quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Férias, uma garrafa de porto, 3 cálices e muita juventude



Há cerca de 52 anos, passei um mês de férias com um casal amigo dos meus pais, numa pequena aldeia, chamada São Bartolomeu do Mar, a uns quilómetros de Esposende. Lá conheci, uma prima da amiga com quem fora, uns anos mais velha do que eu, casada e com uma filha pequenina. Tornámo-nos muito amigas. Eles tinham alugado uma barraca de pescadores, que ficava numa ponta do vasto areal. De manhã íamos à praia, mas à tarde, geralmente a ventania era tanta, que não saíamos de casa. A menina dormia a sesta e nós abancávamos à mesa, perto da janela, com a garrafa, os cálices, bolacha Maria, às vezes os dados e conversa para a tarde toda. Todos gostávamos de falar e contar histórias. Ele, mais velho do que a mulher, sobrinho de um conhecido escritor, inteligente, professor de surdos-mudos, tinha uma enorme cultura e grande conhecimento do Porto de outras eras; Ela, pertencia a uma das boas famílias do Porto. Tiveram um romance atribulado, tinham uma vida apertada, mas eram felizes. Discutíamos História, Literatura, até política. O nível da garrafa descia e, para falar verdade o da conversa também. Vinham as anedotas, a má língua, as aventuras e desventuras dos conhecidos. No dia seguinte, um de nós ia à ti’ Albina, misto de tasca, mercearia, retrosaria, talho, buscar outra garrafa, a mais barata claro, e as bolachas.
Às vezes à noite, esvaziado o estábulo das vacas da ti’Albina, ligado o gerador, ligada a televisão, quem queria ver o programa, levava a cadeira ou o banco de casa, pagava 1$00 e via, mais ou menos às riscas, “A Dama das Camélias”, “As duas Órfãs”, “Os três Mosqueteiros”, com direito a leitura das legendas em voz alta e ao agradável e saudável, cheiro a estrume de vaca.
Porque me veio tudo isto hoje à memória? Porque bebi um cálice de Porto à saúde de um familiar que faz anos.
Mais uma vez, a saudade bateu à porta da minha alma. A maioria dos meus companheiros dessas férias, ou morreram, ou nada sei deles.
Dos meus dois companheiros dessas tardes, sei que ele morreu. Dela e da filha nada sei e tenho pena.
Comecei a brincar, acabo triste. Saudades Tony, onde estiveres. Saudades Lai. Por onde andas?
E São ”Bartolonosso”, ainda terá o “banho santo”, no fim de Agosto?
Ai meus 15, aonde vocês vão!
Até um dia destes.
Maria

28 comentários:

Alfredo Caiano Silvestre disse...

Gostei, Maria.
Beijinho.

Tété disse...

Maria,
Também se vive de recordações e sobretudo como estas, que embora nos tragam nostalgia, nos fazem sorrir dos bons momentos passados.
O tempo não pára e quando damos conta já passaram muitos anos por cima dos instantes que registámos e que tanto prazer nos deram; mas vale a pena recordar as amizades vividas que deixaram registo profundo na nossa memória.
Grande beijinho

MCP disse...

Olá Amiga,
Gostei de ler o que, mais uma vez, connosco partilhou.
Os anos passam e por vezes, deixamos de saber de pessoas que nos foram queridas e com quem passámos momentos inesquecíveis.
Aconteceu-me um caso identico com uma amiga de infância. Fizemos o percurso escolar juntas, passámos fins de semana maravilhosos na Serra de Tomar, terra dos pais dela, casámos no mesmo mês, diferença de dias, temos um filho da mesma idade...não a vejo há anos, tantos quanto a idade dos nossos filhos.
A vida é assim...ficam os bons momentos passados, para recordar.
Um grande abraço e bom fim de semana.
MCP

Maria disse...

Obrigada, Alfredo.
Vivo muito no passado, porque o presente me assusta.
Abraço
Maria

Maria disse...

Tété amiga:
Quanto mais o tempo passa, mais me lembro de histórias destas. Momentos em que fui feliz, amigos de quem não sei há muito.
Obrigada e um abraço
Maria

Maria disse...

MCP:
Ultimamente, lembro-me muito dos amigos que foram ficando pelo caminho.
Uns, porque a morte os levou, outros, porque seguimos caminhos diferentes.
Um abraço grande e bom fim de semana.
Maria

jorge esteves disse...

Não sei já como vim até aqui; mas sei que não foi por causa do 'vinho do Porto', isso sei!...
Depois de ler o desfiar de memórias, ficou-me, também, umas idas a S. Bartolomeu. Antes, muito antes,era uma praia excelente!...
Do mais, ficou, é verdade, a 24 de Agosto, a 'festa', é verdade.
Mas os banhos santos, as galinhas pretas, e as voltas ao altar, isso, com o tempo, 'plastificou-se muito. E é pena!...
Ao resto, afinal, foi interessante passar aqui!
Abraço!

Maria disse...

Bem vindo, Jorge.
Gostei muito daquelas férias. Gostei da terra, dos usos, das pessoas.
Gostava de ir, pela praia até Esposende.
Não sei porque me lembrei hoje deste tempo. Talvez porque me lembrei dos amigos. Ando a pensar muito, nos tempos antigos. Sinal de velhice.
Obrigada.
Abraço
Maria

Um Jeito Manso disse...

Olá Mary,

Grandes tempos esses, não é? Quando se é adolescente ou jovem adulto, há tanta vida pela frente. Mas depois começam as perdas.

Ainda há bocado estive com a minha princesinha pequenina a ver o álbum com as fotografias do casamento dos pais. Pelo menos duas pessoas que lá estavam, um dos quais um tio de que eu tanto gostava e que, ali, parecia respirar saúde, já cá não estão.

Mas, enfim, é mesmo assim, uns vão, outros vêm. É que, em contrapartida, depois disso, já me nasceram três netos (o mais crescidinho já era nascido nessa altura e, aliás, fartou-se de dançar para divertimento de toda a gente).

O importante é preservarmos e acarinharmos essas boas recordações.

Um abraço, Mary!

Maria disse...

Amiga:
Há dias, estive a ver as fotos do Baptizado do Vasco. Entre elas, há uma de grupo, com bastantes pessoas. Pus-me a contar e, fiz a triste descoberta que, metade já partiu.
Tenho muitas fotos desta época de São Bartolomeu. Nem sei quantos ainda restam. Ainda há 3 anos, morreu um, pouco mais velho do que eu. Nunca mais o tinha visto, encontrei-o no funeral de uma tia comum e, passados uns meses, soube que tinha morrido.
É bom recordar, mas às vezes, entristece.
Abraço grande
Mary

Kim disse...

Destas imagens que nos restam passado, só vale a pena recordar os bons momentos, como tu fizeste.
Dos que já partiram ficam-nos os bons momentos que partilharam connosco e as alegrais que nos deram.
um grande beijinho petite Marie!

Maria disse...

Kim, amigo:
São pedaços da minha vida, que deixo aqui, ao mesmo tempo que os volto a viver.
Depois de um ano no hospital, onde a minha mãe esteve entre a vida e a morte, foram-me oferecidas essas férias. Bons amigos! Lembro-os a todos com ternura.
Beijinho
Petite Marie

MCP disse...

Bom dia Amiga,
Hoje quero só dizer-lhe que acho que a conheço, fez-se-me uma certa luz...
Será que o seu filho se chama João Vasco e tem à volta de 33 anos?
A minha filha tem essa idade e teve um colega, na escola primária, com esse nome.
Estarei errada?
Beijinho e óptimo domingo.
MCP

Maria disse...

MCP:
Está certíssima.
A professora era a Dona Claudina Mestre.
Quer-me dizer o nome da sua filha?
O mundo é pequeno e Odivelas também.
Abraço
Maria

MCP disse...

Amiga,
A minha filha é Sofia Parreira, foi colega do Vasco.
A professora essa mesmo.
Eu tinha quase a certeza!
Nós também nos conhecemos.
Tive uma tia (tia do meu marido) que viveu durante muitos anos, até falecer, no seu prédio, no 1ºDtº. (Cândida Raposo).
Como vê estamos bem pertinho!
Beijinhos grandes para si e para o Vasco.
MCP

Maria disse...

MCP:
Assim que vi o seu comentário anterior, lembrei-me da Sofia e de si, assim como da minha vizinha, Dona Cândida.
Um dia destes marcamos um encontro.
O Vasco vai ficar surpreso.
Beijinhos para si e Sofia.
Maria

MCP disse...

Sim Amiga,
Terei todo o gosto, diga quando lhe der jeito.
Também vou contar à Sofia.
MCP

elvira carvalho disse...

De saudades todos nós temos na memória uma gaveta cheia. Da casa onde nascemos, dos primeiros companheiros de infância, de um primeiro amor, do nascimento dos filhos, do seu primeiro sorriso, de daqueles que amamos e partiram... enfim são tantas coisas. Lembranças felizes ou dolorosas que fazem parte de nós.
O que ninguém pode minha amiga é viver apenas de memórias. Quem vive no passado não conhece o sabor do presente. Um abraço amiga. E uma boa semana

Maria disse...

MCP
Temos que combinar, sim. Eu saio pouco de casa. A MCP, sabe onde moro.
É só subir até ao último andar, do lado contrário. Será sempre bem vinda.
Também já falei ao Vasco, que me perguntou muito pela Sofia e mandou beijinhos para ela e para si.
Um abraço maior do que é costume.
Maria

Maria disse...

Minha querida Elvirinha:
Sei que me entende bem.
Eu acho que tenho caixas, gavetas, malas e, mais que tudo, a minha cabeça e o meu coração, cheios de lembranças. Alegres, tristes? Que importa? É a minha vida toda inteira.
Gosto muito de si.
Beijinho
Maria

Maria Eduardo disse...

Olá Maria,
Gostei muito desta história do seu livro de memórias que partilhou connosco. Tenho também muitas lembranças dos meus tempos de escola, da juventude, do liceu, etc.etc. e por vezes dá-me para folhear o albúm de fotografias,e um dia resolvi indagar o paradeiro de algumas e não é que já reencontrei amigas que tinha perdido de vista, há quase meio século?.
É mesmo bom!... Porque não tenta reencontrar algumas delas, umas levam-nos a outras e assim sucessivamente? Pode ter surpresas muito boas!... as más,se as houver, ficam arquivadas no livro do nosso coração, mas pelo menos podemos recuperar algumas recordações a meias com mais alguém.

Fiquei tão feliz por ter reencontrado algumas das minhas amigas de passado, que até fiz um pequenino post nessa altura. Caso possa e queira ler, é com todo o prazer que lhe indico o link:
http://asminhascriatividades.blogspot.com/2011/05/os nossos tempos de escola.html

Conte-nos as suas lembranças, se lhe der prazer, a mim dá-me prazer lê-las.
Um grande beijinho
ME

Olinda Melo disse...


Querida Maria

Bons momentos! E é tão bom recordá-los, não é? E tudo acontecia com uma simplicidade enorme.As recordações fazem parte da nossa vida e aquecem-nos a alma.
Obrigada.

Beijinhos

Olinda

Maria disse...

Maria Eduardo:
Acho que todas nós, sobretudo depois de certa idade, começamos a viver um pouco do passado.
Aderi ao FB por isso.
Como a minha vida foi passada em várias terras, é um pouco difícil.
Já publiquei fotos da primária, do colégio. Até agora nada. Tenho esperança de encontrar algumas antigas. Entretanto vou arranjando amigos, alguns muito bons, como a Mª Eduardo.
Obrigada e beijinhos.
Maria

Maria disse...

Doce Olinda:
Como tudo era puro e simples! As lembranças ajudam a aguentar um presente, um pouco difícil. Se não fosse o passado, já estava maluquinha.
Beijinhos, querida.
Maria

Maria Eduardo disse...

Olá Amiga,
Eu é que me sinto honrada por ter ganho mais uma Amiga, costuma dizer-se , Amiga de Amiga minha, é minha Amiga também. As amigas nunca são de mais, as amizades antigas fazem parte das nossas memórias e ajudam-nos a recordar e a reviver os momentos bons e felizes que passámos na sua companhia, momentos esses que nos alimentam a alma e aquecem o coração, enquanto que as amizades recentes não fazem parte do nosso passado histórico, mas podem ajudar a abrir e a percorrer novos caminhos, partilhando bons e maus momentos, trocando ideias etc. ajudando assim a esquecer e a ultrapassar as adversidades do dia a dia.
Espero que consiga reaver algumas das suas amigas do seu passado e não deixe de me contar como foi!
Da minha parte pode contar com a minha amizade honesta e pura.

Um beijinho
ME

P.S. A nossa Amiga comum desistiu de recuperar o seu Blogue...Estou a aprender a criar Blogues para lho recuperar e fazer-lhe uma surpresa... mas vai demorar um pouco mais pois sou autodidacta nestas lides.
Agora está entretida a fazer casaquinhos quentinhos para o netinho.

Maria disse...

Maria Eduardo:
Amiga é uma palavra linda. Ter amigas é bom. Tenho encontrado, aqui na Net, algumas fora de série. Às vezes, o facto de não as conhecermos pessoalmente, perde a importância. Conseguimos, eu consigo, dizer coisas, que nunca tínhamos dito. Eu sou pouco expansiva no dia a dia. Há frases e palavras, que nunca fui capaz de dizer cara a cara, e escrevendo, digo com muita facilidade. Nunca disse a uma amiga: gosto de ti. Aqui, já o escrevi muitas vezes e vou dizê-lo mais uma: Gosto de si.
Encontrei uma amiga de há 30 anos. Ainda não nos vimos, mas vai haver um encontro.
Quanto à nossa amiga comum, tenho pena, porque era um dos blogues que mais frequentava. Ainda lá vou, para ver se voltou a mexer. Tenho muita admiração por ela.
Beijinho
Maria

Maria Eduardo disse...

Olá Maria,
Obrigada pelas suas palavras que muito me sensibilizaram. Também gosto de si, pois identifico-me consigo em várias coisas, a maneira carinhosa como fala do seu animal querido que perdeu, da solidão, das recordações,das lembranças, da vida, etc.etc.
Também tenho tido muitas alegrias na companhia dos animais (abandonados, que aqui chegam) e passado por muitos desgostos quando os perco, mas toda esta vivência faz parte da nossa vida. Cada um tem o seu destino marcado e uma missão a cumprir na terra, tanto nós como os animais.
A Net tem sido uma grande terapia para mim, pois tem-me feito muita companhia e ajudado a ultrapassar muitas barreiras do foro sentimental. Tenho feito também novas amizades, revivido e recriado coisas, tenho aprendido muito, partilhado muitos conhecimentos e conhecido muita gente interessante.

Para além dessa amizade antiga que conseguiu reaver, espero que a Maria consiga encontrar mais amigas da sua infância e que também vá fazendo mais e novas amizades, pois mesmo na Net há pessoas que se identificam connosco, pensam e sentem o mesmo que nós, e é bom partilharmos esses valores.

Conte comigo e com a minha amizade também.
Um grande beijinho
ME

Maria disse...

Maria Eduardo,
Aqui e no FB, tenho feito alguns e algumas boas amigas.
A Net também me tem ajudado. Tive um ano difícil, continuo a ter problemas, mas aqui, vou contando histórias doutro tempo. Não gosto do mundo em que vivemos. Tenho saudades do tempo antigo.
Conte com a minha amizade sempre.
Um abraço grande.
Maria