
É Julho e Julho para mim é Lisboa. Não sei sair de cá. É Arroios e a casa da Avó, o Chiado, o Jaleco, os cinemas, as festas de anos da Tia, da Prima, da Avó. É caso para dar parabéns à prima, única das três ainda viva, que faz anos hoje, no mesmo dia em que a Tia fazia. Tive muitas Tias. Do lado da Mãe eram 4, todas solteiras, mais a mulher de um Tio. Do lado do Pai 2, uma ainda viva e a mulher do Tio. Depois quando casei, adquiri mais algumas que me foram queridas. Claro que com tantas tinha algumas preferidas.
Pendia mais para as do lado do Pai. A que ainda é viva é minha madrinha e vivo no pavor constante de a perder. A outra, esta que fazia anos hoje, era a Tia Maria da Graça, mais conhecida por Tia Bia, ou apenas Tia. Nunca casou. Já depois dos irmãos casados teve um namoro sério, daqueles que costumavam acabar em casamento. Tudo corria bem, até que alguém com uma língua suja, foi com histórias estúpidas, para o pretenso noivo. Ele, conhecendo-a como conhecia, em vez de se calar, foi-lhe fazer perguntas. Ela não gostou que pusessem em causa a sua virtude e acabou o namoro. Ele pediu perdão, esperou um tempo, mas o perdão não veio e casou com outra. Ela ficou solteira. Nunca mais quis saber de homens, ficou com a Mãe, uma sobrinha que criou de bebé e a casa cheia de outros sobrinhos que lá se juntavam. Era uma pessoa boa, pura, adorava a Mãe, os irmãos, os sobrinhos. Como ser humano, claro que tinha defeitos. O principal era um feitio irritadiço, comum a toda a família, com fúrias que mais pareciam o fim do mundo. Passada a tempestade, voltava a ser a Tia, paciente, tolerante, brincalhona, de sempre. Por vezes eram problemas de dinheiro, por vezes um grão de areia, talvez às vezes, um pouco de revolta com a vida. Ficou sem Pai com 6 anos. Toda uma família sem o único que a sustentava. Os irmão rapazes foram saindo de casa nas Caldas e ficou com a Mãe e a irmã. Vieram para Lisboa e foi a corrida de casa da Avó para partes de casa, até chegar à casinha da Travessa. Bordava para fora, cuidava da casa e da Mãe, até ir trabalhar para o I.P.O. na Secretaria. Trabalhou lá até à reforma. Quando vinha do trabalho a pé, comprava para nós gatinhos, ou sombrinhas de chocolate. Eu fingia que gostava. Adorava os gatinhos embrulhados em prata, mas detestava chocolate, além de ter pena de comer os gatinhos. Guardava-os nos bolsos até eles derreterem. Deitava-se no divã e começava a cegarrega: “Tia, dê estalinhos com os dedos dos pés!... Era uma habilidade única e não havia televisão, nem consolas, nem jogos electrónicos. Tirando a velha telefonia que dava aos soluços a triste história da “Coxinha do Tide”, os “Parodiantes de Lisboa” e os “Serões para trabalhadores”, não havia maior divertimento que ouvir os estalinhos dos dedos dos pés da Tia.
Nos anos dela havia festa. Lanche melhorado, visitas, flores e chocolates. Nesse dia vestia sempre de branco. Ficava bonita a Tia.
Ó Tia que saudades da tua açorda com ovinho! Nunca mais comi nenhuma parecida.
Eu casei, vim para Lisboa, ia vê-la a ela e a Avó. A Avó morreu e ela ficou com a sobrinha, a minha Margarida e a filhota dela, grande amiga da minha. A tragédia não se cansava de a procurar. A nossa Margarida morreu nova. Ficou só com a filha dela. Ouvia muito mal. Ao telefone então era um suplicio. Comigo falava horas. A minha voz treinada a falar com o meu Pai, ela ouvia melhor. Contava histórias antigas, falava dos seus queridos mortos.
Num dia nevoento de Fevereiro, dia da Santa com o meu nome, eu estava triste. Fui buscar um filme que tinha visto com ela muitos anos antes: “A Colina da Saudade”. Tínhamos adorado o filme e ela, romântica inveterada, fartou-se de chorar. Eu também.
O telefone tocou, eu atendi e do outro lado uma voz disse-me: “A Tia morreu”. De repente, sem doenças aparentes, sem sofrer parece, como sempre tinha querido.
Foi a última vez que nos reunimos na casinha da Avó. Uma prima minha abraçou-me e disse a frase que a descreveu: “Coitadinha! Era um bocado chatinha, mas era muito nossa amiga”.
Hoje lembro-te Tia. A dar estalinhos com os dedos, a ler os românticos livros de Pearl Buck, a ralhar, a lambuzar-nos de grossas fatias de pão com manteiga e açúcar amarelo, a falar do teu único, grande e perdido amor.
Beijinho Tia. Daqueles repenicadinhos que tu davas.
Até um dia destes. Se calhar vou mesmo ver a “Colina da Saudade”.
Pendia mais para as do lado do Pai. A que ainda é viva é minha madrinha e vivo no pavor constante de a perder. A outra, esta que fazia anos hoje, era a Tia Maria da Graça, mais conhecida por Tia Bia, ou apenas Tia. Nunca casou. Já depois dos irmãos casados teve um namoro sério, daqueles que costumavam acabar em casamento. Tudo corria bem, até que alguém com uma língua suja, foi com histórias estúpidas, para o pretenso noivo. Ele, conhecendo-a como conhecia, em vez de se calar, foi-lhe fazer perguntas. Ela não gostou que pusessem em causa a sua virtude e acabou o namoro. Ele pediu perdão, esperou um tempo, mas o perdão não veio e casou com outra. Ela ficou solteira. Nunca mais quis saber de homens, ficou com a Mãe, uma sobrinha que criou de bebé e a casa cheia de outros sobrinhos que lá se juntavam. Era uma pessoa boa, pura, adorava a Mãe, os irmãos, os sobrinhos. Como ser humano, claro que tinha defeitos. O principal era um feitio irritadiço, comum a toda a família, com fúrias que mais pareciam o fim do mundo. Passada a tempestade, voltava a ser a Tia, paciente, tolerante, brincalhona, de sempre. Por vezes eram problemas de dinheiro, por vezes um grão de areia, talvez às vezes, um pouco de revolta com a vida. Ficou sem Pai com 6 anos. Toda uma família sem o único que a sustentava. Os irmão rapazes foram saindo de casa nas Caldas e ficou com a Mãe e a irmã. Vieram para Lisboa e foi a corrida de casa da Avó para partes de casa, até chegar à casinha da Travessa. Bordava para fora, cuidava da casa e da Mãe, até ir trabalhar para o I.P.O. na Secretaria. Trabalhou lá até à reforma. Quando vinha do trabalho a pé, comprava para nós gatinhos, ou sombrinhas de chocolate. Eu fingia que gostava. Adorava os gatinhos embrulhados em prata, mas detestava chocolate, além de ter pena de comer os gatinhos. Guardava-os nos bolsos até eles derreterem. Deitava-se no divã e começava a cegarrega: “Tia, dê estalinhos com os dedos dos pés!... Era uma habilidade única e não havia televisão, nem consolas, nem jogos electrónicos. Tirando a velha telefonia que dava aos soluços a triste história da “Coxinha do Tide”, os “Parodiantes de Lisboa” e os “Serões para trabalhadores”, não havia maior divertimento que ouvir os estalinhos dos dedos dos pés da Tia.
Nos anos dela havia festa. Lanche melhorado, visitas, flores e chocolates. Nesse dia vestia sempre de branco. Ficava bonita a Tia.
Ó Tia que saudades da tua açorda com ovinho! Nunca mais comi nenhuma parecida.
Eu casei, vim para Lisboa, ia vê-la a ela e a Avó. A Avó morreu e ela ficou com a sobrinha, a minha Margarida e a filhota dela, grande amiga da minha. A tragédia não se cansava de a procurar. A nossa Margarida morreu nova. Ficou só com a filha dela. Ouvia muito mal. Ao telefone então era um suplicio. Comigo falava horas. A minha voz treinada a falar com o meu Pai, ela ouvia melhor. Contava histórias antigas, falava dos seus queridos mortos.
Num dia nevoento de Fevereiro, dia da Santa com o meu nome, eu estava triste. Fui buscar um filme que tinha visto com ela muitos anos antes: “A Colina da Saudade”. Tínhamos adorado o filme e ela, romântica inveterada, fartou-se de chorar. Eu também.
O telefone tocou, eu atendi e do outro lado uma voz disse-me: “A Tia morreu”. De repente, sem doenças aparentes, sem sofrer parece, como sempre tinha querido.
Foi a última vez que nos reunimos na casinha da Avó. Uma prima minha abraçou-me e disse a frase que a descreveu: “Coitadinha! Era um bocado chatinha, mas era muito nossa amiga”.
Hoje lembro-te Tia. A dar estalinhos com os dedos, a ler os românticos livros de Pearl Buck, a ralhar, a lambuzar-nos de grossas fatias de pão com manteiga e açúcar amarelo, a falar do teu único, grande e perdido amor.
Beijinho Tia. Daqueles repenicadinhos que tu davas.
Até um dia destes. Se calhar vou mesmo ver a “Colina da Saudade”.




