Quadro de Paula Rego
Impõe-se uma breve explicação. Isto passou-se
há mais de quarenta anos, num tempo em que às mulheres eram negados todos os
direitos. Uma menina que tivesse tido relações sexuais com um homem, tinha
várias soluções. Se era rica, ia a um médico especialista que por artes mágicas
lhe restituía a perdida virgindade. Se tinha menos dinheiro ia a um médico,
geralmente amigo da família, que lhe passava um atestado em que assegurava que
a menina tinha tido o azar de cair em cima duma pedra, andara demais a cavalo,
qualquer coisa que desse ao futuro esposo a certeza de a ter em primeira mão.
Quando era uma pobre moça sem posses, sem conhecimentos, o remédio era ficar
solteira e para tia, ou passar de mão em mão. Qualquer rapariga que passasse
por isto, dizia-se “enganada”. Quando a menina era menor e as coisas chegavam a
tribunal, o custo da pureza dela eram quarenta contos, que o senhor que a tinha
“enganado” pagava. Se não acreditam, perguntem.
Conheci uma e aqui começa a história, que ma
contou assim:
“Tinha dezassete anos quando o conheci.
Dizia-se viúvo, com um filho. Dava-me muitas prendas. Arranjou emprego aos meus
irmãos.
Dizia que íamos casar a Fátima e que eu teria
um belo vestido branco e flores de laranjeira. Eu acreditei nele. Acreditei
tanto, que a flor de laranjeira teria sido uma mentira.
Um dia, a minha irmã descobriu que ele era
casado. Eu chorei, ameacei que o deixava. Mandou-me calar e contou tudo à minha
mãe. Eu gostava dele e não via maneira de o deixar.
Pôs-me casa, deu-me roupas, jóias,
visitava-me todos os dias, mas à noite voltava para casa, para a mulher. Era o
que me custava mais. Noites e noites sozinha, numa casa bonita, mas vazia.
As pessoas falam de mim, eu sei, ouço-as: lá
vai ela, a amante do empreiteiro. Estas é que a levam direita. Coitada da
mulher... Eu também tenho pena dela, mas pelo menos à noite, no Natal nos dias
de festa é com ela que está, eu estou sozinha.
Engravidei. Fiquei contente. Não voltaria a
estar só. Disse-lhe e ele secamente, mandou-me preparar para ir no outro dia à
parteira. Chorei, pedi, insultei. A resposta foi uma carga de porrada tão
grande, que já não tive de ir à parteira. Continuei com ele e com a mágoa de
nem um filho poder ter. A outra tem três. Tenho tudo, dizem elas. E as noites
de solidão? E a casa sem um riso de criança? E os meus dias vazios? Tenho tudo.
Sabe? Ele casou com ela em Fátima. Ela foi de
branco e flor de laranjeira. Ele mostrou-me as fotografias.
Pois. Eu sou a outra, aquela que só tem a
parte boa de um homem.
Mas não me importava de trocar a casa, os
vestidos, as jóias, por um homem só meu, a quem lavasse a roupa e cosesse as
meias, um filho, companhia à noite. Mesmo que fosse numa barraca.”
Quem me contou isto já morreu. Fui amiga dela
muitos anos e sei a grande mulher que era.
Felizmente que tudo hoje é diferente. As
mulheres são livres e conquistaram direitos. Hoje é normal as mães avisarem as
filhas dos perigos que correm, aconselharem a pílula ou outro contraceptivo.
Naquele tempo a palavra de ordem era: Defender a virgindade de todas as formas.
Que estupidez, que hipocrisia, que coisa tão incrível, não mocinhas? Mas era
assim.
Até um dia destes
Maria




