Há um livro de Jorge Amaro que começa um capitulo assim: “Era uma vez três Irmãs”. É lindo, triste, romântico e acaba mal. Também um livro de Camilo tem o nome: “Três irmãs”. Também é lindo, triste e acaba mal. Vamos ver se as minhas cinco irmãs têm a mesma sorte. Quando meus avós maternos morreram quase simultaneamente, deixaram nove filhos. Quatro rapazes e cinco raparigas. O mais velho tinha vinte e um anos, a mais nova quatro. É delas que falo hoje. Todas Marias: Maria Águeda, Maria Eminío, Maria da Glória, Maria Adelaide, Maria Amélia. A mais velha, Maria Águeda tinha dezanove anos. Depois de um namoro frustrado com um primo, dedicou-se aos irmãos pequeninos. Era muito educada e com uma instrução bastante completa, feita por demoiselles, misses, frauleines e mestras de piano. Nunca levantava a voz, os gestos eram harmoniosos mas dominava tudo e todos. A segunda, Maria Eminío, pequenina, gordinha, com um feitio levado dos diabos, tocava piano e gostava de flores. Namorou um rapaz em Águeda mas quando ele a avisou que ia para África, desistiu. Maria da Glória era muito bonita, grande leitora de Camilo e outros, estava para casar com o irmão do ex-namorado da irmã, quando descobriu que ele tinha dois filhos de outra. Mandou-o casar com a outra e, nunca mais pensou em homens. Ouvia muito mal, isolava-se com os seus livros e crochets. Quando o antigo noivo morreu, chorou, adoeceu e fechou-se ainda mais. Maria Adelaide, a minha mãe, conheceu meu pai, apaixonaram-se, aguentou treze anos de espera, cinco dos quais de separação total, lutou contra os irmãos, sofreu, até conseguir casar com o homem que adorava e ter filhos. Nós, meus irmãos e eu. Conheceu três netos. Por fim, a doença levou-a. Foi a única feliz. Maria Amélia namorou um irmão de meu pai. Não teve a força da minha mãe. No dia do casamento, já vestida e calçada, desistiu. Ele ameaçou-a que dentro de um ano estaria casado. Cumpriu a palavra. Casou com alguém que nunca amou, teve uma filhinha que morreu, separou-se e pouco tempo depois morreu. Ela teve alguns namoricos mais mas, acabou solteira. Se não fosse a história feliz de meus pais, esta era mais uma história triste, com fim infeliz. Se não fosse a força daquele ser frágil, o amor profundo que tinha por meu pai, a paciência com que esperou, seria mais uma freira daquele convento. Para todas elas uma saudade grande. Para minha mãe a minha eterna admiração e gratidão. Valente mulher! Até um dia destes
domingo, 3 de abril de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Carta a minha Mãe
Minha querida Mãezinha:
Era assim que começavam todas as cartas que te escrevi.
Hoje não posso ir ao cemitério como é costume. Não vou limpar a tua casa pequenina, não vou embalar a tua urna contra o peito, não vou deixá-la cheia de flores, como nos outros anos. Estou doente, Mãe. Por isso resolvi escrever-te.
Há trinta e nove anos que partiste. Trinta e nove anos de saudade, de mágoa, de factos que aconteceram e, tu não viste.
Deixaste três netos, nasceram mais três. Os três que te conheceram, lembram-te com saudade. O meu Vasco sabe de ti tudo o que eu e o meu Pai lhe contámos. Para os meus netos és a “Mãe da Avó” que já partiu há muito.
Estou a ouvir Chopin, o teu Chopin. Depois, vou ler um poema de Florbela, outro do Pedro Homem de Mello, um do António Nobre. Os teus poetas, Mãe. Vou encher de flores o teu retrato, vou lembrar os dias felizes que vivemos juntas.
Ouvindo Chopin, lembro-me de nós as duas. Tu sentada na cadeira, eu no chão, com a cabeça nos teus joelhos, sentindo as tuas mãos no meu cabelo numa carícia terna.
Os manos já me telefonaram. Já trocamos o beijo da saudade. O João foi comprar as flores. Tem tomado bem conta de mim, como lhe pediste.
Beijos e saudades de todos.
Um beijo e a saudade imensa da tua
Filha
Até um dia destes.
Era assim que começavam todas as cartas que te escrevi.
Hoje não posso ir ao cemitério como é costume. Não vou limpar a tua casa pequenina, não vou embalar a tua urna contra o peito, não vou deixá-la cheia de flores, como nos outros anos. Estou doente, Mãe. Por isso resolvi escrever-te.
Há trinta e nove anos que partiste. Trinta e nove anos de saudade, de mágoa, de factos que aconteceram e, tu não viste.
Deixaste três netos, nasceram mais três. Os três que te conheceram, lembram-te com saudade. O meu Vasco sabe de ti tudo o que eu e o meu Pai lhe contámos. Para os meus netos és a “Mãe da Avó” que já partiu há muito.
Estou a ouvir Chopin, o teu Chopin. Depois, vou ler um poema de Florbela, outro do Pedro Homem de Mello, um do António Nobre. Os teus poetas, Mãe. Vou encher de flores o teu retrato, vou lembrar os dias felizes que vivemos juntas.
Ouvindo Chopin, lembro-me de nós as duas. Tu sentada na cadeira, eu no chão, com a cabeça nos teus joelhos, sentindo as tuas mãos no meu cabelo numa carícia terna.
Os manos já me telefonaram. Já trocamos o beijo da saudade. O João foi comprar as flores. Tem tomado bem conta de mim, como lhe pediste.
Beijos e saudades de todos.
Um beijo e a saudade imensa da tua
Filha
Até um dia destes.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Torga de novo
Torga de novo
Farta de escrever disparates, sem inspiração, lembrei-me de um poema de Torga. Ficam os meus amigos mais bem servidos e, dou a conhecer mais uma poesia linda, triste e, atrevo-me a dizer actual.
Em 1515 era governador da Índia D. Afonso de Albuquerque. Depois de muito lutar, ferido e doente, ainda quis deixar uma carta a El-Rei D. Manuel uma carta.
A carta é esta:
“"Senhor. - Eu nam escrevo a vos alteza per minha mão, porque, quando esta faço, tenho muito grande saluço, que he sinal de morrer: eu, senhor, deixo quá ese filho per minha memória, a que deixo toda minha fazemda, que he assaz de pouca, mas deixo lhe a obrigaçam de todos meus seruiços, que he mui grande: as cousas da india ellas falarám por mim e por elle: deixo a india com as principaes cabeças tomadas em voso poder, sem nela ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito; isto he o que me vosa alteza encomendou: eu, senhor, vos dey sempre por comselho, pera segurar de lá india, irdes vos tirando de despesas: peçoa vos alteza por mercee que se lembre de tudo isto, e que me faça meu filho grande, e lhe dè toda satisfaçam de meu seruiço: todas minhas confianças pus nas mãs de vos alteza e da senhora Rainha, a elles m emcomemdo, que façam minhas cousas grandes, pois acabo em cousas de voso seruiço, e por elles vollo tenho merecido; e as minhas tenças, as quaes comprey pela maior parte, como vossa alteza sabe, beijar lh ey as mãos pollas em meu filho: escrita no mar a 6 dias de dezembro de 1515. Afomso dalboquerque" carta de Afonso de Albuqerque ao rei D. Manuel I[“.
Inspirado nela, escreveu Miguel Torga um dos seus melhores poemas.
Afonso de Albuquerque de Miguel Torga
“Quando esta escrevo a Vossa Alteza
Estou com um soluço que é sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à índia a defender-lhe a sorte.
Morro de mal com todos que servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a índia fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão.
Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.
Em mais alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.
Por isso a índia há de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder o rumo
Das muralhas de Goa.
Por isso o Nilo há de correr no Egito
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano.
Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A índia inteira falará por mim.”
Leiam e pensem.
Até um dia destes
Maria
Farta de escrever disparates, sem inspiração, lembrei-me de um poema de Torga. Ficam os meus amigos mais bem servidos e, dou a conhecer mais uma poesia linda, triste e, atrevo-me a dizer actual.
Em 1515 era governador da Índia D. Afonso de Albuquerque. Depois de muito lutar, ferido e doente, ainda quis deixar uma carta a El-Rei D. Manuel uma carta.
A carta é esta:
“"Senhor. - Eu nam escrevo a vos alteza per minha mão, porque, quando esta faço, tenho muito grande saluço, que he sinal de morrer: eu, senhor, deixo quá ese filho per minha memória, a que deixo toda minha fazemda, que he assaz de pouca, mas deixo lhe a obrigaçam de todos meus seruiços, que he mui grande: as cousas da india ellas falarám por mim e por elle: deixo a india com as principaes cabeças tomadas em voso poder, sem nela ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito; isto he o que me vosa alteza encomendou: eu, senhor, vos dey sempre por comselho, pera segurar de lá india, irdes vos tirando de despesas: peçoa vos alteza por mercee que se lembre de tudo isto, e que me faça meu filho grande, e lhe dè toda satisfaçam de meu seruiço: todas minhas confianças pus nas mãs de vos alteza e da senhora Rainha, a elles m emcomemdo, que façam minhas cousas grandes, pois acabo em cousas de voso seruiço, e por elles vollo tenho merecido; e as minhas tenças, as quaes comprey pela maior parte, como vossa alteza sabe, beijar lh ey as mãos pollas em meu filho: escrita no mar a 6 dias de dezembro de 1515. Afomso dalboquerque" carta de Afonso de Albuqerque ao rei D. Manuel I[“.
Inspirado nela, escreveu Miguel Torga um dos seus melhores poemas.
Afonso de Albuquerque de Miguel Torga
“Quando esta escrevo a Vossa Alteza
Estou com um soluço que é sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à índia a defender-lhe a sorte.
Morro de mal com todos que servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a índia fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão.
Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.
Em mais alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.
Por isso a índia há de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder o rumo
Das muralhas de Goa.
Por isso o Nilo há de correr no Egito
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano.
Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A índia inteira falará por mim.”
Leiam e pensem.
Até um dia destes
Maria
quinta-feira, 3 de março de 2011
Sou do Benfica

Podia acrescentar “e isso me envaidece” mas, era mentira. Não ligo nenhuma à bola, nunca fui à Luz, nem sequer vejo os jogos na Televisão. Dou direito aos Sportinguistas de se envadecerem, embora não perceba porquê. Desculpem Verdinha e Osvaldo.
É claro, que a esta hora, já todos estão a pensar porquê sinto necessidade de falar de uma coisa que nada me diz.
Passo a explicar: Sou do Benfica porque quase toda a minha família o foi ou é. Alguns foram fundadores. Outros houve que, foram adeptos furiosos. Meu Pai tinha um primo que inscreveu o filho no Benfica, ainda antes de o registar. Vinha à bola com o puto, ficando a mulher e as filhas em casa a ouvir o relato. Não que a bola lhes interessasse muito mas, se o Benfica ganhasse, iam jantar fora, se o Benfica perdesse, iam para a cama, para não aturarem o Benfiquista doente. Meu Pai, pouco aficcionado mas, Benfiquista, dizia sempre a velha frase: “ O Benfica ganha, vivó Benfica, o Benfica perde, viva o Benfica”. Vibrou quando ganhámos as taças da Europa. Se o jogo era com o Porto ou, Sporting, torcia pelo Benfica, mas não fazia grande alarido.
Porque sou Benfiquista? Por tradição. Talvez porque gosto de “papoilas saltitantes”, embora nunca tenha visto nenhuma, talvez porque gosto de vermelho e de águias.
Ontem, mais uma vez, o Benfica ganhou contra o Sporting. Desculpem meus queridos Sportinguistas, mas gostei. Desejo muito que o Sporting volte ao que já foi.
Vivó Benfica!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Até um dia destes.
É claro, que a esta hora, já todos estão a pensar porquê sinto necessidade de falar de uma coisa que nada me diz.
Passo a explicar: Sou do Benfica porque quase toda a minha família o foi ou é. Alguns foram fundadores. Outros houve que, foram adeptos furiosos. Meu Pai tinha um primo que inscreveu o filho no Benfica, ainda antes de o registar. Vinha à bola com o puto, ficando a mulher e as filhas em casa a ouvir o relato. Não que a bola lhes interessasse muito mas, se o Benfica ganhasse, iam jantar fora, se o Benfica perdesse, iam para a cama, para não aturarem o Benfiquista doente. Meu Pai, pouco aficcionado mas, Benfiquista, dizia sempre a velha frase: “ O Benfica ganha, vivó Benfica, o Benfica perde, viva o Benfica”. Vibrou quando ganhámos as taças da Europa. Se o jogo era com o Porto ou, Sporting, torcia pelo Benfica, mas não fazia grande alarido.
Porque sou Benfiquista? Por tradição. Talvez porque gosto de “papoilas saltitantes”, embora nunca tenha visto nenhuma, talvez porque gosto de vermelho e de águias.
Ontem, mais uma vez, o Benfica ganhou contra o Sporting. Desculpem meus queridos Sportinguistas, mas gostei. Desejo muito que o Sporting volte ao que já foi.
Vivó Benfica!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Até um dia destes.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Cheiros e cheirinhos
Tenho uma memória olfactiva muito grande. Qualquer aroma me faz lembrar alguém, um local, um momento.
Hoje senti um leve perfume que me lembrou a minha Mãe. O cheiro dela está sempre presente mas, foi um leve cheiro a rosa que me despertou. Ela fazia uma água de rosas com folhas delas, álcool, tintura de benjoim e água. Era o seu perfume, misturado com o do creme Nívea e o Pó de arroz Thaber e, claro, o cheiro a mãe, esse cheiro que nós nunca esquecemos, porque é único.
Depois, lembrei-me de outros aromas: o cheiro a pinhal, a Ria, a moliço. A casa da quinta que cheirava a lenha a arder, a comida, a bolos, a camas com colchões de palha de milho, lençóis cheirando a lavado e alfazema, grossos cobertores de papa. Quartos cheirando a cera, aos perfumes e pós das tias, o cheiro de cada uma. De manhã o perfume dos sabonetes Confiança, que todas usavam, enchia a casa de mistura com cheiro a manteiga acabada de fazer, pão quente, café e chá. Era bom.
Lembro o cheiro da Maria do Céu, a empregada que fazia a manteiga, cheiro a leite, a avental branco muito limpo, onde às vezes me encostava quando estava triste ou me ralhavam.
A minha Avó cheirava a lavanda. O meu Pai a sabão e Pó Avelar para os dentes. Perfume não era para homens, dizia. Cheirava a tabaco e a Pai.
O meu marido, antes de se tornar num anti-tabagista chato, cheirava a Clan ou a Negritas. É raro pôr perfume mas gosto do cheiro dele e conheço-o a léguas.
Ficava aqui o dia todo a falar dos cheiros que gosto e, dos que não gosto
Só falta dizer que sou infiel aos perfumes que uso. Há três que são imutáveis: “L’Air du Temps” de Nina Ricci, “Calèche” de Hermès e “Intuition” de Estée Lauder. Depende do dia e da disposição.
Tenho-os sempre. O fornecedor? O meu marido, claro.
Até um dia destes.
Hoje senti um leve perfume que me lembrou a minha Mãe. O cheiro dela está sempre presente mas, foi um leve cheiro a rosa que me despertou. Ela fazia uma água de rosas com folhas delas, álcool, tintura de benjoim e água. Era o seu perfume, misturado com o do creme Nívea e o Pó de arroz Thaber e, claro, o cheiro a mãe, esse cheiro que nós nunca esquecemos, porque é único.
Depois, lembrei-me de outros aromas: o cheiro a pinhal, a Ria, a moliço. A casa da quinta que cheirava a lenha a arder, a comida, a bolos, a camas com colchões de palha de milho, lençóis cheirando a lavado e alfazema, grossos cobertores de papa. Quartos cheirando a cera, aos perfumes e pós das tias, o cheiro de cada uma. De manhã o perfume dos sabonetes Confiança, que todas usavam, enchia a casa de mistura com cheiro a manteiga acabada de fazer, pão quente, café e chá. Era bom.
Lembro o cheiro da Maria do Céu, a empregada que fazia a manteiga, cheiro a leite, a avental branco muito limpo, onde às vezes me encostava quando estava triste ou me ralhavam.
A minha Avó cheirava a lavanda. O meu Pai a sabão e Pó Avelar para os dentes. Perfume não era para homens, dizia. Cheirava a tabaco e a Pai.
O meu marido, antes de se tornar num anti-tabagista chato, cheirava a Clan ou a Negritas. É raro pôr perfume mas gosto do cheiro dele e conheço-o a léguas.
Ficava aqui o dia todo a falar dos cheiros que gosto e, dos que não gosto
Só falta dizer que sou infiel aos perfumes que uso. Há três que são imutáveis: “L’Air du Temps” de Nina Ricci, “Calèche” de Hermès e “Intuition” de Estée Lauder. Depende do dia e da disposição.
Tenho-os sempre. O fornecedor? O meu marido, claro.
Até um dia destes.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Carta Anónima
Tudo tem uma primeira vez. Nunca escrevi uma carta anónima e, confesso, repugnam-me as ditas.
Esta tem que ser assim por várias razões: Não quero magoar ninguém, nem ser mal entendida.
Não é uma carta de amor nem ódio, não é saudade, é lembrança.
Quando tinha desasseis anos, conheci alguém por quem me apaixonei ou julguei apaixonar-me. Era um rapaz bonito, tipo galã de cinema, com dezanove anos. Ao princípio fiquei deslumbrada. Ir pela rua com ele dava-me orgulho, sentia a inveja das outras mocinhas e, gostava. As conversas dele eram um pouco ocas mas, vestia bem e, como já disse, era bonito. Um dia, no intervalo de um filme de Cantinflas, ouvi-o a falar com a moça que nos acompanhava e, fiquei perplexa. Não falavam do filme nem de nada de interesse. Simplesmente, discutiam o número de camisolas, calças, camisas, casacos, sobretudos, sapatos... só faltou enumerarem as cuecas e peúgas. Na minha cabeça fez-se um grande ponto de interrogação. Eu que tinha pouca roupa e ligava pouco a essas coisas, ali, feita parva, a olhar os cartazes do cinema e, pensando com os meus botões: “Serei capaz de viver uma vida com alguém assim?” As conversas em casa eram outras. Literatura, História, Política... Felizmente ou infelizmente, a campainha do cinema tocou.
Entretanto a minha Mãe adoeceu. Foram nove meses de medo, angústia, terror de a perder. Ele foi impecável. Sempre presente, sempre paciente para me ouvir e limpar as lágrimas. Isso lhe devo e agradeço.
Os anos passaram, os meus pais conheciam-no, o namoro era oficial. Às vezes pensava se era aquilo que eu queria, mas deixava andar por comodismo. Sabia que não queria ser apenas a “esposa” de um senhor. Queria ser mulher de um homem. Queria caminhar ao lado e não atrás desse homem.
Um dia recebi uma carta do dito cujo, dizendo gostar muito de mim mas, por motivos vários, ter-se casado com outra. Não senti grande desgosto. Despeito, sim. Acima de tudo uma sensação de liberdade enorme. Quando soube que os tais motivos se resumiam num carro de luxo e uma vivenda mobilada, a minha primeira reacção foi rir. “O tal grande amor” custara um carro e uma casa. Fiz as contas e achei que valia mais. Esqueci e esperei. Hoje, ao fim de cinquenta anos, lembrei-me desta história e, pensei que devia agradecer-lhe a oportunidade que me deu. Nem sei se é vivo ou morto. Não lerá isto de certeza. Mas agradeço da mesma maneira que lho diria cara a cara. Afinal, eu fiquei com a melhor parte. Encontrei um homem a sério, tive três filhos, dois netos, tenho a minha casa, um carro e, acima de tudo, sou feliz. E tu, anónimo? Foste feliz? Valeu a pena?
Tens muitas roupas de marca, muitos carros, chegaste onde querias? Espero sinceramente que sim. Nunca te quis mal. Melhor, raramente penso que exististe, que passaste um dia pela minha vida. E se alguma vez pensares em mim, não tenhas remorsos (sabes o que isso é?). Fizeste-me um grande favor. Por isso, de novo te agradeço.
Até nunca anónimo.
Até um dia destes, meus amigos.
Esta tem que ser assim por várias razões: Não quero magoar ninguém, nem ser mal entendida.
Não é uma carta de amor nem ódio, não é saudade, é lembrança.
Quando tinha desasseis anos, conheci alguém por quem me apaixonei ou julguei apaixonar-me. Era um rapaz bonito, tipo galã de cinema, com dezanove anos. Ao princípio fiquei deslumbrada. Ir pela rua com ele dava-me orgulho, sentia a inveja das outras mocinhas e, gostava. As conversas dele eram um pouco ocas mas, vestia bem e, como já disse, era bonito. Um dia, no intervalo de um filme de Cantinflas, ouvi-o a falar com a moça que nos acompanhava e, fiquei perplexa. Não falavam do filme nem de nada de interesse. Simplesmente, discutiam o número de camisolas, calças, camisas, casacos, sobretudos, sapatos... só faltou enumerarem as cuecas e peúgas. Na minha cabeça fez-se um grande ponto de interrogação. Eu que tinha pouca roupa e ligava pouco a essas coisas, ali, feita parva, a olhar os cartazes do cinema e, pensando com os meus botões: “Serei capaz de viver uma vida com alguém assim?” As conversas em casa eram outras. Literatura, História, Política... Felizmente ou infelizmente, a campainha do cinema tocou.
Entretanto a minha Mãe adoeceu. Foram nove meses de medo, angústia, terror de a perder. Ele foi impecável. Sempre presente, sempre paciente para me ouvir e limpar as lágrimas. Isso lhe devo e agradeço.
Os anos passaram, os meus pais conheciam-no, o namoro era oficial. Às vezes pensava se era aquilo que eu queria, mas deixava andar por comodismo. Sabia que não queria ser apenas a “esposa” de um senhor. Queria ser mulher de um homem. Queria caminhar ao lado e não atrás desse homem.
Um dia recebi uma carta do dito cujo, dizendo gostar muito de mim mas, por motivos vários, ter-se casado com outra. Não senti grande desgosto. Despeito, sim. Acima de tudo uma sensação de liberdade enorme. Quando soube que os tais motivos se resumiam num carro de luxo e uma vivenda mobilada, a minha primeira reacção foi rir. “O tal grande amor” custara um carro e uma casa. Fiz as contas e achei que valia mais. Esqueci e esperei. Hoje, ao fim de cinquenta anos, lembrei-me desta história e, pensei que devia agradecer-lhe a oportunidade que me deu. Nem sei se é vivo ou morto. Não lerá isto de certeza. Mas agradeço da mesma maneira que lho diria cara a cara. Afinal, eu fiquei com a melhor parte. Encontrei um homem a sério, tive três filhos, dois netos, tenho a minha casa, um carro e, acima de tudo, sou feliz. E tu, anónimo? Foste feliz? Valeu a pena?
Tens muitas roupas de marca, muitos carros, chegaste onde querias? Espero sinceramente que sim. Nunca te quis mal. Melhor, raramente penso que exististe, que passaste um dia pela minha vida. E se alguma vez pensares em mim, não tenhas remorsos (sabes o que isso é?). Fizeste-me um grande favor. Por isso, de novo te agradeço.
Até nunca anónimo.
Até um dia destes, meus amigos.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Tomar Sempre
Neste primeiro dia do Ano é de ti, minha terra adorada, que me lembro com tristeza. Que o Novo Ano seja melhor para ti, que não haja mais tornados, cheias, gente sem casa, gente com fome. Que os Tabuleiros saiam à rua com todo o seu esplendor, que a Cerca volte a abrir renovada, que o Jardim volte a ser o mesmo em que em pequena brinquei.
Claro que tenho outros desejos. Saúde para os meus doentes, Paz para os mortos e vivos, entendimento neste mundo desavindo.
É só isto que desejo.
Para todos vós, meus amigos, que tudo vos corra como desejam.
Um grande abraço para todos.
Até um dia destes.
Maria
Claro que tenho outros desejos. Saúde para os meus doentes, Paz para os mortos e vivos, entendimento neste mundo desavindo.
É só isto que desejo.
Para todos vós, meus amigos, que tudo vos corra como desejam.
Um grande abraço para todos.
Até um dia destes.
Maria
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