Quando vivemos no Porto, tinha o meu pai um carrito que nos permitia dar “grandes passeios ao Domingo”, perdoe-me José Régio o atrevimento. Quase sempre eram para o Minho, local que todos adorávamos. Ora Ceide, “visitar o Camilo”, como dizia o meu pai, antecedido de uma paragem em Famalicão, no Tanoeiro, para as belas “Papas de Sarrabulho”, ora Penafiel onde imperava um “Cozido à Portuguesa” de se lhe tirar o chapéu, ora Póvoa do Varzim, onde era obrigatória a “Pescada à Poveira” antecedida dos deliciosos “percebes”. Havia uma terra que ficava muito nas nossas saídas. Braga, a belíssima Bracara Augusta. Meu pai tinha lá um primo já velhinho, casado com uma adorável senhora, que fazia os mais gostosos doces de ovos que já comi. Viviam com uma filha solteira, muito simpática e paciente. Convidavam-nos muitas vezes, umas vezes para Braga, outras para uma quintinha amorosa em Ruílhe. Era sempre um prazer ir a casa deles. Gente afável, comida óptima, vinho a condizer, e os doces, meu Deus, os doces!!!
Um dia meu pai falou, não sei porquê, em frango de cabidela. Logo a prima combinou para daí a uma semana, em Ruílhe, comermos o dito frango com arroz malandrinho. Assim foi. Estava um dia morno de Primavera, a casa era fresca e o frango divino. O meu pai na viajem para casa, só falava no almoço. Tudo bem. O que não estava bem, é que ele tinha andado a dizer a meio Porto, que queria experimentar o arroz de cabidela.
Por azar, no dia seguinte, tínhamos um convite de uma amiga minha para jantar. Vamos para a mesa e quem chega a seguir? A bela terrina com a cabidela e a travessa de arroz malandrinho. Lá comemos, estava boa, mas já tinha um certo ar de dejá-vu. Quando fomos para casa, o meu pai já deitava o frango de cabidela pelos olhos. Julgam talvez que acabou a história? Desenganem-se.
Um amigo do pai, tinha um restaurante para os lados de Gondomar, numa pequena praia fluvial, onde só havia a casa em madeira, pedras, árvores, o rio transparente, o cantar dos passarinhos. Tinha um caminho horrível para lá chegar. Depois era um deslumbramento. Chegamos, saímos do carro e eu senti no ar um aroma conhecido, misturado com lenha queimada. Só disse baixinho, ao meu pai: Pai, não te assustes, mas acho que o jantar é frango de cabidela. Riram-se todos, julgando que estava a brincar.
Entrámos por uma porta e pela outra, entrou quem? O arroz malandrinho e a cabidela de frango.
Três dias a dieta de frango de cabidela. Só anos depois, consegui voltar a prová-lo.
Porquê hoje dia do pai, me lembrei do dito prato? Talvez, à minha maneira, seja uma forma de homenagear aquele em quem tenho pensado todo o dia. Ele não gostava de coisas tristes. Por isso, meu pai querido, um beijo e a saudade imensa que tenho deste tempo.
Até um dia destes.



