Era uma vez... Era assim que começavam as histórias, que repetias até à exaustão. Eu não me cansava. Conta uma história Vó!... E lá vinham os príncipes com orelhas de burro, os príncipes encantados que eram sapos e se transformavam em belos mancebos com o beijo da princesa, as princesas lindas e infelizes, que ao calor do beijo do belo príncipe, acordavam e eram felizes para sempre. Quase todas acabavam bem: “E foram felizes para sempre!...”
Eu adorava aquelas histórias tão parecidas, mas para mim diferentes, que me povoavam a cabeça de sonhos e ilusões.
Só havia uma, que nunca quis ouvir até ao fim. A avozinha morria.
Eu desatava a chorar, agarrava-me a ti e gritava: “Não Vó! Essa não. As avozinhas não morrem!” E não parava até tu me prometeres que não morrias nunca. Eras marota, sabes? Voltavas vezes e vezes a tentar contar a tal história, só para eu voltar a chorar, gritar e ter pesadelos.
O tempo foi passando, as histórias eram outras, eras a minha confidente, a pessoa a quem nunca mentia, com quem conversava tardes inteiras. Via-te cada vez mais velhinha, eu já era mulher e mãe de filhos, mas continuava a acreditar que tu eras eterna.
Estavas quase a fazer os 99 anos, e naquele Fevereiro frio, (como eu detesto este mês!), uma porcaria de gripe sem nome, atirou-te na cama. Eu via o medo na cara de todos, via sinais que infelizmente, já tinha visto noutros rostos queridos. Mas dentro de mim havia a minha frase de sempre e a tua promessa. Não, tu não ias morrer. Esqueci-me que tu sempre fizeras o que te dava na gana. Arrancaste o oxigénio, o soro e disseste: “Não quero mais”. Meia hora depois adormeceste para sempre. A princípio não quis acreditar. Revoltei-me contra ti e contra a vida. A dor foi muito forte. A surpresa também. Afinal as avozinhas, a minha avozinha, morriam como toda a gente. Agarrada a ti repetia: “Tu tinhas prometido Vó!”! Porque me mentiras?
O tempo passou, a dor não. Hoje farias anos. Não consegui falar das festas que fazíamos nesse dia. Muita gente, muito barulho, tu no teu cantinho recebendo amigos e parentes. Só via esta caricatura feita pelo meu tio Henrique em cinco minutos. Fui buscá-la e ela aí está. E tu estás lá toda. No cantinho das histórias, das confidências, dos teus bordados e rendas. Era a casinha de Arroios, a tua casinha.
Avozinha, minha Avozinha, como te queria hoje ver, levar-te flores, chocolates, um perfume! Como queria beijar a tua mão e dizer: “ A Benção minha Avó”. Sentir o teu beijo no rosto, a tua mão na cabeça, e ouvir-te dizer: “Deus te proteja minha neta”.
Nada disso vai acontecer. As Avosinhas morrem, afinal. Mas é em ti que vou pensar o dia todo. Talvez à noite, na hora de todos os prodígios, eu ouça a tua voz abençoar-me outra vez. Talvez eu te ouça dizer: “Era uma vez uma princesa...”
Adeus Avozinha, até para o ano.
Um beijo para o meu amigo Kim. Sei que o dia também é marcante para ele.
Até um dia destes.
Eu adorava aquelas histórias tão parecidas, mas para mim diferentes, que me povoavam a cabeça de sonhos e ilusões.
Só havia uma, que nunca quis ouvir até ao fim. A avozinha morria.
Eu desatava a chorar, agarrava-me a ti e gritava: “Não Vó! Essa não. As avozinhas não morrem!” E não parava até tu me prometeres que não morrias nunca. Eras marota, sabes? Voltavas vezes e vezes a tentar contar a tal história, só para eu voltar a chorar, gritar e ter pesadelos.
O tempo foi passando, as histórias eram outras, eras a minha confidente, a pessoa a quem nunca mentia, com quem conversava tardes inteiras. Via-te cada vez mais velhinha, eu já era mulher e mãe de filhos, mas continuava a acreditar que tu eras eterna.
Estavas quase a fazer os 99 anos, e naquele Fevereiro frio, (como eu detesto este mês!), uma porcaria de gripe sem nome, atirou-te na cama. Eu via o medo na cara de todos, via sinais que infelizmente, já tinha visto noutros rostos queridos. Mas dentro de mim havia a minha frase de sempre e a tua promessa. Não, tu não ias morrer. Esqueci-me que tu sempre fizeras o que te dava na gana. Arrancaste o oxigénio, o soro e disseste: “Não quero mais”. Meia hora depois adormeceste para sempre. A princípio não quis acreditar. Revoltei-me contra ti e contra a vida. A dor foi muito forte. A surpresa também. Afinal as avozinhas, a minha avozinha, morriam como toda a gente. Agarrada a ti repetia: “Tu tinhas prometido Vó!”! Porque me mentiras?
O tempo passou, a dor não. Hoje farias anos. Não consegui falar das festas que fazíamos nesse dia. Muita gente, muito barulho, tu no teu cantinho recebendo amigos e parentes. Só via esta caricatura feita pelo meu tio Henrique em cinco minutos. Fui buscá-la e ela aí está. E tu estás lá toda. No cantinho das histórias, das confidências, dos teus bordados e rendas. Era a casinha de Arroios, a tua casinha.
Avozinha, minha Avozinha, como te queria hoje ver, levar-te flores, chocolates, um perfume! Como queria beijar a tua mão e dizer: “ A Benção minha Avó”. Sentir o teu beijo no rosto, a tua mão na cabeça, e ouvir-te dizer: “Deus te proteja minha neta”.
Nada disso vai acontecer. As Avosinhas morrem, afinal. Mas é em ti que vou pensar o dia todo. Talvez à noite, na hora de todos os prodígios, eu ouça a tua voz abençoar-me outra vez. Talvez eu te ouça dizer: “Era uma vez uma princesa...”
Adeus Avozinha, até para o ano.
Um beijo para o meu amigo Kim. Sei que o dia também é marcante para ele.
Até um dia destes.





