
Em 1867 tinha minha bisavó materna, entre várias outras coisas, uma quinta perto da Póvoa de Santo Adrião (documento da foto). Lá viveu os últimos anos da sua trágica e atribulada vida e lá morreu. Tinha uma filha pequenina, que ficou entregue à irmã mais velha, que por acaso era sobrinha da mãe. Confusos? Eu explico. Meu bisavô e trisavô, personagem que detesto sem nunca o ter visto, casou com uma sobrinha que lhe deu três filhos e morreu nova. Levou ele para casa, a outra sobrinha, irmã da primeira, para lhe criar os filhos. Em paga, resolveu dar-lhe mais que fazer e pôs-lhe uma menina nos braços. Ela adoeceu, ele caridosamente pô-la na tal quinta à espera da morte e casou com outra, que não era sobrinha. Estão baralhados? Olha se eu fizesse como o Camilo e me pusesse a contar a história da minha família toda!?. Hoje não conto. Já temos confusão que baste para um só dia.
Temos uma bisavó enganada, com uma filha pequenina, a minha avó, a irmã da minha avó, que por acaso também é minha bisavó (como? fica para outro dia), uma quinta desaparecida na bruma do tempo. A minha avó cresceu, casou, teve 11 filhos, morreu ela e o marido, deixando-os novinhos e sós. Isto também fica para outro dia.
Ora, quando o Corvo comprou a casa dele e me disse onde ficava, houve qualquer coisa que me chamou a atenção. No baú dos papéis descobri este documento. Descobri-o, e as suspeitas confirmaram-se. O sítio onde é a casa dele, fez parte da dita quinta.
Curioso não é? Andámos a investigar os limites da propriedade e bate certo. Quer dizer, a casa do Corvo é na quinta que foi da trisavó. Quem sabe no próprio sítio onde era a casa em que escondeu a sua vergonha (naquele tempo era assim que se chamava ter um filho sem ser casada), a sua doença, toda a solidão da mulher abandonada por um crime que não foi dela. Ele, como já disse, casou e deve ter sido muito feliz, teve outra filha, morreu muito velho.
Ai se eu fosse o Camilo!... Ele com alguns parentes e muito engenho, imaginação e arte, escreveu perto de 200 volumes. Eu tive uma família enorme cheia de dramas Camilianos, falta-me o engenho, a arte. A imaginação não faz falta, porque só a verdade dava uma data de volumes.
E pronto. Mais uma volta do mundo, mais uma história das muitas que guardo na memória e no velho baú dos papéis.
Não sei porquê, acho que há pessoas bastante baralhadas hoje.
Não vos prometo entrar em explicações, pela vossa sanidade mental. Um amigo de meu pai, um dia que ele lhe tentou explicar, que era primo de si mesmo, ia ficando maluco.
Até um dia destes.


