segunda-feira, 18 de julho de 2011

A minha Pátria é a língua portuguesa


“Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje ia relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d'aquelle momento a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico.- a minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio minhaque sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem nãosabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”
(Transcrito da Wikipédia )

Fernando Pessoa

Isto disse Fernando Pessoa. Eu concordo.
Que diria o poeta agora, vendo a língua portuguesa tratada da maneira que é? Talvez o estudioso do ocultismo, tivesse a premonição de que Pátria ia ficar no estado da língua. Isto é: Um verdadeiro caos.
Mantive de propósito a escrita de Pessoa, sem correcção.
Até um dia destes.
Maria

terça-feira, 5 de julho de 2011

Madalena, minha irmã Madalena


Relendo um livro da Alice Vieira, lembrei-me de nós.
Claro que há diferenças. Ela tinha 10 anos quando a irmã nasceu, eu tinha 2 quando nasceste. Esperava pelo “meu bebé” com ansiedade. Já tinha um mano que adorava, tinha tido uma irmã que não conheci. Aquele bebé que me tinham prometido, era um sonho.
Mexia, chorava, comia, chuchava no dedo polegar e, era linda! Olhos grandes e lindos, nariz arrebitado, careca ( depois vieram os caracóis que te faziam parecer uma bonequinha). Eu, do alto dos meus 2 anos, tomei-te sob a minha protecção e, não gostava que te tocassem. O bebé era meu. Conhecias-me bem. Mais tarde, chamavas-me “mãesinha pequenina”.
Crescemos os três. Eras esperta, ladina, alegre e senhora do teu nariz.
Às vezes, eu e o mano, armávamos a casinha das bonecas debaixo da mesa e, pedíamos a Deus que dormisses uma grande sesta. Quando acordavas, começava a revolução. Enquanto nós te tentávamos convencer a ser a filha, tu decretavas que eras a “criada” e, tomavas conta de tudo.
Crescemos lado a lado, dormimos no mesmo quarto, partilhámos brincadeiras e bulhas. Sempre juntas, sempre irmãs.
Depois, a vida levou uma para cada lado, estamos separadas pelo mar mas, eu continuo a ver-te da mesma forma: o meu bebé, a minha irmã, a minha companheira de menina.
Estamos velhotas, filhos criados, cada uma para seu lado mas, irmãs.
Madalena, minha irmã Madalena, como tenho saudades de nós antigamente!
Madalena, minha irmã Madalena, como tenho saudades tuas!
Beijos, muitos beijos da tua irmã.
Maria

Até um dia destes.
Maria

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aznavour et nous

Há 45 anos que nos conhecemos. Esta canção de Aznavour foi durante anos, uma das "Nossas canções". Ainda é.
Por isso, com todo o meu amor:
Bon anniversaire



Charles Aznavour

Até sempre, meu amor.
Até um dia destes, amigos.

domingo, 29 de maio de 2011

Elegia


Hoje dia 29, seria o teu dia de anos. Já te falei tanto, já te disse tanta coisa que, não sabia do que falar. Vi uma fotografia minhas de tranças e, lembrei-me das horas que passavas a fazê-las. Levantavamo-nos, as duas cedo. As tranças de noite soltavam-se, ficando uma massa de cabelo longo e embaraçado. Cheio de ninhos, dizias tu. Com a cabeça pousada nos teus joelhos, as tuas mãos brandas e macias tentavam desenlear, aquela meada embaraçada de cabelo longo, fino e basto. Quando acabava esta operação, pontuada aqui e ali, por um grito de dor e uma festa tua, era altura de dividir ao meio e, fazer as tranças. Um laçarote branco ou de cor, rematava-as. Era longo, doloroso, o trabalho. Mas quando me via ao espelho, gostava de ver o meu rosto emoldurado por elas. O pai só dava ordem para as cortar aos 15 anos.
Eram as minhas companheiras predilectas. Saltavam, voavam, batiam-me na cara, quando estava vento. Quando me lavavas o cabelo, com chá de camomila, para não escurecer, adorava dormir com aquele cheirinho na cabeça. Chamavam-me a “Trancinhas”.
Quando fomos para o Porto, as aulas eram mais cedo, o liceu mais longe. Tantas voltas deste ao pai que ele acabou por dar ordem para as cortar. Foi um dia triste, mãe. Quando aparaste as minhas tranças, já cortadas nas mãos, tinhas os olhos rasos de água. Eu chorava, olhando o rosto desconhecido, no espelho. Guardaste-as na mala e, voltámos a casa. Quando o pai chegou, deste-lhe as tranças que, ele guardou até ao dia em que as deu ao João. Olhou para mim triste. Para os três fora o início do meu crescimento. A trancinhas morrera. Nascera a adolescente, a pré-mulher. Acho que nesse dia, se convenceram que eu estava a crescer. Eu convenci-me. Foi um fim de infância triste. Faziam-me falta as tranças, as tuas mãos nos meus cabelos, os laçarotes que pareciam borboletas.
Hoje sinto mais ainda a tua falta. Dói cada vez mais a tua ausência.
Adeus mãe.
Beijos e saudades da tua trancinhas.
Nós amigos, até um dia destes.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sérgio Godinho – Sempre actual


Sérgio Godinho – Sempre actual

Tu precisas tanto de amor e de sossego
- Eu preciso dum emprego
Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso
- Por exemplo o Paraíso
Ando ao Deus-dará, perdido nestas ruas
Vou ser mais sincero, sinto que ando às arrecuas
Preciso de galgar as escadas do sucesso
E por isso é que eu te peço

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se meto os pés para dentro, a partir de agora
Eu meto-os para fora
Se dizia o que penso, eu posso estar atento
E pensar para dentro
Se queres que seja duro, muito bem eu serei duro
Se queres que seja doce, serei doce, ai isso juro
Eu quero é ser o tal
E como o tal reconhecido
Assim, digo-te ao ouvido

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sabendo que as minhas intenções são das mais sérias
Partamos para férias
Mas para ter férias é preciso ter emprego
- Espera aí que eu já lá chego
Agora pensa numa casa com o mar ali ao pé
E nós os dois a brindarmos com rosé
Esqueço-me de tudo com um por-do-sol assim
- Chega aqui ao pé de mim

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores
Seriam uns amores
Greves era só das seis e meia às sete
Em frente ao cacetete
Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos
Feriado em Abril só no dia dos enganos
Reivindicações quanto baste mas non tropo
- Anda beber mais um copo

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

domingo, 1 de maio de 2011

Dia de todas as mães



Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

Todos nós vamos com as aves. Deixemos as rosas brancas para as Mães.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Receber uma carta à moda antiga



Datada de dia 21 de Abril, recebi uma carta com envelope e tudo.
No meio de contas para pagar, foi agradável. Dentro do envelope vinha o Postal acima.
O Corvo foi a Tomar e mandou-me um postal da minha terra. Foi bom voltar ao antigamente.
Reproduzo-a tal e qual ma mandou:

Tomar, 22 de Abril de 2011-04-28

Pai e Mãe,
Naturalmente recebem este postal já depois de eu ter chegado.
Mas, em todo o caso, aqui vai um postalinho para vos fazer saudades.
Aqui, a Igreja de Stª Maria dos Olivais, onde ainda não fui. Só fui à de S. João Baptista, à de Stª Iria e à Ermida da Srª da Piedade.
Hoje senti medo de subir aquelas escadas. Depois mostro-vos as fotos para verem aquela miséria.
De resto, aparentemente, Tomar não está muito destruída.
O Nabão está sujo.
O União está no mesmo sítio.
Beijinhos para vocês e para o outro Nabão.

Vasco

Que saudades de receber uma carta pelo correio! Abrir o envelope, ver o que tem dentro... Obrigada filho.

Até um dia destes.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril



Era Abril, um dia nevoento,
Podia vir El-Rei Sebastião.
Havia alegria, havia cravos,
E havia em cada alma a interrogação:
Será hoje que deixamos de ser escravos?
Ou voltará tudo a ser cinzento?
Vai acabar a guerra de verdade?
Quando saem os presos da prisão?
O sol abriu e, a esperança foi certeza.
Já se ouviam hinos à Santa Liberdade,
Já qualquer um era amigo, irmão.
E eu berrei bem alto a Portuguesa.
Durou pouco a ilusão de Liberdade.
Continuou a haver pobres sem pão.
E hoje resta apenas a saudade
De a todo o mundo se chamar irmão.

Maria
25 de Abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Torga, Galafura, um Duriense e eu



São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga
Uma tarde em Lamego, depois de me ouvir dizer que, no dia seguinte iria a Galafura, um cunhado de meu filho, homem do Douro até à medula, deu-me um conselho: “Quando lá chegar, antes de olhar a paisagem, procure uma pedra onde estão uns versos do Torga. Leia-os bem e, depois olhe. Verá a beleza da paisagem através dos olhos dele”.
Fiz exactamente o que ele me dissera. Meu Deus! A beleza que vi!
Sem querer gabar-me, André e Osvaldo, vi com os olhos que vocês o vêem, aquele Douro e, senti que podia ser ali a minha terra.
Cada vez que volto lá, é com os versos e os olhos de Torga que o vejo. Lindo, majestoso, duro, verde. E amo-o porque Torga me ensinou a amá-lo. E entendo o vosso amor por toda aquela beleza, regada a sangue, suor e lágrimas dos homens que a fizeram mais linda, do que a Natureza já a tinha feito.
Boa Páscoa para todos.
Até um dia destes.
Maria

domingo, 3 de abril de 2011

Era uma vez cinco irmãs...


Há um livro de Jorge Amaro que começa um capitulo assim: “Era uma vez três Irmãs”. É lindo, triste, romântico e acaba mal. Também um livro de Camilo tem o nome: “Três irmãs”. Também é lindo, triste e acaba mal. Vamos ver se as minhas cinco irmãs têm a mesma sorte. Quando meus avós maternos morreram quase simultaneamente, deixaram nove filhos. Quatro rapazes e cinco raparigas. O mais velho tinha vinte e um anos, a mais nova quatro. É delas que falo hoje. Todas Marias: Maria Águeda, Maria Eminío, Maria da Glória, Maria Adelaide, Maria Amélia. A mais velha, Maria Águeda tinha dezanove anos. Depois de um namoro frustrado com um primo, dedicou-se aos irmãos pequeninos. Era muito educada e com uma instrução bastante completa, feita por demoiselles, misses, frauleines e mestras de piano. Nunca levantava a voz, os gestos eram harmoniosos mas dominava tudo e todos. A segunda, Maria Eminío, pequenina, gordinha, com um feitio levado dos diabos, tocava piano e gostava de flores. Namorou um rapaz em Águeda mas quando ele a avisou que ia para África, desistiu. Maria da Glória era muito bonita, grande leitora de Camilo e outros, estava para casar com o irmão do ex-namorado da irmã, quando descobriu que ele tinha dois filhos de outra. Mandou-o casar com a outra e, nunca mais pensou em homens. Ouvia muito mal, isolava-se com os seus livros e crochets. Quando o antigo noivo morreu, chorou, adoeceu e fechou-se ainda mais. Maria Adelaide, a minha mãe, conheceu meu pai, apaixonaram-se, aguentou treze anos de espera, cinco dos quais de separação total, lutou contra os irmãos, sofreu, até conseguir casar com o homem que adorava e ter filhos. Nós, meus irmãos e eu. Conheceu três netos. Por fim, a doença levou-a. Foi a única feliz. Maria Amélia namorou um irmão de meu pai. Não teve a força da minha mãe. No dia do casamento, já vestida e calçada, desistiu. Ele ameaçou-a que dentro de um ano estaria casado. Cumpriu a palavra. Casou com alguém que nunca amou, teve uma filhinha que morreu, separou-se e pouco tempo depois morreu. Ela teve alguns namoricos mais mas, acabou solteira. Se não fosse a história feliz de meus pais, esta era mais uma história triste, com fim infeliz. Se não fosse a força daquele ser frágil, o amor profundo que tinha por meu pai, a paciência com que esperou, seria mais uma freira daquele convento. Para todas elas uma saudade grande. Para minha mãe a minha eterna admiração e gratidão. Valente mulher! Até um dia destes

sexta-feira, 25 de março de 2011

Carta a minha Mãe


Minha querida Mãezinha:

Era assim que começavam todas as cartas que te escrevi.
Hoje não posso ir ao cemitério como é costume. Não vou limpar a tua casa pequenina, não vou embalar a tua urna contra o peito, não vou deixá-la cheia de flores, como nos outros anos. Estou doente, Mãe. Por isso resolvi escrever-te.
Há trinta e nove anos que partiste. Trinta e nove anos de saudade, de mágoa, de factos que aconteceram e, tu não viste.
Deixaste três netos, nasceram mais três. Os três que te conheceram, lembram-te com saudade. O meu Vasco sabe de ti tudo o que eu e o meu Pai lhe contámos. Para os meus netos és a “Mãe da Avó” que já partiu há muito.
Estou a ouvir Chopin, o teu Chopin. Depois, vou ler um poema de Florbela, outro do Pedro Homem de Mello, um do António Nobre. Os teus poetas, Mãe. Vou encher de flores o teu retrato, vou lembrar os dias felizes que vivemos juntas.
Ouvindo Chopin, lembro-me de nós as duas. Tu sentada na cadeira, eu no chão, com a cabeça nos teus joelhos, sentindo as tuas mãos no meu cabelo numa carícia terna.
Os manos já me telefonaram. Já trocamos o beijo da saudade. O João foi comprar as flores. Tem tomado bem conta de mim, como lhe pediste.
Beijos e saudades de todos.
Um beijo e a saudade imensa da tua
Filha

Até um dia destes.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Torga de novo

Torga de novo

Farta de escrever disparates, sem inspiração, lembrei-me de um poema de Torga. Ficam os meus amigos mais bem servidos e, dou a conhecer mais uma poesia linda, triste e, atrevo-me a dizer actual.
Em 1515 era governador da Índia D. Afonso de Albuquerque. Depois de muito lutar, ferido e doente, ainda quis deixar uma carta a El-Rei D. Manuel uma carta.
A carta é esta:
“"Senhor. - Eu nam escrevo a vos alteza per minha mão, porque, quando esta faço, tenho muito grande saluço, que he sinal de morrer: eu, senhor, deixo quá ese filho per minha memória, a que deixo toda minha fazemda, que he assaz de pouca, mas deixo lhe a obrigaçam de todos meus seruiços, que he mui grande: as cousas da india ellas falarám por mim e por elle: deixo a india com as principaes cabeças tomadas em voso poder, sem nela ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito; isto he o que me vosa alteza encomendou: eu, senhor, vos dey sempre por comselho, pera segurar de lá india, irdes vos tirando de despesas: peçoa vos alteza por mercee que se lembre de tudo isto, e que me faça meu filho grande, e lhe dè toda satisfaçam de meu seruiço: todas minhas confianças pus nas mãs de vos alteza e da senhora Rainha, a elles m emcomemdo, que façam minhas cousas grandes, pois acabo em cousas de voso seruiço, e por elles vollo tenho merecido; e as minhas tenças, as quaes comprey pela maior parte, como vossa alteza sabe, beijar lh ey as mãos pollas em meu filho: escrita no mar a 6 dias de dezembro de 1515. Afomso dalboquerque" carta de Afonso de Albuqerque ao rei D. Manuel I[“.
Inspirado nela, escreveu Miguel Torga um dos seus melhores poemas.

Afonso de Albuquerque de Miguel Torga

“Quando esta escrevo a Vossa Alteza
Estou com um soluço que é sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à índia a defender-lhe a sorte.

Morro de mal com todos que servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a índia fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão.

Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.

Em mais alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.

Por isso a índia há de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder o rumo
Das muralhas de Goa.

Por isso o Nilo há de correr no Egito
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano.

Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A índia inteira falará por mim.”

Leiam e pensem.
Até um dia destes
Maria

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sou do Benfica


Podia acrescentar “e isso me envaidece” mas, era mentira. Não ligo nenhuma à bola, nunca fui à Luz, nem sequer vejo os jogos na Televisão. Dou direito aos Sportinguistas de se envadecerem, embora não perceba porquê. Desculpem Verdinha e Osvaldo.
É claro, que a esta hora, já todos estão a pensar porquê sinto necessidade de falar de uma coisa que nada me diz.
Passo a explicar: Sou do Benfica porque quase toda a minha família o foi ou é. Alguns foram fundadores. Outros houve que, foram adeptos furiosos. Meu Pai tinha um primo que inscreveu o filho no Benfica, ainda antes de o registar. Vinha à bola com o puto, ficando a mulher e as filhas em casa a ouvir o relato. Não que a bola lhes interessasse muito mas, se o Benfica ganhasse, iam jantar fora, se o Benfica perdesse, iam para a cama, para não aturarem o Benfiquista doente. Meu Pai, pouco aficcionado mas, Benfiquista, dizia sempre a velha frase: “ O Benfica ganha, vivó Benfica, o Benfica perde, viva o Benfica”. Vibrou quando ganhámos as taças da Europa. Se o jogo era com o Porto ou, Sporting, torcia pelo Benfica, mas não fazia grande alarido.
Porque sou Benfiquista? Por tradição. Talvez porque gosto de “papoilas saltitantes”, embora nunca tenha visto nenhuma, talvez porque gosto de vermelho e de águias.
Ontem, mais uma vez, o Benfica ganhou contra o Sporting. Desculpem meus queridos Sportinguistas, mas gostei. Desejo muito que o Sporting volte ao que já foi.
Vivó Benfica!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Até um dia destes.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cheiros e cheirinhos

Tenho uma memória olfactiva muito grande. Qualquer aroma me faz lembrar alguém, um local, um momento.
Hoje senti um leve perfume que me lembrou a minha Mãe. O cheiro dela está sempre presente mas, foi um leve cheiro a rosa que me despertou. Ela fazia uma água de rosas com folhas delas, álcool, tintura de benjoim e água. Era o seu perfume, misturado com o do creme Nívea e o Pó de arroz Thaber e, claro, o cheiro a mãe, esse cheiro que nós nunca esquecemos, porque é único.
Depois, lembrei-me de outros aromas: o cheiro a pinhal, a Ria, a moliço. A casa da quinta que cheirava a lenha a arder, a comida, a bolos, a camas com colchões de palha de milho, lençóis cheirando a lavado e alfazema, grossos cobertores de papa. Quartos cheirando a cera, aos perfumes e pós das tias, o cheiro de cada uma. De manhã o perfume dos sabonetes Confiança, que todas usavam, enchia a casa de mistura com cheiro a manteiga acabada de fazer, pão quente, café e chá. Era bom.
Lembro o cheiro da Maria do Céu, a empregada que fazia a manteiga, cheiro a leite, a avental branco muito limpo, onde às vezes me encostava quando estava triste ou me ralhavam.
A minha Avó cheirava a lavanda. O meu Pai a sabão e Pó Avelar para os dentes. Perfume não era para homens, dizia. Cheirava a tabaco e a Pai.
O meu marido, antes de se tornar num anti-tabagista chato, cheirava a Clan ou a Negritas. É raro pôr perfume mas gosto do cheiro dele e conheço-o a léguas.
Ficava aqui o dia todo a falar dos cheiros que gosto e, dos que não gosto
Só falta dizer que sou infiel aos perfumes que uso. Há três que são imutáveis: “L’Air du Temps” de Nina Ricci, “Calèche” de Hermès e “Intuition” de Estée Lauder. Depende do dia e da disposição.
Tenho-os sempre. O fornecedor? O meu marido, claro.
Até um dia destes.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Carta Anónima

Tudo tem uma primeira vez. Nunca escrevi uma carta anónima e, confesso, repugnam-me as ditas.
Esta tem que ser assim por várias razões: Não quero magoar ninguém, nem ser mal entendida.
Não é uma carta de amor nem ódio, não é saudade, é lembrança.
Quando tinha desasseis anos, conheci alguém por quem me apaixonei ou julguei apaixonar-me. Era um rapaz bonito, tipo galã de cinema, com dezanove anos. Ao princípio fiquei deslumbrada. Ir pela rua com ele dava-me orgulho, sentia a inveja das outras mocinhas e, gostava. As conversas dele eram um pouco ocas mas, vestia bem e, como já disse, era bonito. Um dia, no intervalo de um filme de Cantinflas, ouvi-o a falar com a moça que nos acompanhava e, fiquei perplexa. Não falavam do filme nem de nada de interesse. Simplesmente, discutiam o número de camisolas, calças, camisas, casacos, sobretudos, sapatos... só faltou enumerarem as cuecas e peúgas. Na minha cabeça fez-se um grande ponto de interrogação. Eu que tinha pouca roupa e ligava pouco a essas coisas, ali, feita parva, a olhar os cartazes do cinema e, pensando com os meus botões: “Serei capaz de viver uma vida com alguém assim?” As conversas em casa eram outras. Literatura, História, Política... Felizmente ou infelizmente, a campainha do cinema tocou.
Entretanto a minha Mãe adoeceu. Foram nove meses de medo, angústia, terror de a perder. Ele foi impecável. Sempre presente, sempre paciente para me ouvir e limpar as lágrimas. Isso lhe devo e agradeço.
Os anos passaram, os meus pais conheciam-no, o namoro era oficial. Às vezes pensava se era aquilo que eu queria, mas deixava andar por comodismo. Sabia que não queria ser apenas a “esposa” de um senhor. Queria ser mulher de um homem. Queria caminhar ao lado e não atrás desse homem.
Um dia recebi uma carta do dito cujo, dizendo gostar muito de mim mas, por motivos vários, ter-se casado com outra. Não senti grande desgosto. Despeito, sim. Acima de tudo uma sensação de liberdade enorme. Quando soube que os tais motivos se resumiam num carro de luxo e uma vivenda mobilada, a minha primeira reacção foi rir. “O tal grande amor” custara um carro e uma casa. Fiz as contas e achei que valia mais. Esqueci e esperei. Hoje, ao fim de cinquenta anos, lembrei-me desta história e, pensei que devia agradecer-lhe a oportunidade que me deu. Nem sei se é vivo ou morto. Não lerá isto de certeza. Mas agradeço da mesma maneira que lho diria cara a cara. Afinal, eu fiquei com a melhor parte. Encontrei um homem a sério, tive três filhos, dois netos, tenho a minha casa, um carro e, acima de tudo, sou feliz. E tu, anónimo? Foste feliz? Valeu a pena?
Tens muitas roupas de marca, muitos carros, chegaste onde querias? Espero sinceramente que sim. Nunca te quis mal. Melhor, raramente penso que exististe, que passaste um dia pela minha vida. E se alguma vez pensares em mim, não tenhas remorsos (sabes o que isso é?). Fizeste-me um grande favor. Por isso, de novo te agradeço.
Até nunca anónimo.
Até um dia destes, meus amigos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Tomar Sempre


Neste primeiro dia do Ano é de ti, minha terra adorada, que me lembro com tristeza. Que o Novo Ano seja melhor para ti, que não haja mais tornados, cheias, gente sem casa, gente com fome. Que os Tabuleiros saiam à rua com todo o seu esplendor, que a Cerca volte a abrir renovada, que o Jardim volte a ser o mesmo em que em pequena brinquei.
Claro que tenho outros desejos. Saúde para os meus doentes, Paz para os mortos e vivos, entendimento neste mundo desavindo.
É só isto que desejo.
Para todos vós, meus amigos, que tudo vos corra como desejam.
Um grande abraço para todos.
Até um dia destes.
Maria

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Adeus Júlio, força querida Soledade


Eram assim as Camélias do meu jardim do Carvalhido. Seriam elas que gostaria de levar ao Júlio.

Queria estar aí contigo, abraçar-te muito, levar flores de saudade ao Júlio. De uma certa forma estou. Tenho pensado muito em ti, amiga.
Este ano e tal foi uma luta horrível para ambos e para a vossa filha.
É muito tempo. O Júlio teve força para lutar, porque tu, mulher forte e valente, estavas lá. Porque a vossa filha estava lá.
Agora, amiga, vais ainda passar dias muito dolorosos. Unam-se as duas na vossa dor comum, que mais ninguém pode partilhar. Estou certa de que era isso que o Júlio queria.
Não tenho jeito para frases feitas. Acho que não aliviam nada. Por isso, envio para as duas um grande abraço, beijos e toda a amizade de que sou capaz. Para ti Júlio, um beijo de despedida e o desejo de que repouses como mereces.
Da vossa
Maria

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Alerta Patos Bravos!

Ontem, entre muita coisa, deram-me um livro que adorei. Fala dos primeiros Patos Bravos, mostra inúmeras casas de Lisboa feitas por eles.
Li e vi o livro até bem tarde.
O violento tornado que assolou a minha terra fez-me ficar acordada, pensando nos meus patrícios que ficaram sem casa, no Jardim Escola que tão bem conheci, nas árvores arrancadas. Depois de os homens começarem a estragá-la e deixar degradar, faltava o Tornado para completar a obra.
Já não há Patos Bravos, meus amigos? Vieram todos para Lisboa?
A nossa terra e a nossa gente precisam de vós.
Fiquei tão triste que o simples facto de fazer anos ontem, que nasci aí, me magoou.
Ajudem a nossa terra a voltar ao esplendor de antigamente. Vai ser preciso o trabalho e a ajuda de todos.
Senhores políticos, Tomar não é só o Convento e os Tabuleiros. É uma cidade com História, além de ser povoada por gente que sofre e precisa de casas, de comida, de muito amor.
Até um dia destes.

Peço desculpa a Pedro Fernandes e ao Templário, por ter usado um vídeo vosso. Grande abraço para toda a equipa do jornal

Maria

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mulheres

Conheci-a nova. Não muito alta, não muito gorda, um rosto bonitinho, onde uns olhos azuis claros tinham por vezes um olhar vago. Muito loira, a pele branca. Era simpática mas, às vezes, havia qualquer coisa estranha. Casada, dois filhos, loiros como ela. O marido, relojoeiro, teve sempre um ar de quem comeu e não gostou, antipático, quase não falava a ninguém, a não ser para discutir quando estava quente do vinho. Era bruto com ela e com os putos. Eles mostravam medo do pai.
Ela fazia o trabalho de casa, fazia as compras, criava os filhos.
Cada vez estava mais apática, um olhar vago, uns modos estranhos. Alguém descobriu que se estava a tratar no Júlio de Matos. Caridosamente, começaram a referir-se-lhe como “Maria maluca”. Cada vez falava menos, fechava-se em casa, o filho mais velho, relojoeiro como o pai, saiu de casa. O mais novo, já um pouco desequilibrado, meteu-se na droga. Um dia perguntei ao homem como estava a mulher, que já não via há tempos. Que estava no hospital, maluca de todo. Brutalmente, sem um pouco de pena. Ele é que era a vítima!
Reformou-se, passando a vida no tasco. Um dia teve uma trombose. Quando veio para casa mal andava. Ao 2º ataque ficou totalmente incapacitado. Agora a “Maria maluca” vai todos os dias a uma associação de reformados buscar a comida dele, dela e do filho. Leva mais de meia hora a andar 50 metros. Gorda, desfigurada, doente, arrasta o saco pela rua, parando de 2 em 2 passos. Ele está acamado, o filho fuma o dia todo, tabaco e droga. Ele não quer ajudas de ninguém. E é a mulher, que um dia foi bonitinha e hoje é um trapo, que aguenta tudo. Quando a vejo do alto do meu 4º andar, arrastando-se, olhando sem ver, penso nas outras “Marias malucas” que proliferam por esse mundo. E dói-me, dói-me muito.
Igualdade? Protecção da mulher, onde? Algumas nem direito têm de ser malucas!
Pobre “Maria maluca”! Pobres de todas elas!
O tempo que está, faz-me tão mal!
Até um dia destes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Semicúpio da prima


Quando fomos viver para o Porto, meu Pai lembrou-se que tinha familiares em Braga. Um deles foi fácil de encontrar. Por ele soubemos que tinha uma irmã residente lá.
Visitamos o primo e família várias vezes, até que um dia estando minha Avó a passar uns tempos connosco, recebeu uma carta da outra prima, convidando-a para um chá. A Avó mandou um cartãozinho a agradecer e a aceitar.
Chegados a Braga, fomos procurar a rua e a casa indicadas. Ficava muito perto da Sé e as casas deviam ser quase tão velhas como esta. Batemos ao ferrolho, abriu-se a porta por meio da velha corda e, ao cimo da escada estava ela, a prima. Toda de preto, saia comprida a cair-lhe das ancas estreitas, blusa de gola alta rematada com uma rendinha, xale de merino cruzado no peito, sapatos rasos de sola de corda. A encimar isto tudo, havia um rosto muito pálido e enrugado e uma cabeleira negra, com carrapito e tudo, postiço, claro. As mãos eram compridas e aduncas como patas de águia, cruzavam-se sobre o inexistente seio. A casa, muito limpa, tinha bancos nos vãos da janela, onde verdejavam belas avencas. Poucos móveis, chão esfregado a sabão amarelo e muitas imagens e quadros de santos, juntamente com algumas fotografias antigas.
Bebeu-se o chá, comeram-se as torradinhas e os Fidalguinhos, desenterraram-se mortos e vivos. O chá deu efeito, e eu pedi para ir à casinha. Claro que a minha irmã me acompanhou. Isto é costume entre as mulheres que se está a perder e é pena. Era aí que se trocavam as grandes confidências. Nunca uma mulher ia sozinha à casa de banho a não ser em casa.
Foi-nos indicada a casinha, que por acaso era uma enorme divisão. Tinha mais plantas, o trono ficava em cima de um estrado alto com dois degraus, os outros móveis da casa de banho eram todos móveis antigos e... havia um objecto grande como um maple, feito de folha de Flandres, tapado com um lençol de linho alvo e cheio de rendas e bordados. Ficámos a olhar para aquilo espantadas e curiosas. Fizemos um monte de suposições e achamos que era melhor perguntar a quem soubesse. Tive um trabalhão para convencer a Avó de que precisava de ir à casinha, porque bebera muito chá e a viajem até ao Porto era grande. Lá foi comigo, sentou-se no trono e eu perguntei-lhe que objecto era aquele. Respondeu-me baixinho que era um semicúpio e que em casa explicava. Saímos de casa da prima, depois de grandes despedidas. Na rua a minha irmã indagou o que era aquilo. Eu disse-lhe muito séria que era um semicúpio. Ela ficou com uns olhos ainda maiores do que tinha e quis saber para que servia. Disse-lhe que só em casa saberíamos. Durante toda a viajem até ao Porto, fiz conjecturas e mais conjecturas. De repente ocorreu-me que os semis que conhecia, tinham a ver com música: semibreves, semicolcheias, semifusas e por aí. Cheguei à brilhante conclusão de que se tratava de um antigo instrumento musical. Chegados a casa, nem dei tempo à minha Avó para se sentar. “Ó Vó! Afinal que é aquilo? É um instrumento musical?”. Ela desatou a rir e disse-me: “não filha. Que ideia mais peregrina a tua. É para fazer banhos de assento.” Fiquei mais baralhada ainda. “Banhos de assento, Vó? Que é isso? Para lavar as partes de baixo não serve o bidé?”. “Não. Os banhos de assento são bons para as dores. Enche-se a bacia de água quente, senta-se a pessoa lá dentro até à cintura, com as pernas de fora, tapa-se bem com um cobertor e as dores passam. Usava-se para cólicas intestinais, renais, gazes e prisão de ventre.”
Foi a minha vez de rir. “Ó Vó e isso resultava?” “Claro que resultava. Não havia comprimidos. Os tratamentos eram feitos à base de banhos de assento, chás e clisteres”. Ora, estes últimos eram do meu conhecimento e não gostava. Fiquei a pensar que os antigos só tinham tratamentos estúpidos. Estes, mais as “bichas”, as sangrias, as teias de aranha a tapar feridas... Que horror! Como eu gostava de comprimidos, xaropes e injecções!
Hoje em dia não penso o mesmo. Estou mais aberta a tratamentos naturais. Tenho medo de antibióticos, anti-inflamatórios e outros medicamentos, que tratam de um lado e estragam do outro.
Acho que se tivesse uma casa de banho grande, mandava fazer um semicúpio como o da prima.
Até um dia destes.