Habituei-me a ver estas de licor desde que me conheço. Todas as Páscoas, o meu pai as oferecia à minha mãe em bonitas caixinhas, juntamente com uma moeda de dez escudos, daquelas da caravela. Os da minha idade sabem do que falo. Aos outros só direi que, nesse tempo, dez escudos era algum dinheiro. Foi juntando estas da Páscoa e mais umas tantas que arranjou, que minha mãe comprou a mobília do meu quarto e da minha irmã. Mas voltemos às amêndoas. A minha mãe, que tudo repartia com os filhos, era avara com as “suas” amêndoas. Uma por dia e já gozávamos.
Um dia estávamos a ver fotos antigas, guardadas nesta caixa grande, e perguntei-lhe de que era a caixa. Então soube a história toda das caixinhas e das amêndoas. O padrinho, todos os anos na Páscoa, lhe enviava uma, juntamente com uma libra de cavalinho. Já não sou do tempo dessas moedas, mas valiam bastante.
Um dia contou ao meu pai, e ele prometeu-lhe que teria todos os anos as “suas” amêndoas e uma moeda, não de libra, mas o que ele pudesse. Assim foi até quase ao fim. Morreu na véspera do Domingo de Ramos, não chegou a ter amêndoas nesse ano.
Depois de casar, contei isto ao meu marido. Agora sou eu a dona das figurinhas de açúcar e licor. Já não vêm em caixinhas bonitas, mas sabem ao mesmo licor, açúcar, infância e mimo de mãe.
Tudo na minha vida sabe e cheira a passado.
Queres uma amêndoa, mãe? Vá lá, tira uma pombinha.
Até um dia destes e boa Páscoa para todos.
Maria




