
Há cerca de 52
anos, passei um mês de férias com um casal amigo dos meus pais, numa pequena
aldeia, chamada São Bartolomeu do Mar, a uns quilómetros de Esposende. Lá
conheci, uma prima da amiga com quem fora, uns anos mais velha do que eu,
casada e com uma filha pequenina. Tornámo-nos muito amigas. Eles tinham alugado
uma barraca de pescadores, que ficava numa ponta do vasto areal. De manhã íamos
à praia, mas à tarde, geralmente a ventania era tanta, que não saíamos de casa.
A menina dormia a sesta e nós abancávamos à mesa, perto da janela, com a
garrafa, os cálices, bolacha Maria, às vezes os dados e conversa para a tarde
toda. Todos gostávamos de falar e contar histórias. Ele, mais velho do que a
mulher, sobrinho de um conhecido escritor, inteligente, professor de
surdos-mudos, tinha uma enorme cultura e grande conhecimento do Porto de outras
eras; Ela, pertencia a uma das boas famílias do Porto. Tiveram um romance
atribulado, tinham uma vida apertada, mas eram felizes. Discutíamos História,
Literatura, até política. O nível da garrafa descia e, para falar verdade o da
conversa também. Vinham as anedotas, a má língua, as aventuras e desventuras
dos conhecidos. No dia seguinte, um de nós ia à ti’ Albina, misto de tasca,
mercearia, retrosaria, talho, buscar outra garrafa, a mais barata claro, e as
bolachas.
Às vezes à
noite, esvaziado o estábulo das vacas da ti’Albina, ligado o gerador, ligada a
televisão, quem queria ver o programa, levava a cadeira ou o banco de casa,
pagava 1$00 e via, mais ou menos às riscas, “A Dama das Camélias”, “As duas
Órfãs”, “Os três Mosqueteiros”, com direito a leitura das legendas em voz alta
e ao agradável e saudável, cheiro a estrume de vaca.
Porque me veio tudo isto hoje à memória? Porque bebi um cálice de Porto à saúde
de um familiar que faz anos.
Mais uma vez,
a saudade bateu à porta da minha alma. A maioria dos meus companheiros dessas
férias, ou morreram, ou nada sei deles.
Dos meus dois
companheiros dessas tardes, sei que ele morreu. Dela e da filha nada sei e
tenho pena.
Comecei a
brincar, acabo triste. Saudades Tony, onde estiveres. Saudades Lai. Por onde
andas?
E São
”Bartolonosso”, ainda terá o “banho santo”, no fim de Agosto?
Ai meus 15,
aonde vocês vão!
Até um dia
destes.
Maria