segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aznavour et nous

Há 45 anos que nos conhecemos. Esta canção de Aznavour foi durante anos, uma das "Nossas canções". Ainda é.
Por isso, com todo o meu amor:
Bon anniversaire



Charles Aznavour

Até sempre, meu amor.
Até um dia destes, amigos.

domingo, 29 de maio de 2011

Elegia


Hoje dia 29, seria o teu dia de anos. Já te falei tanto, já te disse tanta coisa que, não sabia do que falar. Vi uma fotografia minhas de tranças e, lembrei-me das horas que passavas a fazê-las. Levantavamo-nos, as duas cedo. As tranças de noite soltavam-se, ficando uma massa de cabelo longo e embaraçado. Cheio de ninhos, dizias tu. Com a cabeça pousada nos teus joelhos, as tuas mãos brandas e macias tentavam desenlear, aquela meada embaraçada de cabelo longo, fino e basto. Quando acabava esta operação, pontuada aqui e ali, por um grito de dor e uma festa tua, era altura de dividir ao meio e, fazer as tranças. Um laçarote branco ou de cor, rematava-as. Era longo, doloroso, o trabalho. Mas quando me via ao espelho, gostava de ver o meu rosto emoldurado por elas. O pai só dava ordem para as cortar aos 15 anos.
Eram as minhas companheiras predilectas. Saltavam, voavam, batiam-me na cara, quando estava vento. Quando me lavavas o cabelo, com chá de camomila, para não escurecer, adorava dormir com aquele cheirinho na cabeça. Chamavam-me a “Trancinhas”.
Quando fomos para o Porto, as aulas eram mais cedo, o liceu mais longe. Tantas voltas deste ao pai que ele acabou por dar ordem para as cortar. Foi um dia triste, mãe. Quando aparaste as minhas tranças, já cortadas nas mãos, tinhas os olhos rasos de água. Eu chorava, olhando o rosto desconhecido, no espelho. Guardaste-as na mala e, voltámos a casa. Quando o pai chegou, deste-lhe as tranças que, ele guardou até ao dia em que as deu ao João. Olhou para mim triste. Para os três fora o início do meu crescimento. A trancinhas morrera. Nascera a adolescente, a pré-mulher. Acho que nesse dia, se convenceram que eu estava a crescer. Eu convenci-me. Foi um fim de infância triste. Faziam-me falta as tranças, as tuas mãos nos meus cabelos, os laçarotes que pareciam borboletas.
Hoje sinto mais ainda a tua falta. Dói cada vez mais a tua ausência.
Adeus mãe.
Beijos e saudades da tua trancinhas.
Nós amigos, até um dia destes.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sérgio Godinho – Sempre actual


Sérgio Godinho – Sempre actual

Tu precisas tanto de amor e de sossego
- Eu preciso dum emprego
Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso
- Por exemplo o Paraíso
Ando ao Deus-dará, perdido nestas ruas
Vou ser mais sincero, sinto que ando às arrecuas
Preciso de galgar as escadas do sucesso
E por isso é que eu te peço

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se meto os pés para dentro, a partir de agora
Eu meto-os para fora
Se dizia o que penso, eu posso estar atento
E pensar para dentro
Se queres que seja duro, muito bem eu serei duro
Se queres que seja doce, serei doce, ai isso juro
Eu quero é ser o tal
E como o tal reconhecido
Assim, digo-te ao ouvido

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sabendo que as minhas intenções são das mais sérias
Partamos para férias
Mas para ter férias é preciso ter emprego
- Espera aí que eu já lá chego
Agora pensa numa casa com o mar ali ao pé
E nós os dois a brindarmos com rosé
Esqueço-me de tudo com um por-do-sol assim
- Chega aqui ao pé de mim

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores
Seriam uns amores
Greves era só das seis e meia às sete
Em frente ao cacetete
Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos
Feriado em Abril só no dia dos enganos
Reivindicações quanto baste mas non tropo
- Anda beber mais um copo

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

domingo, 1 de maio de 2011

Dia de todas as mães



Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

Todos nós vamos com as aves. Deixemos as rosas brancas para as Mães.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Receber uma carta à moda antiga



Datada de dia 21 de Abril, recebi uma carta com envelope e tudo.
No meio de contas para pagar, foi agradável. Dentro do envelope vinha o Postal acima.
O Corvo foi a Tomar e mandou-me um postal da minha terra. Foi bom voltar ao antigamente.
Reproduzo-a tal e qual ma mandou:

Tomar, 22 de Abril de 2011-04-28

Pai e Mãe,
Naturalmente recebem este postal já depois de eu ter chegado.
Mas, em todo o caso, aqui vai um postalinho para vos fazer saudades.
Aqui, a Igreja de Stª Maria dos Olivais, onde ainda não fui. Só fui à de S. João Baptista, à de Stª Iria e à Ermida da Srª da Piedade.
Hoje senti medo de subir aquelas escadas. Depois mostro-vos as fotos para verem aquela miséria.
De resto, aparentemente, Tomar não está muito destruída.
O Nabão está sujo.
O União está no mesmo sítio.
Beijinhos para vocês e para o outro Nabão.

Vasco

Que saudades de receber uma carta pelo correio! Abrir o envelope, ver o que tem dentro... Obrigada filho.

Até um dia destes.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril



Era Abril, um dia nevoento,
Podia vir El-Rei Sebastião.
Havia alegria, havia cravos,
E havia em cada alma a interrogação:
Será hoje que deixamos de ser escravos?
Ou voltará tudo a ser cinzento?
Vai acabar a guerra de verdade?
Quando saem os presos da prisão?
O sol abriu e, a esperança foi certeza.
Já se ouviam hinos à Santa Liberdade,
Já qualquer um era amigo, irmão.
E eu berrei bem alto a Portuguesa.
Durou pouco a ilusão de Liberdade.
Continuou a haver pobres sem pão.
E hoje resta apenas a saudade
De a todo o mundo se chamar irmão.

Maria
25 de Abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Torga, Galafura, um Duriense e eu



São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga
Uma tarde em Lamego, depois de me ouvir dizer que, no dia seguinte iria a Galafura, um cunhado de meu filho, homem do Douro até à medula, deu-me um conselho: “Quando lá chegar, antes de olhar a paisagem, procure uma pedra onde estão uns versos do Torga. Leia-os bem e, depois olhe. Verá a beleza da paisagem através dos olhos dele”.
Fiz exactamente o que ele me dissera. Meu Deus! A beleza que vi!
Sem querer gabar-me, André e Osvaldo, vi com os olhos que vocês o vêem, aquele Douro e, senti que podia ser ali a minha terra.
Cada vez que volto lá, é com os versos e os olhos de Torga que o vejo. Lindo, majestoso, duro, verde. E amo-o porque Torga me ensinou a amá-lo. E entendo o vosso amor por toda aquela beleza, regada a sangue, suor e lágrimas dos homens que a fizeram mais linda, do que a Natureza já a tinha feito.
Boa Páscoa para todos.
Até um dia destes.
Maria