quinta-feira, 5 de abril de 2012

Prece


Olho-te sentada, o rosto amargurado,
Miras teu filho exangue, ferido, morto.
Em teu colo de mãe que o embalou
Jaz agora caído, inanimado.
A esponja de fel que lhe foi dada,
Es tu agora quem a sorve toda.
E as outras mulheres à tua roda,
Esperam ver-te cair desanimada.
E tu ali, serena, resignada,
Mas certa que era por nós, que ele morria.
Seria em vão, Maria?
Por ti, por Ele, que nos deu a vida,
Pede-lhe de novo a Paz do mundo inteiro.
Até ao momento derradeiro
Ele pediu ao Pai a paz e o amor.
De que valeu, Senhora
A sua morte, o sofrimento, a dor?
O mundo hoje, é pior que outrora.
Jesus não volta e estamos tão sozinhos,
Sem sabermos escolher novos caminhos.

Páscoa 2012
Maria

sábado, 31 de março de 2012

A André Moa


Por tudo o que contigo aprendi, obrigada.
Pelo abraço trocado, numa tarde de Dezembro, obrigada.
Pelos generosos comentários, que aqui escreveste, obrigada.
Pelos teus belos poemas, obrigada.
Pela tua alegria, pelas tuas canções, obrigada.
Porque continuas a ser o amigo de sempre, mesmo depois da partida, obrigada.
Guardar-te-hei sempre no meu coração.
Abreijos, meu amigo, tão longe e tão perto.
Maria

domingo, 25 de março de 2012

Quarenta anos sem ti


É, Mãe! Passaram quarenta anos e a saudade ainda é maior, a falta que me fazes, às vezes quase impossível de suportar.
Tanta coisa aconteceu, tantos mais perdi, mas é de ti que me lembro nas horas más. Sobretudo nas horas más. Nas outras também, claro. Quando preciso chorar e não consigo, penso que no teu ombro, choraria. As palavras de dor, que já não digo, soltar-se-iam, se olhasse os teus olhos, Mãe.
Como queria que tu me adormecesses! As noites são longas, para quem não dorme. Se tivesse a tua mão no meu cabelo e ouvisse a tua linda voz cantar: “minha filha, dorme bem o teu soninho...”, sei que dormia.
As tuas flores, Mãe. As tuas violetas. E saudades, beijos, o amor eterno da tua
Filha.

Até um dia destes, amigos
Maria

segunda-feira, 19 de março de 2012

Filho mais velho


Com tanto chinês e tanta chinesice, é bom que nos vamos acostumando a usar os seus termos e usos.
Ora, os chineses classificam os filhos assim: Filho mais velho, 2º filho e por aí fora.
Tu foste o primeiro, logo és o Filho mais velho. Não me atrevi a chamar-te “meu boneco”, como chamei à tua irmã. Primeiro, porque a tua mulher era capaz de não gostar de eu estar aqui, a fazer reclame ao marido dela. Segundo, porque tu, senhor respeitável de 45 anos, talvez também não gostasses.
Depois disto tudo, sinto que para mim, foste mesmo um boneco.
Quando olhei para ti e vi, um ser tão pequenino, com menos de 2quilos, grande trunfa, quase sem unhas, débil, gelando cada vez que te tirava do berço, sem forças para mamar, jurei a mim mesma, que irias crescer e ser forte. Um mês depois, tinhas o peso normal, já sorrias para mim, comias como um leãozinho esfomeado.
Continuavas com problemas, não te querias sentar, os dentes romperam tarde. Com um ano, quando nasceu a tua irmã, já eras um bebé alegre, irrequieto, brincalhão, mandando em toda a gente.
No dia que foste ver a mana a primeira vez, não gostaste nada, de me ver com ela ao colo. Tive que a deitar e pegar-te. Resmungaste qualquer coisa, para ela e adormeceste ao meu colo. Depois, foste-te habituando a ela. Ralhavas com ela, porque fazia xixi na fralda, como se tu não o fizesses e querias que ela fosse brincar contigo.
Fui tão feliz nesse tempo, filho!
O tempo passou, o Vasco nasceu, foste o protector dele, o professor paciente de brincadeiras, fazendo tudo o que ele queria.
Agora, és o homem de quem me orgulho, o marido da minha Sílvia, o pai do último bebé que criei e já tem 13 anos, o meu Rafael inteligente, brincalhão, teimoso como tu e, aqui para nós, como eu.
Parabéns, meu querido filho.
Tu sabes bem, o amor que tenho por ti e pela família que formaste.
Sabes, que se vos vir felizes, eu sou feliz.
Nasceste no dia do pai. O teu avô dizia, que tinhas sido a melhor prenda desse dia, que eu lhe dera.
Beijinhos para os três e um, muito especial, para aquele que foi o meu primeiro boneco e hoje é um homem lindo (desculpa Sílvia, saiu) e que eu admiro muito.
Mãe

Até um dia destes
Maria

segunda-feira, 12 de março de 2012

A minha boneca sonhada


Sempre gostei de bonecas. Tive algumas bonitas, que tratava como filhas. Dava-lhes de comer, falava com elas, cantava para dormirem.
Mas por trás do amor às bonecas, havia o sonho de ter filhos, muitos filhos. Queria meninos e meninas. Tinha que ter, pelo menos uma menina. Uma boneca que falasse, risse, desse beijinhos.
Quando engravidei a primeira vez, toda a família queria um rapaz. Ele nasceu pequenino, lindo, alegre, brincalhão. Mas o sonho da menina, continuava na minha cabeça. No ano seguinte, chegaste tu, minha linda boneca de carne e osso, bonita, meiga, querendo ter-me sempre por perto. Os teus olhinhos de longas pestanas, seguiam-me para todo o lado. Os teus bracinhos roliços prendiam-me o pescoço, quando alguém te queria pegar. A tua cabecinha fazia do meu peito almofada. Eras um bebé de sonho, a boneca que eu tanto tinha querido.
A vida separou-nos. Custou-me muito, mas eu também deixei os meus pais. Para me consolar, tinha ainda o boneco mais velho e, aquele que foi o teu primeiro boneco vivo: o nosso Vasco, que tu adoravas e de quem foste quase mãe. Depois, deste-me a prenda mais linda que me podias dar. Outra boneca de carne, linda como tu.
Hoje, posso dizer, que apesar de tudo, tive os cinco bonecos mais lindos da minha vida. Dois filhos rapazes, uma filha linda e, ainda por cima, a segunda boneca, minha neta e o meu último bebé, hoje um rapagão de 13 anos. Todos têm lugar igual no meu coração, um lugar muito grande.
Há 44 anos, o sonho da menina-boneca cumpriu-se.
Estamos longe, minha filha. Os anos passaram e somos duas mulheres. A vida não está fácil.
A prenda que te quero dar hoje, é dizer-te que gosto muito de ti, que te admiro e te quero ver feliz.
Não sei se vais gostar desta história verdadeira. É parte de nós todos, que aqui te mando.
Beijinhos, minha filha querida. Gosto de ti, daqui até ao céu, como diz a Ana.
Mãe

Até um dia destes.
Maria

quinta-feira, 8 de março de 2012

Canção de Alcipe

Alcipe, a Condessa de Alorna, bisneta dos Távoras, foi poetisa. A letra desta canção é dela, com uns toques de Vasco Graça Moura, a música de Carlos Paredes. Foi uma mulher muito avançada para a sua época.
Gostei desta interpretação de Mísia.
Apesar de não gostar de dias de... aqui vai para todas as mulheres.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Prelúdio

Estou neura. Sem pachorra para nada. Farta de frio.
E aí, lembro-me que qualquer dia, será Primavera.
Por isso, como um Prelúdio dela, o Prelúdio de Vinicius e Jobim.
Até um dia destes.
Maria

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Parabéns meu amor

Há quanto tempo não escrevo uma carta de amor?
Escrevi-te muitas, recebi respostas tuas. Tantas!
Agora, sempre juntos, acabaram. Às vezes mando-te um E-mail e tu respondes.
Tenho saudades das cartas, sabes? Do tempo das cartas. Esperava o correio à janela e, ela chegava. Abria-a e, era um pouco de ti, que tinha nas mãos. Estão todas guardadas, as tuas e as minhas. Às vezes, volto a lê-las. Recupero um pouco da nossa juventude. Foi um namoro curto. Cinco meses depois, estávamos casados.
Durante todo este tempo, houve coisas boas e más. O nascimento dos filhos, o casamento do mais velho, a vinda dos netos. Tudo coisas boas. A perda dos nossos pais, foi a parte pior destes anos.
Tudo isto, foi vivido a meias, horas boas e horas más.
Estamos velhotes, meu amor. Mas o nosso amor continua igual.
Nem sempre nos entendemos. Somos muito diferentes. No fim, tudo encaixa. O amor que nos une é maior que pequenas zangas.
Parabéns, meu amor de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre.
Amo-te.
Mil beijos da tua
Mulher.

Até um dia destes
Maria

sábado, 4 de fevereiro de 2012

75 anos, Amizade e Pão de Ló

Há amizades que duram vidas. Nascem na infância e, só desaparecem quando os dois desaparecem.
Temos em Ovar, alguém que nos acompanha, quase sempre de longe, com quem temos uma amizade dessas. Mais da idade do meu irmão, é natural que haja entre os dois, uma afeição mais profunda, visto ser mais antiga. Ele fez ontem 75 anos. Ela faz hoje 76.
Como não se fazem 75 anos todos os dias, houve festa ontem.
O aniversariante estava feliz. Tinha com ele, a mulher, o filho e a nora, uma irmã, um cunhado, uma cunhada, três sobrinhos e... um Pão de Ló fresquinho, chegado via CCT de manhã.
A amiga de sempre, não o deixou sem o mimo de um dos seus doces de eleição. Ficamos todos comovidos, velhos e novos, com uma atitude tão bonita, tão amiga. Para ele, deve ter sido o presente mais doce. A mim, lembrou-me outros tempos, outras amizades fortes como esta, que desapareceram da nossa vida.
De Ovar a Lisboa, são duzentos e muitos quilómetros. Aquele Pão de Ló andou esta distância, trazendo, além do seu gosto incomparável, o sabor da amizade, a visão da Ria e do Furadouro, outros tempos, outras gentes. Não foi, mano?
Como pagar uma amizade assim? Retribuindo-a, só.
Linda, minha querida Linda, parabéns pelos teus anos. Obrigada pela alegria que deste ao meu irmão. Obrigada por seres assim.
Falámos há pouco pelo telefone. A tua voz, é igual sempre. As nossas conversas, longas e sempre iguais. Falamos de coisas e gentes que, infelizmente, já partiram.
Restamos nós. Amigos para sempre.
Tu não vais ler isto. Ainda não vais ao computador. Logo será.
Um abraço e mil beijos da tua
Maga

Até um dia destes.
Maria


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Hospital Beatriz Ângelo

Abriu há dias, um novo Hospital. Deram-lhe o nome da 1ª médica, 1ª cirurgiã, 1ª ginecologista, portuguesa: Carolina Beatriz Ângelo. Nome merecido mas, sabendo bem que, neste País, poucos são os que sabem alguma coisa acerca dela, será conhecido como Hospital de Loures.

Ela merecia esta homenagem há muito. Por isso, aqui vai a história dela, tirada da Wikipédia. Leiam que vale a pena.

" Frequentou até ao Liceu em sua terra natal, Guarda [3]. Posteriormente ingressou nas Escolas Politécnica e Médico-Cirúrgica em Lisboa, onde concluiu o curso de Medicina em 1902[4].

Sufragista, destacou-se como militante da Liga Republicana das Mulheres, fundadora e presidente da Associação de Propaganda Feminista [5].

O fato de ser viúva permitiu-lhe invocar em tribunal o direito de ser considerada "chefe de família", tornando-se a assim primeira a votar no país, nas eleições constituintes, a 28 de maiode 1911. Por forma a evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculinopoderiam votar.

Cirurgiã e activista dos direitos femininos, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a votar em Portugal. Estava-se em 1911, a República acabara de ser implantada em Outubro de 1910, e Carolina «torceu» a seu favor um dos «buracos» da lei ou, se se quiser, da língua portuguesa [6].

Carolina Beatriz Ângelo nasceu na Guarda em 1877, onde fez os estudos primários e secundários. Em Lisboa, estudou medicina, concluindo o curso em 1902. Nesse mesmo ano, casou-se com Januário Barreto, seu primo e activista republicano. Tornou-se a primeira médica portuguesa a operar no Hospital de São José, dedicando-se mais tarde à especialidade de ginecologia.

A militância cívica iniciou-a em 1906, em conjunto com outras médicas, vindo a aderir a movimentos femininos a favor da paz e da implantação da República e à Maçonaria e tornando-se defensora dos direitos das mulheres, nomeadamente o de votar. Por toda a Europa, e não só, havia anos que as sufragistas reivindicavam ruidosamente este direito para as mulheres e a Nova Zelândia tinha-se tornado o primeiro país a concedê-lo em 1893.

A primeira lei eleitoral da República Portuguesa reconhecia o direito de votar aos «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família».

Carolina Ângelo viu nesta redacção da lei a oportunidade de a subverter a seu favor, dado que, gramaticalmente, o plural masculino das palavras inclui o masculino e o feminino. Viúva e com uma filha menor a cargo, com mais de 21 anos e instruída, dirigiu ao presidente da comissão recenseadora do 2º bairro de Lisboa um requerimento no sentido de o seu nome «ser incluído no novo recenseamento eleitoral a que tem de proceder-se».

A pretensão foi indeferida pela comissão recenseadora, o que a levou a apresentar recurso em tribunal, argumentando que a lei não excluía expressamente as mulheres. A 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro proferia a sentença que ficaria para a História: «Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral».

Assim, a 28 de Maio de 1911, nas eleições para a Assembleia Constituinte, Carolina Beatriz Ângelo tornou-se a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto. Não sem um pequeno incidente, que a mesma relatou ao jornal A Capital: «No final da primeira chamada, o presidente da assembleia [de voto], Sr. Constâncio de Oliveira, consultou a mesa sobre se deveria ou não aceitar o meu voto, consulta na verdade extravagante, porquanto, estando recenseada em virtude duma sentença judicial, a mesma não tinha competência para se intrometer no assunto».

O seu gesto teria como consequência imediata um retrocesso na lei: o Código Eleitoral de 1913 determinava que «são eleitores de cargos legislativos os cidadãos portugueses do sexo masculino maiores de 21 anos ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português, residam no território da República Portuguesa».

As mulheres portuguesas teriam de esperar por Salazar e pelo ano de 1931 para lhes ser concedido o direito de voto e, ainda assim, com restrições: apenas podiam votar as que tivessem cursos secundários ou superiores, enquanto para os homens continuava a bastar saber ler e escrever.

A lei eleitoral de Maio de 1946 alargou o direito de voto aos homens que, sendo analfabetos, pagassem ao Estado pelo menos 100 escudos de impostos e às mulheres chefes de família e às casadas que, sabendo ler e escrever, tivessem bens próprios e pagassem pelo menos 200 escudos de contribuição predial…

Em Dezembro de 1968 foi reconhecido o direito de voto político às mulheres, mas as Juntas de Freguesia continuaram a ser eleitas apenas pelos chefes de família. Só em 1974, já depois do 25 de Abril, seriam abolidas todas as restrições à capacidade eleitoral dos cidadãos tendo por base o género."

[editar]Wikipédia

Senti-me na obrigação de falar, desta senhora que, admiro de há muito.
O Hospital chama-se "Beatriz Ângelo". Por favor, não lhe chamem "Hospital de Loures"
Até um dia destes.Publicar mensagem
Maria

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A verdadeira imagem da crise


Olhem só, a imagem do pobre Pai Natal! Magro, pendurado, com o barrete a cair...
De certeza não é boy e tem de pagar impostos.
Até um dia destes.
Maria

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Por Cinquenta Euros

Por 50€, aprendi uma lição. Uma lição enorme que, me ensinou a não julgar todos pela mesma tabela.
Depois de muitos barretes enfiados, algum dinheiro emprestadado a pessoas que mal conhecia, passei a ser desconfiada. Ora hoje, descobri que nem sempre se deve desconfiar.
Há cerca de 4 anos, emprestámos algum dinheiro a um rapaz que conhecemos, tendo eu sido amiga da mãe. Esta era uma pessoa honestíssima, com as contas em dia. Os dois filhos, sempre levaram uma vida um bocado leviana, tendo problemas com álcool e drogas. São muito educados, simpáticos e correctos.
No dia em que ele nos pediu uns cobres, fez-me pena mas, pensei que, eram mais uns que não voltavam. O tempo passou e, pensámos sempre, nunca mais ver o dinheiro, até porque ele fugia de nós, como o Diabo da cruz. Achámos que o fazia para não ter de dar explicações.
Passaram 4 anos. Hoje, vendo o meu marido na rua, veio direito a ele, abraçou-o comovidamente, pediu desculpa e... pagou.
Obrigada Fernando. Ainda te lembras dos valores que a tua mãe te ensinou. Obrigada também, por me teres devolvido, um pouco da confiança que perdi nas pessoas.
Confiar é preciso.
Até um dia destes.
Maria

sábado, 31 de dezembro de 2011

Bom Ano Novo

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga


Mais uma vez Torga vem falar por mim.
Talvez porque tudo precisa de recomeço, incluindo eu, escolhi este belo poema.
Vamos todos tentar, recomeçar alguma coisa.
O Ano possível e, até um dia destes
Maria

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Natal Antigo


Nem luzes iluminando luxos e miséria
Nem árvores monumentos valendo alguns milhões
O Natal antigo era uma festa séria
Com bacalhau e couves, um bolo e coscorões.

À noite antes da missa quem era pequenino
Punha um sapato junto da chaminé
Ia dormir sonhando ver Jesus menino
Deixar um livro, uma boneca, um chocolate até.

Descalço e em camisa sem frio na manhã fria
Corria a ver o que o Menino tinha lá deixado
Se era a boneca que há tanto tempo lhe pedia
Se era o livro há meses namorado

As mãos tremiam o coração estalava
E lá estava a boneca o livro tão esperado
Com a boneca ao colo o livro devorava
E era tão feliz nesse Natal Passado.

Maria

Para todos um Natal Feliz.
Calculo que para a maioria de vós, será um Natal menos farto, menos luminoso. Mas os mais velhos já viveram Natais assim.
Eu vivi muitos e, foram muito felizes.
Dêem mais amor e menos prendas. O amor não custa dinheiro.
Para os meus amigos, toda a amizade que cabe no coração da vossa
Maria

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mão, punho, manga de casaco

De há um tempo para cá, tenho um sonho recorrente que, me dá cabo do juízo. É meio surrealista, estranho, sem explicação nenhuma. Apenas um sonho parvo.
Estou num cemitério, num funeral com muita gente, nuvens pesadas a ameaçar borrasca. Depois, alguém, não sei quem, vem ter comigo para me apresentar um homem. Aí, começa o mistério.
Um nome murmurado, uma mão forte e morena que, aperta a minha com força, um punho branco de camisa, uma manga escura de casaco e, uma voz que apenas diz, um “muito prazer” sumido.
Quando tento ver a cara, acordo. Se tivesse tido o sonho só uma vez, já tinha esquecido. Mas repete-se com alguma frequência.
Ora eu, que nunca me preocupei com o significado dos sonhos, que não lhes dou importância, ando às voltas com este. Já estou farta de tentar relacioná-lo com alguma coisa da minha vida e, nada.
De quem será a mão, o punho, a manga a voz, embora baixa, lembra-me alguém mas, não sei quem. É a minha única pista, para este sonho parvo.
E se eu fosse à Maya?
Até um dia destes
Maria

sábado, 10 de dezembro de 2011

Gracias à La Vida Ellis Regina



Obrigada à Vida por tudo o que me tem dado.
Até um dia destes
Maria

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Serões de Antigamente

Nesse tempo não havia televisão em Portugal. Havia telefonia, um aparelho que não tinha imagens, só som.
No inverno, à roda da braseira, sentados à volta da mesa de jantar, esperávamos ansiosos, as nove da noite, hora do folhetim. Boas obras, interpretadas por bons actores. Assim, conheci “As minas de Salomão”, “A paixão de Jane Eyre”, “Os Fidalgos da casa Mourisca”, “A Cidade e as Serras” e, muitos outros livros. Não nos faziam falta as imagens. Actores famosos, interpretavam de tal forma os personagens que, a imagem não fazia falta. Havia um dia da semana, salvo erro, a quarta-feira, em que tínhamos o “Teatro das Comédias” de Álvaro Benamôr. Eram peças, geralmente de autores portugueses, contemporâneos ou, mais antigos. Gil Vicente, Almeida Garrett, Marcelino de Mesquita, Júlio Dantas, Ramada Curto etc. Aos sábados começava a sessão antes de jantar. Era o programa infantil da Madalena Patacho. Meninos da nossa idade contavam histórias. Desses meninos, lembro: João Lourenço, Isabel Wolmar, Morais e Castro e muitos mais. Das histórias, eram sobretudo, as “Aventuras dos cinco” de Enid Blyton que me fascinavam. À noite, havia os “Serões para trabalhadores” que, incluíam cantigas, fados e passatempos em que “uma nota de 500, não se podia deitar fora”. Ao Domingo à tarde vinha a bola e, às vezes as toiradas. Durante a semana, ainda havia programas de Fado, Concertos pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, etc.
Eram serões, em família. O meu pai fazia paciências com cartas, a minha mãe fazia renda, o mano estudava, eu perdia-me a imaginar o que ouvia, a pequenina, às vezes, adormecia no colo da mãe, com o dedo na boca.
Veio a televisão e, adeus serões a cinco. Ao princípio, apesar das falhas, delirei com ela. Era uma telefonia com imagem. Dava bons programas em directo, coisas que interessavam a todos. Agora, é o que temos. Gosto de ver a RTP Memória. Parece que vai desaparecer.
Quero a minha Telefonia de volta! Mas para quê, se também não presta?
Livros, sempre amados, lidos e relidos, só vocês me tiram deste marasmo. Só vocês me dão os momentos de distracção que necessito.
Enquanto tiver livros e vista para os ler...
Até um dia destes.
Maria

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Não coma. Veja o Masterchefe


Num país onde a fome é cada vez mais, onde todos os dias se ouvem previsões catastróficas, sobre o dia de amanhã, onde fecham todos os dias, Restaurantes por falta de clientes e impossibilidade de manter os preços, onde as donas de casa fazem uma tremenda ginástica para por a comidinha na mesa, onde os carros do supermercado saem cada vez menos cheios, vindo a bolsa mais vazia, onde cada vez mais se recorre à sopinha dos pobres, há algo que aumentou nos écrans da TV: os programas de culinária. Sempre os houve, é verdade. Mas não havia comparação possível. Que saudades da Maria de Lurdes Modesto e das suas receitas simples, bem confeccionadas, usando ingredientes que, todos conheciam! Que saudades da Filipa Vacondeus, mais virada para a cozinha regional portuguesa, cozinha rica e saudável! Devo-lhes muito do que sei e, não cozinho mal, dizem. E houve o Mestre Silva, simpático, brincalhão que preparava bons pratos e petiscos.
Uma vez por semana, lá vinha a receita que, era escrita numa qualquer folha de papel, para uma próxima experiência culinária.
Agora tudo mudou. Para a gente não ter a mania de experimentar as “delícias” dos muitos Masterchef, alguns estrangeiros, estes aparecem trajados a rigor, usam linguagens estranhas, ingredientes estranhíssimos, caríssimos, de que nunca ouvimos falar, utilizam máquinas para tudo, numas cozinhas de sonho. Depois de muita correria, idas ao forno e ao fogão, alguns ao microondas, estafados, transpirados, ofegantes, aparecem com três pratinhos, maravilhosamente decorados e coloridos: uma entrada, um prato principal, uma sobremesa. Tudo em pouca quantidade, por causa da austeridade, acho eu. Devem querer mostrar que os olhos é que comem, será?
O facto é que no tempo dos outros, as senhoras corriam para a TV à hora da Teleculinária.
Agora se fossem fazer isso, ninguém comia, porque mal acaba um, num programa, logo começa outro no vizinho.
Será que os senhores da televisão, ouviram a frase da Maria Antonieta: “Não têm pão? Comam brioches”? o que no nosso caso se puderia traduzir para: “Não tens açorda, come Haute-cusine”.
Cada um come o que gosta e pode, mas não chateiem. Já chegam as telenovelas, a bola. Mas isso fica para outro dia.
Até um dia destes
Maria

sábado, 12 de novembro de 2011

Timor, vinte anos


Para que nunca esqueçamos.

Até um dia destes
Maria

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Diálogo de Olhos

- És tu?

Sou eu.

- Quantos anos passados e, eu nunca esqueci os teus olhos.

Não? Porquê se esqueceste o resto?

- Não, não esqueci, lembro-te muitas vezes. E tu esqueceste?

Ás vezes, nem me lembro que exististe. Outras, lembro vagamente, alguns momentos.

- Estás a mentir. Lembra-te que sei ler nos teus olhos.

Não, não soubeste. Se tivesses sabido...

- Que veria, diz!?

Quando importava, não leste nada. Agora não vale a pena.

- Achas que é tarde? Eu não te esqueci. Esqueceste tudo?

Não houve nada para esquecer. Nada se passou.

- Estás a mentir!

Vês? Nunca soubeste ler nos meus olhos.

- Agora não quero ler.

Desvia os olhos.

- Não quero desviar. Quero lembrar.

Eu nada tenho a esquecer. Adeus.

Hoje, viajei pela imaginação.

Até um dia destes,

Maria