sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Serões de Antigamente

Nesse tempo não havia televisão em Portugal. Havia telefonia, um aparelho que não tinha imagens, só som.
No inverno, à roda da braseira, sentados à volta da mesa de jantar, esperávamos ansiosos, as nove da noite, hora do folhetim. Boas obras, interpretadas por bons actores. Assim, conheci “As minas de Salomão”, “A paixão de Jane Eyre”, “Os Fidalgos da casa Mourisca”, “A Cidade e as Serras” e, muitos outros livros. Não nos faziam falta as imagens. Actores famosos, interpretavam de tal forma os personagens que, a imagem não fazia falta. Havia um dia da semana, salvo erro, a quarta-feira, em que tínhamos o “Teatro das Comédias” de Álvaro Benamôr. Eram peças, geralmente de autores portugueses, contemporâneos ou, mais antigos. Gil Vicente, Almeida Garrett, Marcelino de Mesquita, Júlio Dantas, Ramada Curto etc. Aos sábados começava a sessão antes de jantar. Era o programa infantil da Madalena Patacho. Meninos da nossa idade contavam histórias. Desses meninos, lembro: João Lourenço, Isabel Wolmar, Morais e Castro e muitos mais. Das histórias, eram sobretudo, as “Aventuras dos cinco” de Enid Blyton que me fascinavam. À noite, havia os “Serões para trabalhadores” que, incluíam cantigas, fados e passatempos em que “uma nota de 500, não se podia deitar fora”. Ao Domingo à tarde vinha a bola e, às vezes as toiradas. Durante a semana, ainda havia programas de Fado, Concertos pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, etc.
Eram serões, em família. O meu pai fazia paciências com cartas, a minha mãe fazia renda, o mano estudava, eu perdia-me a imaginar o que ouvia, a pequenina, às vezes, adormecia no colo da mãe, com o dedo na boca.
Veio a televisão e, adeus serões a cinco. Ao princípio, apesar das falhas, delirei com ela. Era uma telefonia com imagem. Dava bons programas em directo, coisas que interessavam a todos. Agora, é o que temos. Gosto de ver a RTP Memória. Parece que vai desaparecer.
Quero a minha Telefonia de volta! Mas para quê, se também não presta?
Livros, sempre amados, lidos e relidos, só vocês me tiram deste marasmo. Só vocês me dão os momentos de distracção que necessito.
Enquanto tiver livros e vista para os ler...
Até um dia destes.
Maria

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Não coma. Veja o Masterchefe


Num país onde a fome é cada vez mais, onde todos os dias se ouvem previsões catastróficas, sobre o dia de amanhã, onde fecham todos os dias, Restaurantes por falta de clientes e impossibilidade de manter os preços, onde as donas de casa fazem uma tremenda ginástica para por a comidinha na mesa, onde os carros do supermercado saem cada vez menos cheios, vindo a bolsa mais vazia, onde cada vez mais se recorre à sopinha dos pobres, há algo que aumentou nos écrans da TV: os programas de culinária. Sempre os houve, é verdade. Mas não havia comparação possível. Que saudades da Maria de Lurdes Modesto e das suas receitas simples, bem confeccionadas, usando ingredientes que, todos conheciam! Que saudades da Filipa Vacondeus, mais virada para a cozinha regional portuguesa, cozinha rica e saudável! Devo-lhes muito do que sei e, não cozinho mal, dizem. E houve o Mestre Silva, simpático, brincalhão que preparava bons pratos e petiscos.
Uma vez por semana, lá vinha a receita que, era escrita numa qualquer folha de papel, para uma próxima experiência culinária.
Agora tudo mudou. Para a gente não ter a mania de experimentar as “delícias” dos muitos Masterchef, alguns estrangeiros, estes aparecem trajados a rigor, usam linguagens estranhas, ingredientes estranhíssimos, caríssimos, de que nunca ouvimos falar, utilizam máquinas para tudo, numas cozinhas de sonho. Depois de muita correria, idas ao forno e ao fogão, alguns ao microondas, estafados, transpirados, ofegantes, aparecem com três pratinhos, maravilhosamente decorados e coloridos: uma entrada, um prato principal, uma sobremesa. Tudo em pouca quantidade, por causa da austeridade, acho eu. Devem querer mostrar que os olhos é que comem, será?
O facto é que no tempo dos outros, as senhoras corriam para a TV à hora da Teleculinária.
Agora se fossem fazer isso, ninguém comia, porque mal acaba um, num programa, logo começa outro no vizinho.
Será que os senhores da televisão, ouviram a frase da Maria Antonieta: “Não têm pão? Comam brioches”? o que no nosso caso se puderia traduzir para: “Não tens açorda, come Haute-cusine”.
Cada um come o que gosta e pode, mas não chateiem. Já chegam as telenovelas, a bola. Mas isso fica para outro dia.
Até um dia destes
Maria

sábado, 12 de novembro de 2011

Timor, vinte anos


Para que nunca esqueçamos.

Até um dia destes
Maria

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Diálogo de Olhos

- És tu?

Sou eu.

- Quantos anos passados e, eu nunca esqueci os teus olhos.

Não? Porquê se esqueceste o resto?

- Não, não esqueci, lembro-te muitas vezes. E tu esqueceste?

Ás vezes, nem me lembro que exististe. Outras, lembro vagamente, alguns momentos.

- Estás a mentir. Lembra-te que sei ler nos teus olhos.

Não, não soubeste. Se tivesses sabido...

- Que veria, diz!?

Quando importava, não leste nada. Agora não vale a pena.

- Achas que é tarde? Eu não te esqueci. Esqueceste tudo?

Não houve nada para esquecer. Nada se passou.

- Estás a mentir!

Vês? Nunca soubeste ler nos meus olhos.

- Agora não quero ler.

Desvia os olhos.

- Não quero desviar. Quero lembrar.

Eu nada tenho a esquecer. Adeus.

Hoje, viajei pela imaginação.

Até um dia destes,

Maria

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Carta a meu Pai

Esta carta foi escrita há dez anos, alguns dias antes da sua morte.
Ainda sob a influência da morte do Amigo Moa, decidi publicá-la.
Meu pai nunca a leu. Levou-a para o crematório e foi cremada com ele.
É triste, como triste estava, quando a escrevi, como triste estou hoje.

Meu querido Pai:

Nesta carta que, nunca lerás mas que, é escrita para ti, para mim, para todos os que amaste e, te amaram, tentarei contar quem foste e, quem és agora.
Foste o bebé mais bonito da minha avó, o homem belo e forte que, a minha Mãe amou até à morte, o Pai nem sempre tolerante, nem sempre compressivo mas, muitas vezes o companheiro alegre e meigo, o Pai que, não podendo comprar brinquedos, os fazia à força de algum engenho e muito amor, o Avô que, todos os netos adoraram.
Foste alguém que, ganhou o pão de cada dia, sem pensar muito no dia seguinte. Alguém que, perdendo o pai muito cedo, cedo teve que trabalhar, instruir-se, fazer-se homem, sempre só.
Tinhas uma enorme cultura, conseguida por ti.
Foste aquele que, era o centro das atenções, na mesa do café, no emprego, na família. A mesa das refeições, não era só para comer. Ao mesmo tempo, servia de aula de História, de Literatura, até de política. Sempre disseste que eras Socialista mas, a tua política era sempre, contra tudo. Querias um mundo onde todos fossem iguais.
Eras forte, o último argumento era teu, fosse palavra ou, um murro na mesa. Tinhas que ter sempre razão.
Agora Pai, com quase 92 anos, (será que os farás?) estás frágil, com foste ao colo da tua mãe mas sem o seu carinho a acalentar-te, ainda bonito, como o jovem que minha Mãe amou mas, sem a força que, a fazia sentir-se protegida. És ainda, o Pai que adoramos mas, a quem não pudemos ajudar.
Ver-te assim, entregue, sem ouvir, sem falar, apenas uma queixa quase imperceptível, um gemido fraco, dói muito, meu Pai.
Perdoa-me mas, já só posso pedir a Deus, à minha Mãe e a avó que, te levem depressa.
Não é falta de amor, meu velhinho querido. Quero que adormeças depressa e despertes entre o amor das duas. Quero puder falar de ti aos meus netos, contar-lhes como eras, sem esta dor que me rasga a alma.
Fica tanto para dizer de ti! Mas, hoje não, Pai.
Agora, só queria chorar.
Gosto muito de ti. Por isso, quero que partas.
Adeus Pai. O Adeus mais triste e doloroso da minha vida.
Um penúltimo beijo e, todo o meu amor.
O último será Depois.
O meu amor por ti será eterno.
Tua
Filha.

Até um dia destes, amigos.
Abreijos
Maria

domingo, 16 de outubro de 2011

Dorme meu amigo, dorme



Não consigo escrever nada que te defina. Ofereço-te esta canção que te ouvi cantar um dia.
Até um dia destes, André Moa, meu poeta, meu amigo
Abreijos
Maria

domingo, 2 de outubro de 2011

Um Puzzle Incompleto


Ontem tentei recrear na medida do possível, os aniversários de meu Pai. Juntei o máximo de descendentes que pude.
Fiz almoço de Festa, com a mesa enfeitada, o Bolo de aniversário, a alegria e a ternura que sentimos uns pelos outros, mesmo depois de longas separações.
Correu tudo bem, estávamos felizes, eu pelo menos estava, apesar de algumas peças que faltaram, por absoluta falta de disponibilidade. Faltava a minha maninha mais nova, retida nos Açores, a minha filha retida no Algarve pelo trabalho, a minha nora (filha), igualmente a trabalhar e, os meus dois sobrinhos, filhos da mana.
Conseguimos ser nove. O mano e a cunhada, o sobrinho mais velho ( grande alegria, meu Janico), os meus dois filhos rapazes e os netos queridos.
E claro, faltava a peça principal, o aniversariante, por razões óbvias.
O meu puzzle ficou bonito, mesmo com os tais buraquinhos , causados pela falta das tais pecinhas.
Para o ano, se me der na cabeça, pensarei nisto mais cedo, recuperarei algumas das peças que faltaram, talvez junte outras.
Soube-me a pouco, soube-me a tanto.
Eu sei que ficarias contente, Pai.

Até um dia destes
Maria