era dantes. Onde está a minha terra? Onde os seus jardins, as pedras do chão, a janela do Convento suja, mas inteira? Onde os homens como o Salazarista “Capitão Oliveira”, que por acaso, foi general e Director Geral da Polícia?
Na última vez que fui ao cemitério, não tinha uma flor. O mini-monumento, que lhe fizeram, é mais pequeno do que o bebedouro de pássaros que tem à frente.
O “meu Capitão” merecia mais, gente da minha terra. Perdoem-lhe o Salazarismo e, lembrem-se do Tomarense que ele foi.
E pronto. Voltei. Com uma história triste, mas que me fez lembrar alguém, que merecia mais dos seus conterrâneos.
Beijinhos e obrigada a todos.
Até um dia destes.