segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Hier encore


Tinha onze anos, tranças e vivia em Tomar onde nasci. Amava aquela terra e estava presa a ela por raízes fundas, muito fundas.
Os meus pés sabiam de cor cada pedra das ruas, os meus olhos abriam-se sempre com a visão do Castelo e dos jardins, os meus ouvidos conheciam a música do rio e das rodas, o meu nariz sentia os cheiros todos daquela terra. Longe dela estiolava, enfraquecia, ficava triste. Era o meu chão, a minha casa, o mundo que conhecia bem.
As férias, passadas entre Lisboa e o Carregal, eram apenas intervalos que serviam para renovar o amor e a saudade de Tomar.
Nesse ano saí e não voltei. Vim para Lisboa, depois para o Carregal e no fim, em vez de voltar para o meu cantinho, fui para o Porto. A vida dos funcionários públicos era assim.
Não vi o Rio, nem a serra, porque atravessar a ponte de combóio me meteu um medo horrível. Não gosto de pontes. Sempre tive medo delas, mas aquela apavorou-me. Escondi a cara no peito do meu Pai e não vi nada. Cheguei a São Bento chorosa, trémula, medrosa com aquela terra onde era preciso passar uma ponte que tremia por todo o lado, fazia ruídos estranhos e obrigava o combóio a andar devagarinho. Este primeiro contacto não ajudou nada a minha pouca vontade de morar ali.
A casa pequena, tão diferente daquelas onde morara até aí, não me agradou. Detestei a terra, detestei a casa, irritava-me a maneira de falar e certos termos usados por aquela gente estranha que não me percebia, se ria da minha forma diferente de falar. Quando começaram as aulas foi ainda pior. O Colégio nada tinha a ver com o meu velhinho Nun`Álvares. As caras que via à minha volta, não eram a Jú, a Lena, a Isabel, a Pilar, a Eduarda, minhas colegas de sempre. Murmuravam quando eu passava: “É a nova”. Diziam coisas que não percebia, tinham rostos diferentes. Primeiro revoltei-me, tornei-me bicho do mato, não falava com ninguém. A pouco e pouco as coisas melhoraram, mas ali não tive amigas.
No ano seguinte mudei para o Carolina e fui mudando. Já me dava com as colegas, já falava, já entrava nas brincadeiras. As saudades de Tomar continuavam, não gostava daquela terra. Só o rio e a Ribeira me encantavam. A pouco e pouco fui descobrindo alguma beleza na terra, sem chegar a gostar dela.
Aquele nevoeiro, aquelas ruas e casas escuras, aquelas noites que caíam muito cedo, faziam-me triste. Havia muita humidade e a minha saúde ressentia-se. A minha Mãe, sempre frágil, começou a estar doente com muita frequência. Uma das vezes, tinha 15 anos, quase a perdi. Foram 10 meses de hospital para as duas. Pouco saía do lado dela. De tudo eu culpava o Porto. Das doenças da Mãe, da minha tristeza, dos azares da vida.
Claro que me fui adaptando. Tinha amigos, paixões eternas que duravam alguns dias.
Um dia fartei-me e vim para casa dos meus tios em Cascais. Vinha doente, fraca, magra. Foi aí que tudo mudou. Conheci o meu marido, apaixonei-me, casei no Porto, onde nasceram os dois putos mais velhos. Assim que o meu marido acabou a tropa, viemos para baixo e cá fiquei.
Não pensava muito no Porto, embora tivesse algumas saudades dos amigos. Voltei lá algumas vezes e gostei do que vi.
Um domingo destes, voltei a ver “A Costureirinha da Sé”. As lembranças vieram fortes, acompanhadas de um sentimento parecido com saudade. Recordei amigos a quem não vejo há séculos, ruas onde passei muitas vezes, as casas em que morei, a minha juventude. De repente achei o Porto lindo. Vi-me como era há quarenta e muitos anos, nova, diziam que bonita. Ao ver e ouvir a Fátima Bravo, lembrei-me da avassaladora paixão do meu irmão por ela, da voz da Maria Clara a cantar aquelas canções, da voz da minha Mãe a repeti-las. Foi muito bom.
Deixei a televisão no mesmo programa, a RTP Memória claro. Veio o Júlio Izidro com o “Regresso ao Passado”. Deixei ficar. Afinal era lá que eu estava. Uma voz bonita de rapaz cantou o “Hier encore”. Não podia vir mais a propósito. Chorei, eu que nunca choro.
Um dia destes vou voltar ao Porto e vou-lhe pedir perdão de tão tarde ter descoberto que afinal o amei. Não com o amor que tenho a Tomar, Lisboa, Paris ou Florença. Mas amo-o e tenho saudades.
Um abraço amigos tripeiros que nunca mais vi. Quem sabe, um dia destes nos encontramos?

23 comentários:

Andre Moa disse...

Eu mal conheço o Porto, mas atrai-me. Não sei porquê seduz-me, mas sinto que nunca casaria com ele. Aquela baixa tem carácter e traça, coisa que Lisboa, se os teve, os perdeu há muito.
E o Douro é mais aconchegador do que o mar da palha.
Mas como gostos não se discutem, continuarei a "amar" o Porto à distância e a usufruir os requebros de Lisboa, desde a sua cor única, ao seu calor feito de suaves brisas.
Mas, viva Tomar. E Tabuaço.
Beijinhos
André Moa

Osvaldo disse...

Maria;

Que história de amores, mêdos e paixões!...
Compreendo-te e o Moa que comentou antes também tenho certeza que sim, o porquê desse teu amor sagrado por Tomar, porque é certamente o mesmo que nós (o Moa e eu) sentimos por Tabuaço.
Como sabes tanto ele como eu já vivemos noutras latitudes (e longitudes), em cidades de encantar como se pode ler nos folhetos turisticos, ambos conhecemos, assim como tu, outros países, outras terras, outros Continentes, cada qual com sua beleza ímpar, já viagei (e continu-o), assim como vocês por muitas Lisboas e muitos Portos deste Planêta, mas apenas Tomar (para ti) e Tabuaço (para nós) tem o seu ponto marcado com letras de saudade no mapa da história e da vida.
Por isso é que no perfil do meu blog eu digo;
"adoro a palavra Saudade, mas não me perguntem porquê..."
Mas também é verdade, que por onde passamos deixamos sempre amigos.
beijinhos, Maria e um grande abraço para o João e Vasco.
da Anita e Osvaldo

Maria disse...

Querido André
Lembrei-me muito de ti quando o fogo que anda a queimar o nosso país, rondou Tabuaço. Estive uns dias com a filha no Algarve, atravessei mais uma vez o Alentejo que adoro e quando cheguei cá, o calor acabou comigo. Tenho andado mole, meia a dormir, sem vontade para nada.
Vamos ver se agora ponho a escrita em dia. Mal tenho vindo ao computador.
Beijo
Maria

Maria disse...

Osvaldo
Eu deveria me chamar Maria da Saudade. O meu pensamento vive sempre no passado recente ou ainda mais longe.
E é Tomar, como para vós Tabuaço, o cofre forte das minhas boas recordacções.
Beijinhos para ti e Anita, um abraço do João.
Maria

Zé do Cão disse...

Maria
Ia comentar, mas...
Fiquei comovido, com a maneira como descreves a tua sinceridade.
Conheço o Tejo, o Nabão o Douro e as suas cidades. Pelo Porto senti o que sentiste, que medo horrível que tinha daquela ponte e ainda hoje não me sinto à vontade quando atravesso alguma.
obrigado por este texto

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Primeiro, um registo: deshibernaste. Também tenho o direito da invencionte palavrática.
Sê bem vinda, pelo menos para mim, que muito ansiava pelo teu retorno; és, portanto, uma retornada, sem qualquer sentido pejorativo.

Já quanto ao Puerto, estamos combersados, carago! Não gostei, não gosto e não gostarei. A primeira vez que lá fui, puto e bem puto, oito anos escanzelados - era, ao tempo, um pau de virar ossos, quem diria... - foi com os meus pais e o meu irmão Braz, o maluco que também por aqui escrevinha.

Fomos no Morris Minor, HA-17-63, verde alface, e ficámos instalados no Hotel Batalha. O nosso quarto, do meu mano e meu, ficava virado para o rio e descobri as esdadinhas dos Guindais. Se eu já falasse mais a eito, seria uma merda. Era, mas não disse.

E veja-se o que são as coisas: a minha Mãe tinha nascido em Águas Santas, Maia, mas tivera a sorte de emigrar para Portalegre com sete meses. O meu Avô Braz era, então, sargento da Guarda Fiscal, tendo chegado a Senhor Tenente e a ir ao pálio nas procissões. Caracol de casa às costas, como bem entendes.

Tenho talvez o meu melhor Amigo, o Francisco (Chico) Manuel Cardoso Teixeira, nortenhíssimamente tripeirro, maila famelga idem, idem, aspas, aspas. Mora na cooperativa Mãos à Obra (de que ele foi o principal... obreiro) em Rio Tinto. E o Jorge Villas, e o Viale Moutinho,e a Helena Mendonça. e, e, e.

O JNPdaC é um fdp com toas as letras. Já pediu a MINHA cabeça numa bandeja como a do João Baptista. Sou antipintista e antiportista militante.

Basta de Puerto, canudo. Quando miúdo, o melhor que ele tinha era a estação de Campanhã, onde se tomava, felizmente, o combóio para Santa Apolónia. Hoje, sem dúvida nenhuma, é o aeroporto Sá Carneiro, puerra!

Abs tri e qjs para tu

PS (ai, ai) - E deixa-te de ursadas, digo, hibernações. Ontem, quando falei contigo ao telefone, pensei que estava a ouvir o Lázaro; ou seja, a Lázara.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

ADENDA

... en passand: bota um cumentário, com o, lá no meu buraco, salvo seja. É uma O=R=D=E=M!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

Querida Maria,

Como vives agarrada ao passado, como vives das saudades ! Tens um passado de muitas histórias, de medos, de choros e eu, mal me lembro do passado, não me lembro de medos ou choros. Somos tão diferentes uma da outra e no entanto um doce sentimento de amizade existe entre nós !
Também deve haver uma grande diferença entre nós as duas : tens uma excelente memória e a minha é como um queijo Gruyère : está cheia de buracos ! São várias as razões desta perda de memória mas costumo dizer "é pena não me lembrar das coisas boas que me aconteceram mas é tão bom ter esquecido das más !" É a Verdinha a ver sempre o lado positivo de tudo !

Bem-vinda de novo à blogosfera ! Já tinha saudades de ti !

Beijinhos
Verdinha

No meu outro blog - Le coffre des Trésors de Verdinha - também coloquei um vídeo com o Aznavour a cantar Ave Maria.

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

e como escreve o Henrique
ADENDA :

E ainda bem que tens tanta memória porque assim aprendemos e ficamos encantados ao ler os teus "souvenirs" !

Re-Beijinhos
Verdinha

Maria disse...

Zé amigo
As terras são como as pessoas: de umas gostamos muito, outras detestamos. Depois, às vezes reparamos que nos enganámos.
Parabéns pelo teu aniversário.
Beijo
Maria

Maria disse...

Henriquamigo
Continuo sem ideias, sem vontade de escrever, sem paciência. A crise de preguiça não passa.
Olha que o Porto até tem que ver. Já o Pinto não consigo vê-lo nem em fotografia. Irrita-me, melhor, enoja-me. Gostos!...
Abs dos homes, beijinho à Raquel e queijinhos para tu
Maria

Maria disse...

Querida Verdinha
Somos amigas porque somos diferentes. Cada uma é o que é, respeitamo-nos e gostamos uma da outra.
Há outras coisas que nos unem.
A minha memória é de nascença, mas tem sido muito treinada. Vivo muito virada para dentro.
Gostava de esquecer algumas coisas, mas não consigo.
Abraço grande
Maria

Alva disse...

Maria,

Os amigos guardam-se sempre na nossa memória para uma vida toda!
E sabes porquê? Porque nos preenchem a alma, porque nos conseguem fazer felizes!

Quanto ao Porto, fui lá à um ano atrás... e na minha opinião é uma cidade que fascina qualquer um. Tem "um não sei quê" de místico e de apaixonante que eu não consigo bem explicar.

Muitos beijinhos para ti,
A tua pequenina

Laura disse...

O Porto, ah o Porto
é um garoto ao pé de Lisboa
a Lisboa velhinha
que tem Alfama
e a Tendinha.

Ah, o Porto
saudade louca
e nem é pouca
de quem lá vive
e sobrevive em ânsia louca.

Ah, o Porto
mesmo sujo
roto é o Porto
e não há outro
nem o inventem.

Porque o Porto
é terra amiga
dá-nos fado
em cada cantiga
e uma mão amiga!

Maria, nem sei como saiu isto..é, foi assim..pensei que nada de novo havia por aqui..
Beijinhos da miuda que de vez em quando apanha o combóio para ir ver o cais, e tanta coisa típica..
Laura

Kim disse...

Para quem não está com pachorra para escrever, nada mau!
Já sei! Foi o reavivar de lembranças boas e saltou-te a veia. E quando assim, todas as palavras são poucas para dizer quão felizes elas nos fizeram.
Hier encore é também um hino à saudade duiem sessentão.
Beijinho Petite Mar

Maria Soledade disse...

Kida Maria:Passei por aqui para te deixar o meu Muito Obrigada pelas tuas palavras no meu último trabaho.


*****Talvez porque o Porto se tornou o meu "porto" de abrigo há mais de 50 anos eu o ame tanto.Deixa-me triste o tom jocoso com que falam da "minha" cidade.Para se gostar do Porto,é preciso conhecê-lo, e não falar simplesmente, porque sim....

A má pronúncia deve-se a algumas localidades e não ao Porto de uma forma geral.Poucos o sabem,até porque a comunicação social(televisa),faz questão de MOSTRAR e fazer OUVIR a pronúncia das zonas do Porto em que esta é realmente muito má.

Falando em comunicação social, devo dizer e ESCLARECER o amigo Henrique Ferreira que não se pronuncia(mal,claro)Puerto, mas sim PUORTO.Também e da mesma forma não é puerra (já agora),mas sim Puorra!!!

***Quanto à "bolinha" é realmente uma grande dor de cotovelo quatro derrotas seguidas, não é?!CARAGO,custa mas que o FCP é o melhor,ai isso ninguém tenha dúvidas...Ai,JESUS.............

Apesar de tanto gozarem com o "meu" Porto eu continuo a dizer que gosto de Lisboa(até porque tenho lá umas quantas costelas),mas gosto porque conheço, e não apenas porque....sim!!!!!!!!

Beijinhos Maria

Muitooooossss

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

De saudades tenho também o peito cheio.

Corvo disse...

Tenho pena de não conhecer melhor o Porto, pois parece-me ser uma Cidade que tem muito para ver, para descobrir. Hei-de lá ir com mais tempo, mas não de carro, já que o trânsito lá ainda é pior que o de Lisboa!
Só hoje li o teu "post", embora o seu conteúdo não me tenha trazido qualquer novidade. Já tinhas comentado que sentiras saudades ao ver o filme.
Alguns são os filmes portugues que podes sentir nostalgia de os ver, e podias fazer um ciclo de post's sobre esses filmes. Que tal?

Beijinho.

Laura disse...

Ora viva a nossa Soledade, cada um defende o que é seu... o Porto mais perto para mim, claro, Lisboa que já não conheço e onde me perco de certezinha...
Na verdade o Porto vai ganhando todas, só perde uma vez ou outra..que foram campeões antes? foram sim, e o benfica não tem tantas vitórias, mas, que se lixe..tripeiros e Lisboetas, todos amigos é o que é!!!

Beijinho da laura.
Tenho fotos do Osvaldo no resteas... hum, hum...

Maria disse...

Queridos amigos
A falta de notícias e respostas aos vossos comentários deve-se, não a preguiça, mas a uma valente distensão nas costas, que me tem tido deitadinha na cama, sem mexer neste bicho. Vou tentar a pouco e pouco, responder a todos e visitar os vossos blogues. Vamos ver se isto passa depressa. Estou farta desta imobilidade forçada.
Desculpem e beijinhos para todos.
Maria

Laura disse...

Tadinha da nossa maria, ah, o bicho pespegou-te pelas costas? ai o malandro...
Um beijinho e fica bem de todo..laura

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

Cara Maria.

Votos de rápida melhora.

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

Querida Maria,

Está na altura de comprar um computador portátil para levar para a cama...
Também estive muito mal das costas - então não havia de estar com 6 hérnias discais ??? - e não deixei de utilizar o meu PC, bem sentada no meu sofá mais confortável com o computador no joelho.
Vê se esta posição te agrada...
As termas em São Pedro do Sul me fizeram bem, não foi logo mas passado um tempo. No Estoril, fazem o mesmo tipo de tratamento (aconselho-te o Bertolaix) e é mais perto...
artigo sobre as termas do Estoril.

Tenho saudades das tuas visitas, sabes ?
Beijinhos
Verdinha