
Fazias hoje 101 anos. Em tantos anos que passamos juntos, tive tempo para te conhecer bem. Lembro-te novo, lembro-te velhinho, doente, morto. Mas o que mais recordo, são os teus olhos.
Quando nasci, devo ter visto, entre as senhoras que assistiram ao meu nascimento, um homem que me pegou e deve ter visto o meu primeiro olhar. Os teus olhos brilhavam de alegria e uma lágrima teimosa correu deles. Eram lindos os teus olhos, Pai. Doces e marotos, duros como pedras quando te zangavas. Tantos olhares em dois olhos! Comovias-te facilmente com qualquer coisa, mas chorar, vi-te poucas vezes. Duas por minha culpa, uma quando a Mãe morreu e outra quando a Avó partiu.
Perdoa as lágrimas que te fiz chorar. A primeira vez, quando tive a poliomielite, no meio das dores que me torturavam a cara e a cabeça, vi um rio delas pela tua cara abaixo, sem pudor nem vergonha. A segunda vez foi quando te disse que ia ter um filho. Lembras-te Pai? Conhecia bem o teu feitio e tive medo. Barriquei-me atrás do sofá, para proteger o meu filho, disse-te e fiquei à espera da bofetada, dos gritos e insultos. Não vieram. Levantei os olhos para os teus e em vez da dureza que esperava, vi tristeza, lágrimas e só ouvi a frase sussurrada: “ tinhas de ser tu a dar-me este desgosto!”. Expliquei que me iria casar. Estavas branco, mal falavas e quando fomos para a mesa disseste: “vê se comes alguma coisa de jeito”. Anos mais tarde falámos desse dia e confessaste que aquilo que tinha sido um grande desgosto, se tornara numa grande alegria.
Eram felizes os teus olhos no dia de hoje. Gostavas de ver a casa cheia, a mesa farta, o vinho a correr. Mas os teus olhos procuravam a todo o momento, os filhos, os netos, os bisnetos. Eram doces, então. Ficavam cor de mel e pareciam escorrer ternura.
E agora Pai? Onde estão os teus olhos?
Um beijo grande, meu primeiro e eterno amor.
Até um dia destes.
Quando nasci, devo ter visto, entre as senhoras que assistiram ao meu nascimento, um homem que me pegou e deve ter visto o meu primeiro olhar. Os teus olhos brilhavam de alegria e uma lágrima teimosa correu deles. Eram lindos os teus olhos, Pai. Doces e marotos, duros como pedras quando te zangavas. Tantos olhares em dois olhos! Comovias-te facilmente com qualquer coisa, mas chorar, vi-te poucas vezes. Duas por minha culpa, uma quando a Mãe morreu e outra quando a Avó partiu.
Perdoa as lágrimas que te fiz chorar. A primeira vez, quando tive a poliomielite, no meio das dores que me torturavam a cara e a cabeça, vi um rio delas pela tua cara abaixo, sem pudor nem vergonha. A segunda vez foi quando te disse que ia ter um filho. Lembras-te Pai? Conhecia bem o teu feitio e tive medo. Barriquei-me atrás do sofá, para proteger o meu filho, disse-te e fiquei à espera da bofetada, dos gritos e insultos. Não vieram. Levantei os olhos para os teus e em vez da dureza que esperava, vi tristeza, lágrimas e só ouvi a frase sussurrada: “ tinhas de ser tu a dar-me este desgosto!”. Expliquei que me iria casar. Estavas branco, mal falavas e quando fomos para a mesa disseste: “vê se comes alguma coisa de jeito”. Anos mais tarde falámos desse dia e confessaste que aquilo que tinha sido um grande desgosto, se tornara numa grande alegria.
Eram felizes os teus olhos no dia de hoje. Gostavas de ver a casa cheia, a mesa farta, o vinho a correr. Mas os teus olhos procuravam a todo o momento, os filhos, os netos, os bisnetos. Eram doces, então. Ficavam cor de mel e pareciam escorrer ternura.
E agora Pai? Onde estão os teus olhos?
Um beijo grande, meu primeiro e eterno amor.
Até um dia destes.



