Não gosto de futebol, já o disse várias vezes. Fujo de o ver até na televisão. Sou do Benfica por tradição familiar, também já o disse. Há outra razão para não ver. Sou perigosa, porque além de os meus acompanhantes ficarem com as canelas negras, visto eu dar pontapés quando o Benfica marca, ainda por cima, sempre que via o meu clube jogar, ele perdia. Mas o que verdadeiramente me faz não ver os jogos, tem outra história.
Em 94 ou 95, o Benfica jogou contra o Porto, numa final em Coimbra. O Vasco estava na altura na Lousã, na colónia de férias, como todos os anos. Devo dizer, que ele não é muito de futebóis.
Nessa noite, estava eu a ver o jogo, que o Benfica perdeu 5/6, rebenta uma saraivada de garrafas, pedras, entram e saem bombeiros com macas, a polícia intervém, eu vi montes de putos saírem de maca e escoltados pela polícia, e eu sentadinha no sofá exclamo: “olha para isto. Estão as mães em casa muito socegadas e os miúdos ali. Havia de ser comigo, havia!”. Fui deitar-me calmamente, dormi, e no dia seguinte telefonei para a colónia à hora de almoço, como sempre. O Vasco atendeu, falámos das coisas do costume, se comia, se estava a gostar... depois perguntei-lhe: “viste ontem o jogo na televisão?” Ele hesitou, mas por fim disse-me: “ não, não vi na televisão. Estava no estádio.” Fiquei trémula, gaga, sem palavras. Na minha cabeça só havia uma ideia: onde estava o meu instinto maternal naquela noite? Eu era uma mãe descansada, com o meu filho a correr perigo. Ele lá me explicou que o monitor, logo que começou a barafunda, os tinha posto a salvo. Ralhei, desliguei e tive uma crise de choro à moda antiga. Na minha cabeça continuava a interrogação: “mas onde tinhas o instinto maternal ontem? Onde?.” E foi assim que nunca mais “fui” à bola com o futebol.
Até um dia destes.



