sábado, 1 de janeiro de 2011

Tomar Sempre


Neste primeiro dia do Ano é de ti, minha terra adorada, que me lembro com tristeza. Que o Novo Ano seja melhor para ti, que não haja mais tornados, cheias, gente sem casa, gente com fome. Que os Tabuleiros saiam à rua com todo o seu esplendor, que a Cerca volte a abrir renovada, que o Jardim volte a ser o mesmo em que em pequena brinquei.
Claro que tenho outros desejos. Saúde para os meus doentes, Paz para os mortos e vivos, entendimento neste mundo desavindo.
É só isto que desejo.
Para todos vós, meus amigos, que tudo vos corra como desejam.
Um grande abraço para todos.
Até um dia destes.
Maria

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Adeus Júlio, força querida Soledade


Eram assim as Camélias do meu jardim do Carvalhido. Seriam elas que gostaria de levar ao Júlio.

Queria estar aí contigo, abraçar-te muito, levar flores de saudade ao Júlio. De uma certa forma estou. Tenho pensado muito em ti, amiga.
Este ano e tal foi uma luta horrível para ambos e para a vossa filha.
É muito tempo. O Júlio teve força para lutar, porque tu, mulher forte e valente, estavas lá. Porque a vossa filha estava lá.
Agora, amiga, vais ainda passar dias muito dolorosos. Unam-se as duas na vossa dor comum, que mais ninguém pode partilhar. Estou certa de que era isso que o Júlio queria.
Não tenho jeito para frases feitas. Acho que não aliviam nada. Por isso, envio para as duas um grande abraço, beijos e toda a amizade de que sou capaz. Para ti Júlio, um beijo de despedida e o desejo de que repouses como mereces.
Da vossa
Maria

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Alerta Patos Bravos!

Ontem, entre muita coisa, deram-me um livro que adorei. Fala dos primeiros Patos Bravos, mostra inúmeras casas de Lisboa feitas por eles.
Li e vi o livro até bem tarde.
O violento tornado que assolou a minha terra fez-me ficar acordada, pensando nos meus patrícios que ficaram sem casa, no Jardim Escola que tão bem conheci, nas árvores arrancadas. Depois de os homens começarem a estragá-la e deixar degradar, faltava o Tornado para completar a obra.
Já não há Patos Bravos, meus amigos? Vieram todos para Lisboa?
A nossa terra e a nossa gente precisam de vós.
Fiquei tão triste que o simples facto de fazer anos ontem, que nasci aí, me magoou.
Ajudem a nossa terra a voltar ao esplendor de antigamente. Vai ser preciso o trabalho e a ajuda de todos.
Senhores políticos, Tomar não é só o Convento e os Tabuleiros. É uma cidade com História, além de ser povoada por gente que sofre e precisa de casas, de comida, de muito amor.
Até um dia destes.

Peço desculpa a Pedro Fernandes e ao Templário, por ter usado um vídeo vosso. Grande abraço para toda a equipa do jornal

Maria

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mulheres

Conheci-a nova. Não muito alta, não muito gorda, um rosto bonitinho, onde uns olhos azuis claros tinham por vezes um olhar vago. Muito loira, a pele branca. Era simpática mas, às vezes, havia qualquer coisa estranha. Casada, dois filhos, loiros como ela. O marido, relojoeiro, teve sempre um ar de quem comeu e não gostou, antipático, quase não falava a ninguém, a não ser para discutir quando estava quente do vinho. Era bruto com ela e com os putos. Eles mostravam medo do pai.
Ela fazia o trabalho de casa, fazia as compras, criava os filhos.
Cada vez estava mais apática, um olhar vago, uns modos estranhos. Alguém descobriu que se estava a tratar no Júlio de Matos. Caridosamente, começaram a referir-se-lhe como “Maria maluca”. Cada vez falava menos, fechava-se em casa, o filho mais velho, relojoeiro como o pai, saiu de casa. O mais novo, já um pouco desequilibrado, meteu-se na droga. Um dia perguntei ao homem como estava a mulher, que já não via há tempos. Que estava no hospital, maluca de todo. Brutalmente, sem um pouco de pena. Ele é que era a vítima!
Reformou-se, passando a vida no tasco. Um dia teve uma trombose. Quando veio para casa mal andava. Ao 2º ataque ficou totalmente incapacitado. Agora a “Maria maluca” vai todos os dias a uma associação de reformados buscar a comida dele, dela e do filho. Leva mais de meia hora a andar 50 metros. Gorda, desfigurada, doente, arrasta o saco pela rua, parando de 2 em 2 passos. Ele está acamado, o filho fuma o dia todo, tabaco e droga. Ele não quer ajudas de ninguém. E é a mulher, que um dia foi bonitinha e hoje é um trapo, que aguenta tudo. Quando a vejo do alto do meu 4º andar, arrastando-se, olhando sem ver, penso nas outras “Marias malucas” que proliferam por esse mundo. E dói-me, dói-me muito.
Igualdade? Protecção da mulher, onde? Algumas nem direito têm de ser malucas!
Pobre “Maria maluca”! Pobres de todas elas!
O tempo que está, faz-me tão mal!
Até um dia destes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Semicúpio da prima


Quando fomos viver para o Porto, meu Pai lembrou-se que tinha familiares em Braga. Um deles foi fácil de encontrar. Por ele soubemos que tinha uma irmã residente lá.
Visitamos o primo e família várias vezes, até que um dia estando minha Avó a passar uns tempos connosco, recebeu uma carta da outra prima, convidando-a para um chá. A Avó mandou um cartãozinho a agradecer e a aceitar.
Chegados a Braga, fomos procurar a rua e a casa indicadas. Ficava muito perto da Sé e as casas deviam ser quase tão velhas como esta. Batemos ao ferrolho, abriu-se a porta por meio da velha corda e, ao cimo da escada estava ela, a prima. Toda de preto, saia comprida a cair-lhe das ancas estreitas, blusa de gola alta rematada com uma rendinha, xale de merino cruzado no peito, sapatos rasos de sola de corda. A encimar isto tudo, havia um rosto muito pálido e enrugado e uma cabeleira negra, com carrapito e tudo, postiço, claro. As mãos eram compridas e aduncas como patas de águia, cruzavam-se sobre o inexistente seio. A casa, muito limpa, tinha bancos nos vãos da janela, onde verdejavam belas avencas. Poucos móveis, chão esfregado a sabão amarelo e muitas imagens e quadros de santos, juntamente com algumas fotografias antigas.
Bebeu-se o chá, comeram-se as torradinhas e os Fidalguinhos, desenterraram-se mortos e vivos. O chá deu efeito, e eu pedi para ir à casinha. Claro que a minha irmã me acompanhou. Isto é costume entre as mulheres que se está a perder e é pena. Era aí que se trocavam as grandes confidências. Nunca uma mulher ia sozinha à casa de banho a não ser em casa.
Foi-nos indicada a casinha, que por acaso era uma enorme divisão. Tinha mais plantas, o trono ficava em cima de um estrado alto com dois degraus, os outros móveis da casa de banho eram todos móveis antigos e... havia um objecto grande como um maple, feito de folha de Flandres, tapado com um lençol de linho alvo e cheio de rendas e bordados. Ficámos a olhar para aquilo espantadas e curiosas. Fizemos um monte de suposições e achamos que era melhor perguntar a quem soubesse. Tive um trabalhão para convencer a Avó de que precisava de ir à casinha, porque bebera muito chá e a viajem até ao Porto era grande. Lá foi comigo, sentou-se no trono e eu perguntei-lhe que objecto era aquele. Respondeu-me baixinho que era um semicúpio e que em casa explicava. Saímos de casa da prima, depois de grandes despedidas. Na rua a minha irmã indagou o que era aquilo. Eu disse-lhe muito séria que era um semicúpio. Ela ficou com uns olhos ainda maiores do que tinha e quis saber para que servia. Disse-lhe que só em casa saberíamos. Durante toda a viajem até ao Porto, fiz conjecturas e mais conjecturas. De repente ocorreu-me que os semis que conhecia, tinham a ver com música: semibreves, semicolcheias, semifusas e por aí. Cheguei à brilhante conclusão de que se tratava de um antigo instrumento musical. Chegados a casa, nem dei tempo à minha Avó para se sentar. “Ó Vó! Afinal que é aquilo? É um instrumento musical?”. Ela desatou a rir e disse-me: “não filha. Que ideia mais peregrina a tua. É para fazer banhos de assento.” Fiquei mais baralhada ainda. “Banhos de assento, Vó? Que é isso? Para lavar as partes de baixo não serve o bidé?”. “Não. Os banhos de assento são bons para as dores. Enche-se a bacia de água quente, senta-se a pessoa lá dentro até à cintura, com as pernas de fora, tapa-se bem com um cobertor e as dores passam. Usava-se para cólicas intestinais, renais, gazes e prisão de ventre.”
Foi a minha vez de rir. “Ó Vó e isso resultava?” “Claro que resultava. Não havia comprimidos. Os tratamentos eram feitos à base de banhos de assento, chás e clisteres”. Ora, estes últimos eram do meu conhecimento e não gostava. Fiquei a pensar que os antigos só tinham tratamentos estúpidos. Estes, mais as “bichas”, as sangrias, as teias de aranha a tapar feridas... Que horror! Como eu gostava de comprimidos, xaropes e injecções!
Hoje em dia não penso o mesmo. Estou mais aberta a tratamentos naturais. Tenho medo de antibióticos, anti-inflamatórios e outros medicamentos, que tratam de um lado e estragam do outro.
Acho que se tivesse uma casa de banho grande, mandava fazer um semicúpio como o da prima.
Até um dia destes.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

São Martinho (carta a um amigo)


Peço perdão aos outros, por dirigir esta “carta” a um de vós. Não o identifico mas ele sabe que é para ele e um pouco para todos. É uma forma de pedir desculpa pela minha ausência e ingratidão para todos os que se têm preocupado comigo. Preguiça, neura, falta de paciência e mais uns quantos problemas de saúde. Ele tem sido o mais assíduo e por tal, a ele escrevo.
Hoje quando me ligaste, disse-te que estava a fazer “rojões à minhota” para o almoço. Estavam bons, os danados. Bem regados, seguidos de castanhas assadas. Foi pena não ter água-pé da “Casa Ratas”, mas o vinhito era bom. Todos, (éramos três) gostaram.
Este era o menu da casa de meu Pai. Lembrei-me disso. Lembrei-me do velho Martinho da minha infância, que todos os sábados ia lá a casa comer uma carcaça com carne, um copo de vinho e fumar um cigarro. Eu, menina de três anos, era a encarregada de fazer a entrega do almoço ao Martinho, sempre com o mesmo discurso: “a Mãe dá o pão, o Pai o vinho e a menina o cigarrinho”. Foi aí que me tornei fumadora. No dia de São Martinho a cena era outra. O Martinho fazia anos, nascera em Alcobaça como o meu Pai e, nesse dia entrava, almoçava com o Pai. Um dia foi embora. Nunca mais se ouviu o cajado do Martinho bater na calçada, nunca mais se ouviu a sua lengalenga: “nesta rua vou entrando p`ra falar ao mê amori”, nunca mais vi a sua figura de negro, alta e esguia, de chapéu na cabeça. Hoje, os rojões e as castanhas lembraram-me o Martinho, a infância feliz. E tu ajudaste. Quem sabe, se não me obrigaste a voltar. Lá convincente és tu. E amigo. Foi por ti que hoje venci a preguiça. Um abraço grande por isso.
Os outros meus amigos que não se zanguem. Tenho lido todos, só não tenho feito comentários porque a preguiça e a ingratidão não deixam. Perdoem as luas da Maria. Vou voltar, prometo. Talvez com menos frequência, mas volto. Beijinhos para todos vós, amigos.
“Tu”, amigo de quem não digo o nome, obrigada por toda a tua amizade, preocupação e ajuda.
Até um dia destes.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Busto da República


Somos os campeões do faz-de-conta. Vivemos num país cheio de problemas, de chagas sociais, de crises, de falta de segurança, mas há sempre alguma coisa para nos distrair da realidade. A 1ª é sem dúvida, o futebol; a 2ª as fofocas das Revistas cor-de-rosa, os casamentos e descasamentos, a moda, as festas do jet-set; a 3ª as ideias de alguns idealistas ou malucos, a quem passa pela cabeça que mudar o Busto da República, adianta alguma coisa.
Matutaram, pensaram muito, e chegaram à conclusão que o Busto está velho, caduco, fora de moda. Nada que os franceses já não tenham feito. A Marianne deles, já mudou de rosto muitas vezes. Já foi Brigitte Bardot, Mireille Mathieu, Catherine Deneuve, etc. Mas nós queremos mais. Há quem opine por Ana Padrão, Catarina Furtado, Maria João Luís. Há quem ache que deve ser uma coisa sem sexo, sem cor. Há outros que lhe querem fazer um “lifting”. Ora aqui, entrou a minha imaginação a trabalhar. Quem neste País melhor que ela?
A República tem 100 anos – ela tem 66, dizem.
Querem um “lifting” à República – ela já fez vários.
Nem homem nem mulher – ela faz lembrar um travesti.
Na imagem acima verão se gostam.
Para mim, falando sério, ficava o busto antigo. Não é ele que precisa de obras. Quem precisa é a República e nós todos.
Até um dia destes.