quarta-feira, 14 de abril de 2010

As voltas que o mundo dá


Em 1867 tinha minha bisavó materna, entre várias outras coisas, uma quinta perto da Póvoa de Santo Adrião (documento da foto). Lá viveu os últimos anos da sua trágica e atribulada vida e lá morreu. Tinha uma filha pequenina, que ficou entregue à irmã mais velha, que por acaso era sobrinha da mãe. Confusos? Eu explico. Meu bisavô e trisavô, personagem que detesto sem nunca o ter visto, casou com uma sobrinha que lhe deu três filhos e morreu nova. Levou ele para casa, a outra sobrinha, irmã da primeira, para lhe criar os filhos. Em paga, resolveu dar-lhe mais que fazer e pôs-lhe uma menina nos braços. Ela adoeceu, ele caridosamente pô-la na tal quinta à espera da morte e casou com outra, que não era sobrinha. Estão baralhados? Olha se eu fizesse como o Camilo e me pusesse a contar a história da minha família toda!?. Hoje não conto. Já temos confusão que baste para um só dia.
Temos uma bisavó enganada, com uma filha pequenina, a minha avó, a irmã da minha avó, que por acaso também é minha bisavó (como? fica para outro dia), uma quinta desaparecida na bruma do tempo. A minha avó cresceu, casou, teve 11 filhos, morreu ela e o marido, deixando-os novinhos e sós. Isto também fica para outro dia.
Ora, quando o Corvo comprou a casa dele e me disse onde ficava, houve qualquer coisa que me chamou a atenção. No baú dos papéis descobri este documento. Descobri-o, e as suspeitas confirmaram-se. O sítio onde é a casa dele, fez parte da dita quinta.
Curioso não é? Andámos a investigar os limites da propriedade e bate certo. Quer dizer, a casa do Corvo é na quinta que foi da trisavó. Quem sabe no próprio sítio onde era a casa em que escondeu a sua vergonha (naquele tempo era assim que se chamava ter um filho sem ser casada), a sua doença, toda a solidão da mulher abandonada por um crime que não foi dela. Ele, como já disse, casou e deve ter sido muito feliz, teve outra filha, morreu muito velho.
Ai se eu fosse o Camilo!... Ele com alguns parentes e muito engenho, imaginação e arte, escreveu perto de 200 volumes. Eu tive uma família enorme cheia de dramas Camilianos, falta-me o engenho, a arte. A imaginação não faz falta, porque só a verdade dava uma data de volumes.
E pronto. Mais uma volta do mundo, mais uma história das muitas que guardo na memória e no velho baú dos papéis.
Não sei porquê, acho que há pessoas bastante baralhadas hoje.
Não vos prometo entrar em explicações, pela vossa sanidade mental. Um amigo de meu pai, um dia que ele lhe tentou explicar, que era primo de si mesmo, ia ficando maluco.
Até um dia destes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Nunca mais vi futebol


Não gosto de futebol, já o disse várias vezes. Fujo de o ver até na televisão. Sou do Benfica por tradição familiar, também já o disse. Há outra razão para não ver. Sou perigosa, porque além de os meus acompanhantes ficarem com as canelas negras, visto eu dar pontapés quando o Benfica marca, ainda por cima, sempre que via o meu clube jogar, ele perdia. Mas o que verdadeiramente me faz não ver os jogos, tem outra história.
Em 94 ou 95, o Benfica jogou contra o Porto, numa final em Coimbra. O Vasco estava na altura na Lousã, na colónia de férias, como todos os anos. Devo dizer, que ele não é muito de futebóis.
Nessa noite, estava eu a ver o jogo, que o Benfica perdeu 5/6, rebenta uma saraivada de garrafas, pedras, entram e saem bombeiros com macas, a polícia intervém, eu vi montes de putos saírem de maca e escoltados pela polícia, e eu sentadinha no sofá exclamo: “olha para isto. Estão as mães em casa muito socegadas e os miúdos ali. Havia de ser comigo, havia!”. Fui deitar-me calmamente, dormi, e no dia seguinte telefonei para a colónia à hora de almoço, como sempre. O Vasco atendeu, falámos das coisas do costume, se comia, se estava a gostar... depois perguntei-lhe: “viste ontem o jogo na televisão?” Ele hesitou, mas por fim disse-me: “ não, não vi na televisão. Estava no estádio.” Fiquei trémula, gaga, sem palavras. Na minha cabeça só havia uma ideia: onde estava o meu instinto maternal naquela noite? Eu era uma mãe descansada, com o meu filho a correr perigo. Ele lá me explicou que o monitor, logo que começou a barafunda, os tinha posto a salvo. Ralhei, desliguei e tive uma crise de choro à moda antiga. Na minha cabeça continuava a interrogação: “mas onde tinhas o instinto maternal ontem? Onde?.” E foi assim que nunca mais “fui” à bola com o futebol.
Até um dia destes.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Queres uma Amêndoa, Mãe?


Habituei-me a ver estas de licor desde que me conheço. Todas as Páscoas, o meu pai as oferecia à minha mãe em bonitas caixinhas, juntamente com uma moeda de dez escudos, daquelas da caravela. Os da minha idade sabem do que falo. Aos outros só direi que, nesse tempo, dez escudos era algum dinheiro. Foi juntando estas da Páscoa e mais umas tantas que arranjou, que minha mãe comprou a mobília do meu quarto e da minha irmã. Mas voltemos às amêndoas. A minha mãe, que tudo repartia com os filhos, era avara com as “suas” amêndoas. Uma por dia e já gozávamos.
Um dia estávamos a ver fotos antigas, guardadas nesta caixa grande, e perguntei-lhe de que era a caixa. Então soube a história toda das caixinhas e das amêndoas. O padrinho, todos os anos na Páscoa, lhe enviava uma, juntamente com uma libra de cavalinho. Já não sou do tempo dessas moedas, mas valiam bastante.
Um dia contou ao meu pai, e ele prometeu-lhe que teria todos os anos as “suas” amêndoas e uma moeda, não de libra, mas o que ele pudesse. Assim foi até quase ao fim. Morreu na véspera do Domingo de Ramos, não chegou a ter amêndoas nesse ano.
Depois de casar, contei isto ao meu marido. Agora sou eu a dona das figurinhas de açúcar e licor. Já não vêm em caixinhas bonitas, mas sabem ao mesmo licor, açúcar, infância e mimo de mãe.
Tudo na minha vida sabe e cheira a passado.
Queres uma amêndoa, mãe? Vá lá, tira uma pombinha.
Até um dia destes e boa Páscoa para todos.
Maria

quinta-feira, 25 de março de 2010

Mais um ano


Mais um ano sem ti, Mãe. Logo que acordei, olhei o teu retrato e pensei nos versos de Junqueiro, que tu tanto gostavas, e eu te pedia, tantas vezes, para me dizeres. Sabes? Aqueles que começam: “Minha mãe, minha Mãe, ai que saudade imensa...”
Logo à tarde vou ao cemitério, como sempre, limpar a tua casinha, pôr-te flores. Embalarei de novo, a caixa que guarda o que de material resta de ti. Pesa tão pouco, Mãe! Já as saudades e recordações são tão pesadas, que magoam muito.
Agora mando-te o nosso Poema. É o que sinto.

Excerto do Poema “Aos Simples” de Guerra Junqueiro


Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além , por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas…
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!...
………………………………………………
A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira
Como junto dum leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo de oliveira.

Sabes Mãe? No beiral da casa onde nasci, ainda há ninhos de andorinhas. Já devem andar por lá a esvoaçar.
Adeus minha Mãe. Mil beijos e a saudade cada vez maior da tua filha.
Até um dia destes.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Frango de cabidela


Quando vivemos no Porto, tinha o meu pai um carrito que nos permitia dar “grandes passeios ao Domingo”, perdoe-me José Régio o atrevimento. Quase sempre eram para o Minho, local que todos adorávamos. Ora Ceide, “visitar o Camilo”, como dizia o meu pai, antecedido de uma paragem em Famalicão, no Tanoeiro, para as belas “Papas de Sarrabulho”, ora Penafiel onde imperava um “Cozido à Portuguesa” de se lhe tirar o chapéu, ora Póvoa do Varzim, onde era obrigatória a “Pescada à Poveira” antecedida dos deliciosos “percebes”. Havia uma terra que ficava muito nas nossas saídas. Braga, a belíssima Bracara Augusta. Meu pai tinha lá um primo já velhinho, casado com uma adorável senhora, que fazia os mais gostosos doces de ovos que já comi. Viviam com uma filha solteira, muito simpática e paciente. Convidavam-nos muitas vezes, umas vezes para Braga, outras para uma quintinha amorosa em Ruílhe. Era sempre um prazer ir a casa deles. Gente afável, comida óptima, vinho a condizer, e os doces, meu Deus, os doces!!!
Um dia meu pai falou, não sei porquê, em frango de cabidela. Logo a prima combinou para daí a uma semana, em Ruílhe, comermos o dito frango com arroz malandrinho. Assim foi. Estava um dia morno de Primavera, a casa era fresca e o frango divino. O meu pai na viajem para casa, só falava no almoço. Tudo bem. O que não estava bem, é que ele tinha andado a dizer a meio Porto, que queria experimentar o arroz de cabidela.
Por azar, no dia seguinte, tínhamos um convite de uma amiga minha para jantar. Vamos para a mesa e quem chega a seguir? A bela terrina com a cabidela e a travessa de arroz malandrinho. Lá comemos, estava boa, mas já tinha um certo ar de dejá-vu. Quando fomos para casa, o meu pai já deitava o frango de cabidela pelos olhos. Julgam talvez que acabou a história? Desenganem-se.
Um amigo do pai, tinha um restaurante para os lados de Gondomar, numa pequena praia fluvial, onde só havia a casa em madeira, pedras, árvores, o rio transparente, o cantar dos passarinhos. Tinha um caminho horrível para lá chegar. Depois era um deslumbramento. Chegamos, saímos do carro e eu senti no ar um aroma conhecido, misturado com lenha queimada. Só disse baixinho, ao meu pai: Pai, não te assustes, mas acho que o jantar é frango de cabidela. Riram-se todos, julgando que estava a brincar.
Entrámos por uma porta e pela outra, entrou quem? O arroz malandrinho e a cabidela de frango.
Três dias a dieta de frango de cabidela. Só anos depois, consegui voltar a prová-lo.
Porquê hoje dia do pai, me lembrei do dito prato? Talvez, à minha maneira, seja uma forma de homenagear aquele em quem tenho pensado todo o dia. Ele não gostava de coisas tristes. Por isso, meu pai querido, um beijo e a saudade imensa que tenho deste tempo.
Até um dia destes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Imaginação ou talvez não


Continuando em busca das boas memórias do passado, fui descobrir mais um desenho do meu marido.
Como se pode ver, foi feito na Ota, onde ele passou alguns dias, antes de casarmos e ser colocado em Paços de Ferreira.
Imaginação, porque eu não estava lá e o meu filho ainda estava na minha barriga, não nos meus braços. Mas era assim que ele já me via. A mãe com o filho no colo. A mulher plena.
Num tempo em que não havia ecografias, ele conseguiu ver o filho.
Se previu o sexo, não sei. Queria um rapaz e foi o que teve. Tal como no ano seguinte sonhava uma menina, e ela veio. Tal como, anos mais tarde, queria outro rapaz, e ele veio.
Três pintainhos no meu ninho. Cresceram, ganharam asas, voaram pela vida, dois já são pais. Só falta o meu Corvo dar-me um Corvo ou Corva pequeninos, para deixar alguma marca da nossa passagem na terra. E acho que nos saímos bem. Filhos e netos são seres normais, com defeitos e qualidades, mas bem formados.
E nós cá estamos. Mais velhos, cansados, com menos ilusões, mas no fundo os mesmos que éramos neste tempo.
Até um dia destes.

domingo, 7 de março de 2010

Pastorinha do olhar de bruma


Li há dias na revista “Visão” uma crónica de António Lobo Antunes, que me deu volta à cabeça.
Dedicada à mãe com 90 anos, gira à volta da história de uma foto dela em nova, com uns versos de António Sardinha, chamados “Vesperal”. A crónica chama-se “Ó Pastorinha do olhar de bruma”.
Grosso modo, conta que um fotografo tirou a fotografia à mãe e expô-la na montra. Um estudante apaixonou-se pela foto e conseguiu que o homem lha vendesse. Dias depois, o pai da menina não vendo a fotografia, exigiu ao fotografo a entrega da mesma. O estudante devolveu-a com a dita poesia por trás e a sua assinatura. O pai apagou a assinatura, mas a foto foi guardada até hoje. Aqui entra a parte que eu admiro em Lobo Antunes: a facilidade com que entra no pensamento e sentimentos femininos.
Aquilo que ele imagina à volta da fotografia, em princípio, só uma mulher a conseguirá ver.
Qual a mulher que não tem uma foto com uma história de amor não vivida, mas muitas vezes sonhada? Qual não guarda uma carta de um amor passado, um bilhete, um desenho ou tão só, uma lembrança? Pus-me a pensar, onde estaria a minha “pastorinha”.
As cartas de amor que tenho guardadas, são todas do meu marido.
Fotografias tenho muitas. Mas é este Retrato, que ele diz inacabado, que me faz sonhar ainda. Fê-lo quando eu tive a minha filha. Que recordações lindas me traz desse tempo! E é ele que já hoje me faz sonhar com tanta coisa linda. Olho-o e olho-me. Pergunto: Eu era assim? Era assim que o meu amor de então e de hoje, me via. Para ele, eu era assim. Não, não era a “Pastorinha do olhar de bruma”. Era a mulher dele, a mãe dos seus filhos. E ele era e é ainda, o amor que sonhei um dia e que mesmo nos dias piores, me dá alento. O amor que foi tão conseguido, que não preciso de nenhuma “Pastorinha de olhar de bruma” para sonhar ainda.
Leiam a crónica do Lobo Antunes. Esqueçam as lamechices serôdias da Maria.
Até um dia destes.